"no final então só sobram os fortes, o que lutaram até o fim. os fracos não tem vez. as marcas do passado se tornam apenas lembranças de um mundo infeliz, que nunca te deixam de fato. na guerra civil você ganha e perde, em medidas diferentes, e é ai que está toda a diferença."
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“Kyle!” Sarah, uma de suas associadas o cumprimentou, quando ele entrou na sala de reuniões. “É tão bom ver você aqui!” ela parecia genuinamente feliz por ele. Todos ali estavam.
“É bom estar aqui” ele disse, abrindo um meio sorriso, mais por obrigação do que por vontade.
Ele tinha finalmente voltado a trabalhar. Faziam quase dois anos que ele tinha herdado a companhia de seu pai, e esses tinham sido dois dos mais complicados anos de sua vida. Agora tudo estava voltando a se acalmar.
Uma nova rotina se instalava. Café quente com uma despedida frívola pela manhã, um almoço de negócios com um comprimido depois, e uma noite leve com companhia para abraçar. Era isso o que ele vivia numa escala diária. Os rostos mudavam, mas tudo era sempre o mesmo.
Os poucos amigos que tinha eram todos de alguma forma relacionados ao trabalho. Então as visitas ao bar durante a noite sempre tinham caráter profissional. Mark, Evan e Julie eram os únicos a se manterem ao lado dele. Mas eles também tinham os seus problemas, por isso o compreendiam.
Julie era a que o protegia do mundo. Também o contato número um no seu celular, e cuidava de seus colapsos mentais. Ela tinha sido sua secretária, mas se demitiu. Agora era uma jornalista de moda bem sucedida. Kyle via nela a figura materna que sempre quis ter, mas nunca conheceu. Ela cumpria o papel com destreza, mesmo que envolvesse ligações durante o dia para saber como ele estava, nos seus piores dias.
Evan era a força que lhe colocava de pé todos os dias. Ele era capaz de fazer Kyle sorrir em praticamente qualquer situação. Era um dom que ele colocava em prática sempre que podia. Evan era seu assiste, e responsável por toda a sua vida. Nunca guardou segredos dele, nem nunca pretendia. Ele era o único que sabia toda a sua história. Inclusive sobre o acampamento.
Mark era a voz da razão. Sempre aconselhando sabiamente, tanto na vida profissional como na pessoal. Ele era capaz de fazer qualquer situação positiva, e só os deuses sabiam como Kyle precisava de alguém assim. Todos achavam que eles eram amantes. Não se consideravam assim. Muitas vezes quando Mark aparecia no apartamento do amigo, eles passavam horas abraçados no sofá, sem dizer nada. As vezes trocavam beijo infantis, que nada significavam.
Assim ele vivia aos poucos, tentando conciliar sua condição mental com seu passado turbulento e um futuro promissor. Muitas vezes isso era demais, e ele acabava jogado no chão da sala, chorando. Ele já não gritava mais. Mas sempre tinha alguém ao seu lado para lhe botar de pé. E aos poucos, ele foi se reconstruindo, firmado em fundações mais fixas que as que ele tinha conhecido em toda sua vida.
Mas tudo está bem. Tudo está calmo agora. Ele tem o seu próprio tempo.
"mesmo que o tempo se finde enfim, e levando a glória consigo, ficarão ainda as memórias do cárcere, a lembrança do medo e o sentimento da dor, porque estes são mais que conceitos passageiros para o seu auto engrandecimento; são as marcas de sua inferioridade perante os outros"
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Ele não conseguia mais encarar aquela parede verde descascando. Já era possível contar quantas rachaduras ele conseguia ver em esforço. As palavras da psicóloga faziam pouco sentido em sua cabeça, eram mais como uma junção de expressões significados, que ele ignorava prontamente. Ele não queria mais ouvir. Não iria mais ouvir. E ainda assim ela continuava falando. Por um momento ele parou para se perguntar o que ele estava fazendo ali. Não sabia dizer. Geralmente isso era um péssimo sinal.
“Kyle, você está me ouvindo?” ela perguntou, encarando ele.
“Preferia que não estivesse” respondeu de forma rude. Ultimamente era muito comum essa forma de tratamento. Ninguém sabia mais o que era o educado rapaz que uma vez habitou esse mesmo corpo. Agora tudo que restavam era uma dúzia de palavras más e um casco vazio.
Era a terceira vez naquela semana que ele ia ao consultório da psicóloga. Ele tinha saído recentemente de uma instituição, essa era sua terceira vez. Seu pai mal olhava para ele. Ele tinha vergonha do filho, e isso só servia para alimentar ainda mais a fúria do rapaz. Não foi nenhuma surpresa o dia em que Kyle o atacou. Depois disso, clínicas e mais clínicas, nenhuma podia realmente descobrir qual era o problema dele.
Anos de mentira e abandono ele repetia para si mesmo, cada vez que perguntavam o que o deixava tão irritado. Nenhum psiquiatra compreenderia. Nenhum fazia parte de seu mundo. Ele já tinha perdido as esperanças. Tudo que lhe restava agora era esse resto de vida, com um resquício de sanidade, mantida por remédios controlados. Era tudo que ele conhecia agora.
Os médicos prometeram uma vida normal, assim que ele se estabilizasse. Mas isso nunca tinha chegado. Cada vez que ele se acostumava com um remédio, um novo efeito colateral o atingia, piorando cada vez mais o seu estado. Ele não sabia o que era ser normal. Nunca soubera.
O problema atual era depressão. Depois do sétimo psiquiatra diferente, ele tinha finalmente encontrado alguém com quem ele se encaixava. Agora ele sofria a tortura da experimentação, usando seu corpo como cobaia, testando o que lhe deixaria melhor. E a cada falha os restos de suas esperanças se diminuíam ainda mais.
Ele já tinha perdido a muito tempo a conta de quantos remédios ele tomava. Não se importava mais com isso. Na verdade ele não se importava com mais nada.
“O que você tem vontade de fazer agora, Kyle?” a psiquiatra perguntou, quando viu ele raspando o braço da cadeira com as unhas, o que ele tinha aprendido a fazer para conter a raiva.
“Gritar” ele disse entre dentes “Explodir, morrer, acabar com tudo isso” ele disse, mirando o chão, soando raivoso “E ao mesmo tempo, nada”
“Então faça” ela encorajou.
As palavras dela ecoaram em sua mente, indo pouco a pouco, chegando a parte mais funda dele. Numa explosão de fúria ele gritou. Gritou mais e mais alto. Não tinha mais fôlego, não tinha mais cordas vocais, mas ainda assim gritava. Jogou a cabeça para trás, gritando em direção ao teto. Segurou firme nos braços da cadeira, como se isso fosse lhe dar mais força. E gritou. Qualquer pessoa naquele prédio poderia ouvir o seu clamor por ajuda. Ele não dizia nenhuma palavra específica, apenas um grito gutural. A dor era palpável.
As lágrimas vieram logo em seguida.
Elas tomaram conta de sua dor, e o acalmaram. Ele se silenciou enquanto as lágrimas lhe lavavam o rosto.
“Você se sente melhor?” ela perguntou, olhando-o por cima dos óculos de aro fino.
“Não” ele respondeu, entre soluços, secando os olhos “Dói tanto” sua mão foi em direção ao peito, apertando a camisa com força.
“O que dói?”
“Tudo” ele suspirou antes de cair em silêncio outra vez.
Havia momentos em que ele parecia firme e seguro, mas outros, como esse, o deixavam mais próximo de uma criança. Ele não sabia mais o que fazer.
“Eu vou te ajudar” ela prometeu.
Todos eles dizem isso ele pensou, mas continuou calado.
"porque mesmo depois de os monstros derrotados, as batalhas ganhas e o bem vencedor, ainda sobram feridas a serem cuidadas e ossos a serem consertados. mas as cicatrizes são as que duram eternamente, para sempre marcando, não a glória da vitória, mas a dor da derrota."
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(flashfoward)
Ele estava trancado no quarto pela sexta hora consecutiva. As sombras na parede lembravam de coisas que ele queria esquecer. Ele não aguentava mais.
Os gritos escapavam de sua garganta, preenchendo o vazio do quarto quase escuro. Ninguém entraria ali. Ninguém tinha coragem.
Ele olhava em volta, e as lágrimas desciam furiosamente pelo seu rosto. Os pés impacientes batiam no chão, fazendo barulho.
Quando mais ele tentava não ver a similaridade entre as sombras e o seu passado mais claras elas ficavam. Ele via raios de sol e relâmpagos brilhantes, pombas voando acima de tudo.
Se sentou no chão outra vez.
Fechou os olhos tentando se acalmar.
Ouviu uma batida na porta, com dois gritos ele já estava longe.
E mais uma vez a escuridão lhe consumia por dentro.
Ele não tinha nenhuma opção a não ser se deixar ser engolido por ela. Caiu no chão, de costas, tremendo, chorando, gemendo. E mais sozinho do que nunca.
Eu não tinha a menor ideia de como isso estava ocorrendo. Não era um especialista em morte. Era a minha primeira vez. Depois que meu corpo tinha morrido, eu comecei a ver tudo de um ponto de vista alheio, olhando tudo a minha volta, mas ninguém me via. Só os deuses sabem quanto tempo eu fiquei gritando até alguém ouvir. Ou quanto tempo eu fiquei procurando alguém que pudesse me ver. Eu entendi, tarde demais, que não era assim. Que eu tinha morrido. Tinha acabado.
Eu não conseguia encontrar o caminho para o submundo. Não literalmente. Eu sabia como chegar lá, eu só não estava pronto ainda. Cada dia eu mudava de ideia. Eu queria ficar para sempre naquele mundo, vagando lentamente sob tudo e todos, alheio a preocupações e sendo parte de todas as histórias, mesmo que ninguém soubesse que eu estava vendo.
Aghata foi a primeira quem eu fui procurar. Mesmo depois de tantos anos. Ou nem tantos assim. Ela ainda estava na cidade, e não encontrei nenhum problema em encontrá-la. Foi fácil me aproximar. Não havia nada que me impedisse. Fiquei ao seu lado, por mais tempo do que eu podia contar. Só dois dias depois de minha morte ela recebeu minha notícia. Não sei de quem. Não fiquei para ver sua reação. Não poderia aguentar ver ela não reagir a minha própria morte. Eu tinha negado por muitos anos, mas eu ainda a amava.
Procurei qualquer um dos meus irmãos, éramos tantos antigamente, mas a maioria deles estava longe demais. E alguns outros não se importavam, eu acho. Não podia culpá-los. Era uma cosia normal a se aconteccer. Eu só esperava que eles tivessem ouvido a notícia, e que, pelo menos no meio da noite, antes de domir, eles fizessem uma prece silenciosa para mim. Não ia mudar nada, mas ia fazer toda a diferença para mim.
No dia do funeral, eu vi uma procissão de rostos conhecidos. Eu fiquei perto da porta, como se tivesse os recebendo de braços abertos. Mas eles não podiam sentir meu abraço. Eu já tinha aceitado essa parte. Não podia dizer que todos eles erma meus amigos pessoais. A maioria eram contatos profissionais, e o muitos dos outros, íntimos demais para sermos amigos. Mas eles eram a razão que eu não tinha ficado sozinho do fim das contas. Eu tinha que ser grato a eles. Eu podia ver a dor no rosto de alguns deles; eu sabia que em uns era fingimento, mas ainda assim eles estavam ali. Pelo menos eu não ia ser esquecido.
O funeral foi uma cerimônia mortal comum. Com direito a um pastor falando e tudo mais. “Pelo menos no fim, eu sou normal” disse, mas sabia que ninguém poderia ouvir. Amy foi a primeira a falar. Eu senti meu coração se aquecer quando ela tomou o microfone, e falou das memórias felizes. Elas eram poucas e preciosas. Eu era grato por elas. Aghata foi logo depois. Percebi Eric sentado. Me aproximei dele, toquei seu ombro, finalmente compreendendo. Ela merecia ele afinal. Não aguentei ouvir o que ela dizia. Não sabia se ia dizer sobre o tempo que namoramos, ou sobre como eu era um monstro insensível. De qualquer forma, fiquei olhando-a, a distância. O próximo foi Jake, um colega da faculdade. Ele falou dos momentos suavemente embaraçosos do meu passado, e eu ri de leve. Era bom se lembrar desse tempo. O último a falar foi Mark. Um dos meus únicos e mais recentes amigos. Quando ele chorou, parei ao seu lado, certo que ele não poderia me sentir, e coloquei meu braço estava sobre seus ombros. Ele olhou pela janela, procurando evitar ainda mais lágrimas. Eu estava no meio do caminho, mas ele não me via. Juntei meu lábios aos seus,como tinha feito muitas vezes antes. Mas ele não sorriu como das outras. Pensei ter ver um leve brilho em seus olhos, como se por um momento ele estivesse me vendo. Estava errado. Ninguém me via.
Olhei do altar enquanto todos abaixaram suas cabeças e fizeram um minutode silêncio por mim. Caminhei ao lado do caixão até a cova. Fiquei ao lado dele enquanto jogavam flores e terra sobre meu corpo. Algumas lágrimas, não muitas, regaram a terra recém remexida, assim que tudo acabou. Olhei enquanto as pessoas de pretose distanciavam, através das longas colinas do cemitério. Caminhei em silêncio, e sozinho, cruzando arbustos e outras lápides. Deixei para trás a minha própia lápide e caminhei para seguir em frente. Era o tempo afinal. Tudo que eu tinha para ver, já tinha visto. Fui adiante, sentindo que finalmente estava servindo ao meu propósito.
Não me lembro de ter perguntado como ele estava se sentindo, mas ignorei, sabia que ele precisava dividir isto com alguém. ”Ya, já é um progresso.” Dei um sorriso de canto. ”Aconselho a tentar ao máximo não pensar nela. O pior de tudo é que foi ela que terminou, não é? Então, lamento dizer, mas não tem volta.”
Eu sorri, quando ele tentou me animar. Era inútil. Eu estava num poço fundo demais para me levantar assim. "Não tem como, cara" respondi. Depois de alguns segundo de silêncio completei "e o pior é que eu realmente amava ela...". Eu estava sendo completamente honesto com um cara com quem eu mal tinha falado. Minha vida estava realmente virando de ponta cabeça.
Não me surpreendi muito com que ele disse. Era raro ver os dois juntos e bem… Aghata parecia muito mais interessada em olhar para um certo filho de… ”Sinto muito Kyle, sei como você deve estar se sentindo.” Falei colocando a toalha em meu ombro. Não sabia oque dizer, falar palavras de consolo, não ajudaria em nada, eu sabia disto por experiencia própria. ”Já passou da fase de ouvir musica depressiva?” Perguntei.
Ele soava um tanto triste. Pelo menos alguém parecia não estar feliz as minhas custas. "Péssimo. Estou me sentindo péssimo" disse, mesmo sem ele ter perguntado. Eu precisava falar com alguém, pelo menos. "Eu estou entrando nessa fase agora. Pelo menos eu já pulei a de tentar suicídio" comentei, tentando forçar uma risada.
Se fosse fácil controlar, nossas vidas seriam infinitamente mais fácil, não acha? As vezes seria melhor deixar tudo ir embora e UUUUGH matar todo mundo por causa de ciúme.
Nota mental: ciúme e boas habilidades de luta não se dão bem.
Eu ainda estava com a sunga preta molhada e a toalha em minhas mãos, secando meus cabelos e atraindo olhares de alguns campistas, mas não me importei. Estava focado em ir para o meu chalé e tomar um bom banho, acho que dormir agora cairia muito bem, depois de nadar por uma tarde inteira, mas lógico, meus planos tinham que ser destruídos por alguém. ”Oque aconteceu para você estar melhorando?” Questionei, estava meio que por fora das coisas.
Ele claramente não sabia do que estava acontecendo. Ele só perdia uma boa dose de drama adolescente... "Eu e a Aghs, terminamos..." respondi, hesitante, focando no chão. "E dessa vez foi para valer" completei, olhando para cima, para encarar ele. "E isso acabou comigo, cara..." completei; e o pior é que eu nem conseguia mais chorar. Eu só ficava extremamente triste por causa de tudo isso.
Eu estava sentado na escada do chalé, quando ele passou; como realmente não tinha nada melhor para fazer, além do mais eu não pretendia frequentar nenhuma das aulas do acampamento por pelo menos um bom período, puxei assunto. "Eu quis dizer que eu estou melhorando" reformulei a frase, "Não sei até quando vou ficar nesse processo..." comentei, enterrando o rosto nas mãos.