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@lilixvega
"we're going home, agent johnson"
— Agents of Shield | The End Is At Hand
HAN SO HEE & AHN BO HYUN in MY NAME (2021) dir. Kim Jin Min
Vengeance (2022)
bf who cooks 🤝 gf who looks cute on kitchen counter
Why are you jealous? I don’t know. I think you do know. You’re just afraid to admit it.
baht oyunu | 1.11
#Jealous Serkan
@kangliver
BAY YANLIŞ └ episode 1
lilixvega:
àquela altura da vida, após tanto treinamento, os sentidos da colombiana eram bastante apurados quando precisava se atentar a algum perigo. claro que a embriaguez atenuava a sua capacidade, mas não a extinguia por completo. logicamente falando, se Oliver de fato estivesse em sua casa àquela hora e sem aviso prévio, deveria ser de se estranhar — mas o fato era que o novo colega não lhe passava nenhuma sensação de perigo. Liliana não colocaria sua mão no fogo pelo homem (ao menos não ainda), mas seu alerta de perigo não apitava quando ele estava por perto. claro que instinto não era algo a se confiar plenamente, mas o da agente Vega tinha experiência suficiente para se provar útil e certeiro. a visão do colega não a deixou tensa por um instante sequer, os músculos seguiam relaxados devido ao álcool e o cansaço era tamanho que poderia dormir em pé ali mesmo.
os olhos da garota percorreram o apartamento como quem buscava absorver todos os detalhes, mesmo que a tarefa beirasse o impossível após tanta bebida consumida durante a noite. uma coisa estava clara, porém: a decoração e os móveis estavam completamente divergentes em comparação a última vez que estivera presente em sua sala. sem contar as caixas com os pertences que ainda não havia desempacotado após a mudança, que não se faziam presentes empilhadas em um canto como se recordava. teria Oliver arrumado seus pertences? ele parecia do tipo que organizava coisas quando estava entediado, se fosse sincera. a voz do mais velho a tirou dos devaneios, mas sua fala não foi capaz de esclarecer a situação da melhor maneira para a embriagada jovem. “ué, minha chave… mas a porta abriu.” comentou, confusa. era como nos sonhos, em que nunca era possível recordar exatamente como havia chegado em um específico local. a lembrança de instantes atrás estava embaçada, e Lili não podia contar com sua mente naquele momento. de algum modo, tinha conseguido adentrar o apartamento, e não se lembrava de usar ou não a chave. mas… devia ter usado, certo? tinha tentado — isso sim, ela lembrava! “é meu apartamento” afirmou, mais para si mesma que para outrem, e em seguida repetiu o endereço que havia instruído ao taxista, como que buscando provar que estava no local certo. claro que o número do apartamento mencionado não era o mesmo em que agora se encontrava; e sim o imediatamente ao lado.
“ei!” piscou algumas vezes, a voz um pouco mais elevada enquanto um sorriso aparecia no rosto outrora confuso. “você me chamou pelo meu nome!” o tom tinha um quê de comemoração. Liliana deu alguns passos na direção do rapaz, chegando a quase tropeçar no caminho, mas mantendo equilíbrio o suficiente para que as mãos alcançassem o tecido confortável do pijama que o outro vestia. “achei que ia demorar um pouco mais” o sussurro não foi tão baixo quanto ela queria, mas percebia-se a intenção. os olhos voltaram a buscar pelo sofá esquisito diante da instrução de que deveria se sentar, mas muito embora o cansaço da jovem fosse inegável, os músculos ainda estavam quentes, como se recusassem se render. sabia que devia dormir, mas não queria, de fato. as mãos que haviam até então apenas tocado o tecido da camiseta alheia agora seguraram um pedaço dela, o rosto contorcendo em uma expressão levemente preocupada. “dormindo?” desconexa de todo o contexto, a mente não a permitia conectar todos os pontos, e por isso focava apenas na informação que havia acabado de receber. “ai, sua namorada está dormindo?” tinha notado mais cedo que ele não tinha aliança, era razoavelmente observadora, portanto sabia que não tinha esposa. uma namorada, no entanto, era bastante plausível. Oliver era bastante atraente, afinal. e um filho era a última coisa que Liliana imaginaria que ele tivesse, especialmente em meio a sua embriaguez. “não quero confusão nenhuma!” garantiu. já tinha se envolvido em algumas situações complicadas com amigos e suas namoradas que interpretaram sua presença completamente errado. “pode deixar, eu… opa” deu risada quando os pés a traíram e ela quase se desestabilizou, precisando apoiar-se no mais velho. “eu vou explicar que eu só sou sua colega. já aconteceu isso outra vez, a namorada de um amigo meu…” antes que pudesse finalizar a história com a voz arrastada, uma pequena criaturazinha apareceu nas sombras do corredor e se revelou na sala. “um mini Oliver” a frase saiu quase que inconscientemente, mesmo que o pensamento só pudesse ser ingênuo naquele nível por poucos segundos. ainda que bêbada, não tardou a compreender quem era o pequeno garotinho. Liliana virou o pescoço na direção do colega, a testa franzida. “você tem um filho?” não que o fato em si fosse qualquer absurdo; mas era estranho que não tivesse nada sobre aquele detalhe em tudo o que havia pesquisado a respeito do homem.
enquanto os olhos brilhantes da vega estudavam o ambiente como quem realmente não entendia o que realmente estava acontecendo ainda (e, bem, oliver imaginava que era muito possível), ele a acompanhava com os próprios, ainda incerto se deveria deixá-la sozinha na sala enquanto estivesse na cozinha buscando algo que a ajudasse. “sim, a porta abriu porque eu abri por dentro. você me surpreendeu.” comentou paciente, aparentando medir as próprias palavras. obviamente não diria que esperava assustado um invasor com o taco de baseball do filho em mãos, ainda prezava pela própria reputação e claramente não era a melhor forma de parecer confiável e admirável nos conceitos de liliana. a imediata ciência de que acabara de admitir para si mesmo que se importava com o que ela pensava sobre ele também vislumbrou em sua mente quase como uma piada, mas pautada numa verdade constrangedora: fora a vega quem marcara uma impressão positiva quando chegara, e ele aparentemente nada fizera para deixá-la pensando o mesmo.
os murmúrios e raciocínios comprometidos fizeram com que o kang soprasse o ar em um riso mudo, negando com a cabeça. “o endereço está certo. isso prova que somos vizinhos. só precisamos descobrir o apartamento no qual você mora e-… cuidado.” mais uma vez o reflexo rápido o ajudara a equilibrar o corpo de liliana ao segura-la acima dos cotovelos, firmando-a próximo ao próprio peito já que a inclinação indicava a falta de força da mulher para permanecer reta e firme num mesmo lugar. ela segurava sua roupa de um jeito brusco, provavelmente em prol de sustentar o próprio corpo, mas dada à atual situação de ambos, assim tão juntos, o primeiro questionamento que surgiu em sua mente foi como uma mulher de aparência e energia tão fortes poderia ser tão pequena e frágil diante de seu corpo. a proximidade dela o deixara distraído por alguns segundos, fazendo com que os olhos estreitos estudassem a expressão contente da morena, não entendendo por que aquilo parecia tão importante pra ela. era apenas um nome, e mesmo assim não parecia economizar em sorrisos. era… curioso. “…acho que imaginou coisas, ortega.” desconversou. à troco de nada, se fosse sincero a admitir. a distância que parecia querer manter não fazia tanto sentido ali, mas subitamente sentiu que a reação dela fora tão agradável ao seu humor por vezes estoico que brincar com ela não parecera desconfortável como era com a maioria. quando o contato visual se quebrou, oliver aos poucos foi soltando a firmeza das mãos nos braços femininos, muito embora liliana ainda o segurasse. a vega o deixou surpreso mais uma vez ao levantar as hipóteses de algum relacionamento o envolvendo, o que o fez rapidamente anular qualquer ideia parecida. “não, não tenho namorada, não é isso que você está pensando-…” a movimentação exigiu mais cuidado do kang, então acabou por segurar uma das mãos da mais baixa para ajudá-la a mover-se da forma que estava querendo, mas não contava com o despertar de charlie e sua presença repentina na sala.
“pai, o que tá acontecendo?” a voz infantil baixinha e levemente rouca soou no silêncio da sala. charlie piscou os olhos para tentar enxergar um pouco melhor depois de ligar o interruptor da iluminação do cômodo, acostumando-se com a claridade e com a imagem do pai de mãos dadas com uma mulher que nunca havia visto na vida. quase que imediatamente perguntou quem era ela, mas lembrou que a avó e o pai haviam lhe dito para ser gentil e educado, antes de tudo – ainda que não soubesse muito bem como fazê-lo naquele momento. como assim mini oliver? “ahm… boa noite, eu sou o charlie.” apresentou-se, coçando a nuca enquanto olhava para a moça mais velha, pouco depois de olhar de esguelha para o pai como se confirmasse que havia agido certo. o garotinho de oito anos aproximou-se um pouco enquanto a estudava, apertando levemente os olhos. oliver expirou devagar, acenando positivamente com a cabeça em direção ao filho pelo comportamento cordial. bem, era bem cedo para aquilo. dado o envolvimento de seu pequeno charlie com seu antigo parceiro e a dificuldade em fazê-lo entender que tio morgan não frequentaria mais sua casa, liliana conhecê-lo no mesmo dia em que se apresentara como sua nova parceira no trabalho era precipitado. ainda assim, para a surpresa do kang, apesar das grandes desconfianças que passara a desenvolver após ter sido enganado por alguém tão próximo, nenhum receio apitara ali. era como se o problema não pudesse existir, mesmo que pensasse que um dia poderia. encarou liliana novamente. “as pessoas não nos acham muito parecidos. mas ele é a cara do meu pai.” comentou brevemente nostálgico, confirmando a a dúvida dela. virou-se novamente para o pequeno. “filho, esta é a senhorita liliana ortega. é minha nova… é uma amiga do papai.” comentou, formulando uma resposta que em sua opinião não daria espaço para que charles alimentasse a curiosidade e fizesse tantas perguntas. se contasse que liliana era sua parceira, o assunto “morgan” provavelmente pipocaria no outro dia. “aconteceu um pequeno engano e estamos resolvendo. poderia nos fazer um favor e ir buscar água pra ela?”
charlie parecia pensar se a história do pai condizia com aquela aproximação toda, e o rostinho redondo e delicado do pequeno garoto transparecia toda a sua confusão e estranhamento pelo simples fato de que seu pai nunca trazia qualquer mulher pra dentro de casa – a não ser serena e alice, que mesmo assim raramente passavam por lá. mas aquela moça era diferente. que roupa era aquela? e por que ela estava com cara de tonta? “appa nal sogijima, uh? tsc, chingu… geurae, araseo.”*
praticamente ameaçou o pai numa entonação levemente indignada como qualquer coreano de sessenta anos de idade, deixando-o embasbacado quando entendeu o que o garotinho quis dizer com aquilo. a sobrancelha miúda do garoto levantou enquanto as pernas curtas marchavam autoritariamente até a cozinha atrás de um copo d’água, vira e mexe virando-se novamente em direção aos dois pra cuidar se não estavam fazendo alguma outra coisa como… ew, beijando, por exemplo.
”ei! vamos conversar sobre isso depois.” oliver deu graças a deus que liliana provavelmente não entendia coreano. o que havia dado em charles? ciúmes? oh, pra isso ele utilizava o segundo idioma. conversaria com ele pelo atrevimento mais tarde. “só ignore, ele está cansado do treino de baseball de hoje.” pediu, pigarreando constrangido. dessa vez, ajudou-a a sentar-se após a revelação de que sim, era pai. “bem, acho que meu filho de pijama estar indo até a cozinha buscar água pra você é uma prova consistente de que esse não é o seu apartamento, não?” comentou tranquilo, lhe dando um pequeno curvar de lábios. “precisamos lembrar do número do seu apartamento. pode ser no mesmo corredor, ou num andar diferente. me espera um minuto.” pediu, indo até a cozinha para entender por que charlie estava demorando tanto.
já havia parado de beber há algum tempo, e Spencer garantira que a jovem bebesse uma boa quantidade de água antes de deixar o bar, portanto conforme o tempo passava, resquícios de consciência aos poucos retornavam à mente outrora bastante ágil. não que estivesse beirando a sobriedade ainda; provavelmente precisaria de uma hora inteira até tal coisa, mas a ocasional clareza indicava que no dia seguinte provavelmente lembraria de alguns flashes daquele momento, ao invés de se deparar com a completa falta de memória de um apagão completo. “vizinhos?” repetiu, detalhe que certamente faria parte de suas lembranças na manhã seguinte. quais eram as chances? se a companhia tivesse sido responsável por encontrar para a jovem um apartamento, até faria sentido. mas considerando que Liliana tivera encontrado aquele local por si mesma, sem imaginar por um instante que o colega morava ali, era no mínimo uma coincidência curiosa. teria elaborado mais alguma coisa sobre aquele fato se a mente enebriada não tivesse se distraído tão rapidamente quando as mãos grandes de Oliver a firmaram contra o corpo. veja bem: Liliana não era facilmente impressionável. era latina, ora essa! a convivência inevitável com outros de mesma origem lhe garantiam que uma boa quantidade de homens atraentes (e quentes, tal qual o estereótipo) já tivessem passado por sua vida. a própria jovem era bastante atraente, e solteira. suficiente dizer que já havia conhecido e se relacionado com um bom par de homens bonitos. e talvez fosse a bebida fazendo com que outros pensamentos pausassem para que pudesse focar em uma coisa de cada vez; mas tudo o que conseguiu pensar, de repente, era no quão forte o colega era. e alto. bem; Lili tinha menos que um e sessenta, então a maioria das pessoas eram altas em comparação. inclusive, era a diferença de alturas que a permitia encarar tão de perto o abdômen forte que a camiseta fina do pijama alheio entregava. Dios Mio, ele era muito gostoso!
ainda bem que o pequeno garoto apareceu, ou talvez tivesse deixado escapar alguma frase comprometedora já que por longos instantes o físico alheio fora a única coisa que permeava a mente da mais nova. ela até era mesmo direta e sincera, mas destacar o quão gostoso achava seu colega não era a melhor maneira de começar aquela relação. pelo menos assim pensaria uma versão sóbria sua. a bêbada fora salva pelo garotinho de expressão séria e curiosa, e eloquência de um jovem adulto. teria que realmente agradecê-lo pelo timing, já que não apenas a salvara dos pensamentos indevidos como do seu instinto de dizer algo sobre a falta alheia de namorada. algo nas linhas de: impossível! com essa aparência? definitivamente, lembraria mais tarde, não poderia se dar ao luxo de ficar tão embriagada na frente de Kang outra vez. não quando sua impulsividade ficava por um triz, refém unicamente da pouco usual lentidão causada pelo álcool. lentidão essa que fizera a jovem piscar os olhos um par de vezes para focar na pequena criaturazinha que a encarava como se fosse uma espécie diferente. já havia recebido olhares de estranheza dos que costumavam gritar palavras grosseiras e ordens de que retornasse ao seu país de origem; mas a inocência nos olhos e no tom de voz do menino indicavam que não era absolutamente nada daquele tipo. era compreensível, mesmo que sem saber o contexto geral de quem Charlie tinha ou não contato com, que a criança estivesse confusa (e curiosa) ao se deparar com uma completa estranha na sua sala de madrugada. duvidava que Oliver tivesse falado sobre ela para o filho pequeno, devido sua recente chegada. e se o tivesse feito, dificilmente aquilo esclareceria qualquer motivo da moça estar ali naquela hora.
se o menino estava com uma óbvia interrogação em sua expressão, aquilo refletiu quase que de imediato no rosto de Liliana ao vê-lo agindo tão… maduramente. ele não parecia ter mais que…hm… onze anos? sete? nove, talvez. Lili não tinha contato corriqueiro com crianças, ainda que as apreciasse, então não faria ideia de que idade chutar. certamente novo demais para sua postura! por isso em meio a sua própria estranheza, mais um dos enormes sorrisos da colombiana se abriam aos poucos, encarando o meio metro de fofura. como uma adolescente que finge sobriedade na frente dos pais (coisa que, sinceramente, ela mesma não havia vivenciado), Lili tentou ajustar a postura e ordenar as pernas que se contivessem o máximo possível, sem querer que o jovenzinho a visse em seu pior estado. infelizmente para ela, os olhos semicerrados a entregavam, bem como o fato de que ainda que estivesse mais ereta que antes, a mão precisava continuar segurando Oliver a fim de que as pernas não tropeçassem uma na outra. “eu sou a…” pigarreou brevemente, quando notou que ainda tentava sussurrar. não havia mais motivo, certo? aparentemente a pessoa que não deveria acordar estava ali diante de si. teria agachado na altura dele em situações normais, mas tinha consciência suficiente de que as pernas não a obedeceriam como precisava caso arriscasse tal manobra. contentou-se a olhar para baixo com o sorriso mais simpático (e sincero, realmente) que podia. virou a cabeça um pouco rápido demais na direção do colega ao ouvir que eles não eram tão parecidos, de acordo com a maioria. “bom, ele fala igualzinho você” apontou, afinal, ele podia não ser a cara do pai, mas tinha a mesma postura e cordialidade impecável. podia ver claramente em quem o garotinho se espelhava. “Lili” corrigiu o outro diante da formalidade desnecessária. ora essa! era uma criança. se já não gostava da seriedade que seu colega de trabalho demonstrava ao chamá-la pelo sobrenome, imagine só uma criança. mesmo que ela parecesse mais um mini adulto. repentinamente, um riso envergonhado escapou da mulher quando Kang explicou que a moça havia se enganado. costumava não ser tão apologética quanto a seu comportamento de modo geral, e até então não estava exatamente envergonhada pelo erro (embora no dia seguinte com certeza estaria), mas por algum motivo desgostou de não estar no seu melhor momento diante do pequeno.
um pouco mais cedo, e Lili teria pensado que estava tendo um derrame se tivesse ouvido as palavras em coreano do garoto. mas conforme o efeito do álcool atenuava aos poucos (bem poucos), o discernimento de que ele falava em outra língua fora bastante rápido. Lili era fluente em inglês e espanhol, tinha um nível considerável de francês e arranhava no português. idiomas asiáticos, no entanto, não saberia dizer nem mesmo ‘olá’. “o que ele disse?” perguntou baixo, quando o garoto já estava um pouco distante, na cozinha, mas então todo o cansaço que o corpo recusava a sentir pareceu atingi-la de uma só vez. talvez porque já havia tempo considerável que tinha parado de beber, dançar e falar alto; e os músculos esfriavam, ao mesmo tempo em que o ambiente interno estava quente e agradável o suficiente para que ela se sentisse ridiculamente confortável. como quem toma um banho quente e sente os músculos relaxando tanto que o sono era quase que arrebatador. Oliver também não pareceu disposto demais a traduzir, e em um momento normal, Liliana teria insistido — o bocejo, porém, foi seguido de sua caminhada até o sofá de cor sem graça, com ajuda do mais velho. deu risada com o comentário dele - Kang talvez pensasse que a moça estava risonha daquele modo pelo efeito do álcool, mas a verdade era que os lábios da jovem geralmente estavam mesmo prontos para um riso ou sorriso a todo tempo. o que podia fazer? era humorada. “sabe que eu achei que estava indo para o lugar errado? quando falei o endereço, Serena ficou tipo ‘tem certeza?’ e eu: ‘certeza!’ e ela perguntou de novo, e de novo, aí eu disse que cada vez que ela dizia, eu tinha menos certeza. mas aí eu acreditou, e começou a dar risada. juro, por um momento achei que tinha colocado o endereço de algum… circo, sei lá, pra ter tanta graça” as palavras deixavam a boca com rapidez, mesmo que se arrastassem um pouco, e Lili não fez a conexão dos fatos enquanto falava. era óbvio: Serena reconhecera o endereço de Oliver e achara graça na situação. mas Vega só conseguiria perceber aquilo no dia seguinte.
e os dizeres rápidos e confusos foram como um último desgaste de sua energia que o corpo fora capaz, pois o cansaço a atingiu com força em seguida. sequer prestara muita atenção no que Oliver disse antes de deixar a sala, apenas pôde notar o quão confortável eram as almofadas e na exaustão que sentia. se o colega havia demorado um minuto ou uma hora, não saberia dizer, pois poucos segundos se fizeram necessários para que a moça desligasse como uma máquina sem bateria. abraçada a uma das almofadas, o corpo pequeno aos poucos cedeu e tão logo a morena estava deitada de um jeito esquisito, mas com a expressão serena no rosto de quem enfim dormia após dias acordada.
#i’m?? worth it??????
@kangliver
era um bom dia. Lili ainda sentia a energia de toda a própria animação e ansiedade tomar conta do corpo quando o dia “de trabalho” havia terminado. não que tivesse efetivamente trabalhado naquelas primeiras horas, já que a tranquilidade temporária da equipe a permitira um dia apenas para se adaptar. não era a única, afinal, que precisava se adaptar às mudanças; seu parceiro também parecia enervado com tudo aquilo. olhou em volta para garantir que Oliver de fato não acompanharia a equipe após o expediente, as grandes íris escuras finalmente recaindo sobre a imagem do homem enquanto apoiava a própria bolsa no ombro. abriu a boca para dizer algo, mas um dos novos colegas colocou a mão sobre aquele seu mesmo ombro, chamando a atenção da moça. ‘ele não vai. nunca vai.’ provavelmente o olhar esperançoso de Vega havia deixado claro sua intenção de insistir pela presença do mais velho, mas acabou desistindo ao ouvir aquelas palavras. bem! então conheceria seus outros colegas.
e assim o fizera no decorrer da noite, mesmo que aos poucos o álcool fazia um bom trabalho em apagar pedaços do que era descoberto sobre cada um da equipe. Liliana era teimosa, para dizer o mínimo, o que fazia com que inconscientemente retornasse os pensamentos à Oliver vez ou outra no meio da bebedeira. tentava se desprender de toda sua curiosidade para observar os outros membros da equipe que parecia funcionar tão bem, e devia dizer que estava satisfeita em conhecê-los. pareciam muito divergentes entre si, mas ainda sim, de uma harmonia impressionante. sem contar que não pareciam medir esforços para que a moça se sentisse bem vinda – e assim o fazia. tanto que mal sentiu as tantas horas passando, e sequer havia verificado o relógio quando o corpo cansado enfim fez o silencioso pedido de descanso após se despedir de todos e finalizar o conteúdo do último drink que havia solicitado, Liliana voltou para casa.
a tarefa em si não fora das mais simples, haviam certas complicações em se lembrar de um novo endereço em uma cidade completamente desconhecida quando se havia consumido tamanha quantidade de álcool; mas sucedera. o taxista agradável também fora de demasiada ajuda — e ela gostaria de pensar que a ameaça de Serena de que o mataria se não deixasse Liliana à salvo em casa não tinha nada a ver com o sucesso. já no apartamento, cumprimentou brevemente o porteiro e seguiu para o elevador. sua visão parecia não acompanhar os olhos, como se atrasada, embora não estivesse no seu pior estado ébrio. nada girava, pelo menos! assim que o som do elevador indicou que estava em seu andar, tropeçou na direção de sua porta e, para sua surpresa e irritação, a chave não funcionava de nenhum jeito. forçou um pouco a maçaneta, frustrada, até que a porta enfim abriu!! mas não havia sido graças a ela. uma pessoa a encarava, confuso. uma pessoa conhecida. bem, recentemente conhecida. “Oliver?” o cenho franzido demonstrava o quão ilógico sua presença parecia até para uma demasiada embriagada Liliana. ainda sim, ela não estava completamente em suas melhores faculdades mentais, portanto apenas o empurrou o suficiente para passar da porta e finalmente chegar no que imaginava ser sua casa. “por que você tá na minha casa?” enfim perguntou, chutando os sapatos de qualquer jeito e deixando a bolsa no chão. quando olhou para o seu sofá, porém, piscou algumas vezes. “o que você fez com meu sofá? espera, isso é algum tipo de… de coisa assim da agência? vocês mandaram um decorador enquanto eu tava fora?” ainda tentou, ao perceber que o sofá não era a única coisa diferente. “nossa mas não tem uma corzinha. que chato.”
dezenas de probabilidades flutuavam sob a cabeça de oliver ao que seus olhos e ouvidos acompanhavam o comportamento confuso de liliana. nem mesmo um dos cérebros mais brilhantes da UCCE fora capaz de não fazer necessários pelo menos dez segundos de processamento para receber a situação no mínimo peculiar com a qual teria de lidar no momento. em menos de um dia, sua nova parceira já havia descoberto seu endereço e agora afirmava com tanta convicção que morava ali que até mesmo kang por um milésimo de segundo questionou a si mesmo se realmente vivia com seu filho ali ao invés dela. “ortega?” o fato da mais baixa tê-lo chamado pelo nome não passara despercebido, mas o homem ainda estava muito confuso para comentar qualquer coisa. à essa altura do campeonato, já havia largado o taco de baseball há eras, e mesmo que isso significasse baixar a guarda, nada poderia fazer levando em consideração que não oferecera resistência alguma à entrada da jovem no apartamento. estava claramente alterada pelo provável alto teor de álcool no sangue – oliver não era idiota para não perceber –, mas nada do que ela dizia fazia muito sentido no momento. spencer e serena deviam ser os culpados. deus. o reflexo ao vê-la largar seus pertences de qualquer jeito no apartamento o fez flexionar o corpo brevemente na direção dela, no caso de um pequeno acidente de percurso. estava escuro e ela não conhecia a disposição dos móveis para evitar se machucar, por mais que brandasse morar ali, então não queria que ela se ferisse por nada. entretanto, ao vê-la começar a desestabilizar-se mais mental do que fisicamente sobre o ocorrido, suspirou brevemente. as probabilidades foram aos poucos sumindo quando uma resposta plausível começou a se formar na mente do kang, ainda mais levando em consideração o fato de que liliana não parecia agir de má fé, muito menos ter sucumbido à qualquer gracinha que seu time pudesse ter planejado fazer. o jeito era simplesmente ser o mais direto possível. “liliana, eu moro aqui. literalmente, é meu apartamento. você deve ter errado de porta, por isso sua chave não estava abrindo a porta.” por mais incrível que pudesse parecer para qualquer outra pessoa que acreditasse conhecê-lo, a reação de oliver não parecera nada rígida ou estressada. fora justamente o contrário. além do fato de tê-la chamado pelo nome pela primeira vez, o mais velho trouxera nos lábios curvos bem desenhados um sorriso.
sumira em pouco tempo, mas retratara uma reação genuína ao episódio com a vega enquanto a encarava: ele achara graça. não só da situação, mas na expressão confusa e embriagada da morena que parecera, de fato, deploravelmente adorável, mesmo que ela houvesse acabado de criticar a decoração de sua casa e bem, houvesse a invadido com suas caóticas alegações. passando uma das mãos no rosto para afastar o momento do que ele facilmente consideraria fraqueza – ou um milagre, nas muito possíveis palavras de spencer se tivesse presenciado o ato –, ainda a acompanhava com o olhar. “ não sei como você se confundiu desse jeito, mas acredito que você deva morar perto daqui. sente-se, vou pegar água pra você e…” apesar da breve hesitação, imaginou que deveria dizer. ela já estava até mesmo dentro de sua casa. ela era sua parceira agora. ela poderia saber, provavelmente. ele poderia confiar. “por favor, se puder não fazer tanto barulho, eu agradeço. meu f-… tem gente dormindo.” pigarreou baixo, num breve aceno de cabeça para partir até a cozinha. liliana precisava ficar sóbria logo.
àquela altura da vida, após tanto treinamento, os sentidos da colombiana eram bastante apurados quando precisava se atentar a algum perigo. claro que a embriaguez atenuava a sua capacidade, mas não a extinguia por completo. logicamente falando, se Oliver de fato estivesse em sua casa àquela hora e sem aviso prévio, deveria ser de se estranhar — mas o fato era que o novo colega não lhe passava nenhuma sensação de perigo. Liliana não colocaria sua mão no fogo pelo homem (ao menos não ainda), mas seu alerta de perigo não apitava quando ele estava por perto. claro que instinto não era algo a se confiar plenamente, mas o da agente Vega tinha experiência suficiente para se provar útil e certeiro. a visão do colega não a deixou tensa por um instante sequer, os músculos seguiam relaxados devido ao álcool e o cansaço era tamanho que poderia dormir em pé ali mesmo.
os olhos da garota percorreram o apartamento como quem buscava absorver todos os detalhes, mesmo que a tarefa beirasse o impossível após tanta bebida consumida durante a noite. uma coisa estava clara, porém: a decoração e os móveis estavam completamente divergentes em comparação a última vez que estivera presente em sua sala. sem contar as caixas com os pertences que ainda não havia desempacotado após a mudança, que não se faziam presentes empilhadas em um canto como se recordava. teria Oliver arrumado seus pertences? ele parecia do tipo que organizava coisas quando estava entediado, se fosse sincera. a voz do mais velho a tirou dos devaneios, mas sua fala não foi capaz de esclarecer a situação da melhor maneira para a embriagada jovem. “ué, minha chave… mas a porta abriu.” comentou, confusa. era como nos sonhos, em que nunca era possível recordar exatamente como havia chegado em um específico local. a lembrança de instantes atrás estava embaçada, e Lili não podia contar com sua mente naquele momento. de algum modo, tinha conseguido adentrar o apartamento, e não se lembrava de usar ou não a chave. mas… devia ter usado, certo? tinha tentado — isso sim, ela lembrava! “é meu apartamento” afirmou, mais para si mesma que para outrem, e em seguida repetiu o endereço que havia instruído ao taxista, como que buscando provar que estava no local certo. claro que o número do apartamento mencionado não era o mesmo em que agora se encontrava; e sim o imediatamente ao lado.
“ei!” piscou algumas vezes, a voz um pouco mais elevada enquanto um sorriso aparecia no rosto outrora confuso. “você me chamou pelo meu nome!” o tom tinha um quê de comemoração. Liliana deu alguns passos na direção do rapaz, chegando a quase tropeçar no caminho, mas mantendo equilíbrio o suficiente para que as mãos alcançassem o tecido confortável do pijama que o outro vestia. “achei que ia demorar um pouco mais” o sussurro não foi tão baixo quanto ela queria, mas percebia-se a intenção. os olhos voltaram a buscar pelo sofá esquisito diante da instrução de que deveria se sentar, mas muito embora o cansaço da jovem fosse inegável, os músculos ainda estavam quentes, como se recusassem se render. sabia que devia dormir, mas não queria, de fato. as mãos que haviam até então apenas tocado o tecido da camiseta alheia agora seguraram um pedaço dela, o rosto contorcendo em uma expressão levemente preocupada. “dormindo?” desconexa de todo o contexto, a mente não a permitia conectar todos os pontos, e por isso focava apenas na informação que havia acabado de receber. “ai, sua namorada está dormindo?” tinha notado mais cedo que ele não tinha aliança, era razoavelmente observadora, portanto sabia que não tinha esposa. uma namorada, no entanto, era bastante plausível. Oliver era bastante atraente, afinal. e um filho era a última coisa que Liliana imaginaria que ele tivesse, especialmente em meio a sua embriaguez. “não quero confusão nenhuma!” garantiu. já tinha se envolvido em algumas situações complicadas com amigos e suas namoradas que interpretaram sua presença completamente errado. “pode deixar, eu… opa” deu risada quando os pés a traíram e ela quase se desestabilizou, precisando apoiar-se no mais velho. “eu vou explicar que eu só sou sua colega. já aconteceu isso outra vez, a namorada de um amigo meu…” antes que pudesse finalizar a história com a voz arrastada, uma pequena criaturazinha apareceu nas sombras do corredor e se revelou na sala. “um mini Oliver” a frase saiu quase que inconscientemente, mesmo que o pensamento só pudesse ser ingênuo naquele nível por poucos segundos. ainda que bêbada, não tardou a compreender quem era o pequeno garotinho. Liliana virou o pescoço na direção do colega, a testa franzida. “você tem um filho?” não que o fato em si fosse qualquer absurdo; mas era estranho que não tivesse nada sobre aquele detalhe em tudo o que havia pesquisado a respeito do homem.
DIANE GUERRERO photographed by Natalia Martínez Colonia
@kangliver
era um bom dia. Lili ainda sentia a energia de toda a própria animação e ansiedade tomar conta do corpo quando o dia “de trabalho” havia terminado. não que tivesse efetivamente trabalhado naquelas primeiras horas, já que a tranquilidade temporária da equipe a permitira um dia apenas para se adaptar. não era a única, afinal, que precisava se adaptar às mudanças; seu parceiro também parecia enervado com tudo aquilo. olhou em volta para garantir que Oliver de fato não acompanharia a equipe após o expediente, as grandes íris escuras finalmente recaindo sobre a imagem do homem enquanto apoiava a própria bolsa no ombro. abriu a boca para dizer algo, mas um dos novos colegas colocou a mão sobre aquele seu mesmo ombro, chamando a atenção da moça. ‘ele não vai. nunca vai.’ provavelmente o olhar esperançoso de Vega havia deixado claro sua intenção de insistir pela presença do mais velho, mas acabou desistindo ao ouvir aquelas palavras. bem! então conheceria seus outros colegas.
e assim o fizera no decorrer da noite, mesmo que aos poucos o álcool fazia um bom trabalho em apagar pedaços do que era descoberto sobre cada um da equipe. Liliana era teimosa, para dizer o mínimo, o que fazia com que inconscientemente retornasse os pensamentos à Oliver vez ou outra no meio da bebedeira. tentava se desprender de toda sua curiosidade para observar os outros membros da equipe que parecia funcionar tão bem, e devia dizer que estava satisfeita em conhecê-los. pareciam muito divergentes entre si, mas ainda sim, de uma harmonia impressionante. sem contar que não pareciam medir esforços para que a moça se sentisse bem vinda -- e assim o fazia. tanto que mal sentiu as tantas horas passando, e sequer havia verificado o relógio quando o corpo cansado enfim fez o silencioso pedido de descanso após se despedir de todos e finalizar o conteúdo do último drink que havia solicitado, Liliana voltou para casa.
a tarefa em si não fora das mais simples, haviam certas complicações em se lembrar de um novo endereço em uma cidade completamente desconhecida quando se havia consumido tamanha quantidade de álcool; mas sucedera. o taxista agradável também fora de demasiada ajuda --- e ela gostaria de pensar que a ameaça de Serena de que o mataria se não deixasse Liliana à salvo em casa não tinha nada a ver com o sucesso. já no apartamento, cumprimentou brevemente o porteiro e seguiu para o elevador. sua visão parecia não acompanhar os olhos, como se atrasada, embora não estivesse no seu pior estado ébrio. nada girava, pelo menos! assim que o som do elevador indicou que estava em seu andar, tropeçou na direção de sua porta e, para sua surpresa e irritação, a chave não funcionava de nenhum jeito. forçou um pouco a maçaneta, frustrada, até que a porta enfim abriu!! mas não havia sido graças a ela. uma pessoa a encarava, confuso. uma pessoa conhecida. bem, recentemente conhecida. “Oliver?” o cenho franzido demonstrava o quão ilógico sua presença parecia até para uma demasiada embriagada Liliana. ainda sim, ela não estava completamente em suas melhores faculdades mentais, portanto apenas o empurrou o suficiente para passar da porta e finalmente chegar no que imaginava ser sua casa. “por que você tá na minha casa?” enfim perguntou, chutando os sapatos de qualquer jeito e deixando a bolsa no chão. quando olhou para o seu sofá, porém, piscou algumas vezes. “o que você fez com meu sofá? espera, isso é algum tipo de... de coisa assim da agência? vocês mandaram um decorador enquanto eu tava fora?” ainda tentou, ao perceber que o sofá não era a única coisa diferente. “nossa mas não tem uma corzinha. que chato.”
kangliver:
a reação da equipe para com a pergunta de liliana não fora uma surpresa para oliver, afinal, trabalhavam juntos há tanto tempo que era natural que todos já soubessem de cor a rotina do kang. casa, treino, trabalho, trabalho extra, casa, trabalho. eram raros os momentos em que aparecia para qualquer tipo de saída em grupo ou comemoração – embora cedesse e comparecesse em alguns eventos muito especiais, como condecorações e homenagens a membros de sua equipe, fora isso só apresentava-se em compromissos onde exigiam sua presença. provavelmente o único que sabia da existência de charlie pela própria boca de oliver era spencer. dentre todos, era a pessoa mais próxima de um amigo que tinha no trabalho, então tinha noção de que o restante devia ter descoberto por tabela. era por isso que entendiam que sua ausência não era explicada apenas pela personalidade reservada, mas não o livravam de provocações como aquela. “ ━━ lamento informá-la que não, agente ortega. tenho compromissos após o trabalho. mas duvido muito que sentirá minha falta. além de encontrar rostos mais bonitos no bar, eles vão conseguir lhe entreter com muitas histórias do setor. poderão aproveitar minha ausência pra me criticar.━━ ” com isso, enquanto desviava o olhar de liliana para a equipe, os dois agentes puderam ouvir o riso baixo de spencer e maddison e fitarem os olhos esbugalhados de sam alternando entre os membros da equipe e a resposta física de serena, que sorriu ao dedicar um coração em direção ao kang, formado com o indicador e o polegar. revirando os olhos para a rulli, aguardou liliana despedir-se.
entrando no elevador para que pudessem descer alguns andares e terminasse de mostrar à agente alguns outros setores pertinentes ao trabalho de ambos, oliver sentiu-se um pouco relutante em relação à aproximação da ortega. podia ser claramente um efeito de sua situação contrária por inteiro, assim como o sentimento de que as coisas estavam erradas em acontecerem daquele jeito, mas também talvez fosse apenas um grande teimoso em negação com dificuldades de abertura e, provavelmente, recentes problemas de confiança. obviamente, escolhia o primeiro. era muito mais fácil de lidar com. “ ━━ apenas kang. é suficiente. ━━ ” respondeu, juntando as mãos em frente ao corpo enquanto o elevador descia, em uma movimentação disciplinada. talvez liliana e seus olhos bonitos e vívidos pudessem se ofender com aquilo, mas para oliver, parecia algo natural agora. a distância. a mesma distância que deveria ter imposto à morgan desde o início. oh, obviamente, não estava comparando liliana a cooper, não o faria – como poderia, tendo a conhecido a menos de duas horas? –, mas por aproximação e afeto, seu antigo parceiro conhecera até mesmo charlie. era o que acontecia quando trazia o trabalho para dentro de casa. precisar explicar ao filho por que o tio morgan não poderia mais aparecer em algum churrasco ou jogo de beisebol era tão difícil quanto encarar o rosto do amigo.
sentiu a necessidade de voltar à breve conversa que tiveram antes das apresentações, então oliver a encarou mais uma vez. ele gostava de jogar limpo, o que significava que mesmo que fosse desconfortável falar sobre, precisava fazê-lo com liliana. uma porque ela merecia. outra porque nenhum trabalho é bem feito quando há desconfiança e mal entendidos. era terrível falar sobre? sim. oliver sentia-se extremamente desconfortável? também. mas nada era pior do que sentir que alguém não confiava em sua integridade, ainda mais uma pessoa designada a ficar ao seu lado. “ ━━ gostaria de resgatar sobre o que falamos antes, e sobre o seu conhecimento em relação à situação em que entrou de cabeça, agente ortega. ━━ ” acharia que chamá-la de “lili” o mataria em três segundos, se fosse mais dramático. mesmo que talvez ela preferisse assim, oliver simplesmente não conseguira. “ ━━eu gosto de transparência e devo isso à você, independente do hotchner ter comentado ou não sobre. recentemente passei por um processo com a auditoria e por uma investigação que tinha como intuito encontrar qualquer tipo de envolvimento com as práticas ilícitas do meu antigo parceiro, o agente morgan cooper. ━━ ” embora a estranheza do assunto repentino, o tom era claro e sem rodeios. “ ━━ como o esperado, foi comprovado que não há a menor ligação entre meu trabalho e minha pessoa aos erros de caráter e aos atos dele. os arquivos estão com o hotchner. caso tenha a necessidade de verificá-los, não vou achar ofensivo. é um direito seu se informar e entender a situação. ━━ ” ao abrir a porta, deu espaço para que ela passasse antes de fazê-lo, caminhando ao seu lado e voltando a guia-la pelo nono andar, em meio a olhares curiosos. “ ━━ entretanto, essa reação dos funcionários governamentais não serão incomuns durante o seu tempo como minha parceira, ━━ ” referindo-se ao que estava enfrentando desde sua volta à sede, oliver não tinha receio em informá-la em seu volume de voz ideal, sem preocupar-se com quem pudesse ouvir em volta. “ ━━ tampouco comentários, sejam eles especulativos e desagradáveis ou favoráveis à minha carreira ou a mim. ━━ ” parando em frente a ela antes de entrarem na área de arquivos, surpreendentemente sentiu-se um pouco menos pesado.
“ ━━ logo, entenderei qualquer decisão que decidir tomar sobre o que fazer com essa informação. não é fácil estar onde você está agora. não é confortável, e você também pode acabar precisando responder sobre coisas com as quais não tem o menor envolvimento. ━━ ” e foi nesse singelo minuto, nessa singela entonação, que oliver demonstrou um vislumbre de cuidado com a nova colega. independente de seu novo problema, independente da forma imediata como ela havia aparecido em sua frente, liliana devia ser respeitada como pessoa e como profissional. não havia chance alguma de envolvê-la com qualquer boato ou fofoca que questionasse seu desempenho como agente – pois tinha certeza de que, com o tamanho da UCCE, pessoas a chamando de “medida de controle”, distração ou ingênua por ter aceitado o cargo não faltariam. oliver podia lidar com isso, mas não com críticas direcionadas às pessoas ao seu redor, o que, de fato, a ortega agora era. “ ━━ além, o trabalho tende a aumentar, ainda mais depois de acumular por causa da ausência. vamos ter dificuldades de adaptação. também não iremos concordar em várias coisas. logo, tudo o que eu te peço nesse momento é sinceridade. você quer isso realmente? ━━ ” indagou, discretamente escorando o ombro na parede ao lado de ambos, ao cruzar os braços. “ ━━ porque em muitos dias, sendo minha parceira, vai precisar acordar muito antes das oito tendo dormido tarde na noite anterior. ━━ ” oliver não era a pessoa mais engraçado do mundo, ou a mais propícia a criar trocadilhos, indiretas ou anedotas, mas não era por isso que deixaria a própria resposta dela passar em branco.
Ainda em missão, quando precisara estar afastada de seus colegas agentes e infiltrada em meio a homens nojentos e terríveis, Liliana encontrara algumas maneiras de se divertir. Podia, afinal, ser determinada e focada quando necessário, mas não era do tipo que conseguiria se afogar em trabalho e nada mais. Não que classificasse como diversão as vezes que precisava fingir se divertir ao lado dos supostos amigos criminosos, mas sim as escapadas ocasionais para um ou outro bar perto da cidade na qual estava instalada. Fosse pela sua fome de viver, ou apenas a busca por compensar os anos que ela poderia vir a perder, Lili tinha energia até demais. Teria perdido a cabeça se não fossem por aquelas escapadas. E, quando não se tornava possível beber e dançar até o amanhecer, compensava com uma carga extra de exercícios e treinos físicos. Com o pensamento, deixou o próprio olhar passear brevemente pelo corpo do novo colega, como quem buscava verificar se ele também descontava algo nos exercícios. Considerando sua negativa para o convite e a risada da equipe que deixavam claro que a resposta do Kang era tão óbvia quanto possível, apostou que ele provavelmente escolheria uma esteira a uma pista de dança. E muito embora a roupa utilizada pelo rapaz a impossibilitasse de qualquer análise minuciosa, ficava claro que sim, havia ao menos algum apreço pelo esforço físico. Após os breves segundos, o foco da garota se tornou o rosto alheio, em tempo de ouvir o comentário sobre encontrar outros mais bonitos ao sair com a equipe. Não que Ortega duvidasse da existência de pessoas atraentes por ali, mas também não apostaria em um grande número de pessoas tão bonitas quanto o rapaz sério que lhe apresentava o ambiente. Claro que um pouco de simpatia e belos sorrisos podiam acarretar em expressivas diferenças na classificação da beleza e atratividade de alguém, mas o ar misterioso e impaciente de Kang, de alguma forma quase engraçada, parecia complementar todo o visual. Como parte do charme.
Já no elevador, os olhos grandes da colombiana varriam todo o local, como se aquela caixa de metal pudesse de qualquer forma ser diferente de qualquer outra que já havia entrado antes. Deixou escapar um riso com a resposta impessoal do homem, que mal podia imaginar o quanto provavelmente subestimava a capacidade de Ortega em ser insistente. “Não gosto de sobrenomes. São... formais demais. Sem graça. Além do mais, eu gosto de apelidos. Então preciso saber seu nome para pensar no seu.” Explicou, com tamanha tranquilidade na voz que os dois poderiam muito bem parecer duas espécies completamente diferentes. “Inclusive, tive vários problemas na escola com isso de chamar professor pelo sobrenome, sabia? Na Colombia só dizemos ‘profe’, ou o nome da pessoa mesmo. Vocês gringos que tem essa mania de sobrenome como se fosse título de alguma coisa.” Os dizeres lhe escapavam os lábios grossos como quem fazia um comentário qualquer com um amigo de longa data, trazendo consigo a energia de intimidade quase que impressionante para alguém que apenas conhecia o seu colega há menos de quinze minutos. Não que ela pudesse ler mentes ou prever o futuro, mas no momento em que Kang abriu a boca, teve certeza de que ele estava pronto para argumentar algo sobre o uso devido daquele título no ambiente profissional. Ligeiramente, voltou a falar, interrompendo o mais velho. “Não vai ser difícil descobrir, sabe?” A garota lhe piscou um dos olhos, mas o tom de provocação ficava mais leve em conjunto com a expressão divertida, como se tivesse acabado de fazer uma mísera piada inofensiva.
Quando ele voltou a falar, porém, o assunto já não era mais tão tranquilo quanto apelidos e títulos, e Liliana se permitiu esboçar seriedade no rosto conforme o ouvia, não porque pensava que aquele era um assunto que demandava demais, mas porque sabia que era uma situação sensível ao outro e faria questão de demonstrar respeito. Até chegou a entreabrir a boca para corrigir o uso de seu sobrenome, insistindo no apelido, mas deixou que sua intenção ficasse de lado e apenas seguiu em silêncio, escutando atentamente o que Kang tinha a dizer. Apesar de caminhar pelo espaço sem muito problema, o corpo fazia de modo completamente automático conforme guiado pelo novo colega, já que todo o foco da garota estava no que ele tinha para dizer. Não que ela não soubesse tudo aquilo, mas sinceramente, não tinha esperado que o homem tocasse no assunto tão logo. E muito menos daquela maneira direta e límpida, sem margem para diferentes interpretações. De início, Lili até se questionou se aquilo não seria alguma tentativa de afastá-la (já que ele parecia muito pouco satisfeito com uma colega nova), mas assim que Kang comentou sobre as coisas que possivelmente a atingiriam também, ela notou que o rapaz estava mais incomodado com a situação geral que com a sua presença em si. Como se a culpa por tudo aquilo fosse, de algum modo, dele. Claro que Lili entendia um pouco - fosse ela no lugar do homem, sabia que também se perguntaria como raios não havia notado nada. Como deixara escapar algo tão grandioso. Mas o fato era que, vendo de fora, tornava-se mais compreensível do que o homem provavelmente pensava que era.
“Olha, agente Kang” Pronunciou o nome dele como uma espécie de brincadeira interna, uma pequena permissão a si mesma para aliviar todo o peso daquele momento, muito embora os seus dizeres seguintes fossem tão sérios quanto os dele. “Posso ser pequena, mas eu não sou criança.” Certo, talvez mais de uma só permissão, mas era o jeito mais sério que ela sabia ter. “Quero dizer que eu sei bem o que aconteceu, ninguém tentou me enganar para pegar essa vaga e se tivessem tentado, acredite em mim, não conseguiriam. Não sou ingênua, mas também não gosto da ideia de olhar por cima do ombro a todo tempo, de desconfiar da minha sombra e de sentir que tenho um alvo nas costas. Não dá para trabalhar bem assim.” Deu de ombros, olhando brevemente em volta para os olhares curiosos aos quais Kang havia se referido instantes antes. “Se eu gasto todo meu tempo desconfiando do meu colega, como consigo me concentrar no que eu faço? Nas missões?” Voltou a encará-lo, e um pequeno sorriso lateral surgiu. “Além disso, eu sou uma mulher. Estrangeira. Acredite quando eu digo que eu sei muito bem o que é ter pessoas falando todo o tipo de coisas falsas sobre você. Então, Kang, eu não sou do tipo que acredita em tudo que escuta. Prefiro descobrir por mim mesma.” Terminou sua linha de pensamento, despreocupada, pronta para voltar a caminhar. Girou nos calcanhares, porém, notando que havia deixado algo de fora. “Ah! E eu não tenho medo de trabalho, não. Você ficará feliz em descobrir que eu tenho energia o suficiente para trabalhar depois de uma noite inteira dançando até não sentir as pernas.” Na verdade, ele provavelmente ficaria bastante incomodado em algum ponto. “Todas as minhas provas da faculdade foram feitas depois de noites em claro em festas de fraternidade. ” E de dias extensos cuidando da minha mãe instável, acrescentou mentalmente. Claro que, visto de fora e sem aquele importante pedaço de informação, Liliana parecia ter ganhado na loteria ao conseguir de fato suceder mesmo com o seu corpo e mente no limite. A verdade, claro, era que aquele tipo de coisa era seu escape. Como se, caso ela parasse, então toda a raiva, a culpa, a tristeza, a saudade, a atingiria de uma só vez, tão forte que seria capaz de matá-la. Liliana não aproveitava a vida, como podia parecer. Estava em uma constante fuga, apenas. “Sim, Kang, quero isso realmente. Está bom assim?” Finalmente finalizou dando a resposta que ele tanto parecia querer, sentindo como se somente à partir daquele momento eles realmente se tornassem colegas. “E sabe o que mais eu realmente quero? Um café.”
Diane Guerrero via Instagram stories.
kangliver:
sua hipótese – melhor, certeza – concretizou-se no momento em que o homem de meia idade parou em sua frente, seguido da morena que parara ao seu lado. o kang levantou-se por educação e formalidade, afinal, embora em nada concordasse com a completa ignorância ao seu pedido de trabalho solo, respeito e decoro ainda ocupavam lugares muito importantes em sua lista de prioridades. ironicamente muito maior que hotchner, que curiosamente deveria deter aproximados um e setenta e cinco de altura, e sua nova colega, ainda menor que o homem de alto escalão à sua frente, a figura alta, altiva e dominante de oliver contrastava com a rígida subordinação a qual sempre acatara em frente ao chefe, dando espaço e permanecendo em silêncio para que o mesmo lhe desse explicações e realizasse as devidas apresentações entre os agentes. certamente, e de acordo com as palavras do diretor, o currículo da mulher admirável em sua diagonal direita era robusto e surpreendente para alguém tão jovem – o que obviamente trazia vantagens para qualquer agente naquele andar –, mas a ideia de que seu encarecido pedido havia sido recusado o atrapalhava na hora de prestar qualquer elogio ou minimamente demonstrar qualquer tipo de reverência. isso, acompanhado com o fato de não ser o tipo de homem que distribuía sorrisos a torto e a direito pelos cantos do escritório, provavelmente lhe pintaria um retrato antipático e até mesmo arrogante, mas não era a maior preocupação do kang no momento. hotchner parecia animado com seu novo experimento social, com o qual se divertiria às custas dele, o que rendeu um olhar pesado e deveras cansado de oliver. apesar da óbvia relação entre chefe e empregado, todos no setor já sabiam do relacionamento próximo entre david hotchner e kang, já que o primeiro via o agente especial como um pupilo prestes a alçar algum voo maior no momento certo. por consequência, o fato de hotchner ignorar o único pedido do homem mostrava que, enquanto seu superior, estaria pensando em seu melhor, e o melhor agora era que ele estivesse acompanhado, por mais que não quisesse ou concordasse.
a atenção voltou-se à morena no momento em que ela abrira a boca, fazendo o mais alto lembrar do terceiro elemento na conversa, até então parecendo satisfeito com um novo presente. estava pronto para saudá-la ao mencionar esticar sua mão para alcançar a dela, mas com a interrupção de david, oliver o encarou novamente, acatando a sugestão. “ ━━ claro, senhor. ━━ ” a resposta viera polida, num breve e pequeno aceno com a cabeça. “ ━━ se não se importar, gostaria de conversar com o senhor no final do dia. precisamos esclarecer alguns pontos. ━━ ” comentou, e tudo o que recebeu foi um sorriso do homem de cabelos já grisalhos. “creio que no meu momento livre já esteja bem tarde e quero que a agente ortega se sinta muito bem vinda à nossa família, agente kang. ocupe seu tempo fazendo-a sentir-se em casa, e não falando com um velho bobo como eu. o que eu poderia te esclarecer que você já não saiba, se é o nosso prodígio?” o sorriso o riso solto enquanto dava as costas poderia ser considerado até mesmo debochado se hotchner não fizesse isso apenas por diversão. oliver era um agente fundamental naquela equipe que trabalhava dia e noite pra melhorar a vida das pessoas. esmigalhava o temor de perdê-lo para algum transtorno psicológico apostando suas fichas em uma pessoa que poderia fazê-lo progredir e esquecer algo tão marcante em sua vida como o último acontecimento. liliana não era apenas uma profissional excelente e detentora de diversas indicações. ela era o extremo oposto de alguém que precisava de um choque de realidade para evoluir, e era isso que hotchner planejava. talvez opostos não apenas se atraíssem, mas também se ativassem.
oliver acompanhou seu irredutível diretor cumprimentar alguns outros agentes antes de subir para o segundo andar do setor, onde ficava sua sala de vidro, aberta ao grande espaço moderno. logo a atenção foi captada pela agente à sua frente, sem dificuldade alguma de continuar a apresentação de onde havia parado anteriormente. a primeira coisa que percebeu gritar na ortega era a quantidade de energia posta em cada palavra que ressoava dentre os lábios cheios e a boca bonita e avantajada. falava bastante, o que de certa forma lhe custou concentração. articulada, de grande presença e postura ativa, gesticulava e expunha opinião de forma que a eloquência garantisse a atenção dele, mostrando abertura e uma pressa pela troca entre ambos – a qual oliver justificou com o fator da novidade de um novo propósito e o absurdamente claro objetivo de se darem bem de primeira, o que fazia de liliana uma pessoa esforçada e determinada a começar com o pé direito. era cedo para considerá-la positiva ou idealista, mas de fato contrastaria muito com o jeito pragmático que sempre se apoiara para toda e qualquer coisa. apenas em uma primeira análise, perceber o quão diferente ela era dele foi extremamente simples, e isso o fazia, pelo menos um pouco, questionar a decisão de hotchner na escolha de um novo parceiro. o que ele imaginava que sairia disso? ainda era um mistério, mesmo para o cérebro constantemente estimulado por desafios do kang.
independente do que podia prever do cenário ou não, e embora ainda contrariado pelas coisas não estarem saindo do jeito que deviam, liliana ortega não era culpada de qualquer coisa, muito menos merecia qualquer negligência ou algo pior. também não tinha certeza da permanência deles como parceiros – afinal, teriam aquela conversa, querendo hotchner ou não, com oliver apoiando-se no argumento de que ele e a mulher poderiam ter uma dinâmica muito desequilibrada pelas diferenças que percebera já de início –, mas queria fazer o possível para que a ortega tivesse uma boa experiência como novata. precisaria, com a equipe no mínimo peculiar que tinham. quando oliver pensava em “possível”, era o o possível dentro de seu possível. acostumado a não ser o tipo de homem a dividir muito do dia a dia com os demais, seu papel beirava a uma liderança inoficial e velada, mas validada pela maioria que admirava seu trabalho. era automático, até pela personalidade discreta e particularmente introvertida, mas a forma com a qual demonstrava seu apreço era, justamente, a proteção e a organização para com os demais agentes. se deus tinha seus meios de agir, oliver kang tinha seus meios de demonstrar. oferecendo sua mão, apropriadamente dessa vez, oliver a cumprimentou. “ ━━ agradeço, pela informação, agente ortega. espero que com o passar do tempo, independente do que possa acontecer, forme sua opinião sobre o meu trabalho. ficarei satisfeito em compartilhar o que sei e trocar pelo o que já sabe. ━━ ” respondeu, um tanto evasivo ao elogio indireto, mas ainda sincero quanto às suposições. apesar de ter sido parte de uma organização diferente, liliana trazia uma bagagem interessante, ainda mais quando casos de crime organizado envolviam cada vez mais o universo do tráfico. a expressão do mais velho mantinha-se um pouco dura, pensativa sobre toda a animação da mulher para com suas próprias expectativas. a sentia como uma criança recém chegada no parque de diversões, e ao imaginar isso ao longo dos meses que viriam, pensou em quais características suas precisaria desenvolver para que, no caso da permanência da formação, pudesse manter a harmonia.
pensou que poderia ser indelicado contá-la que não queria um parceiro, então buscou as palavras mais distantes de uma rejeição que poderia escolher “ ━━ bem, agente ortega, eu não estava ciente da sua chegada hoje, então confesso que fui pego desprevenido, até mesmo em relação ao seu histórico. ━━ ” comentou, encarando-a enquanto a menor ouvia. oliver deu meia volta em sua mesa, para que parasse em sua frente, acentuando ainda mais a diferença de tamanho entre eles. “ ━━ o que posso afirmar saber sobre seu antigo departamento é que o trabalho é muito complexo, cada operação exige muitos meses de preparação e dedicação e os agentes também são selecionados a dedo devido ao cansaço mental e emocional, então seu estômago deve ser forte. tenho ideia do porquê foi considerada para um cargo aqui dentro, embora eu tenha minhas ressalvas em relação à posição específica como minha… parceira. ━━ ” oliver não fazia ideia se liliana sabia ou não sobre o que havia acontecido. era provável que sim, não a jogariam no olho do furacão sem explicar sua situação. isso o fazia questionar o intuito da ortega, no final das contas, no caso de deter conhecimento sobre seu novo parceiro. se não soubesse, se sentiria confortável em trabalhar com uma pessoa que houvera sido investigada há pouco tempo?
“ ━━ mas no que diz respeito ao plano no primeiro dia, acredito que possamos seguir o protocolo. começando pelo nosso ambiente de trabalho, é simples. o que você vê ao seu redor é apenas o nosso setor, cada um tem a sua própria mesa. a sua será na frente da minha, como pode ver. é próxima da mesa de agentes como a agente rulli, ━━ ” com a breve apresentação de oliver, serena dedicou à liliana um sorriso matreiro, lhe dando boas vindas com um breve “bem vinda, ortega, espero que quebremos alguns ossos juntas.” “ ━━ e o agente foai, nossos especialistas em perfilamento geográfico e operações especiais, ━━ ” sem dizer muito mais do que serena, spencer, apesar da aparência levemente intimidadora pelo tamanho, acenou simpático para a mais baixa, bem humorado . “não liga pra ela, é doida. eu sou o spencer.” “ ━━ …agente boyce, que nos ajuda com a área de tecnologia, especialista em sistemas, rastreamento e bem, hackeamento, ━━ ” apontando para um pouquinho mais longe da ilha, oliver indicou uma mulher de cabelos escuros que sorria para liliana, sussurrando um “bem vinda!” adorável e tentando parecer normal, no mínimo, mas uma animação gritante parecia querer escapar o tempo inteiro pela novidade no time. sem dúvida nenhuma, oliver sabia que maddison seria a primeira a pegar a ortega pelo braço pra fofocar sobre o setor. “ ━━ e ali, sentando no sofá porque não tem o que fazer, temos o agente sharma, nosso contato com a perícia, análises químicas e biológicas. sharma, não era pra estar no laboratório? ━━ ” indagou o kang, o cenho levemente franzido pela aparição repentina do agente. mesmo com a tentativa de brincadeira, não fazia ideia do porquê sam estava ali. “ah, não ligue pra mim, senhor! meu turno já acabou. levando em consideração que meu apartamento está passando por uma dedetização de vespas depois de um acidente com a casa delas pendurada na minha janela, vão ter que me aguentar aqui, por enquanto, então estou à disposição. ah, bem vinda, agente ortega!”. claramente o mais novo do grupo, samuel ainda parecia guardar as maiores formalidades para oliver.
“ ━━ ...ok, sam, fique à vontade, sempre aparece algo mesmo, então… enfim. ━━ ”oliver concordou com a cabeça, em sinal de quem realmente não tinha muito o que fazer pra ajudar – e na resignação de quem não se importava tanto também. “ ━━ em suma, a agente ortega será minha dupla por enquanto. não sei se já haviam sido informados antes do meu retorno, mas ela tomará o lugar do agente cooper, então sejam colaborativos e a auxiliem no que precisar também. ━━ ” apesar do breve silêncio instaurado após certo desconforto em ouvirem o nome proferido com tanta naturalidade por parte do kang, a equipe positivou a instrução. enquanto as apresentações aconteciam, olhou para o relógio, imaginando que deveriam ter tempo de verem alguns departamentos importantes dentro da sede, almoçar, voltarem para se atualizar de novos casos e, por fim, terem tempo de conversar sozinhos. reprimiu um suspiro levemente cansado, não imaginando que o primeiro dia de seu retorno se daria na integração de uma parceira que tecnicamente, não deveria estar ali. a encarou. liliana parecia tão feliz. era tão bom assim entrar naquele lugar? melhor, ocupar um antigo lugar? ainda mais tão problemático. os braços cruzados do kang permaneceram sólidos à frente do corpo, enquanto a aguardava terminar as interações para que pudessem seguir, mas sabia que se ortega não desse fim naquilo, serena e maddie a consumiriam de perguntas. acostumadas com a personalidade estruturada e ordenada de oliver – assim como sua chatice nas palavras de serena –, ambas já não se sentiam intimidadas por qualquer ordem. “ ━━ detesto interromper os encontros de almas, mas quando estiver pronta, podemos partir, ortega. elas estarão aqui até o final do dia também, então quando for a hora, lhe entrego nas mãos delas pra um possível happy hour que queira participar. ━━ ”
De modo geral, Lili era uma mulher confiante. Característica inerente a sua personalidade desde tenra idade, provavelmente conectada à determinação que também lhe era natural. Apesar da injustiça do destino ter transformado as memórias de sua mãe em grande amargor, seria mentira dizer que ela não havia feito o seu melhor para a garota desde o falecimento do marido, e Liliana devia muito de suas características positivas à mulher (talvez por isso se sentisse ainda mais culpada diante do alívio que sentira ao não mais precisar cuidar dela após sua morte) — até porque podia ter sido mais próxima do progenitor, mas havia sido da mãe quem puxara praticamente todo o seu jeito. A confiança vinha no pacote não somente como um traço herdado, mas também um ponto deliberadamente instigado pela mulher que a criara. E a confiança não se aplicava apenas a aspectos como aparência ou atratividade, mas em sua capacidade e seu talento. Seu trabalho. Assim, portanto, enquanto analisava os arredores e falava com o novo parceiro, seu nervosismo pouco tinha a ver com medo, e sim com ansiedade do que estava por vir. Não sentia-se tão intimidada quanto animada para mergulhar na nova equipe que agora lhe era apresentada em uma energia caoticamente sinérgica, repleta de faces distintas e modos quase opostos, mas que aparentavam funcionar bem. Verdade fosse dita, fora bastante desafiador para Ortega a sua última missão; talvez a mais complicada desde o início de sua carreira. Liliana podia não depender de ninguém (e devido a sua possível condição, era algo que muito temia e veementemente evitava), mas qualquer um que a tivesse por perto por mais de segundos notaria o quão sociável a jovem era. Estava feliz em estar em uma equipe, e não mais solitária como quando estava infiltrada no cartel. Queria conhecer cada um deles, ouvir suas experiências, suas histórias - acima ainda de todos, queria se familiarizar com agente Kang, aquele com quem dividiria muito dali em diante.
Enquanto que auto confiança não era um problema para a colombina, confiar em outros se tornava… complexo, para dizer o mínimo. E quem pensasse que ela era completamente impessoal, do tipo que afastava qualquer um e pouco tinha interesse em amizades estaria redondamente enganado. O fato era que o jeito animado e de pouco filtro fazia um bom trabalho em enganar os olhares pouco atentos, tornando sua imagem em algo quase que beirando o ingênuo. Como se agente Ortega fosse de tão boa fé que simplesmente confiar e se tornar íntimo fosse algo natural, inevitável até. O fato era que sim, em poucos minutos de conversa a garota estava mais do que disposta em compartilhar um bom par de informações sobre si mesma, bem como curiosa para descobrir sobre a outra pessoa. Mas ah! Não diziam que o melhor jeito de esconder algo, é em plena vista? Afinal, poucos imaginariam que alguém tão [aparentemente] transparente guardaria tanto dentro de si, longe do acesso de qualquer um. E não era uma tarefa fácil; era cansativa, inclusive. A última pessoa a quem havia contado sobre seu pai fora a melhor amiga ainda na época da escola, na Colômbia, dias antes de ir para os Estados Unidos. A situação de sua mãe apenas ficou conhecida por um ex namorado (cujo relacionamento nem havia sido sério) na Califórnia por acidente, quando o rapaz presenciara um dos episódios da mulher — e ainda sim, Lili nunca explicara o que ela tinha. Já sobre a sua própria situação, isto é, possível situação, isso nunca havia sido discutido em voz alta com ninguém. E nem seria, ela tinha certeza. Liliana aprendeu, justamente por isso, a separar as coisas. Ela jamais confiaria segredos seus a alguém, não estava disposta a tanto, não quando nem mesmo estava preparada para lidar com aquilo consigo mesma. No trabalho, porém, era diferente. Em uma posição como a sua, em um ramo como o seu, confiança era a base de qualquer bom trabalho. Não precisava confiar que seu parceiro a apoiaria em um término de namoro, ou no aniversário de falecimento de seu pai — apenas precisava confiar em sua integridade e habilidade. Confiar que trabalharia com alguém de mesmos objetivos que ela. O fato era que simplesmente não era possível trabalhar naquele ramo de outro modo.
Quando ouviu pela primeira vez a situação e os boatos que rodeavam Kang, Liliana até ponderara se deveria arriscar aquela parceria. Mas no fim das contas, poderia o agente ser culpado por não saber de tudo de seu parceiro? Ortega, mais do que ninguém, sabia que não se podia saber tudo sobre outra pessoa. As tantas referências do agente também diziam tudo o que ela precisava saber, considerando que as más línguas provaram ser de pessoas que não trabalhavam tão próximas do rapaz. Havia um sorriso sincero no rosto da colombiana quando ele disse esperar que a garota formasse sua opinião sobre o trabalho dele; por hora, eram positivas. Ele parecia sério e quase robótico, mas Lili escolheu levar a sério suas palavras e estava satisfeita em saber que ele levava em consideração a sua opinião. Ortega levava em conta a dele, também. “Ah, tudo bem! Foi um processo meio corrido mesmo. O chefe me explicou que…” ‘seu parceiro foi preso de repente’, quase lhe escapou. “…precisou reorganizar a equipe, e que as etapas seria mais breves que o comum.“ Encaixou suas falas no meio tempo em que ele deu a volta na mesa, sem deixar de notar a diferença brutal de tamanho entre eles. Liliana mantinha o queixo elevado, a fim de olhá-lo nos olhos, e por alguns segundos tentou calcular quantos centímetros haveria de diferença ali. Considerando que seu coturno ainda a ajudava um pouco, havia quase trinta centímetros de vantagem do mais velho em sua relação. Sua atenção voltou a se concentrar por completo nos dizeres dele assim que o homem pareceu estranhar a escolha da moça como sua parceira. “Prometo que não sou tão ruim” Falou, em óbvia brincadeira, tal qual o pequeno riso confirmava. Se ele se preocupava sobre o que Ortega pensava sobre a recente investigação, estava perdendo tempo. “Só antes das oito” Ainda complementou, piscando-lhe um dos olhos.
Voltou a ficar quieta quando o homem apresentou o espaço. Era bastante parecido com seu último escritório, mas maior e um pouco mais moderno. Deixou sua bolsa em cima da mesa que lhe fora designada, enquanto o rosto buscava pela agente Rulli. Parecia um tanto séria também, intimidadora, mas menos formal e robótica que Oliver. Tinha tranquilidade no tom de voz, mas sua energia deixava claro que não era do tipo que deveria se mexer. O homem a seu lado parecia capaz de quebrar um tronco entre os braços, sendo mais alto até do que agente Kang, mas o aceno animado e o rosto simpático deixaram claro que daqueles dois agentes, o homem era o que menos faria estragos. Spencer e Serena pareciam bem próximos, especialmente pela forma que a mulher se esticou para lhe roubar metade do sanduíche que o rapaz comia. Liliana sorriu ao perceber que aqueles dois pareciam até irmãos, notável pela forma que se provocavam. Poderia observá-los mais tempo, se seu parceiro já não estivesse apresentando mais uma integrante. Agora uma mulher bem bonita e de traços delicados, que parecia segurar uma bomba de animação atrás do pequeno sorriso. Era engraçado imaginar uma hacker com a aparência de uma boneca de porcelana, mas também não deixou de notar a destreza com a qual ela brevemente retornou ao que fazia no computador, os olhos azuis pulando de tela em tela enquanto os dedos digitavam algo em velocidade impressionante. O último jovem apresentado pareceu até ser pego no flagra de algo quando agente Kang o chamou, de modo que Liliana sorriu um pouco, achando graça. Havia um quê de timidez perceptível, mesmo que ele parecesse se esforçar para não tropeçar em palavras ou parecer recluso demais. Enfim veio a apresentação do novo membro da equipe, e Lili acenou com a cabeça na direção de todos em cumprimento. Pôde notar o breve estranhamento diante da menção do ex parceiro de Oliver, mas rompeu o silêncio sem demora. Encontrando a brecha para começar a falar com o novo time, tão logo engatou em conversas com os integrantes em complemento às simplistas apresentações feitas por Kang. Lili falou um pouco sobre sua última missão, sobre sua experiência, e ouviu sobre a deles. Nem notou quanto havia se entretido até ser interrompida, mas a energia animada não se dissipou mesmo quando ela precisou girar nos calcanhares na direção do parceiro. “E você não vai para o happy hour, agente Kang?” Perguntou, logo ouvindo risadas da equipe, como se compartilhassem uma piada interna. Liliana não precisou de muito tempo para compreender, ela mesma dando uma pequena risada diante da reação dele. “Vamos.” Concordou, despedindo-se das pessoas e caminhando para fora dali com o mais velho. “Pode me chamar de Lili, aliás. E qual o seu primeiro nome mesmo? O chefe só falou de você como agente Kang”
the first step; w @lilixvega. ♥
ele estava bem. no final das contas, era pra isso que as licenças e dispensas temporárias serviam, certo? pra pôr as coisas em seus devido lugares. ainda assim, oliver não podia deixar de sentir a nuca quente com tantos olhares que o tinham como alvo – dos curiosos até os preocupados e dos preocupados aos poucos desconfiados. entendia os últimos, de certa forma, apesar da conduta e histórico impecáveis em seu currículo. qualquer pessoa que houvesse passado por uma auditoria e uma investigação aprofundada como acontecera com ele após os últimos escândalos seria o assunto e o ponto de interrogação do momento, e certamente sofreria com a mesma atenção – afinal, não era todo dia que um agente passava anos ao lado de um parceiro sem perceber o mesmo lucrando milhões em cima de crimes de colarinho branco e movimentos ilícitos.
oliver jamais se perdoaria por não enxergar o que acontecera nos últimos quatro anos – ainda mais quando sua amizade com o homem tivera início muito antes, no batalhão de operações. sentia como se houvesse sido traído. não, ele fora traído, não era apenas uma sensação, era uma constatação, uma alegação validada pela justiça que agora guardava o corpo quebrado do outro no hospital após o conflito com um dos esquadrões garantido por uma tocaia que vigiava um esquema milionário de drogas e propina. não estando com o parceiro no momento e sendo levado à depoimento minutos depois de saber sobre a operação e o envolvimento do cooper, naquela grande loucura, a digestão do fato de não saber quem realmente um de seus melhores amigos era e do conhecimento de sua dispensa temporária para a ocorrência da investigação o deixara sem dormir por noites, por mais inocente que fosse e que nada tivesse a ver com o assunto. no fundo, a culpa pela ingenuidade era maior que qualquer ato de correção.
fora visitar morgan no hospital apenas uma vez, na presença de agentes. olhando para o corpo imóvel na cama, não fora capaz de dizer nada, pois não havia nada que dissesse que poderia ao menos amenizar a mágoa e a decepção. aquele ainda era morgan cooper, um de seus melhores amigos, mas ao mesmo tempo, um homem que nunca vira em sua vida, que precisava pagar por arruinar as famílias de tantos – e bem, ele já estava. a bala alojada em sua coluna vertebral o lembraria da necessidade de redimir-se pelo resto da vida. apenas aquele momento na vida de oliver fora suficiente para fazê-lo perceber de que podia fazer seu trabalho sozinho. se, mais uma vez, o destino estava mostrando-lhe que confiança era um presente divino e extremamente difícil de encontrar em sua mais pura essência, então achava-se completamente capaz de confiar apenas em si mesmo naquele momento. havia decidido isso antes mesmo de sua volta à ativa após o tão esperando retorno à sede da UCCE, e fora isso que repetira ao seu diretor da última vez que falaram ao telefone: “a partir de agora, eu preciso só de mim, hotchner.”
tinha as mãos ocupadas com a organização de sua mesa quando a abertura da porta do departamento fez seu barulho usual e sua visão periférica detectou a entrada de seu diretor com uma pessoa desconhecida em seu encalço. encarando-os discretamente, oliver soube ao encontrar os olhos de david hotchner, quando este fez o mesmo consigo. segundos depois, desviou o olhar para a morena de baixa estatura que o acompanhava, que por um acaso também o encarara enquanto david falava algo. não precisava de um qi altíssimo para entender o que estava acontecendo.
oliver kang tivera seu pedido ignorado, e havia acabado de ganhar uma nova parceira.
Liliana tinha um especial apreço por primeiras experiências. Devia ter não mais do que seis anos ao sentir o característico frio na barriga de nervosismo antes de começar a nova escola, quando o pai a acalmou. ‘Primeiras vezes são especiais’, ele disse. Ensinou que as oportunidades de experimentar aqueles momentos eram únicas, e por isso deviam ser apreciadas ao máximo. Que depois virariam lembranças, e que era trabalho dela garantir que fossem boas. Não que isso tivesse eliminado a natural reação do corpo diante dos nervosismos que seguiram no decorrer da sua vida; primeiro dia de aula, primeira prova, primeira paixão, primeiro beijo, mas a fizera olhar com carinho para aquela sensação e enxergar como algo positivo. Até porque em momentos como aquele, enquanto entrava no prédio do seu novo local de trabalho, o frio na barriga a fazia se sentir próxima do pai. Então mesmo que o estômago estivesse um pouco revirado, Lili tinha um grande sorriso animado no rosto, caminhando espaço adentro com a mão distraidamente mexendo no escapulário ao redor do pescoço, que pertencera ao homem. Deixar o DEA não estava em seu plano de carreira, mas a oportunidade daquela promoção era boa demais para recusar (até porque as dívidas dos tratamentos de sua mãe ainda remanesciam, somadas às da época dos estudos) e a colombiana estava pronta para encarar o novo desafio. Encontrou o diretor ainda na entrada, iniciando uma conversa breve com Hotchner, que garantia estar animado em tê-la na equipe especialmente pelas suas recomendações. Ortega podia nunca ter trabalhado com ele, mas sua antiga superiora — em quem confiava — muito o admirava, portanto era inevitável que já se sentisse confortável com a ideia de estar em sua equipe. A conversa alternava entre a experiência da jovem nas últimas missões e sua instalação na nova cidade. Tivera bastante sorte de encontrar um local perto do escritório com um aluguel em conta, mesmo que ainda precisasse organizar o seu espaço (já que todos os seus pertences ainda estavam em caixas). Visto de fora, a conversa provavelmente pareceria unilateral, já que enquanto David fazia uma ou outra pergunta, Liliana emendava longas respostas e comentários alem de divagar como de costume, quase como se em um duradouro monólogo. Hotchner tinha um pequeno sorriso enquanto observava a moça enérgica e falante, quase como alguém que acha graça em alguma piada interna (e quem conhecia o seu novo parceiro, entenderia muito bem o motivo do diretor aparentar se divertir com toda a situação). Lili apenas parou de falar, inclusive, quando foi anunciado enfim que conheceria o seu colega.
Ao lado do diretor, caminhou até o homem alguns anos mais velho que si, de rosto fechado e expressão um tanto séria. O sorriso ainda se mantinha no rosto da colombiana, ainda que um pouco contido na tentativa de parecer educada, e aguardou que o superior os apresentasse. David a apresentou como a nova parceira do homem, Oliver Kang, explicando ainda que viera de outra equipe e outra divisão, acrescentando que havia passado os últimos meses em uma missão na fronteira do México e havia sido uma das principais responsáveis por uma das maiores apreensões do tráfico de drogas local. Kang parecia pouco impressionado, se ela precisasse interpretar; na realidade, era quase como se duvidasse da palavra do chefe. E isso não passaria despercebido pela agente Ortega; mas estava animada demais para se incomodar com aquilo. Ora! Era normal mesmo, certo? Ele ainda não a conhecia, teria suas ressalvas. Mas tudo bem, pois ela mostraria quem era logo menos. “É um prazer, agente Kang. Eu...” Antes que pudesse dizer algo, o diretor a interrompeu para dizer que se retiraria e que Oliver poderia mostrar os arredores para a latina. “Gracias, chefe.” Lili maneou a cabeça na direção de David, antes de se voltar para Kang novamente. “É um prazer enorme trabalhar contigo. Ouvi falar muito bem de você, disseram que é tipo... o maioral da análise comportamental, acho que vamos trabalhar muito bem juntos. Eu não sou nenhuma expert nisso, mas como o chefe falou, eu fiquei um tempão no México na minha última missão inserida no cartel, então eu aprendi muito por lá, comportamentos padrões, comunicação deles y cosas más. Não que seja fácil saber quem é bandido, es cierto, não tá escrito na testa da pessoa e sempre dá pra se enganar, mas é pra isso que estamos aqui, no? E eu to muito animada pra trabalhar com você, parceiro. E então, o que vai me mostrar primeiro? O lugar? Os casos que iremos cuidar? A equipe?”