Jogo de tabuleiro
O terceiro reich, de Roberto Bolaño
Comentário de Renato Grinbaum
Um livro que logo em suas primeiras páginas tem uma frase como esta merece ser comentado:
"Em primeiro lugar, Frau Else, cuja simpatia me conquistou desde o início, o que me valeu ser o alvo das piadas e gozações de meus pais, que chegaram até a caçoar de mim em presença da própria Frau Else e do seu marido, um espanhol cujo nome não lembro, fazendo alusões a supostos ciúmes e à precocidade dos jovens, que conseguiram me deixar vermelho até a raiz dos cabe-los e que em Frau Else despertaram um terno sentimento de camaradagem."
Não se trata de uma frease fácil, múltiplas expressões, conteúdos não necessariamente interligados. Imperfeitamente bela. Muitos Romances de Roberto Bolaño são tidos como lentos, difíceis. Não é para menos.
Roberto Bolaño para muitos é um gênio.
Talvez sua frase muito longa, intrincada, sem pausa e com assuntos diversos confunda, tire o foco do leitor. Muitos não gostam. É imperfeita. Com certeza Bolaño almejava esta imperfeição, ele tem controle completo sobre sua prosa. Consegue escrever de forma cristalina, quando quer, ou num fluxo de pensamento contínuo, ou desfocando o leitor, como neste trecho. Não se trata de erro, mas escolha. Muitas vezes consideramos um bom escritor aquele que é claro em sua forma de expressão e consegue cadenciar um bom enredo. Limpeza é um talento, não resta dúvida. Entramos aí num debate estéril. Um best seller é boa literatura? Paulo Coelho é um bom escritor? Por que autores que estão na mesma sintonia que Paulo Coelho não fazem o mesmo sucesso que ele?
Não se trata de qualidade. Trata-se de sintonia. Universos diferentes. Propostas, ética distintas. Muitas vezes a qualidade é definida por categorias estanques, regras formais ou pela simples vontade de quebrar estas regras. Nenhum critério dá conta de tudo. Ninguém consegue explicar o sucesso dos incompetentes. Estética não pode ser tratada como afirmação de superioridade ou conquista de um espaço no mercado. Quando não há qualidade o próprio mercado se encarrega de dar a resposta a esta vontade. Mesmo que nem sempre este mercado saiba reconhecer a qualidade.
Mas aqueles que fazem seu próprio critério, fazem para poucos. "Se faço para poucos, poucos me enxergam." Por isto precisamos de tantos prêmios desnecessários e academias que autodecretam uma imortalidade transitória.
Saudades de Thomas Bernhard.
Para muitos, a vida só tem sentido se o individuo desponta acima da massa que considera podre. Não podemos nos esquecer que todos nos emergimos desta mesma massa.
Este é o universo de Bolaño.
Autores como Bolaño não se baseiam em enredos nem estão buscando um picadeiro tão iluminado. Eles têm o que dizer, e falam enquanto dizem. Sua literatura está na narrativa mais do que no enredo. Chega um ponto que a história se repete, e a forma com que a história é dita passa a ser mais interessante. É outra literatura. Outra estação de rádio. Eu tenho as minhas preferências.
Ai entramos num tema muito caro a Bolaño, onde ele é mais sutil e tem mais humor. Toda a avalanche de "2666" é dedicada à crítica a este elitismo dos escritores.
Também em "O terceiro reich" ele traz uma particularidade e uma fineza de humor que são imperceptíveis ou talvez pouco valorizáveis para muitos. Ainda logo no inicio do livro ele escreve:
"Em Colônia publiquei dois ensaios, o primeiro dos quais, "Como ganhar no Bulge", foi traduzido para o italiano e publicado numa revista milanesa, o que me valeu elogios no círculo dos meus amigos e o estabelecimento de uma comunicação direta com os aficionados de Milão."
Quantos se interessam pelo universo de escritores? Sua fineza, humor delicado está em falar no impacto no círculo de amigos. Ele está ironizando a pequenez dos escritores e do meio intelectual, que só olha para o próprio umbigo e não se interessa pela opinião e impacto em um círculo maior. Bastam os amigos, escritores escrevendo para escritores, superiores para superiores. Seus elogios, para poucos, são seu troféu. Não os elogios, mas os poucos.
Mais tardiamente no livro Bolaño nos oferece a seguinte descrição:
"De madrugada a praia está cheia de gaivotas. Com as gaivo-tas há pombos. As gaivotas e os pombos estão na beira do mar, olhando o mar, inamovíveis salvo uma ou outra que levanta um curto voo. As gaivotas são de dois tipos: grandes e pequenas. De longe os pombos também parecem gaivotas. Gaivotas de um terceiro tipo menor ainda. Pela boca do porto começam a sair os barcos; na sua passagem deixam um sulco opaco na superfície lisa do mar. Hoje não dormi. O céu ostenta uma cor azul, pálida e líquida. A linha do horizonte é branca; a areia da praia, marrom, salpicada de pequenas pintas de lixo. Do terraço — as garçons ainda não chegaram para arrumar as mesas — se adivinha um dia aprazível e transparente. Dir-se-ia que formadas em fila as gaivotas contemplam imperturbáveis os barcos que se afastam até quase se perder de vista. A esta hora os corredores do hotel são quentes e desertos. No restaurante, um garçom sonolento abre Com brutalidade as cortinas; o brilho que inunda tudo, não obstante, é amável e frio; luz tênue, contida. A cafeteira ainda não está funcionando. Pelo gesto do garçom intuo que vai demorar."
O que seria isto? Ironia? Ele diz muito sobre nada. Nada acontece. O mundo parece, como em Camus, andar à margem da vontade e da ação.
"O dia era amarelo e por toda parte reverberava uma cor de carne humana que me deu náuseas.
Virei para ela e confessei que não tinha pregado o olho a noite inteira. "Não precisava jurar", respondeu sem desviar a vista do livro que tinha de novo nas mãos. Contei que Charly tinha batido em Hanna. "Alguns homens costumam fazer isso", foi sua resposta. Ri. "Sem dúvida a senhora não é feminista!" Frau Else virou a página sem me responder. Disse então o que Charly me explicou acerca dos cachorros, os cachorros que as pessoas abandonam antes ou durante as férias. Notei que Frau Else ouvia com interesse. Ao terminar minha história vi em seus olhos um sinal de alarme; temi que fosse levantar e avançar em minha direção. Temi que pronunciasse as palavras que então eu menos desejava Ouvir. Mas ela não fez nenhum comentário e pouco depois achei mais prudente me retirar."
Além da ausência de ação, o que é um trecho destes? Das náuseas pelo cheiro de carne humana diretamente para uma ação em que nada acontece. Sem charme, poesia ou musicalidade, uma brutalidade surgida de algo como o nada. Cor de carne humana. E depois desta profunda apatia, inexplicavelmente Bolaño relata um episodio de grande violencia. O turista Charly, bebado, espanca sua namorada Hanna, sem muitas explicações. A dona da pousada, nesta descrição, recebe o relato com indiferença.
"O terceiro reich" é um romance precoce de um dos mais póstumos escritores da história. Se talvez seu estilo não estivesse aí totalmente desenvolvido, por outro lado já é plenamente Bolaño. Ele tem raizes latino-americanas, mas fugiu do que já se tornava repetitivo (previsível e criativamente monótono) em sua época: o realismo magico e o realismo politico explicito. Bolaño é fantástico e politico ao seu modo. Tem a lentidão, a profusão de personagens incompletos à moda de Thomas Pynchon. Seu suas manias e construções quase surrealistas. Ao contrário, Bolaño é praticamente oposto de Thomas Pynchon ao quase eliminar a ação e trazer um senso de apatia próprio de Melville e seu Bartleby, vem em voga no anos 80, berço de Bolaño. Assim como a incongruência dos filmes de Jarmusch, seus enredos sem grande foco. Bolaño traz irrealidade, sua forma de ser fantástico.
Na segunda metade do livro há uma ação mais rápida, mas is personagens se deixam ser levados, apáticos. A violência, como em Camus, permeia, mas sem sentido. Impassível ao curso do mundo, impotentes perante a força do mundo, seus personagens são políticos. O incrível é como a narrativa cativa, sem que haja um suspense claro ou a resolução de um dilema moral na expectativa. O leitor quer que um dia mais aconteça, que o jogo termine, mas pouco importa o destino de Udo, seu emprego ou namoro, se o Queimado, seu parceiro de jogo, irá agredi-lo ou chegar a uma explicação a respeito da morte de Charly. A atração é a falta de sentido.
Pode ser insano, ,as a incongruência e a inverossimilhança de Bolaño são seus maiores atrativos. E como atraem. Aliás, nada a comentar a respeito do enredo do livro.











