Um dia... Um desses dias qualquer onde a depressão “está a mil”. Era uma época onde a minha mãe usava fraudas. Sim, exatamente como os bebês, mal caminhava e vivia presa numa cama. Ela, com as pernas magras, toda vomitada e com feridas pelo corpo causadas pelo tempo deitada, quando levantava logo reclamava de tontura, tentava resistir mas não aguentava, acabava vomitando. O fedor de vomito que vinha do quarto já impregnava a casa, algumas vezes ela tentava ir, pelo menos, até o banheiro caminhando, mas cambaleava e caia pelos cantos, por culpa disso vivia com as pernas esqueléticas cheias de hematomas. Eu não conseguia suportar ver aquela cena, me cortava a alma e eu não conseguia a ajudar. Eu vivia num quarto escuro, com medo e ódio do mundo, lembrando de quem era a minha mãe e junto as coisas que ela fazia para mim antes de estar naquele estado. Momentos antes de toda essa situação apanhei constantemente por coisas insignificantes, foram tantas vezes que acabei deixando de lado qualquer relação de carinho que algum dia tivemos.
Uma vez eu recaí, sentei ao lado dela, olhei em seus olhos e ela me chamou “cachorrinho” (Apelido que ela havia dado por causa das minhas atitudes carentes de estar sempre procurando carinho. batendo de leve com a cabeça em suas mãos atrás de um cafuné). Dessa vez não aguentei, chorei tanto que chegava a soluçar, eu queria minha mãe de volta, antes de tudo aquilo, antes daquela loucura. Ela pôs a mão em meu rosto, e com expressão de quem não estava entendendo o que estava acontecendo, perguntou: “o que houve?”. Meu pai (que há pouco tempo tinha voltado à cuidar dela), de longe observou a cena e se aproximou dizendo: “Não foi nada, ele só ficou emocionado. Vai lá pegar uma água pra tua mãe”. Prontamente saí dali, me sentindo pior do que qualquer dia estive até aquele momento.
Uma dessas vezes, onde ela levantava para tentar ir até o banheiro, acabou cambaleando em frente a porta do meu quarto, eu que estava do lado, de reflexo a fechei, a impedindo que caísse para dentro do quarto, e como de costume, acabar vomitando lá dentro (errôneo, não?). Meu pai viu a cena e a ajudou, colocou ela na cama e logo em seguida veio pra cima de mim. Com fúria em seus olhos, me segurou pelo pescoço e me jogou pra dentro do quarto, entrei cambaleando e logo fui atingido por um soco no rosto, logo em seguida ele perguntou “Por que tu não ajudou ela?”. Eu não consegui responder, então ele puxou o cinto e começou a me bater até cansar. Ele nunca entenderia se eu dissesse que não consegui. Não conseguia mais me aproximar dela, já não era mais minha mãe, era outra pessoa, alguém do passado, que, as vezes gritava do quarto onde estava, chamando pelos irmãos que moravam em outra cidade, ela já não tinha consciência de onde estava, de quando estava, da idade que tinha... Eu só não consegui e agi errado...