Síntese II (poemas de Bukavu)
a terra minguara, não se via grelo nem almofada de semente,
tudo secou.
não dava milho
não dava batata
não dava nada.
cinco quilos de farinha da onu
cheia de percevejos e ilusões
para nós sete.
queria adiar futuro nos filhos,
nas filhas depositar secreta esperança
cinco quilos cinco
e terra morta.
nem adiar um sonho se podia fazer.
cinco horas a pé
pés na terra imaculada
batendo, batendo
pisando minhoca, graveto espalhado
berta flor a caminho
entra na sala e pergunta:
a terra não dá nada. por quê?
entra vestida de furacão
inteligência funda, antiga, nos olhos.
(conheci-a assim, entre as bombas,
numa universidade pintada de fresco,
a tinta vermelha ainda hoje no meu vestido branco)
(havia joia, não havia milho)
há buraco? há.
a água vai na companhia? vai.
(a água corre como é seu hábito)
então fez ponte.
o ar juntou água juntou enxofre
murchou tudo.
berta flor foi e comunicou aos líderes.
a minha terra morreu de tanto lhe remexerem os bolsos
disse a palestrantes do vácuo ceos e outras
araras.
calem as explosões. calem-se.
quero dormir.
e o diamante? diz um, brilho de cobiça nas mãos.
berta disparou-lhe cinco quilos de farinha da onu nos olhos
e espetou-lhe na boca os percevejos.
estão a ver como o pessoal é político?
por causa da indústria automóvel
o filho de berta ainda não anda.
por causa de um offshore no panamá a batata foi exterminada.
por causa dos estaleiros de viana o joaquim não dorme.
por causa de uma hidroelétrica
ou de uma construtora tínhamos sede,
e berta cáceres foi assassinada na sua casa,
ainda março mal começava.