O brilho que saía da janela do que outrora fora o quarto de Cameron deixou o rapaz curioso acerca do que acontecia ali. Os olhos escuros atentamente buscavam compreender o que ali ocorria e o imaginário do rapaz fizera com que acreditasse no retorno de Facilier através de sua mágica. Pintou um quadro no qual Lance Duval e Miranda De Vil tambem retomaram, entretando, ao encaminhar-se para os aposentos daquele que considerava como um irmão — embora também fosse possível dizer que ele estava correndo — nada encontrara. Decepcionado, mas ainda esperançoso, invadiu os aposentos de De Vil. Seus semblante que ainda denotava uma pequena animação caiu completamente, mas o brilho não se apagava. Ele desistiu de encará-lo, seus dedos esquadrinharam todo o local que Miranda utilizava para dormir, sentindo o aperto em seu peito intensificar. Na cama alheia ele cochilou até que o brilho o despertou. Ora, quem estava fazendo aquilo?! Ao abrir os olhos, retornou para seus aposentos, sendo novamente pego pelo brilho incessante no quarto vazio de Facilier. Tomado pela curiosidade, utilizou-se de sua flauta para chegar sem ser visto pelos outros estudantes daquela casa desgostosa e, com muita dificuldade, abriu a porta do quarto alheio. Parece que qualquer encantamento não funcionava ali, portanto, precisou usar da força. Os olhos de Domhnall procuraram avidamente até que diante de si viu um espelho — ou metade de um inteiro.
O rapaz curioso brincou com o objeto que refletia sua face. Surpreendeu-se quando viu do outro lado a face entristecida da filha de Rumpelstiltskin que gritou com o que ocorrera, fazendo com que ele gritasse e o objeto voasse. Entretanto, ele era esperto; como seria capaz de ver o rosto alheio de forma tão concreta? Voltou sua atenção para o que se via, olhando para Maeve e ela também o olhando. Após compreender que aquele espelho era uma comunicação que outrora ela e o filho do Dr. Facilier utilizara para se comunicarem — e que te fato mostrava onde um e outro estavam naquele momento — tratou de pedir para falar com seus amigos rapidamente, assim como também desejou informações que a outra não poderia dar, já que se mantinha isolada. Era real. Uma discussão enquanto o flautista brandava para que ela passasse o objeto para Lance Duval, mas após um pequeno acordo entre ambos — a filha de Rumpelstiltskin nunca perderia a chance! —, ela foi até o filho de Gaston e lhe entregou o espelho. Assim que viu seu amigo, Domhnall riu com tamanho jubilo! ❛ LANCE! Você ainda está vivo! Eu não acredito que você ainda ‘tá vivo! Cara, o que aconteceu? Como você foi parar aí? Você nunca nem viveu em Forsaken! ❜ E mesmo através do espelho, sentia-se grato por ver a face de Duval. Era sua família! Mesmo que não compartilhasse com ele o mesmo sangue, o afeto era real.
Quando Maeve sugeriu que Lance contatasse seus amigos em Ethereal, ele imaginou que a bruxa estava perdendo a noção da realidade. Fora de Forsaken, todos comentavam a respeito da segurança da ilha, das barreiras mágicas e do controle de corvos e pessoas que passavam pela fronteira; dentro, havia escutado relatos melancólicos de como não havia esperança para aqueles que desejavam ver os moradores da livre Iraz novamente. Após tanta negação e tantas explosões de fúria, Lance vinha considerando suas opções: a) poderia procurar um emprego, talvez pudesse aproveitar o pouco que havia aprendido com seu avô para trabalhar como ferreiro — uma vez que não existiam florestas na ilha para continuar caçando —, conseguir um local para morar e se acostumar à nova realidade; b) outra alternativa, considerando a vida infeliz que levaria naquele local, seria se sacrificar no porto mais movimentado, terminando seus dias como uma espécie de mártir, após reclamar um pouco mais a respeito da opressão dos heróis, ou c) poderia continuar esperando por resgate ou um plano infalível que o tiraria da ilha, possivelmente precisando dormir no chão do quarto de Miranda por um bom tempo. Nenhuma delas o agradava. Lance não desejava morrer, mas também não suportava a ideia de nunca mais deixar Forsaken e/ou permitir que os danos causados pela reclusão o transformassem em alguém tão amargo quanto os vilões que lá moravam. Embora suas esperanças estivessem se esgotando, a expressão de Maeve ao entregar o espelho fez com que seu coração se acelerasse. Sentia sede de informações novas, ideias, qualquer coisa que o tirasse da rotina monótona de fugir e esperar por uma luz. Com as expectativas mais baixas do que nos dias anteriores, imaginava algo útil, mas não surpreendente; foi assim que seu queixo caiu quando viu o rosto de seu melhor amigo refletido no espelho. “DOMMIE, CARALHO!” gritou, eufórico. Maeve, no entanto, não partilhou de sua animação, repreendendo-o pela falta de discrição. Estavam afastados do movimento de Forsaken, em uma rua deserta e sem saída, contudo, a possibilidade de terem suas vidas ameaçadas não era nula. Lance respirou fundo e tentou controlar seu tom de voz. “Uns filhos da puta me enganaram me chamando para vir aqui fingindo que eram o Cameron! Devem ter sido os Beasts, aposta quanto?!” Claro, não culpava o famoso casal a Bela e a Fera por tudo que acontecia, porém, o filho deles era o único aluno de Ethereal com quem possuía uma inimizade concreta. O rei e a rainha de Miamax eram seus maiores suspeitos. “E até onde eu sei, ‘tá todo mundo sobrevivendo aqui. Eu ‘tô ficando com a Miranda." E então percebeu a ambiguidade em sua fala. “Quer dizer, na casa dela, de olho nela. Mina de brother pra mim é macho. Mas e aí? Você sabe o que está acontecendo? Se tem alguma chance de a gente voltar?”