Gente. Ouçam meus textos em formato podcast no Spotify. E compartilhem com os amiguinhos, viu?

Product Placement

blake kathryn
Keni
Claire Keane

Kiana Khansmith

izzy's playlists!
$LAYYYTER
No title available
tumblr dot com
Show & Tell

No title available
★
cherry valley forever
Today's Document

roma★

oozey mess
TMBGareOK. The Official They Might Be Giants tumblr
Sweet Seals For You, Always
Cosimo Galluzzi
untitled
seen from Singapore

seen from Libya
seen from United States
seen from United States

seen from Malaysia

seen from Canada

seen from France
seen from Italy

seen from Indonesia
seen from Germany

seen from United States

seen from Brazil
seen from Bangladesh

seen from Türkiye
seen from Philippines

seen from United States

seen from France
seen from United States
seen from Malaysia
seen from Falkland Islands
@lembrancasnopapel
Gente. Ouçam meus textos em formato podcast no Spotify. E compartilhem com os amiguinhos, viu?
Seu Olhar é Um Caminho Sem Saída
Ele está em uma das minhas turmas na FACOM (Faculdade de Comunicação da UFBA). E alto comparado a mim, cabelo nagô, sorriso estonteante, lábios grossos e macios, bem chavoso, carinhoso e inteligente.
Obviamente eu não conhecia todas essas qualidades até bem recentemente, já havia reparado nele, como não reparar? Lembro de sua apresentação de um dos textos que a turma deveria ter lido, eu não li. Não lembro de muito, talvez eu estivesse muito ocupado simplesmente elaborando suposições e questionamentos sobre aquele rapaz. Não acho que eu tenha pensado, até aquele momento, em tentar algo.
Nas conversas de intervalo eu joguei verde, mostrei que tinha algum interesse. Descobrimos que compartilhávamos outra turma, turmas em 2 dias seguidos, nos veríamos na próxima quarta-feira, se houvesse aula.
Ele chegou atrasado, me deu um oi, sentou-se um pouco a frente, fui até lá, me sentei a seu lado. Desde o início a tensão entre nós parecia estar lentamente escalando. O cheiro de seu perfume, Deus sabe o que era aquilo, parecia enfeitiçador. De perto era bem melhor para reparar nos detalhes de seu corpo, conversamos pouco, comentários aleatórios, eu de repente tive uma ereção, fiquei um pouco desconfortável, era um sintoma que costumo chamar de “fogo no rabo”. Ele reparou, eu ajeitava a cueca aqui e ali, colocava o braço por cima, ele deu algumas olhadas. Não parecia se incomodar, até sorriu, sorriso malicioso, que me deixou com ainda mais vontade. Fiz um comentário “Eu tirei a cueca do varal ainda molhada, ela tá com um cheiro forte de amaciante”. No que ele respondeu “Eu só acredito se cheirar”.
Precisei ir no banheiro, ele também, ao lado dele no urinol eu não conseguia me concentrar, eu queria olhar, acabei falando que não conseguia mijar porque estava “de pau duro”. Ele riu, eu fui disfarçar na frente do espelho, ele veio atrás, disse algo sobre seu cinto, eu olhei, era aparente que a tensão sexual fluía dos dois lados porque o pau dele também estava duro. Peguei pela cintura de seu jeans e o puxei para mais perto, provei o volume com a mão. Alguém entrou no banheiro, nos afastamos e falamos sobre como o meu cabelo estava crescendo, foi um tanto constrangedor, ele ficou falando que ia ser difícil disfarçar a sua ereção. Realmente, o jeans era apertado e o volume era grande.
Saímos em busca de um esconderijo, eu fui puxando ele, ele foi abrindo as portas que surgiam, afinal achamos um cantinho, havia mais gente na sala, porém uma estante nos escondia dos demais. Tentei beija-lo, não alcancei sua boca, ele me mandou sentar na mesa, assim eu fiz, adoro quando mandam em mim, beijei seu pescoço, senti o cheiro em sua roupa, nos beijamos com tanta intensidade que eu podia jurar que iríamos chegar aos conformes ali mesmo. Ele disse que deveríamos voltar, ele tinha razão, assim fizemos.
Na sala ele passou a me dar um pouco de carinho, aí ele me quebrou, havia tanto tempo desde que alguém me dera um pouco dessa droga tão aditiva. A aula até que estava boa, ele participava, eu porém perdi totalmente o foco, sucumbi aos seus feitiços, completamente arrebatado por sua persona. Eu queria subir nele, queria sentir a sua pele contra a minha, a sua respiração ofegante, ouvir o tom do seu gemido. Nada disso pude fazer.
A aula passou, nós jantamos juntos, dividimos um cigarro, conheci alguns de seus amigos, um deles já era conhecido, aliás. Impressionante como ser alguém atraente faz com que seus amigos sejam cada vez mais atraentes, bom pra ele. No ponto de ônibus fui abraça-lo e ele me beijou. Voltei para casa com um sorriso de orelha a orelha.
Não sei ao certo se isso vai dar em alguma coisa. A UFBA aderiu a greve, as aulas estão canceladas, há um vento que sopra ao leste e me chama para o mar, um certo aperto no peito que pede para ir para casa, uma vontade tremenda de encontrar em um olhar algo que possa chamar de lar.
Chuva, Rio e Solidão
Têm chovido bastante em Salvador. Para a grande maioria das pessoas aqui isso é motivo de transtorno. “Salvador é feita de papel, não é possível” uma moça postou no X. O trânsito que geralmente não é lá dos melhores fica um caos. Árvores caem, ruas viram rios, porque os rios que deveriam estar lá foram soterrados ou viraram esgoto. Aqui e ali desaba alguma construção, ou por estar já muito velha e abandonada, como boa parte da estrutura da antiga residência universitária número 3 da UFBA, no Canela, ou porque foi feita em zona de risco, onde deveria haver árvores que seguram o solo e evitam erosão.
É difícil para a maioria das pessoas chegarem ao trabalho ou à faculdade. As pessoas não gostam de molhar seus pertences, de sujar seus tênis branquinhos de barro, e muita gente fica triste porque não dá praia, para curtir ou trabalhar.
Eu por outro lado gosto muito de dias de chuva. Não tenho nem um guarda-chuva, espero só a tormenta ficar menos forte para sair de casa, se for preciso. Até gosto de me molhar, de sentir a água batendo no meu corpo, como se precisasse lavar a alma. Têm uns dias em que eu só preciso me molhar um pouco, sentir o vento gelado soprar e lembrar que estou vivo.
Dias nublados e chuvosos são com frequência os meus favoritos. Não faz tanto calor quanto de costume, o barulho de tempestade é trilha sonora, parece que tudo convida a ficar em casa e não fazer nada.
Dei uma escapada da correria da capital e fui ver a família e os amigos em Pernambuco. Lá pelo Vale do São Francisco as coisas não parecem ter mudado em nada. Um ou outro prédio sobe, um comércio novo abre, um ou outro conhecido vai embora, mas no geral parece o mesmo de sempre.
Eu por outro lado não pareço o mesmo. É estranho voltar lá e pensar que agora este não é mais o meu lar, que na verdade eu não sei bem qual a referência de lar que devo tomar, se é que isso é mesmo necessário.
Lembro quando fora visitar Triunfo após algum tempo e depois de 5 dias na calmaria da Borborema eu só queria ir embora. Como foi estranho pensar “Quero ir pra casa” e a casa não era mais lá. Acho que é mais ou menos a mesma coisa agora. Embora já tenha feito isso anteriormente, parece que agora é definitivo. Não vejo motivos pelos quais tornar a ser um cidadão petrolinense. Entre idas e vindas, eu acabei ficando na Bahia. Não me parece ser permanente, é só mais uma temporada.
Fiquei pensando se esse eu de agora seria muito diferente daquele garoto de 18 anos que ia tentar a vida em um lugar maior, uma década atrás. Ainda naquele tempo eu já sabia que aquilo não era o que queria para mim. Estar lá, ficar lá. Mas sabia que era algo como uma escadinha. Era preciso ir perdendo aos poucos aquela coisa de “menino da cidade pequena”.
Parece que ao menos que eu venho tentando seguir os meus sonhos. Embora não me sinta tão bem o tempo todo, afinal ninguém se sente assim. Estou bastante orgulhoso de mim mesmo. Estou exatamente onde gostaria de estar e estou fazendo exatamente o que gostaria de estar fazendo. Essa sensação já vale mais do que todo o dinheiro ou a fama que eu poderia ter conseguido.
Se algo ainda parece o mesmo é esse sentimento de solidão. Essa grande ausência de uma companhia. Não é ruim de fato levar a vida solo. Há muito o que se fazer. Há muito o que se aproveitar. Estou quase sempre falando como um velho que olha para trás e pensa ter perdido muito tempo.
Talvez eu apenas tenha me sentindo um pouco deslocado. A minha volta todos são mais jovens, digo, a grande maioria é. A juventude vive muito intensamente. Meus hormônios jogam com minha líbido e me fazem desejar alguns daqueles corpos. Eu vejo casais curtindo o ardor da paixão e sinto inveja. Acho que me faz lembrar que a vida toda eu fui assim, diferente. Sem romances, quase sempre sem chance alguma, um pouco desesperado e alucinado, querendo me encontrar em alguém pra não me perder de vez em solidão.
Talvez só me falte um pouco mais de auto afirmação. Talvez eu esteja muito ocupado olhando para a vida alheia e só precisasse de uma boa terapia, mais socialização e menos rede social.
DISTRAÍDO
Tem ficado mais latente o sentimento de solidão. Acho que é o normal, depois de passar algum tempo longe da última referencia de lar que tive. A questão mais presente é se a falta que mais dói é o lar, de um colo ou da alegria que foi estar sozinho, ao menos por algum tempo.
Talvez seja só um pouquinho de recalque, de inveja mesmo, afinal eu sou humano. Eles são tão lindos juntos, por que essas coisas não acontecem mais comigo? Eu entro em uma neura sobre algo, como a sensação de rejeição, e parece que to jogando com um computador, não importa o movimento que eu faça, ele sempre vem com uma resposta.
Agora estou no modo distração. Tentando me distrair com qualquer coisa para evitar pensar demais no quanto tenho negligenciado minha saúde. Principalmente a saúde mental. Me arrisco interpretando esse papel, fingindo que está absolutamente tudo bem, até porque se parar para avaliar, vou chegar a conclusão de que não há motivo algum para sofrer. Não falta comida, não falta o essencial, o que falta é uma afirmação que eu estou sempre a buscar nos outros.
Realmente não quero mais ter que me sentir assim. Me coloco em um lugar onde fico esperando alguém me alimentar com migalhas, quando é justamente disso que eu tenho corrido. Eu fico esperando pelo romance ideal, a pessoa ideal, o momento ideal. Idealizando uma vida que quero, porque a que tenho as vezes me deixa um pouco cansado de mim.
Se ao menos desse para tirar umas férias, não da universidade, de mim mesmo. Tipo um modo “Aperte aqui para se congelar pelos próximos 2 anos”. Só pra tirar um cochilo mesmo, o problema é acordar depois e descobrir que tudo piorou o que o sentimento continua o mesmo. Talvez fosse mais útil aceitar que preciso de ajuda, de ao menos um pouco de ajuda e ver para onde as coisas vão.
As vezes eu só tenho estado muito preso, por mais que tenha liberdade de ir e vir, por mais que haja dinheiro no cartão de passagem, que eu possa simplesmente ir andando até o Rio Vermelho, o Campo Grande ou para Barra. Talvez eu esteja esperando alguém cair do céu, o tempo virar, o barco virar. As vezes seu só não to sabendo exatamente o que eu quero. Porque não é do sexo que sinto falta, sinto bem mais saudades do Velho Chico.
Deve ser porque estou o tempo todo me comparando com alguém, sempre olhando para essa existência, entendendo como isso tudo funciona e não querendo seguir da forma que a banda toca. Qual a graça nisso?
Estar em meio a uma multidão e ainda assim se sentir sozinho.
Tão eu! (via ingenuidademorfica)
Não importa o quão grande seja os problemas dos outros, os nossos sempre parecerão maiores!
Gilda Oliveira (via ingenuidademorfica)
Um dia você está puxando a aba da saia de sua mãe e a implorando para ela te levar logo à escola, pois você já tem quase 5 anos de idade, é hora de começar a estudar. No outro, você está perdido em meio a exames e mais exames além de tantas outras coisas como opções de cursos para a sua futura carreira profissional e o ENEM que já está chegando. Então quando você tem alguns instantes de descanso, apenas para dormir e recomeçar toda aquela velha correria no dia seguinte, não consegue dormir, a única coisa que passa por sua cabeça é a aquela velha frase: COMO EU QUERIA VOLTAR A SER CRIANÇA!”
J. C. Gonçalves (via ingenuidademorfica)
RAIO DE LUZ
As vezes eu olhos nos teus olhos e eu vejo algo, nada fácil de explicar. As vezes quando estamos perto e você se permite deixar com que nossos corpos coexistam com mais proximidade, como naquele dia na ilha, como quase por impulso eu te puxei para mais perto enquanto acariciava as suas coxas, e você falava descontraída sobre algo, desculpe se não lembro sobre o que era, mas sua magia se sobressaí em demasia, o fascínio que causa em mim é tremendo. Como conseguir gravar tuas palavras se estou ocupado de mais registrando as tuas curvas?
Eu sei que por mais inteligente, gentil e sexy que seja, você trás consigo inúmeras inseguranças e cicatrizes das quais não tenho autoridade alguma para discernir. Mas o que de fato nos afasta de tentarmos algo mais físico? Conversamos quase todos os dias, você sabe tanto sobre mim. Eu falo contigo sem rodeios, sem medo, sem pensar que estou destruindo as minhas chances. Queria saber se há alguma chance de fato. Tudo bem se não houver, porque é tão bom te ter por perto. Eu não trocaria a certeza de ter a tua amizade por toda uma vida pela dúvida de te ter como parceira por algum tempo.
Você já é a minha musa, de uma forma ou de outra, eu te admiro e me encanto em descobrir a cada dia um pouco mais desse universo que te permeia. Gostaria sim de navegar em ti e fazer você despir-se das vergonhas e das dúvidas, que pudéssemos nos aventurar nestas veredas de mãos dadas, que as incertezas se tornassem bobagens, que os domingos fossem preenchidos de carinho e de conversa, que os sábados fossem cheios de certezas. Que as carícias fossem dadas de bom grado, que os presentes surgissem ao acaso. Que a cama estivesse com o seu cheiro, mesmo que no aperto. Que apertado fosse o teu abraço, que este fosse o meu aconchego.
J.C. GONÇALVES
Era folga, eu tinha energia e dinheiro a disposição e fui para Paciência, gosto muito do por do sol por lá.
Sentado na orla eu vi ela passando, ela me reconheceu, não tão facilmente quanto outrora, eu afinal estava mesmo diferente. Me perguntei se daria ao trabalho de parar, para minha surpresa, não estava com pressa.
- O que você tá fazendo por aqui? - ela perguntou. Não lembrava talvez que eu ainda estudava na mesma cidade, que tinha algo como uma vida ali naquele lugar.
- Eu venho aqui com frequência, moro muito perto. O por do sol é bonito, eu gosto da calmaria e da brisa do mar. - Ela balançou a cabeça de forma positiva, parecia um pouco desconfortável, imaginei que não queria mesmo conversar, que falou por educação. Ela nem precisa falar, na última vez fui eu que pedi para ela não falar mais comigo, tantos anos se passaram, talvez ela nem lembrasse disso.
Ela se sentou ficou olhando para o horizonte assim como eu. O silêncio assentou por um instante. Havia mesmo algo para se falar?
- Como tá dona Maria? - Ela sorriu, de fato eu me importava com sua família ainda, nós afinal fomos família por um tempo, pelo menos na minha cabeça era assim.
- Ela não mudou muito, a saúde piorou, depois ficou melhor, ela se cuida, mas você sabe, ela não gosta de ficar parada e na idade dela ela devia descansar mais. Mas ela tá em um lugar diferente agora, mais tranquilo, mais acessível, foi uma boa mudança. - eu sorri, era bom saber que as coisas estavam indo bem para dona Maria. - Eu fiz várias coisas diferentes depois... Enfim, eu saí lá daquele trampo e já estive em vários outros, esse de agora até que está mais estável, eu gosto de lá, as pessoas são legais. Paga bem também.
Eu fiquei feliz em ouvir isso, era tudo o que eu queria ouvir. O sol foi se escondendo enquanto o céu ficava mais rubro e a pele dela brilhava, ela me fitou por um tempo, como se quisesse enxergar as diferenças geradas pelo tempo.
- Você está bem forte, seu cabelo tá grande, eu gostei, combinou contigo. - sorriu. Era estranho, parecia que ela nunca havia saído dali, foram alguns anos, o seu corpo tinha mudado, seu cabelo não era nem de perto o mesmo. Era visível como a vida desregrada cobrava o valor aos poucos. Muito sol e nicotina a envelheceram demasiado. Mas a principal mudança era em seu jeito, ela não parecia mais ter tanta pressa, acho que a terapia fez efeito.
- Você não parece muito aquela menina que conheci há tempos. Fico feliz que essa mulher aque agora existe aí parece estar feliz. Parece que você finalmente se encontrou por aí e se abraçou. - Ela sorriu, voltou olhar para mim, nós nos encaramos por alguns instantes, da maneira que costumávamos fazer, um silêncio sepulcral, um mergulho em nossas almas, um tipo de intimidade que poucos compartilham.
- E aí, para onde você vai daqui? - ela me perguntou. Eu ia para casa, meu gato já devia estar com fome, as roupas demandavam por uma retirada do varal, por serem dobradas e guardadas. Um vento forte do sul soprava seus cabelos curtos que cobriam vagamente o seu rosto. Eu talvez quisesse ficar mais, mas não era preciso.
- Sabe, eu ensaiei mulheres de vezes em minha cabeça o que iria de falar quando e se isso aqui acontecesse... Agora nada do que pensei tem mais valor ou sentido. Eu não tenho mágoa alguma, eu só espero que tenhamos vidas incríveis, da maneira que pudermos... Foi bom te ver, eu vou dar comida para o meu gato. - Me levantei e ela me fitou ali, distantes fisicamente por algo quase insignificante. Almas alheias um ao outro, envergonhados por se permitirem imaginar como teria sido se pudesse ser o que não foi.
- Foi bom te ver, se cuida. - E quando eu ia passando ela segurou minha mão, nós nos encaramos. Mais um instante de silêncio. Quantas palavras não ditas foram grifadas naquele dia? Naquele lugar?
- Se a gente não se ver mais... Se cuida, me perdoa, tá? - Eu não entendi, não havia o que ser perdoado. Ela seguiu seu caminho e eu o meu. Nós fizemos nossas escolhas.
- Tá tudo bem, não há o que se perdoar. - beijei a sua testa e segui me afastando, sem olhar para trás. Ela poderia estar olhando, não queria que visse as lágrimas que vinham cedendo lentamente.
Tudo bem. Este é o final dessa história. Uma história sem felizes para sempre.
J.C.GONÇALVES
Há um universo inteiro dentro de ti, ele se expande, gera novos sistemas e planetas com civilizações inteiras dentro que crescem, que brigam, que se extinguem e que exploram os arredores.
Você é um aglomerado de ideias, de planos que deram certo, de intenções não executadas, de expedições bem sucedidas e encontros ocasionais que geraram mudanças de trajetória.
A ideia era que você fosse um médico, mas a arte que pulsava em ti te levou para o teatro. Seus pais queriam uma delegada da Federal, mas você queria viajar o país de bicicleta e vender pulseiras e brincos pela estrada.
Você queria ser uma estrela de Hollywood, mas engravidou, agora trabalha limpando os escritórios daquela gente que mal reparam na sua existência, mas que te condenariam se você tivesse feito um aborto e seguido os seus sonhos.
“Você têm tanto potencial, tanto talento, se joga! Corre atrás!” é o que eles dizem. Como se fosse um caminho certo, como se a coragem e a vontade fossem as únicas coisas que você precisasse para seguir em frente e ser bem sucedido.
Eu queria ser um contador de histórias, queria ver as pessoas se encantando e se inspirando com minhas palavras, com as minhas criações. A sociedade não aceita que alguém saia de um lugar tão distante na corrida da prosperidade e chegue até a linha de chegada na frente sem que você faça alguma coisa fora da curva, como pegar uma carona no meio da prova.
Acreditar em nossos sonhos é algo que nos motiva a levantar todos os dias, mas em um mundo onde a maioria não chega nem perto disso, a quem eu estou tentando enganar?
J.C. GONÇALVES
Há algum tempo tenho evitado a escrita, talvez por estar demasiado imerso em um universo próprio no qual isso não parecia algo urgente ou preciso, ou talvez apenas por isso ser uma grande parte de uma versão minha que tentei deixar no passado. Pois bem, aqui estou novamente, desta vez bem mais próximo em semelhança e em sentimento com os meus eu’s de outrora.
Há uma angústia que grita em meu peito. O fim de um relacionamento mexeu muito com meu ser, balançou as estruturas de minha existência e fez surgir em mim questionamentos, alguns mais fáceis de encarar, refletir e aceitar, outros tão confusos que fazem-se difíceis até mesmo formular-los.
As incertezas sempre geraram em mim um medo paralisante. O desconhecido também. Agora tudo parece tão incerto e mesmo estando aqui há tanto tempo, pareço não conhecer nada, o medo cresce e as vezes parece ser tudo o que há em mim.
É claro que cometi diversos erros, claro que também fiz o que pude para sustentar o romance. Mas o fim era inevitável. Ele veio junto com um retorno a realidade da qual tentei com tanto afinco fugir. O que resta é deixar o tempo se encarregar de trazer as respostas que tanto busco, de sarar as feridas que ainda latejam e de acalmar as angústias que gritam em meu peito.
J. C. GONÇALVES
LISTA DO QUE FAZER
- Descobrir como se amar.
- Parar de apreciar a morte como uma fuga.
- Lutar com todas a suas forças para que a vida seja cada dia melhor.
- Ajudar a si, depois aqueles que você ama, depois quem quer que precise de sua ajuda.
- Escolher um caminho e seguir em frente.
- Não desistir nos primeiros obstáculos.
- Se nada der certo, faça o mais simples, viva uma vida simples, mas tranquila. O mundo já têm ídolos de mais, você não precisa ser mais um.
Talvez meu erro seja sempre querer o que está além. Desejar uma vida que não seja a minha, dinheiro que não tenho, empregos que não se encaixem em meu perfil, cursos que não existem onde moro e o pior de todos, querer encontrar a felicidade no outro.
Diversas tem sido as adversidades que se aglomeram perante mim. Não só me tem causado sofrimento indesejável, como tem ferido também minha companheira. Há tempos ela tem sofrido com fantasmas de outrora que a assombram sem cessar e embora tenha havido tempo hábil para cuidar de expurgar-los, ela teima e esperar que de alguma forma eles apenas desistam de sua companhia e a deixem em paz.
A cada novo dia eu sentia mais próximo o nosso fim. Por isso as raras noites de amor, que eram agora muito mais raras, foram se tornando mais relevantes. Eu fazia questão de gravar em minha memória as imagens que tinha a minha frente. Cada ângulo, cada troca de olhar. Sem pressa nenhuma eu beijava cada canto, ia até os pontos que com esforço descobri, aqueles que te faziam suspirar. Você só queria um pouco de prazer que aliviasse o stress. Eu só queria te fazer feliz, te fazer gozar. Por isso não me importava de proporcionar prazer a mim mesmo, você era a minha divindade e eu só queria cultuar o seu corpo. Minha recompensa vinha em forma de gemidos e fluidos.
Deve ser por isso que eu não me importo mais com o sexo, depois de fazer amor, trepar passou a ser algo demasiado trivial e incongruente. Não é do sexo que sinto falta. São das primeiras horas da aurora quando a preguiça reinava e nós nos entrelassava-mos ou você se espreguiçava e me deixava só com o mínimo espaço possível na cama. Como as vezes quando você acordava e me encarava, você sorria e me beijava e a gente nem ligava mais pra bafo, pra calor, pra espaço. Ou como depois da nossa primeira vez, eu acordei bem antes de ti e pude ficar por um bom tempo só assistindo você dormir, imersa em um universo alheio ao meu ser, longe da correria da cidade grande, longe de lugares repletos de lembranças. Então você acordou e ao me encarar não pode conter o choro. E eu enxuguei as sua lágrimas e prometi que tudo ia ficar bem. Nós ainda tínhamos tempo, aquilo era só um começo e não um fim.
Um dia, depois de regressar da farra você me contou sobre suas peripécias, as pessoas com quem havia estado, as substâncias que tinha usada e em como tudo isso acabou em sexo. Nós não tínhamos mais relação sexual por decisão sua. Eu respeitava isso. Você disse que não queria que eu me sentisse como segunda opção e eu disse que na verdade não me via como opção alguma. Aí, talvez por pena e culpa você tirou a roupa e nós fizemos o que não fazíamos há muito. Logo veio um e outro orgasmo e acompanhado deste veio um choro. E eu não sabia o que fazer. E você desabafou falando que não entendia como eu conseguia gerar em ti todas aquelas sensações, como para mim era fácil te levar ao êxtase. Para mim era claro, você só queria trepar, mas eu fazia amor.
É isso, eu sei bem que o amor é muito mais do que o sexo bem feito. Hoje eu acredito que nos amamos a nossa própria maneira e chegou a um fim porque fora necessário, poderia ter sido bem mais cedo, se eu tivesse tido coragem.
Eu me pergunto se você tem feito amor, se encontrou um outro alguém que tenha tido paciência para lidar com seus demônios e suas crises, que tenha enxergado a menina assustada que habita aí dentro, que talvez tenha finalmente domado essa fera. Não sei por onde tens andado, se ao menos está viva ou se morreu de overdose ou suicídio. Não sei mais nada sobre ti, deve ser um alguém muito diferente de outrora. Isso é bom, não é? Acho que sim. Agora eu vou parar por aqui, não faz muito bem revisitar essas memórias e não tem sentido residir nelas, são apenas vestígios de um mundo que construímos e destruímos juntos, ruínas de amor.
Jonas Coutinho Gonçalves
Eu, eu mesmo e Jonas.
Minha mente as vezes passa por algumas turbulências, talvez eu pudesse expressar-me de forma mais clara, saibam que gostaria de estar fazendo isso por prazer e não necessidade, receio. Talvez esta aqui seja apenas mais uma fuga. Tão comumente questiono minha sanidade, de tempos em tempos, gargalho e eventualmente choro, aqui ou ali perco a noção do meu entorno e raramente entro em eminente ou total colapso nervoso.
Falando em fazer algo por necessidade, dando progressão ao círculo vicioso no qual comumente me atrelo, há muito tempo que não exerço minha profissão com prazer, perfaz algum tempo que isso me machuca, também. Converso muito comigo, talvez esteja preso em desmedida a minhas discussões internas e quiça seja exatamente aí que acabo externalizando meus agouros, assim, afeto também outros, torno cego pelo medo, pela ansiedade, pelo desgaste (introduza aqui mais algum agouro, Jonas! Todo mundo quer saber!).
Será que minha bolha tem me asfixiado aos poucos? Quando penso em ir para longe, me desprender do pouco que ainda me prende aqui, penso se isto também não passa de mais um desvaneio diurno, “ a daydream”. Devo estar decerto perdendo as estribeiras.
Esses diálogos e reflexões se aglutinam de forma despretensiosa, não necessariamente possuem alguma motivação clara, é complicado, digo muito isso, principalmente quando penso no trabalho que dá ter de me entender, para só depois disso, quiça, resolver-me, e assim, dialogar mais facilmente com todos os eus que me compõem.
J.C. GONÇALVES