lennon-reyes:
A parte mais difícil de esquecer alguém são as constantes memórias que o cérebro faz questão de alarmar sempre que um perfume familiar toma conta do ambiente, quando aquela foto surge em meio a tantas outras; ou pior, quando tudo ao seu redor praticamente grita Isabella Castillo. Um dos muitos pontos positivos da antiga vida nômade que Lennon levava era a facilidade que tinha para superar algo ou alguém. Um piscar de olhos e já estava em outra cidade, outra realidade, conhecendo outras pessoas e vivendo no novo. Era fácil, tranquilo e não precisava se preocupar em esbarrar numa lembrança sempre que ligava o som do carro e a voz dela ecoava pela rádio ou no simples ato de ir trabalhar. Céus, como ele odiava aquilo. Era a definição de resistência e tentação. Sentia perder o controle dos seus pensamentos. E talvez fosse culpa da constante necessidade do ser humano de se testar, mas ironicamente Lennon às vezes fazia de propósito. Se torturava sempre que lia uma entrevista esperando ver seu nome ou a stalkeava no Instagram em busca das novidades que não podia simplesmente perguntar. Era doloroso para seu ego ver as fofocas de um possível novo romance ou mesmo agora, enquanto Isabella recusava sua ajuda, o que ele achava ser por resquício de mágoa ainda existente. Meses, não sabia ao certo quantos, não sabia o dia exato desde que entrara pela última vez naquele quarto que antes era sua rotina. Chegava a ser engraçado a facilidade que Lennon tinha para se adaptar a mudanças rápidas, mas o quanto lhe irritava a falta de intimidade que agora tinha com aquela realidade, Isabella e ele sozinhos dentro daquele quarto, o contraste óbvio do que eram a poucos meses atrás. E como se não precisasse de mais alertas vermelhos para toda aquela situação, a ligação de Vivian pareceu ser a última gota de frustração que o atingiu. Voltou ao cômodo para encontrar uma Isabella se despindo e sangrando. Sua expressão foi mais de espanto do que de preocupação, as sobrancelhas levantadas sem saber muito até que ponto poderia ajudar sem que ela o expulsasse de vez. Ele riu da fala claramente guiada pelo álcool. Conhecia aquela Isabella, a menina longe das câmeras, provavelmente uma das pessoas mais divertidas que já encontrou pela vida. - No. - Respondeu a princípio, numa fala firme. - This thing is full of dirt, I won’t give you a band-aid to get this infected. Go wash yourself first. - O que fez foi tirar os sapatos e o blazer azul marinho que vestia, deixando amostra a blusa branca sem mangas que tinha por baixo, num inconsciente indicativo que não pretendia sair dali até que tudo estivesse feito. Foi até o chuveiro, ligando para ir esquentando a água, não se importando com o que ouvia. - C’mon - levou seus alhos até ela, estendendo uma mão e apontando com a outra para onde a água corria na confiança de que seria obedecido sem mais protestos. - What? - Passou uns segundos a encarando. - You don’t need to be naked, just please get in there so I can put Alejandra to bed and go home quiet knowing she won’t kill you. - Lennon não dizia aquilo de forma brava, mas sim um tanto frustrado, cansado até. Tudo seria mais fácil se simplesmente retomasse o controle de sua mente e ignorasse Isabella e todo um passado de lembranças. Mas, como já bem entendera e aceitara, gostava de cair naquela tentação.
Há tempos havia se acostumado com o ingerir de quantidades absurdas de tequila. Por viver a vida inteira embaixo dos holofotes, o lado social de Isabella fora ativado muito antes do que seria indicado. Com meros 15 anos já ia para festas e bebia além da conta. Habituada e resistente pela natureza do seu sangue latino, a situação em que se encontrava agora era, no mínimo, vergonhosa. Acreditava estar mais bêbada pelo conflito de seus sentimentos do que pelo álcool em si. Ficou alguns segundos congelada, olhando para o sangue que escorria em sua perna com a mais completa concentração. Então, reergueu o olhar para Lennon e deu de ombros. “You’re right.” Durante o breve minuto em que se despira, havia esquecido que estava na companhia de Lennon. Seu cérebro só conseguia processar uma informação importante por vez e, naquele momento, era a de que ela precisava se livrar das peças incômodas. Foi só quando ele próprio se livrou de algumas peças e caminhou até o seu chuveiro que ela notou estar apenas em suas roupas íntimas. Num reflexo, como se aquela visão já não fosse habitual para ele, Isabella cobriu o sutiã preto com os braços. Diante da reclamação dele, ela abaixou as mãos devagar e com cautela, e caminhou até o chuveiro. Parou diante da porta, ao lado dele e estendeu só a perna esquerda para baixo da água. Deixou que ele a ajudasse sem pestanejar, mas ao trocar o apoio para estender a seguinte, acabou perdendo o equilíbrio e, sem querer, molhou Lennon com o gesto desajeitado. “Por dios!” Praguejou, tapando a boca com a mão e encarando seu semblante molhado. “I’m so sorry.” Sua fala era honesta, mas não conseguiu conter a risada que a acompanhou. Instantaneamente, abaixou para perto dele com a toalha e a esfregou em seu rosto de maneira desajeitada. A proximidade, a troca de olhares e o barulho da água ativaram memórias afetivas vividas embaixo daquele mesmo chuveiro e, por estar sem filtro algum, o semblante de Isabella ficou sério, ao passo que migrava o foco de seu olhar entre as orbes e os lábios de Lennon. Apoiou a toalha sobre o seu colo e pendeu a cabeça para o lado. “Can I ask you something?”
“What happened back then? …Between us.” Jamais tivera coragem de confrontar aquela realidade sóbria, e, mesmo agora que havia despejado algo sobre ele bêbada, o nervosismo continuava igual. Diante do mais breve segundo de silêncio, ela já se pôs de pés, fechando a torneira e estendendo a mão para ajudá-lo - por mais que sua ajuda naquele momento não fosse a mais confiável. “I just thought we had something going on and to see it blowing straight up to my face on the next day was just - it was too much. And now you’re here taking care of me after dumping me, when you didn’t even have to… Why?”
Por muitas vezes não sabia o que fazer e caia no vício de deixar as coisas acontecerem por si só. Era natural, instintivo e parte do seu grande defeito de ser relaxado demais, no mal sentido. Na maioria das vezes aquilo acabava sendo confundido, fazendo outros assumirem que Lennon simplesmente não se importava, ou importava muito pouco diante de um egocentrismo aparente. Era talvez o oposto daquilo. O que não podia controlar lhe frustrava, mas não lhe tirava o sono; o fazia sofrer, mas não parava sua vida. Optava por focar em outras coisas enquanto silenciosamente sufocava no grande problema esperando que o tempo resolvesse tudo. Foi assim quando seu pai o deixou ainda criança; foi assim quando sua mãe morreu quando era apenas um adolescente; e foi assim sempre que precisou seguir seu caminho sem olhar para trás em todos esses anos. O tempo tratou de distraí-lo, mas não de fazer esquecer e só agora começava a sentir o peso de todos os problemas não resolvidos do passado. Ainda que tudo aquilo lhe torturasse o peito, Lennon sorria junto a Isabella, porque aquilo era natural, tanto quanto o encontro de ambos os corpos. Nos pequenos ou grandes toques, apenas parecia certo. E nada lhe dizia o contrário, não fosse aquela voz a sussurrar lá no fundo de sua mente, é claro, a mesma que escolhera silenciar por agora. Não tivera tempo de se esconder novamente em seus muros de defesa antes que Isabella lhe acertasse com a exata pergunta que evitava a todo custo responder até para si mesmo. Porque a resposta era simples e completamente odiosa, não fazia ideia do que tinha acontecido de fato e não saberia nunca explicar o motivo de tê-la deixado ir sem que pareça o oposto dos seus verdadeiros sentimentos. Então esperou que as últimas palavras de coragem saíssem dos lábios femininos para buscar as suas próprias, injustamente sóbrio para aquela conversa. Lennon respirou fundo e até sorriu, só então percebendo o quão hipócrita era estar ali depois de todas as suas atitudes anteriores. Sua mente era uma eterna confusão, não podia culpar Isabella por não decifrá-la. Agarrou a mão dela com a sua, mas não levantou, fez o contrário, puxando-o para o chão e sentando ambos ali, pouco se importando se suas roupas ficariam ensopadas. - I like you, Bella. - Os lábios se moveram com precisão diante da fala calma. - Fuck! I like you a lot. - Sorriu e precisou de alguns segundos em completo silêncio antes de continuar, o que pareceram horas sem se permitir tirar os olhos dos dela. - I'm sorry I didn't make it as obvious as you deserve. - Não era a primeira vez que pedia desculpas para Isabella, mas era a primeira vez que lhe doía perceber naquilo um hábito. E tentava pensar com cuidado nas palavras que diria, o máximo para não ser mal interpretado. Mas como explicar que diante da liberdade que fazia questão de exalar, pouco tinha livre arbítrio para ser quem realmente queria ser? - I'm a coward. That is it - deu de ombros. - I fooled myself thinking we could hide in our little private world behind these walls forever, but that was never enough for you, Bella. - Mesmo que no passado, Lennon ainda sentia a culpa pelo desastre da entrevista e sua atitude diante daquilo. - You deserve so much more. I thought it would be easier to just let go, but as we saw today... - Ele riu, percebendo seu fracasso. - I couldn’t. And I am sorry for that too, for confusing you and not being clear about how I feel. - Levou uma mão a lateral do rosto de Isabella, acariciando-a com o polegar. - I just wish things were less complicated, but I don't know how to handle it and no matter how much I want you... I won’t drag you into this mess.















