ESCONDIDO (Lana Machado)
Inventaram que precisava ser escondido porque se descobriram assim.
Se conheceram ainda pequenos: tinham um primo muito próximo em comum, mas ela era por parte do pai, e ele da mãe. Cresceram se vendo em datas comemorativas; no Fim de Ano era sempre festa na piscina, na casa dos tios ricos (os pais do primo).
Teve um tempo, depois dos dezoito anos, que se esbarraram na ducha, sozinhos no cubículo escurinho. Ela já estava de biquíni, pelinhos da barriga se arrepiando; ele só de calção, peitoral nu definido de academia e dieta com salada, frango e batata doce. Foi o que ele disse quando seu abdômen foi cutucado, e ela fez careta porque odiava batata doce. A normal era muito melhor. Ele problematizou o termo "normal". Ela revirou os olhos e quis sair do banheiro, mas esbarrou de novo no corpo dele e nele ficou.
Se pegaram forte debaixo da ducha e só não perderam a virgindade um com o outro porque ali não dava.
Mas perderam depois. Festa de aniversário do primo: família toda em volta do karaokê, e eles foram para o banheiro do andar de cima, onde não tinha ninguém.
Ele a sentou na pia, mais experiente; ela sorriu sem vergonha enquanto via tirar sua calcinha, menos tímida. Ele tinha uma camisinha guardada há tempos na carteira e a colocou, bem treinado. Ela pensou que ele já tinha feito antes e sentiu ciúme, mas esqueceu disso quando ele se inclinou sobre entre as suas pernas. "As mãos dele são de homem grosseiro", ela pensou vendo os dedos calejados subindo das panturrilhas às coxas e depois fazendo o contorno: o toque não era grosso, no entanto, era carinhoso em cada sensibilidade dela. "Você tá muito molhada. Posso...? Porque eu tô melado do mesmo jeito", ele perguntou antes. Ela só assentiu com a cabeça, ansiosa.
Perderam a virgindade um com o outro em cinco minutos. Durou pouco, né? Foi ele quem ficou paranoico. Então voltou para entre as coxas dela. Coxas macias e cheias de carne, o sabor dela derramado ali. Gozaram, ele de novo. "Isso precisa ficar só entre a gente", ela pediu depois. Ele concordou, a família encheria o saco se descobrisse.
Assim, no escondido, se fizeram até hoje. Agora estão os dois no quartinho da bagunça, perto da janela que dá para o muro. A família está toda no andar de cima, vendo o vídeo de casamento do primo.
Um de frente para o outro, muito perto, eles não querem desgrudar bocas nem mãos. Decidiram não transar hoje, então o toque está apenas em cinturas, costas e peitos. Os dele têm pelos, o que a faz sorrir porque ele parece homem grosseiro, mas não tem a alma de um. Os dela são enormes, e mais de uma vez ele pensou que ama beijá-los, ama agarrar os bicos, ama escutar o som que ela faz enquanto implora por mais disso. E vai amando todo o resto que vem depois...
"Tô com saudade", ele diz entre os beijos.
"A gente fez no meio da semana", ela responde.
"Não é isso", ele descola os lábios.
"Saudade do quê, então?".
"De querer escondido... Porque agora te quero primeiro, em qualquer lugar".
Ficam em silêncio. Ele só tinha dito isso porque sabia que ela sentia o mesmo, mas ela não sabia que o queria tanto até este momento.
"Se não for escondido, vai ser de que jeito lá fora...?", ela pergunta, incerta.
Ele cansa de perder tempo no escuro, de perder toque com as mãos e abraça o peito grande com os dedos calejados:
"Vai ser a gente".
















