O seu bater de asas é análogo à bomba que foi instalada em meu peito desde muito. Perco o fôlego até mesmo no simples direcionar de minha atenção à plumagem multicolorida que reveste seu frágil ser. Não consigo acompanhar o ritmo que engana a vista. És pequeno em sua simplicidade, nas características que fazem de ti mais um alguém cirandando por afeto como todos nós. Sim! Confesso eu, desejaria tê-lo entre meus dedos. Gostaria de acariciar sua estrutura carnavalesca como quem consegue tocar o sublime do belo e assim não mais te deixar escapar por aí ansiando por outros jardins. Somente por instantes esta seria uma realidade que afagaria aquele queimar por dentro, ou as esperanças que fazem de mim um eterno e modesto observador. Mas sei, és aventureiro do mundo. Levas contigo o dom de despertar encantamentos, não é mesmo? Foste presenteado com aquele arrebatamento contagiante que se consagra no simples focar dos olhos alheios para ti. Minha ave, colecionas paixões e este parece ser teu modesto hábito desde muito não intencional. Como poderia eu ansiar ser dono daquilo que é filho da natureza? Deixei no ontem este sentimento tão demasiadamente humano que sufoca não somente com o que de fato é amar, mas que esmaga egoisticamente com o presente que é nossa própria individualidade. Esta ao menos é a promessa que me faço a cada amanhecer marcado por sua lembrança instantânea, com a procura de sua silhueta na janela. Liberdade é poder pousar onde bem entender, assim como o afeto verdadeiro. Sei que necessita de tamanha seiva para trazer tranquilidade à aquele comichão enjaulado no seu inconsciente, para alimentar a personalidade e fama de espécie rara pelos céus. Como já quis aprender este tempo deveras acelerado, como ensaiei poder mostrar a ti que seria eu uma bela companhia entre vastos biomas coloridos da vida. Me perderia entre sua plumagem assim que conseguisses perceber que só tu me faz chegar a plena felicidade com seu querer, basta reparar nos digitares amorosos de tantas estações. Bates suas asas e este aqui não consegue pensar em outra coisa senão na brevidade do seu chegar. És sempre efêmero como visita de médico, passas batido a necessidade de fazer rodeios. Linda e assustadora é esta inconstância que nunca dá certeza que vai voltar. Sempre me é claro que novas espécies ao longe despertarão sua curiosidade e que te aventurarás sem nenhum sinal, nem tentativa de adeus. Certa também é a constatação de sua aura poligâmica. Assim, apertado fica meu sentir com o temor de tua própria natureza - deste espírito que parece jamais esquentar lugar e que nunca se contentaria com a lentidão enfadonha humana. Mas me diga, lindo beija-flor: seria eu digno de entrar em sua rotina sem a mínima tremura de te ver ir antes da primavera? És incógnita para meus sentimentos, a dualidade que fixa raízes na razão e na emoção. Aqui nasce também o meu temor de ti: é duro ser presa do que não estaciona. Não consigo eu desapegar desta fome de te ver planando entre as plantas, nem de um dia também poder ser pássaro para acompanhar-te por aí. Voe perto de minha casa no alto do morro do pantanal. Sei que a escuta não é um dos seus sentidos mais apurados, por isso mesmo escrevo na expectativa de seus olhos aqui se fixarem amanhã de manhã. Perceba o ultravioleta destas letras que também são doces como mel e te alimentam com seiva pra lá de nutritiva. Seu ninho um dia inspirou minha fé de aconchego, de me proteger destas recorrentes tormentas com cheiro de realidade. Poliniza este coração que anseia pelos dons que somente tua espécie pode ofertar, deixa o meu corpo se esquentar em tuas penas aveludadas. Basta tu marcar território. Minha vida é a zona ideal para que finalmente fixes lar e assim acasale com a paz que tanto te faria bem, com o sentir mais sincero que encontrarás em tuas jornadas. Não te ausentes como que na cédula de um real que ontem era minha única recordação de ti. Certamente podes farejar as flores que cultivo comigo, ali alegremente acompanhadas pelas borboletas no estômago que se proliferam a cada surgir teu no horizonte. Com o tempo aprendi que precisaria cria meu próprio método para ao menos receber tua visita. Sendo assim, venhas. Encoste teu bico na minha boca e também me suspenda no ar, me retire desta tortuosa realidade.