kennedy's extraordinary sad playlist
Dizem que é necessário vinte e um dias para se criar um novo hábito. Era engraçado, pois durante os quase cinco mil dias que Kennedy ficou separada de Sirius, poderia desenvolver, em tese, cerca de duzentos e vinte e cinco novos hábitos. Nenhum deles foi se acostumar com sua ausência
Viveu muitas coisas durante esse período, uma vida inteira praticamente; se formou na escola, entrou para a faculdade, conheceu novas pessoas, namorou, terminou o namoro, namorou de novo, quase casou, pôs um fim antes de tudo começar. Viajou, conheceu novos lugares, experimentou novas bebidas e comidas, leu mais livros do que poderia se lembrar. Ouviu novas músicas e se emocionou em vários filmes. Viveu uma vida inteira tentando lidar com o luto de alguém que ainda estava vivo, e agora parecia estar vivendo pela segunda vez o luto. Era engraçado.
Durante o tempo que haviam ficado juntos, não chegou a ser necessário que vinte e um dias se passassem para que criasse o hábito de se acostumar com a presença de Sirius na sua rotina. Parecia tão fácil tê-lo por perto, esparramado por seus lençois e por baixo da sua pele. Tão fácil até não ser mais e de repente tudo ser tornado apenas memórias doloridas.
Desde o fim, Kennedy também não precisou de vinte e um dias para adquirir o hábito de se deitar em sua cama com os fones de ouvido reproduzindo sempre as mesmas músicas. Era melancólico e sádico, mas era díficil quebrar o ciclo e seguir em frente. Seu cabelo, ao menos limpo, estava sem volume e sem vida, sua pele parecia mais pálida em contraste as machas escuras e fundas abaixo de seus olhos. Tinha a impressão que havia perdido um pouco de peso, já que suas bochechas pareciam mais saltadas e suas calças mais largas. Seu quarto que beirava o inabitável, clamava por luz do sol e organização. Respirou fundo, pensou que precisava se levantar. Tentaria, aos poucos. Colocou os fones, abriu a janela e encarou o café do outro lado da calçada.
if it means alot to you - a day to remember
"If you can wait 'til I get home, then I swear to you that we can make this last."
Uma chuva razoavelmente forte caía sobre Sun City, e do lado de fora da editora um carro preto esperava Kennedy pacientemente. "James não vai se importar de você pegar o carro tantas vezes assim para me buscar?" Perguntou ao entrar no carro, já um tanto molhada. Seu sorriso era impossivelmente grande, seu corpo todo se ascendia em uma felicidade tão mágica, que pouco se importava das suas roupas molhadas. "Até parece, linda. Eu não te deixaria voltar do trabalho na chuva." Kenny se inclinou para frente e o beijou, o som da chuva se misturava com a música que tocava no carro.
"You know I'm such a fool for you… You got me wrapped around your finger."
Seu coração estava disparado, quase a nível patológico. Seus pés cravados no chão de uma dispensa com a luz baixa, Kennedy sabia que aquele momento duraria para sempre. Não no sentido de minutos corridos, mas no espaço tempo que existia apenas dentro da mente de uma garota de dezesseis anos. Seu perfume se misturava com o dele, seus olhos brilhavam em anseio e receio, nervosismo e expectativa, tudo ao mesmo tempo. Queria perguntar, mas não sabia o quê. Queria dizer que era um só beijo, o seu primeiro beijo, mas suas palavras estavam enroladas em um lugar inacessível seu cerébro. E tudo o que conseguia conceber, era que os lábios de Sirius eram doces e gentis sobre os seus, e suas mãos pairavam delicadamente sobre a nuca do outro. Ele estava onde ela precisava, ao seu lado durante toda a vida e agora sobre seus lábios, marcando aquele momento para sempre com seu primeiro beijo.
"You drew stars around my scars."
Seus pés estavam sobre o colo de Sirius enquanto ele prestava muita atenção no jogo de vídeo game que jogava na sua TV. Kennedy não entendia muito bem o que acontecia na tela, tampouco em como alguém conseguia apertar tantos botões de maneira funcional. O notebook em seu colo abrigava o rascunho de uma ideia que discutiria no dia seguinte com a autora, estava bem estruturado em tópicos mas um espaço em branco lhe incomodava. "Se você tivesse que escolher um sobrenome para uma personagem feminina que se chama Alice, seria Scott ou Ferris?" Ajeitou o óculos enquanto o via pausar o jogo imediatamente e a observar atentamente. "Scott. Alice Scott fica bom."
"And I'll still see it until I die... You're the loss of my life."
O verde já havia se misturado em seus lençóis. Uma presença marcante, e Kennedy queria que fosse perpétua. A pele de Sirius tinha um tom bonito, algo naturalmente bronzeado e cheio vida. Diria que lhe lembrava o verão, mesmo que sua personalidade fosse definitivamente algo invernal. Mas sobre seu colchão, dormindo o que era o sono dos justos, Kenny apenas o admirava; seu rosto bem esculpido em linhas firmes, sobrancelhas retas e lábios cheios. Passava os dedos sobre seu cabelo, descendo as mãos sobre seu pescoço e ombros em um carinho terno suave. A pele do outro era quente e macia sobre seu toque, convidativa para que despejasse uma trilha de beijos sobre seu torço desnudo. Apenas pensava que queria que aquilo durasse para sempre. O amava, o amava, o amava…
💿 current playing we can't be friends (wait for your love) - ariana grande
As memórias invandiam seus pensamentos sem pedir licença. Estavam por toda a parte, em cada curva de seu cerebro. Ele estava por toda a parte. Estava sobre seu passado, no seu aniversário, todos os cômodos do seu apartamento, sobre toda aquela maldita cidade e em detalhes do seu trabalho. Tudo o que concebia era que não havia uma parte do que existia hoje de si que Sirius não estivesse envolvido, e era impossível que se desvencilhasse por completo. O amor que sentia era forte demais para ser quebrado e guardado em um lugar que ela não tivesse acesso. Em suas noites acordada, havia chego a conclusão de que se resumia ao que sentia; que a intensidade de seus sentimentos era tamanha, que era incapaz de não ter se tornado o amor enérgico, enfático e vigoroso. Logo, era impossível que em certo momento também não tivesse se tornado tristeza, vazio e melancolia.
Se sentou no chão, com as costas apoiadas na cama e a janela iluminando tudo ao seu redor. Pensava que tudo o que havia lhe restado eram memórias de momentos que haviam vivido juntos, e por um momento Kennedy desejou que não se lembrasse de nenhuma delas. Seria mais fácil. Mas nada no que se dizia a respeito dos dois era fácil e ela deveria saber disso.