já havia parado de beber há algum tempo, e Spencer garantira que a jovem bebesse uma boa quantidade de água antes de deixar o bar, portanto conforme o tempo passava, resquícios de consciência aos poucos retornavam à mente outrora bastante ágil. não que estivesse beirando a sobriedade ainda; provavelmente precisaria de uma hora inteira até tal coisa, mas a ocasional clareza indicava que no dia seguinte provavelmente lembraria de alguns flashes daquele momento, ao invés de se deparar com a completa falta de memória de um apagão completo. “vizinhos?” repetiu, detalhe que certamente faria parte de suas lembranças na manhã seguinte. quais eram as chances? se a companhia tivesse sido responsável por encontrar para a jovem um apartamento, até faria sentido. mas considerando que Liliana tivera encontrado aquele local por si mesma, sem imaginar por um instante que o colega morava ali, era no mínimo uma coincidência curiosa. teria elaborado mais alguma coisa sobre aquele fato se a mente enebriada não tivesse se distraído tão rapidamente quando as mãos grandes de Oliver a firmaram contra o corpo. veja bem: Liliana não era facilmente impressionável. era latina, ora essa! a convivência inevitável com outros de mesma origem lhe garantiam que uma boa quantidade de homens atraentes (e quentes, tal qual o estereótipo) já tivessem passado por sua vida. a própria jovem era bastante atraente, e solteira. suficiente dizer que já havia conhecido e se relacionado com um bom par de homens bonitos. e talvez fosse a bebida fazendo com que outros pensamentos pausassem para que pudesse focar em uma coisa de cada vez; mas tudo o que conseguiu pensar, de repente, era no quão forte o colega era. e alto. bem; Lili tinha menos que um e sessenta, então a maioria das pessoas eram altas em comparação. inclusive, era a diferença de alturas que a permitia encarar tão de perto o abdômen forte que a camiseta fina do pijama alheio entregava. Dios Mio, ele era muito gostoso!
ainda bem que o pequeno garoto apareceu, ou talvez tivesse deixado escapar alguma frase comprometedora já que por longos instantes o físico alheio fora a única coisa que permeava a mente da mais nova. ela até era mesmo direta e sincera, mas destacar o quão gostoso achava seu colega não era a melhor maneira de começar aquela relação. pelo menos assim pensaria uma versão sóbria sua. a bêbada fora salva pelo garotinho de expressão séria e curiosa, e eloquência de um jovem adulto. teria que realmente agradecê-lo pelo timing, já que não apenas a salvara dos pensamentos indevidos como do seu instinto de dizer algo sobre a falta alheia de namorada. algo nas linhas de: impossível! com essa aparência? definitivamente, lembraria mais tarde, não poderia se dar ao luxo de ficar tão embriagada na frente de Kang outra vez. não quando sua impulsividade ficava por um triz, refém unicamente da pouco usual lentidão causada pelo álcool. lentidão essa que fizera a jovem piscar os olhos um par de vezes para focar na pequena criaturazinha que a encarava como se fosse uma espécie diferente. já havia recebido olhares de estranheza dos que costumavam gritar palavras grosseiras e ordens de que retornasse ao seu país de origem; mas a inocência nos olhos e no tom de voz do menino indicavam que não era absolutamente nada daquele tipo. era compreensível, mesmo que sem saber o contexto geral de quem Charlie tinha ou não contato com, que a criança estivesse confusa (e curiosa) ao se deparar com uma completa estranha na sua sala de madrugada. duvidava que Oliver tivesse falado sobre ela para o filho pequeno, devido sua recente chegada. e se o tivesse feito, dificilmente aquilo esclareceria qualquer motivo da moça estar ali naquela hora.
se o menino estava com uma óbvia interrogação em sua expressão, aquilo refletiu quase que de imediato no rosto de Liliana ao vê-lo agindo tão… maduramente. ele não parecia ter mais que…hm… onze anos? sete? nove, talvez. Lili não tinha contato corriqueiro com crianças, ainda que as apreciasse, então não faria ideia de que idade chutar. certamente novo demais para sua postura! por isso em meio a sua própria estranheza, mais um dos enormes sorrisos da colombiana se abriam aos poucos, encarando o meio metro de fofura. como uma adolescente que finge sobriedade na frente dos pais (coisa que, sinceramente, ela mesma não havia vivenciado), Lili tentou ajustar a postura e ordenar as pernas que se contivessem o máximo possível, sem querer que o jovenzinho a visse em seu pior estado. infelizmente para ela, os olhos semicerrados a entregavam, bem como o fato de que ainda que estivesse mais ereta que antes, a mão precisava continuar segurando Oliver a fim de que as pernas não tropeçassem uma na outra. “eu sou a…” pigarreou brevemente, quando notou que ainda tentava sussurrar. não havia mais motivo, certo? aparentemente a pessoa que não deveria acordar estava ali diante de si. teria agachado na altura dele em situações normais, mas tinha consciência suficiente de que as pernas não a obedeceriam como precisava caso arriscasse tal manobra. contentou-se a olhar para baixo com o sorriso mais simpático (e sincero, realmente) que podia. virou a cabeça um pouco rápido demais na direção do colega ao ouvir que eles não eram tão parecidos, de acordo com a maioria. “bom, ele fala igualzinho você” apontou, afinal, ele podia não ser a cara do pai, mas tinha a mesma postura e cordialidade impecável. podia ver claramente em quem o garotinho se espelhava. “Lili” corrigiu o outro diante da formalidade desnecessária. ora essa! era uma criança. se já não gostava da seriedade que seu colega de trabalho demonstrava ao chamá-la pelo sobrenome, imagine só uma criança. mesmo que ela parecesse mais um mini adulto. repentinamente, um riso envergonhado escapou da mulher quando Kang explicou que a moça havia se enganado. costumava não ser tão apologética quanto a seu comportamento de modo geral, e até então não estava exatamente envergonhada pelo erro (embora no dia seguinte com certeza estaria), mas por algum motivo desgostou de não estar no seu melhor momento diante do pequeno.
um pouco mais cedo, e Lili teria pensado que estava tendo um derrame se tivesse ouvido as palavras em coreano do garoto. mas conforme o efeito do álcool atenuava aos poucos (bem poucos), o discernimento de que ele falava em outra língua fora bastante rápido. Lili era fluente em inglês e espanhol, tinha um nível considerável de francês e arranhava no português. idiomas asiáticos, no entanto, não saberia dizer nem mesmo ‘olá’. “o que ele disse?” perguntou baixo, quando o garoto já estava um pouco distante, na cozinha, mas então todo o cansaço que o corpo recusava a sentir pareceu atingi-la de uma só vez. talvez porque já havia tempo considerável que tinha parado de beber, dançar e falar alto; e os músculos esfriavam, ao mesmo tempo em que o ambiente interno estava quente e agradável o suficiente para que ela se sentisse ridiculamente confortável. como quem toma um banho quente e sente os músculos relaxando tanto que o sono era quase que arrebatador. Oliver também não pareceu disposto demais a traduzir, e em um momento normal, Liliana teria insistido — o bocejo, porém, foi seguido de sua caminhada até o sofá de cor sem graça, com ajuda do mais velho. deu risada com o comentário dele - Kang talvez pensasse que a moça estava risonha daquele modo pelo efeito do álcool, mas a verdade era que os lábios da jovem geralmente estavam mesmo prontos para um riso ou sorriso a todo tempo. o que podia fazer? era humorada. “sabe que eu achei que estava indo para o lugar errado? quando falei o endereço, Serena ficou tipo ‘tem certeza?’ e eu: ‘certeza!’ e ela perguntou de novo, e de novo, aí eu disse que cada vez que ela dizia, eu tinha menos certeza. mas aí eu acreditou, e começou a dar risada. juro, por um momento achei que tinha colocado o endereço de algum… circo, sei lá, pra ter tanta graça” as palavras deixavam a boca com rapidez, mesmo que se arrastassem um pouco, e Lili não fez a conexão dos fatos enquanto falava. era óbvio: Serena reconhecera o endereço de Oliver e achara graça na situação. mas Vega só conseguiria perceber aquilo no dia seguinte.
e os dizeres rápidos e confusos foram como um último desgaste de sua energia que o corpo fora capaz, pois o cansaço a atingiu com força em seguida. sequer prestara muita atenção no que Oliver disse antes de deixar a sala, apenas pôde notar o quão confortável eram as almofadas e na exaustão que sentia. se o colega havia demorado um minuto ou uma hora, não saberia dizer, pois poucos segundos se fizeram necessários para que a moça desligasse como uma máquina sem bateria. abraçada a uma das almofadas, o corpo pequeno aos poucos cedeu e tão logo a morena estava deitada de um jeito esquisito, mas com a expressão serena no rosto de quem enfim dormia após dias acordada.
oliver esperava que liliana fosse perguntar sobre a frase malcriada de seu filho, mas não imaginou que ficaria sem jeito e sem ideias de respondê-la de uma forma genuína sem ficar desconfortável por ter de explicar o sentido. não era todo dia que o filho de alguém insinuava em outra língua que o pai estava escondendo um relacionamento. absteve-se, portanto, já que abominava mentiras. “é só o mal humor e a rabugice dele falando mais alto do que o sono. não ligue.” pediu, virando-se para ela novamente. a nova informação sobre o comportamento de serena só o ajudou a entender melhor a situação. condenaria a atitude se tivesse condições e um ouvido sóbrio para escutá-lo, mas de nada adiantaria agora. “vou deixar a bronca pra você então, quando vê-la novamente. pra ser sincero, ela tem parte nisso por ter te colocado nessa situação.” ter certeza de que ela já estava acomodada no sofá era uma vitória. a situação estava dentro do controle novamente.
não planejava demorar na cozinha. assim que entendesse a demora de charlie, voltaria para checá-la, se certificaria de que ela tivesse tomado toda a água e então a levaria para o apartamento correto. mas a cena que viu na cozinha o fez arregalar levemente os olhos. “charlie, o que está fazendo?”
o garotinho virou o rosto esforçado em direção ao pai, enquanto permanecia na ponta dos pés apertando um tubo de mel meio solidificado pelo clima e pela falta de uso dentro de um copo com água. alguns pingos que se dissolviam lentamente ainda estavam boiando, mas charlie parecia muito compenetrado a virar o tubo inteiro dentro do cilindro de vidro, apertando-o com força. “pai, pode me ajudar aqui?” pediu. “vovó disse que a gente precisa dar água com mel pras pessoas doentes ou quando elas ficam com essa cara de tonta igual a da senhorita liliana ortega. ou lili.” e bem, não era como se ele quisesse que ela ficasse doente, ainda mais se quisesse fazer mais perguntas depois. continuava curioso sobre a presença da morena em casa, ainda mais sendo mulher. qual fora a última vez que vira uma mulher diferente em sua casa? apertando mais o tubo de mel, quase comemorou de alegria quando o fio melequento do líquido doce desceu como uma linha grossa, fazendo ‘blerghgh”. “isso!” vibrou baixinho, contente, ignorando completamente que se continuasse desse jeito iria meter metade do tubo dentro do copo. sua avó havia o mandado fazer isso, mas não ensinado sobre as proporções.
oliver percebeu e o interrompeu com certa delicadeza, enquanto charlie parecia ter entendido o recado sobre a quantidade e corrido atrás de uma colher pra mexer o conteúdo. “chega, filho, é o suficiente. ponha mais do que isso e causaremos uma hiperglicemia na senhorita ortega.” comentou com ele, fazendo-lhe um singelo carinho ao alisar o topo da cabeça do garotinho. por um lado, até comovera-se pela consideração da criança por liliana e por pensar rápido sobre a situação, mas por outro, preocupou-se com o que a mãe já estava começando a lhe contar sobre o mundo enquanto ele estava fora trabalhando.
“pai.” charlie chamou, ficando um pouco mais sério enquanto mexia a mistura com a colher. “ela é realmente sua amiga? eu nunca vi ela. e por que ela chegou assim?”
perguntou, as pequenas mãos largando a colher na bancada e pousando nos quadris, tal qual um mini investigador. “pai.” os olhinhos puxados arregalaram-se um pouco ao estalar em sua mente infantil, enquanto ele levava as mãos pra frente da boca, cobrindo-a parcialmente. “ela bebeu?” o pequeno kang sussurrou, como se fosse um segredo de estado, ou um crime. charlie nunca vira ninguém bêbado. nem tia serena, nem tia maddie, nem tio spencer, ou tio sam. nem mesmo tio morgan. o que sua avó diria se visse alguém que bebeu soju em sua casa? porque era como ela dizia, quem bebia soju demais ficava bêbado. ou cerveja. “você bebeu com ela?”
oliver teria de conversar direito sobre álcool com charlie em algum momento, mas aquele não era o adequado. apesar de ser adorável a inocência ainda remanescente na criança de oito anos aumentar tudo nas informações simples que recebia e o quão ingênuo parecia com um processo tão natural de um ser humano, precisavam sim esclarecer algumas coisas. “o que importa é que ela vai ficar bem. e não, não bebi com ela. vai dar tudo certo quanto entregarmos pra ela esse copo de mel com água que você fez.” riu, guiando-o até a sala. charlie não parecia totalmente convencido, mas a menção de que faria algo realmente útil como lhe dar algo que a faria curar-se da doença da embriaguez o fez orgulhosamente dar passos largos e cuidadosos com o copo na mão.
mas pareceu tarde demais quando a viu deitada no sofá de olhos fechados e sorrindo. “ela morreu?” perguntou com os olhos arregalados, genuinamente, tendo em vista que ela tinha as duas mãos acima da barriga, tal qual um defunto. já vira o avô num caixão, fora igual.
oliver piscou algumas vezes ao ver liliana simplesmente apagada em seu sofá. oh, bem. a noite deles estava completa. “não filho, ela não morreu. mas certamente vai morrer de constrangimento amanhã. vamos tentar não comentar nada sobre isso quando ela acordar, ok?”
“ok. menos mal né? que ela não morreu.” confirmou com a cabeça, ainda a encarando e segurando o copo. “o que faremos?” perguntou, voltando o olhar ao pai em busca de novas coordenadas.
oliver suspirou. ela dormia sorridente, mas também parecia uma pedra afundada em seu sofá. se ficasse ali, provavelmente acordaria toda dolorida naquele sábado. “charlie, você dorme no meu quarto hoje comigo, pode ser? vou precisar da sua cama emprestada.”
“hm, ok. estou indo então. amanhã eu resolvo o problema pra você então, pai.” e combinando com o pai, rumou até o quarto do mais velho segurando firmemente com as duas mãozinhas o copo de água com mel. não havia conseguido agora, mas definitivamente amanhã de manhã ela tomaria aquela bebida. ele se certificaria disso e depois contaria para a avó sobre como salvou a vida de uma estranha. pra isso, o copo ficaria na mesinha de canto do quarto de seu pai, onde ele pudesse ver e ninguém mais pudesse beber além de dela na manhã seguinte.
assim que o pequeno kang se despediu, oliver posicionou-se para pegá-la no colo, fazendo-o com certo esforço, já que ela estava desacordada e não dava sinal nenhum de que acordaria para segurar-se nele. com ela firme nos braços, desviou dos móveis e entrou no corredor em direção ao quarto de charlie, abrindo a porta com cuidado, com a ponta do pé. visualizando a cama, aproveitou que as cobertas do garotinho estavam desarrumadas e a colocou no colchão com cuidado, cobrindo-a com um edredom assim que a ajeitara no travesseiro. retirou o cabelo de cima de seus olhos e boca, ajeitando os fios para que ela não ficasse desconfortável, e a fitou por alguns segundos. dormia tão bela, tranquila e profundamente que oliver se perguntou novamente se estava mesmo em seu apartamento. um sorriso inconsciente despontou tímido nos lábios masculinos, assim como uma lufada de ar pelo nariz. ele desligou o abajur, deixando a porta entreaberta ao sair.
liliana era uma pessoa no mínimo interessante, embora as confusões que fosse capaz de causar.