Dias, semanas e meses depois de sua volta, Lola era uma nova mulher, não mais uma garota de circo que não sabia muito da vida, até conhecer a pessoa que fez tudo parecer claro e fácil. Christian era uma homem valente, firme, absurdamente lindo e sedutor, entre várias as outras mil qualidades que Lola sempre se perdia em enumerar em seus pensamentos. Nos atuais dias, dividir cada momento com o loiro era conquista especial para a morena. Depois do pedido oficial de namoro, Lolavie não conseguia deixá-lo sozinho um minuto se quer quando não estava trabalhando. Viviam sempre momentos incríveis um ao lado do outro, conheciam lugares e experiências que sempre traziam lembranças inesquecíveis, eram muito mais que apenas um casal, parceiros de vida e com um amor que crescia cada vez mais, fazendo-os assim forte.
Lola sentia todo aquele amor em um patamar extremo e o melhor de tudo era ter certeza de que era correspondida, se deleitar das maravilhas que o amado lhe proporcionava e amar a ideia de que a vida dos dois juntos está apenas no começo.
Como saiu do circo, Lola não sabia muito bem no que investir para ganhar uma renda boa, onde pudesse continuar morando em seu apartamento e pelo menos podendo viver mais tranquila. Em sua área não era uma opção, já que com a fratura do ombro, não aguentava mais suportar o peso de seu corpo no membro superior. Depois de muita procura e ajuda do namorado, a mulher conseguiu um emprego na floricultura do Central Park. Winge Flower Shop não era um lugar ruim para se trabalhar, muito pelo contrário, lá Lola descobriu que era boa em várias outras coisas, não apenas com os lençóis e tampouco na altura de antes. As coisas estavam indo bem e se sentia a mulher mais feliz do mundo, realizada e completa. Se fosse alguns anos atrás, só de pensar na hipótese de deixar o circo, já tremia o coração da morena.
Sexta-feira, 5:20 da tarde. Prédio
Finalmente o entardecer havia chegado naquele dia produtivo e que foi feito na correria total. Lola não era uma mulher que costumava fazer surpresas, mas estava vivendo um amor sem igual e a ideia de surpreender seu namorado lhe pareceu tão boa que nem exitou no que faria. Trocou seu turno na floricultura para que pudesse comprar as coisas enquanto Christian estava no trabalho, já que seu horário era junto ao dele para que o tempo livre dos dois sempre fossem ficar juntos. Passou por algumas lojas e escolheu o que mais lhe agradou, pegou o táxi e foi direto para o prédio, já que o tempo não estava muito a seu favor. A sorte, era que o amado deixou uma cópia da chave para que Lola adentrasse o apartamento quando quisesse. Antes que pudesse entrar no apê dele, a morena teve de ir até o seu para que pegasse a roupa que usaria e assim, começar sua arrumação.
Alguns minutos se passaram e grande parte da decoração estava pronta. Se empenhou em fazer um belo caminho de velas que iluminavam em direção ao quarto, além de algumas pétalas de rosas. “Uau Lola, você está apaixonada mesmo, olhá só!” Brincou consigo mesma e deu um gritinho empolgado, assim foi para o quarto dele e quando chegou, como todas as vezes em que entrava naquele cômodo, puxou toda a fragrância que aquele cômodo tinha e em como seu amor se fazia presente ali. Não demorou para que pudesse começar a decorar também o lugar. Trocou as roupas de cama, colocando lençóis brancos para que as pétalas vermelhas e formato de coração ficassem bem nítidas na cama. Ajeitou os travesseiros também com fronhas brancas e espalhou pelo quarto mais velas, para que a iluminação daquela noite fossem bem envolventes.
Com o quarto pronto, ela foi em direção a cozinha. Durante a semana separou uma receita bem fácil de alguma massa que combinasse com um bom vinho. Estudou-a bem e depois de várias tentativas em casa, estava boa o suficiente para mandar a ver na refeição daquele jantar. Com agilidade e praticidade, a comida ficou pronta em cerca de alguns minutos e com isso liberou Lola para que levasse duas taças para a cama junto da garrafa de vinho. Com a decoração feita, foi para o banheiro. Banhou-se com todo deleito nos óleos afrodisíacos que comprou, lavou os cabelos e depois se secou. Vestiu uma bela lingerie que também se deu ao luxo de comprar para a ocasião e depois o seu vestido que destacava mais ainda suas curvas. Se perfumou e passou um batom provocativo, que combinava com a lingerie por baixo da roupa. Estava linda e confiante de que iria deixar o amado louco.
Abriu a porta do banheiro após organizá-lo e quando ia caminhar em direção a seu sapato para enfim terminar a arrumação e ficar a espera do amado, Lola tropeçou no tapete e por sorte só não caiu por bater forte contra o guarda-roupa, que até mesmo mexeu e caiu de cima uma caixa, batendo bem na cabeça da morena. Claro que a pancada doeu, mas a dor passou no momento em que Lola se agachou para pegar a caixa e colocar no lugar, que a tampa do objeto soltou-se por completo e dela caiu algumas fotografias, outros objetos e um pen drive. A morena franziu o cenho e colocou a caixa de lado, agachou-se e quando pegou uma das fotos, seus olhos perderam o brilho no mesmo instante.
Christian beijava uma mulher.
Foi rápido demais o momento em que seus olhos marejaram e uma lágrima rápida e solitária caiu do seu olho, ainda mais quando outras fotos foram sendo pegas e mais intimidades reveladas em cada uma delas. Em uma Christian a abraçava, outra estavam ambos de mão dada, algumas de viagens e sempre muito felizes. Enquanto a tristeza se faziam na face de Lola, que não conseguia acreditar no que estava acontecendo. “Isso… Isso só pode ser brincadeira, o Chris… Não… Ele não faria isso comigo.” Falava em meio as lágrimas empossadas e desesperadas por algo que não queria ser a verdade. Pegou o pen drive e sem pensar duas vezes colocou-o na televisão que ficava na parede. Com alguns cliques chegou as pastas e lá haviam vários títulos, mas quando viu “Casamento” escrito em um deles, a fincada no coração foi no mesmo instante em que o dedo clicou no botão, dando play ao vídeo que começou. Na medida que o vídeo ia passando, Lola ficava cada vez pior, se sentia traída e com um grande buraco no coração, esse que tanto pertencia ao homem que no vídeo, estava completamente feliz casando-se com uma mulher que não era ela.
Como se não fosse o suficiente, Lola ainda insistiu em assistir outros vídeos. Viu intimidades na Lua de Mel,um vídeo onde Christian a filmava vestida de lingerie, sensualizando de todas as maneiras possíveis o que fez a morena se encolher por justamente ter aquele pensamento para uma noite onde deveriam comemorar um amor sem igual. Bom, pelo menos ela pensava isso. Havia também mais fotos, mas as últimas foram as que mataram de vez Lola, fazendo-a chorar sem parar, chegando a soluçar. Gravidez. O título era claro e as fotos mais ainda. Fotos de Christian com as mãos na barriga, vídeos do mesmo conversando com a barriga, recordações de roupinhas, sapatinhos, um quarto tão bonito e colorido, outras várias de momentos onde estavam juntos.
Lola não sabia o que aquilo significava, na verdade, tentava acreditar que estava enganada, porém a dor que sentia agora, céus, podia se jogar na frente de um caminhão que não doeria tanto.
A rotina não se tornava tão amarga desde o retorno tão aguardado. Christian admirava seu avanço pessoal sempre que se deparava com o espelho pela manhã, as cicatrizes profundas em seu rosto não eram tão marcantes quanto o sorriso exuberante que portava em seus dias. A dureza de seu trabalho não eram suficientes para apagar a chama de alegria que possuía sempre que retornava ao pacato bairro, naquele prédio antigo, com a porta de madeira avermelhada. Sensações diversas ecoavam assim que entrava em seu carro e ia para o distrito policial pela manhã, a saudade se misturava com a satisfação e, por vezes, o medo de retornar ao lar e não encontrar o alvo de seus desejos ali.
No princípio, Chris voltava às pressas para casa, deixando por vezes o carro mal estacionado na rua e até mesmo destravado, as mãos enchiam de suor com a ideia de que o retorno daquele vazio poderia vir ao não vê-la novamente. Hoje ele caminhava em passos largos, porém com cautela, pois já havia afirmado com todas suas forças que era nela que encontrava o seu lugar.
“ É um amor pobre aquele que se pode medir. “
Há exatos dois meses atrás estava decidido que não deixaria vão algum entre seus dedos para que Lolavie novamente fugisse de seus braços. Uma noite inteira em claro em seu notebook apoiado na mesa de centro de sua sala, atento a qualquer mínimo barulho vindo do quarto para que não fosse pego desprevenido pela morena, que dormia após uma noite; tudo isso para encontrar a maneira perfeita de oficializar aquela relação e não deixar dúvidas, tão pouco questões pendentes. Assim que fez o planejamento, a compra online e elaborou uma boa desculpa, ele voltou para cama sem que ela notasse. Na manhã seguinte ela o questionara algumas vezes as olheiras em seu rosto inchado e o sono incomum o qual passou por reclamar o restante do dia pelas mensagens que trocavam enquanto estavam longe.
No sábado seguinte ele acordou sem reclamações, preparou o melhor café da manhã que cabia em suas mãos e riu ao se perguntar “Será que devo colocar flores para ela? Creio que ela já deve estar cansada de tanto pólen em suas roupas”. Acordou-a assim que terminou tudo, a bandeja posta ao lado da adormecida e um sorriso mole que apenas ela conseguia arrancar de seus lábios, mesmo sem dizer absolutamente nada. “Acorda, meu bem. Preciso te levar para conhecer uma tia”. A desculpa esfarrapada caiu tão bem que até forjou uma ligação de seu suposto tio, tudo com o auxílio do delegado do departamento de polícia. Às 10:00 da manhã ela já estava no banco da frente e ele dirigindo até a Flórida, chegando em torno de seis horas depois, totalmente exausto. Eles adormeceram em um hotel que acabou com as finanças de Chris, mas compensou perfeitamente na noite seguinte. Mais uma vez ele despertou cedo, deixou sobre a mesa do quarto uma caixa com um vestido, sandálias e um colar brilhante, outra caixinha com uma lingerie um tanto quanto picante foi deixada dentro do criado-mudo, logo em seguida saiu e desapareceu por um dia inteiro, deixando apenas um bilhete com uma das camareiras.
“ Meu bem, te encontro no pôr-do-sol, sei que não precisa de esforço algum para se embelezar (linda até mesmo dormindo), mas tire este começo de dia como uma folga sua. Eu amo você.
Ps: Dentro do criado-mudo há outra surpresinha. Sabe que não resisto.
Com amor e milhões de beijinhos, Chris. “
Ria bobo enquanto dirigia até o Key West, onde havia alugado um iate. Decorou todos os centímetros do lugar com lâmpadas de baixa luminosidade, pétalas brancas por todo o chão do barco luxuoso. Re-colocar em prática as habilidades marítimas era um desafio fácil diante da declaração que pretendia realizar para a amada. O carro que enviou para busca-la já estava no porto vazio ao pôr-do-sol, pouco antes do sol tocar o mar no horizonte. Ele com uma camisa branca, um vinho na mão e apavorado com a ideia de se sujar, a recebeu como uma verdadeira princesa naquele vestido florido, sussurrando elogios em seu ouvido enquanto a colocava dentro do iate e assumia o controle do barco. A levou para um ponto afastado, sem barcos no horizonte, mas sim a cidade. E quando o sol tocou o mar ele a pediu em namoro, distante de absolutamente tudo. “Que por vezes eu aguardei por você, agora quero te ter sem mais empecilhos. Já era seu muito antes do seu retorno, mas quero te seja minha oficialmente”
Por uma noite inteira ele esqueceu do mundo, e só conseguia pronunciar o nome dela.
Acionara o elevador e se encaminhava para o apartamento, cumprimentando vizinhos no hall de entrada, os mesmo vizinhos que antes bastava um simples abrir de bocas que Chris despejava resmungos. Tudo se transformara tão rapidamente que mal havia sobrado espaço para antigas amarguras. Os andares se foram com pressa, antes a distância do seu amor era definida por quilômetros e hoje se resume em passos. Colocara a chave no trinco da porta e não foi necessário que destrancasse, situação a qual achou estranho e, portanto, abriu lentamente a maçaneta, sem causar barulhos.
O chão coberto de flores o fez sorrir, afinal, bandido algum faria uma declaração tão delicada para sua recepção. Caminhou com passos lentos pela trilha feita no piso, o rosto já doía com o sorriso lançado de canto a canto, ainda mais quando o nariz sentiu o aroma delicioso da comida recém preparada e do perfume doce da garota. Ao entrar pela porta do quarto com o campo de visão um tanto reduzido viu a luz da TV reluzindo contra o rosto de sua pequena mulher, adentrou extasiado com a perfeição detalhada da surpresa. Então repentinamente o devaneio se findou, afundando como uma âncora. Ouviu a voz que ele não ouvia há tanto tempo, a risada gentil que um dia fora cantada aos pés de seu ouvido. Jade antes soava como uma donzela sorridente, ali ela transpareceu como uma lâmina sendo fincada contra o viúvo.
Analisara o ambiente e vira a caixa preta de recordações que ela mesmo tinha guardado antes do trágico fim. As fotos pelo chão, pétalas pela cama, os fios escuros de Lola desajeitados e seu choro. O choro. Ardeu em seu peito como se revivesse a imagem escondida em suas memórias. Jade em seu caixão, junto de sua filha que nem ao menos teve a possibilidade de beijar a testa.
“O que está acontecendo? Lola?” Cortou seu silêncio com a voz dolorosamente baixa, ainda vendo-a apenas de costas, enquanto na TV reluzia a imagem de Jade em seu sexto mês de gestação com uma lingerie jogando travesseiros em Chris “M-mas...”