╾ what brings opponents together.
@facadeprince
Não passara despercebido a seus olhos o crescente fluxo de homens de Roma para a corte belonesa. Sua presença parecia agitar o local, impossibilitando que fosse ignorada, no entanto sua motivação permanecia-lhe um mistério. Não se recordava de nenhum importante feriado cristão que se aproximasse e todos a quem perguntasse sobre evento similar respondiam-lhe com uma negativa. Assim, persistia em sua mente a ideia de que aquelas visitas eram despropositadas, muito embora o desconforto que a arrebatava quando sob os olhares de qualquer clérigo ╾ ou, pior ainda, de qualquer nobre na companhia de um ╾ soava como seu instinto tentando alertá-la de algo diferente. Pouco a pouco, porém, começava a aceitar que, em realidade, estavam ali em uma espécie de missão evangelizadora, e o motivo… era seu povo.
Já era fato conhecido que a Igreja Católica não recebera bem a notícia da conversão de Kaaj. Ainda assim, Selimiye relutava em acreditar que despenderiam tamanhos esforços contra uma situação tão inofensiva. Não era como se nunca antes muçulmanos houvessem habitado em reinos cristãos ou contribuído para com os mesmos afinal, e Mihail apresentava-se para o público como católico, o que reforçava a permanência dos laços com a religião. Apesar da fé que observava em segredo, de que ela tinha pleno conhecimento, era a imagem que realmente importava para alguém em uma posição de poder. Tivera esperança de que tal imagem serviria para apaziguar os ânimos de Roma, mas estava claro que se enganara
Aferrara-se, então, à crença de que os modos pacíficos de seu povo evitaria atrito e dissuadiria-os de tentar expulsá-los dali; quiçá seria suficiente até mesmo para fazê-los considerar que a convivência poderia ser efetivamente estabelecida também nas terras da Falastina. Daria tempo ao tempo; muito havia mudado em muito pouco dele.
Não obstante, pouco depois vira-se tentando entreouvir a conversa de um cardeal com um conselheiro, pasma com o que conseguira entender. Mesmo assim, não conseguia deixar de ouvir; havia algo unicamente revelador em conversas que não supunham espectadores. Ali, conseguia testemunhar a hostilidade presente mesmo na língua daquele que se decretava representante da palavra de Jesus. A pregação de que os muçulmanos destruiriam Belônia e o resto da Europa se nada fosse feito, que Deus tinha uma punição guardada para os infiéis e aqueles que os defendiam. Que Kaaj ardia nos fogos do inferno e seu filho era demasiado frouxo para fazer jus à coroa em sua cabeça.
Quando o som de passos se afastando fez-se ouvir, Selimiye já estava inquieta. Não gostava de conflitos, mas como poderia tolerar que tais coisas fossem ditas sem questionamento? Queria mudanças, queria firmar as verdades que seu marido trata de defender, e não o conseguiria baixando a cabeça e calando-se.
Rompeu com sua hesitação para caminhar até o cardeal que ficara para trás, saindo das sombras em que se ocultara.
╾ Vossa Eminência! ╾ chamou. Os olhos foram ao chão, mas tratou de erguê-los. ╾ Minhas sinceras desculpas, mas não pude deixar de escutar alguns de seus comentários com Vossa Alteza e sinto a profunda necessidade esclarecer algumas inverdades… ╾ a voz do homem era rouca e carregava uma pitada de condescendência ╾ ...quem sou eu? Ah, perdão. Sou Selimiye, a segunda esposa do falecido rei Kaaj… ╾ um sorriso forçado na tentativa de ocultar o próprio desconforto ╾ ...não, não concubina. Esposa. Ele se converteu, como já deve saber… é a verdade ╾ inspirou profundamente para manter a compostura. Ay Allah, queria falar! ╾ Não creio que Deus tenha pelo que perdoá-lo, nem que ele estivesse tentando enfraquecer a Igreja e a fé cristã ╾ lábios comprimidos. ╾ Não, por favor, tem de entender que nossa única intenção é o cessar dos confrontos e a paz entre as religiões! Esse é o lar de minhas crianças, Eminência… por favor, apenas me ouça! ╾ sua voz elevou-se por si só, uma mudança singela, mas notável, surpreendendo a ambos. Ao menos teve êxito em silenciar o outro, embora o rosto dele denotasse desgosto que sequer tentava disfarçar-se. Expirou, recuperando alguma da calmaria antes de murmurar algum agradecimento. Certo, supunha que aquela era sua chance.










