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@lecatliseur
Síndrome de Stendhal turned 7 today!
“Para o bom leitor, ler um livro significa ficar a conhecer a índole e o modo de pensar de um ser que lhe é estranho, procurar compreendê-lo, se possível, torná-lo seu amigo. Na leitura dos poetas, especialmente, aquilo que ficamos a conhecer não é decerto apenas um pequeno âmbito de pessoas e de factos mas, em primeiro lugar, o próprio poeta, o seu modo de viver e de ver, o seu temperamento, a sua fisionomia interior e, por fim, também a sua escrita, os seus meios artísticos, o ritmo dos seus pensamentos e da sua língua. Há quem, de um modo ou de outro, seja conquistado por um livro, quem comece a conhecer e a compreender o seu autor, quem entabule uma relação com o mesmo. Só a partir deste momento o livro começa a desenvolver sobre esse leitor o seu verdadeiro efeito. Por isso este último não irá cedê-lo nem esquecê-lo, irá, pelo contrário, conservá-lo ou seja, irá adquiri-lo, de modo a poder relê-lo, a poder reviver nesse mesmo livro, quando sentir necessidade disso. Quem compra com base nestes critérios, quem procura sempre para si próprio só aqueles livros cujo tom e cuja alma tenham conseguido tocar o seu coração, deixará bem cedo de devorar livros indiscriminadamente e sem um fim preciso e, em vez disso, com o decurso do tempo, irá reunir em seu redor um círculo de livros queridos e preciosos do qual saberá extrair alegria e conhecimento e que, em qualquer circunstância, lhe serão mais frutíferos do que abandonar-se desordenadamente à leitura casual e irreflectida de tudo aquilo que lhe caia entre as mãos.
Não existem cem ou mil “livros mais belos”; há, para cada individuo, uma escolha particular baseada naquilo que lhe é afim e compreensível, caro e precioso. Por isso, é impossível criar uma boa biblioteca sob encomenda; cada um de nós deve seguir as suas próprias exigências e preferências e criar, pouco a pouco, uma colecção de livros, da mesma forma que se criam amizades.”
Uma biblioteca da literatura universal, Hermann Hesse, 1907 a 1945.
“Ela escutava o filho com paciência, sabendo que certas causas frutificam em efeitos imprevistos e que um homem é obrigado, ao longo da vida, a nascer várias vezes, sem poder lançar mão de outro recurso que não seja o acaso, as confusões, os erros…
- Nunca é simples largar aquilo a que nos quisemos prender – (…)”
A gata, Colete, 1933.
“Ela e Peter podiam estar separados, durante centenas de anos; nunca lhe escrevera uma carta, e as dele eram secas, insípidas; mas de repente ocorria-lhe, o que é que ele diria se estivesse aqui comigo? – certos dias, certos locais, traziam-lhe de volta tranquilamente, sem a antiga amargura; era talvez essa a recompensa por ter amado as pessoas; (…) - regressavam sempre.”
Mrs. Dalloway, Virginia Woolf, 1925.
“A vida é um pequeno espaço de luz entre duas nostalgias. A nostalgia do que ainda não vivemos e a do que já não poderemos viver. E o momento exacto da acção é tão confuso, tão escorregadio e tão efémero, que o desperdiçamos olhando em volta, aturdidos.”
A carne, Rosa Montero, 2016.
“Enquanto as pessoas são mais ou menos novas e a partitura musical das suas vidas vai só nos primeiros compassos, podem compô-la em conjunto ou até trocar temas (…) mas, quando se conhecem numa idade mais madura, as suas partituras musicais já estão mais ou menos acabadas e cada palavra, cada objecto, tem um significado diferente na partitura de cada um.”
A insustentável leveza do ser, Milan Kundera, 1983.
ELES OUVEM DE NOVO CANÇÕES NAQUELE LUGAR
Eles ouvem canções naquele lugar, mas podia ser
numa espécie de refúgio, resguardo, qualquer beiral
que servisse de esconderijo – não há versos no céu
onde poisou o risco do nevoeiro. Em breve um
deles adormecerá primeiro do que o outro, a pele
adere à pele como se supunha que ia acontecer; juncos
à beira do caminho compõem o retrato, e recordações
sem sexo, apenas com música, abraços que deixam
uma marca ou nem isso. O romance deste Verão é
o romance da vida inteira, podia ter sido vivido antes
e depois de cada um ter escolhido a sua maneira de
envelhecer. Eles amam-se; é uma suspeita confirmada
pela música. Observam as nuvens das borboletas
nocturnas; com medo, mal se tocam, nunca se tocam.
Juncos à beira do caminho, Francisco José Viegas, 2018.
“Desprendeste-te donde estiveste e é em mim que mais me acontece tu estares. Mas nem sempre. Quantos dias se passam sem tu apareceres. E às vezes penso que é bom que assim seja para eu aprender a estar só. Mas de outras vezes rompes-me pela vida dentro e eu quase sufoco da tua presença. Ouço-te dizer o meu nome e eu corro ao teu encontro e digo-te vai-te, vai-te embora. Por favor. E eu sinto-me logo tão infeliz. E digo-te não vás. Fica. Para sempre. Há em mim uma luta entre o desejo de que te esqueça e o de endoidecer contigo.”
Cartas a Sandra, Virgílio Ferreira, 1996.
“A loucura não é nossa, é da natureza. Quando realizou a sua obra-prima, a criação do ser-humano, deveria ter pensado numa coisa só. Em vez disso, voltando a cabeça, olhando por cima do ombro, deixou deslizar para dentro de cada um de nós instintos e desejos que estão completamente em desacordo com o que é mais próprio de cada um, de modo que ficámos raiados, variegados, tudo numa amálgama; as coisas diferenciadas desaparecem. Será o verdadeiro eu este que está aqui na rua em Janeiro, ou aquele que se debruça da varanda em Junho? Estou aqui ou estou lá? Ou será que o verdadeiro eu não é nem este nem aquele, não está aqui nem lá, mas é algo tão variegado e disperso que apenas quando cedemos aos seus desejos e o deixamos de seguir sem impedimentos nós somos verdadeiramente nós? As circunstâncias obrigam à unidade; para sua conveniência, o ser humano deve ser um todo. O bom cidadão, quando abre a porta de casa ao final da tarde, tem de ser banqueiro, jogador de golfe, marido, pai; não um nómada errando pelo deserto, um místico a olhar o céu, um marginal nos bairros de lata de São Francisco, um soldado conduzindo uma revolta, um pária gemendo de cepticismo e solidão. Quando abre a porta, deve passar os dedos pelo cabelo e colocar o chapéu-de-chuva no bengaleiro, como todos os outros. “
Fantasmagorias – Deambulando pelas ruas de Londres, Virginia Woolf, 1927.
Síndrome de Stendhal turned 5 today!
uns mortinhos pequenos
tenho uns caixõezinhos no coração que me nasceram quando partiste se regados com cuidado brotam como flores negras pelo interior das veias que assombram o sangue
tenho uns caixõezinhos no coração que se abrem a toda a hora quando me deito ouço-os embatendo de encontro ao peito talvez com vontade de ir embora talvez só por ser o amor tão estreito
publicação da mortalidade, valter hugo mãe, 2018.
25.1.85 rua do forte
passei o dia como quem dá tropeções nos seus próprios pensamentos. terrível dia de solidão. Nem a música me aliviou. nem o mar, nem o dia de esplêndido sol, me consolaram. passei o dia de um lado para o outro no terraço, com uma espécie de agonia à flor da pele. São 7 e meia da noite e já estou metido na cama. estou muito cansando do mundo lá fora e de mim mesmo. cá dentro.
Diários, Al Berto, 2012