Cara feia não o assustava. Vindas de seu noivo, então, não faziam mais o que diverti-lo e enchê-lo de vontade de cutucar ainda mais. No entanto, Miso não queria ser a pessoa a ficar pisando nos calos dele, por isso decidira que era o bastante por um dia. Mesmo que Deus fosse testemunha do arrepio que cortara sua pele, simplesmente por achar a mudança de comportamento ridiculamente atraente. Acabou assentindo em concordância com a resposta, porque estivera a vida toda no lado esquecido, na parte da história que o vencedor nunca se atreveria a contar. ━━ Crianças não deviam ter que ser corajosas ou valentes, nem nada disso. Eu acho. ━━ Era mais um pensamento alto do que qualquer outra coisa. Era por si, também, de certo modo. Mas muito mais porque vira Henry crescendo nas condições que crescera. Sabia da história dele e de alguns outros cujas infâncias foram igualmente desafortunadas e a ideia era perturbadora. Ainda mais quando pensava em todo o medo que sentia, mas não podia sentir. Era um tanto cruel que tivessem crescido daquela forma.
Miso sequer tinha pensado na ideia de North ser o pai da criança mencionada até a frase defensiva alcançá-lo, fazendo-o rir. ━━ Dessa daí, pelo menos, não é? Olha só, eu não gosto de surpresas, então se eu estiver aceitando o “pacote completo” sem saber, você vai estar em grandes problemas comigo. ━━ Disse, ainda sustentando um sorriso, que deixava claro que não estava mais que brincando com o mais velho. Contudo, por um instante ou dois, pegou-se pensando na ideia de ser padrasto de alguém e o coração falhou uma batida. A continuação da história, no entanto, fez com que um sorriso pequeno, mas satisfeito, aparecesse nos lábios rosados. Era bom saber que aquela mulher conquistara coisas boas em sua vida. ━━ Deve ter sido um saco vê-la com outro, mas as coisas não acontecem por acaso, não é? ━━ Miso realmente queria dizer “é que eu prefiro você comigo”, mas não. Ainda parecia triste e egoísta dizer aquele tipo de coisa, mesmo que fosse como se sentisse.
Uma vez mais, Miso assentiu em concordância. Podia aguentar um jantar semi-formal. Aquele de tipo de coisa existia? De todo jeito, parecia aceitável. Podia decorar o básico. Não queria que o outro passasse vergonha por sua causa, não em um dia tão alto no patamar de todo mundo. Quanto mais pensava em toda aquela história, mais nervoso se sentia. Não havia uma única parte sua que cogitava desistir, talvez adiar por alguns anos. Sua outra parte, no entanto, estava ansiando que tudo aquilo acabasse logo, que pudessem começar aquele casamento logo e ver no que ia dar. ━━ Para de se exibir.
Enquanto esperava pelo outro, Miso mordiscava o interior das bochechas. O coração já batia mais rápido e ele desejou que tivesse fumado mais um cigarro antes de ir para a cama. O que fazia com que se perguntasse se todo aquele nervosismo passaria um dia, com o casamento. E se acontecesse, como seria estar tão acostumado à presença dele que aquele tipo de reação não seria mais comum. Parecia bom e não tão bom ao mesmo tempo. Estava começando a gostar de como Nikolay o fazia se sentir. Mesmo que fosse como um adolescente que mal sabia o que fazer consigo mesmo quando ele estava por perto. Porque, ao vê-lo começar a despir-se, Miso simplesmente puxou o edredom de maneira a cobrir a cabeça, escondendo-se. E isso porque não conseguia a risada carregada de nervosismo.
Mas quando sentiu-o juntando-se a ele na cama, não hesitou em virar em sua direção. O braço passando por sua cintura em um meio abraço, ao que colocava a perna entre as dele, buscando pelo calor específico do interior de suas coxas. Então, escondeu o rosto em seu peito, aconchegando-se ali. Miso não estava acostumado a buscar conforto em outras pessoas. Enfiara na própria cabeça que não precisava daquele tipo de coisa, que não precisava buscar segurança em qualquer outra pessoa. Mas Evan precisava. Evan sempre quis que alguém o protegesse, que cuidasse dele. E, por isso, Miso nascera.
Desde que contara seu verdadeiro nome ao noivo, Miso sentia-se mais próximo da criança que tentava proteger com aquela persona. Era assustador pensar que ela ainda estava ali, que ainda estava buscando por coisas que achava que não podia ter. Seu aperto na cintura do mais velho apertou um pouco mais, inconscientemente. ━━ Se eu te pedisse para me foder até que eu esqueça meu nome, você faria isso? ━━ Perguntou de repente, sem se importar em erguer o rosto, mesmo que sua voz estivesse abafada por conta da posição. ━━ Agora?
Existam questões que deixavam-o bastante interessado sobre o seu noivo, também trazia o sentimento bizarro de que ambos não se conheciam tão bem assim, Miso não sabia muito de sua vida como ele não sabia sobre o mais novo, era importante ter essa percepção, assim como o respeito pelo tempo de cada um. North sabia que não tiveram tanto tempo assim, foi tudo rápido e intenso, apesar de ter demorado um pouco para acontecer, mas quando aconteceu, foi definitivo. Ouvir o comentário dele sobre crianças não serem corajosas e valentes faziam com que ele pensasse sobre o pouco que ouviu sobre ele, sobre a relação com sua mãe e também sobre as poucas pessoas que confiava, Miso era a imagem física de uma criança corajosa e valente, o resultado disso. “A minha missão nesse mundo é exatamente cuidar e proteger as crianças” Foi o seu jeito de dizer que ele tinha noção disso, mas também sentia-se vazio ao pensar que não pode fazer isso por ele.
Não conseguiu evitar o riso com o comentário dele, meneando a cabeça em negativa, lançando um olhar para ele com um sorriso gentil nos lábios. “Primeiro, eu sou gay, isso diz muito sobre essa questão. Segundo, eu e ela não tivemos uma história de amor, se é isso que está fantasiando nessa sua cabecinha” Deu um toque delicado na têmpora do mais novo, pressionando levemente. “Mas não significa que não posso ter um filho, talvez nesse mundo possa ser mais simples, se não tivesse o fator gay da história” Riu baixo. “Existe outro meio de criar uma vida, mas acho que podemos deixar essa conversa pra depois” Riu, acariciando a lateral de seu rosto, alimentando aquele lado curioso que ele tinha e já conhecia tão bem. “Não foi, eu realmente gostei, ela merecia uma história de verdade”
Para de se exibir, era engraçado ouvi-lo dizer isso depois que o próprio havia lhe entregado um segredo importante, North era o rei do natal, não era um título inventado, era a realidade e era óbvio que vinha junto com todas as regalias que um título daqueles poderia lhe ceder, nem mesmo falava sobre isso, mas era engraçado ver a sua reação diante de cada nova informação. E Miso realmente acreditava que não lhe trazia algum tipo de orgulho, desde o primeiro oi, o guardião parecia só viver do orgulho que aquele rapaz poderia lhe trazer, a facilidade que seus sorrisos surgiam e os olhos brilhando diante de cada conquista, no dia que ele mudou para o apartamento em que estavam, o sentimento veio assim como no dia que North contou quem ele era ao rapaz, era impossível não ter aquele sorriso e aquele olhar sobre Miso. E esse sentimento só fazia com que North ficasse ainda mais ansioso pelo casamento, pela união dos dois e a vida que teriam juntos.
E com esse pensamento, ele foi até o seu quarto, não conseguindo evitar o riso ao vê-lo se escondendo debaixo do edredom, ficando ainda mais satisfeito quando seus braços lhe envolveram a cintura, se posicionando de uma forma que os dois ficassem confortáveis e não precisasse se separar dele. E então ele se deu conta, naquele casulo íntimo que os mantinham longe do mundo, Miso não era mais o Miso e sempre achava aquilo tão encantador, como ele se transformava ao toque de seus dedos e de suas mãos grandes. Suspirando quando sentiu o aperto mais forte e levou a mão até a lateral de seu rosto, enquanto a outra buscava tirar a franja que lhe cobria os olhos, só para que pudesse vê-lo melhor. “Depende…” Respondeu em um tom baixo, como se os dois vivessem ainda em um segredo só deles. “Qual nome você quer esquecer? Miso ou Evan?” Brincou, roçando a ponta do nariz na pontinha redonda daquele nariz pequeno e adorável que adorava apertar quando o outro estava distraído, amava tudo naquele rosto, os olhos perfeitamente desenhados, os lábios médios, o nariz, a mandíbula… poderia ficar o dia inteiro admirando e beijando cada pequeno centímetro, só para ter o prazer de sentir o toque de seus lábios na pele macia. “Evan?” Chamou em um sussurro quando decidiu fazer aquilo que sua mente fantasiava, deixando um beijo na maçã de seu rosto, seguindo pela bochecha até chegar no queixo. “Miso?” Sorriu, mordiscando aquela parte e suspirando, enquanto deslizava a língua na pele branca porque sentiu um pouco do sabor que a pele tinha com uma mistura com o glacê que sujou a região mais cedo, assim como o canto de seus lábios. “Gostei do seu sabor com glacê, vou tentar mais vezes”