No cair da noite de verão, quando vão chegando com passos lentos de uma velha cansada as lembranças de infância, recordo dias mais fáceis, aqueles que costumamos chamar de "quando eu era feliz e não sabia".
Será que dá pra ser feliz e saber? Pode ser saudosismo, mas parece que quanto mais o tempo passa, e mais velhos ficamos, menos felicidade nos sobra. Sobra: tá aí, acho que a felicidade que carrego é somente uma sobra; o que restou; o que não conseguiram me arrancar. Ainda.
Será que tem como repor felicidade como arroz e feijão que se compra no mercado? Será que terei de poupar esse pouquinho para garantir que não morra totalmente infeliz? Será que felicidade gasta? E se gasta, será que recarrega?
Às vezes parece que quanto mais velha fico, mais demora para recarregar minha felicidade. Bom mesmo era antes, quando eu andava de bicicleta em noites abafadas, com o ouvido espichado para ouvir a conversa dos adultos e as histórias da minha avó.
Bom mesmo era antes, quando aos domingos a gente se enfeitava e ia à praça trocar olhares e risinhos com os meninos para os quais riamos e olhávamos a semana inteira.
Bom mesmo era antes, quando eu mal esperava o amanhã, e sonhava com o que tenho hoje. Talvez amanhã o hoje seja bom.