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marcel podia não se importar com muita coisa, mas se importava em fazer bem seu trabalho e isso incluía monitorar pacientes que considerava mais necessitados que outros — sabia dos perigos de uma pancada na cabeça, então era óbvio que continuaria ali pela próxima hora, pelo menos até ter certeza de que a outra estava bem o suficiente para ser deixada em paz. com um pequeno rádio preso na cintura, já havia deixado uma das enfermeiras a postos para caso precisasse voltar à enfermaria. “ café é algo que nunca nego. “ assentiu com o rosto, observando-a. as orbes passeavam pelos olhos alheios, pelas orelhas, pelos movimentos que ela fazia e a forma que respondia às suas frases. se norah precisasse de intervenção, marcel estaria pronto para oferecer. “ dizem que a forma que você prepara o café diz muito sobre a sua personalidade. “ começou, sem uma real intenção de terminar, apenas queria testar a formulação de frases feitas por ela. “ como gosta do seu? açúcar? creme? “
precisava admitir que era péssimo tentando confortar pessoas, apesar de trabalhar como médico — poderia ser irônico, mas em situações como aquelas, marcel não sabia o que fazer. um suspiro fora dado, discreto, ao tocar no ombro do companheiro de trabalho. “ não vamos conseguir salvar a todos. “ uma frase realista, até cruel, mas que precisava ser dita. “ venha. “ o guiava pela sala, até que pudesse alcançar a pia e ajudá-lo a limpar as mãos. “ é difícil, doloroso… beira a tortura. eu sei. mas tenho certeza que mais nada poderia ser feito e é melhor morrer nos braços de alguém que se importa do que morrer sozinha. ou ser transformada antes disso. “
organizava pequenos kits de primeiro socorros com os materiais resgatados no último saque para agilizar o trabalho das enfermeiras, separando soro, gaze, algodão e algumas pomadas. o tom de voz, ao contrário do usado pela mulher, era calmo e distante porque não importava o quanto a outra gritasse, marcel não mudaria de ideia — já tinha perdido todos os que mais importavam para si, toda a descrição da tal pessoa sozinha não lhe comovia em nada. “ o tempo que você está gastando teimando comigo, seria o tempo de trazer ambas para cá. “ sequer a olhava, estava ocupado demais verificando a quantidade de luvas para que pudesse informar aos superiores e, assim, pudessem começar o racionamento de material descartável. “ eu sou o único médico disponível para uma comunidade com mais de duas mil pessoas pelas próximas vinte e quatro horas, edwards. não sei se você entende o peso que é colocar a minha vida em risco. “ não era o único médico de jackson, mas com certeza era um dos únicos, junto à evangeline, que trabalhava secretamente em uma cura para os fungos. perdê-lo, naquele momento, significava perder não só conhecimento e mão de obra, mas também esperança. “ a sua soberba e autoritarismo não vão me convencer a nada. ou você traz as duas, ou a nossa conversa termina aqui. “
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"Que droga!" Apesar de choramingar sem muita emoção, até mesmo forçado se assim poderia considerar, Bart carregava consigo uma garrafinha cheia de café. O líquido não contribuía muito com sua pouca sanidade mental, mas, certamente, lhe aquecia o corpo, e entre cuidar da cabeça e cuidar do físico... Bom, essa era uma resposta bem que óbvia. "Agora quer dizer que temos que poupar o uso do leite? Isso com certeza vai desgraçar meu dia." Como se seu humor por si só já não fosse desgracento o suficiente... "Vai me dizer que você não fica triste por ter que ser mais cuidadoso agora ao tomar um café quente com leite nesse frio?" Olhou a outrem com a cabeça inclinada e cenho franzido em fúria notável, ainda que fosse parte de seu teatro pessoal para compreender a opinião alheia.
* ou, se preferir, abaixo do readmore existem outras opções de starters fechados!
marcel aproveitava os raios solares da manhã, sentado num banco qualquer fora da enfermaria do assentamento conforme esperava pelo seu horário de serviço. estava frio até demais então qualquer oportunidade que tivesse de aquecer o corpo, aproveitaria. os olhos, que até então estavam fechados, só se abriram quando uma voz se fez presente — não esperava companhia, não tão cedo. “ não gosto de leite. “ a resposta veio simples, deixando claro que não conseguia se identificar com nada que o outro dizia. era sobre o incêndio da fazenda? era com os laticínios que as pessoas se importavam, afinal? no fim, a futilidade lhe fez se sentir um pouco melhor por também não estar de luto. “ leite de soja e leite de inhame ainda são uma possibilidade, tem produção de ambos não muito longe daqui. “
Cemitério, 10:43
Seus olhos não tinham um único foco. Ficavam alternando entre várias coisas, mas na maior parte do tempo acomodava-se pouco abaixo da altura dos mesmos. Sentava sobre uma tumba, o queixo apoiando dos dedos. Não sabia se aquela era a tumba do falecido ou de um outro azarado aleatório, mas não importava. Os pensamentos não eram sobre isso, sequer estavam em Jackson.
o cemitério do assentamento não era bem o local favorito de marcel, mas pareceu desrespeitoso demais não comparecer ao funeral dos marshall — não era tão próximo da família e apesar de não muito se importar com as mortes à sua volta, era sempre uma pena quando precisava se despedir de pessoas que até então vinham sendo tão cooperativas para o assentamento. “ você os conhecia? “ questionou o homem ao lado, cruzando os braços e se permitindo observar os moradores ali presentes. as expressões eram diversas, mas não precisava de muito pra perceber que eram todas negativas.
❛ do you want to talk about it ? ❜
marcel se agarrava ao trabalho pois entendia que aquela era a única coisa que não poderia perder para os infectados, então raramente era visto bebendo pelas ruas de jackson — o fato acontecia em situações muito específicas, quando estar sóbrio se tornava inviável demais. sabia que estaria de plantão no dia seguinte, mas o fato não parecia importar quando o líquido do copo era bebido em apenas uma golada. estava tão perdido em seus próprios pensamentos que não notou a companhia do colega de trabalho, apenas o fez quando ouviu a voz do mesmo. “ não. “ uma resposta simples, só não tão fugitiva quanto os olhos do polonês que sequer os encarava. como poderia dizer que se a esposa estivesse viva, estariam completando mais um aniversário de casamento? todos os anos, naquele mesmo dia, era como se o coração de marcel fosse dilacerado um pouco mais. “ mas se quiser beber comigo, aceito companhia. “
“Is that a pistol in your pocket or are you just happy to see me?”
talvez thomas fosse o único capaz de fazer marcel rir no meio de um expediente de trabalho — era uma das poucas pessoas que ainda tinha senso de humor, mesmo depois de ter tido uma pequena amostra do que era o mundo antes daquela pandemia e enfrentado o caos dos infectados cedo demais. no fim, conseguia se identificar com o loiro e, às vezes, parecia até que estava encarando seus traumas no espelho. “ bom, essa é uma resposta que você nunca vai descobrir. “ contribuiu com a brincadeira, com uma leveza que não o pertencia, e então se permitiu dar alguns leves tapas nos ombros do colega de trabalho. “ hoje foi dia de saque, temos pessoas machucadas na outra ala. “ apontou para a ala em questão com uma das mãos enquanto procurava as luvas e agulhas com a outra. “ se prepare para distribuir suturas. “
“ how did you get this scar? ”
o questionamento fez com que marcel sorrisse irônico, quase imperceptível, ao se recordar de como a cicatriz passou a fazer parte de seu corpo. diferente do esperado, não a havia conseguido em uma grande fuga ou em prol da própria sobrevivência, pelo contrário — não era uma boa lembrança e muito menos uma boa história e, por isso, preferiu não se prolongar nas memórias de quando a vida não tinha qualquer sentido. virou-se em direção à paciente e então suspirou, tentando retomar o controle da mente. “ parece que estou aqui há bastante tempo, mas são só cinco anos. e, bem… eu tenho quarenta. ” não era uma resposta direta, sabia, mas era impossível não olhar pro passado com um gosto agridoce na boca. nos mesmos anos em que havia conseguido conhecer o amor de sua vida e ter a possibilidade de se tornar pai, também a havia perdido junto a criança que nem sequer chegou a nascer. agora, com as mãos devidamente higienizadas, retirava o curativo de um dos ombros da mulher para que pudesse inspecionar a área e, talvez, suspender os remédios receitados. “ os anos fora do assentamento não foram os mais fáceis e essa é só uma das amostras disso. ”
𓍢 ˙ ☆ ヽ ASK GAME ━━ marcel & laelynn .
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Prodigal Son 1.09 pied-à-terre
Susan Sontag, As Consciousness Is Harnessed to Flesh
“What are we made of but hunger and rage?”
— Anne Carson, excerpt of To Compostela
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↳ 1x01 pilot (originally aired january 21, 2021)