Theresa sempre teve consciência de que precisava trabalhar. Enquanto seus pais eram vivos, tinha o luxo de não precisar correr atrás do seu sustento e sua única preocupação era qual paisagem - ou quem - fotografaria naquele dia. Sua vida mudou drasticamente quando seus pais se foram e, o que provavelmente a faria desistir da vida, deu-lhe mais força para seguir, enquanto acreditava piamente que dava orgulho aos seus falecidos pais, através da sua espiritualidade. Enquanto no luto, Theresa se permitiu viver de uma parte da herança de seus pais, afinal, não é de uma hora pra outra que a vida se ergue de um baque nesse nível, mas depois, sabia que seu dinheiro era finito, e necessitava batalhar por ele.
Foi então que decidiu procurar por um emprego em sua área. Theresa já estava em seu segundo ano de Film School, voltada para se profissionalizar ainda mais na arte da fotografia, tendo também feito uma cadeira de atuação, por pura pressão de sua amiga, Hannah, que insistiu muito pra não ficar sozinha e algumas cadeiras de cinegrafia, dessa vez, porque queria, de fato, ser uma profissional completa e saber manusear sua câmera como ninguém. Se imaginava registrando diversos momentos importantes na vida das pessoas, seus casamentos, aniversários, mas, infelizmente, nada seria tão fácil e estável no começo, sabia que, inicialmente, precisava de um emprego fixo. Depois de algumas procuras e entregas de currículos em alguns lugares, Theresa se estabeleceu nos sets de Off Campus, série que ainda seria lançada, como auxiliar de câmera. Basicamente sua função é deixar o equipamento ok para que o cinegrafista consiga usar, é o auxiliar que monta e desmonta, carrega e descarrega, resolve algum imprevisto com a câmera, tripé e, às vezes, até precisa exercer a função de bater a claquete.
As gravações eram puxadas e Theresa não tinha horário reduzido por conta da faculdade, então seus dias nem sempre eram fáceis, mas gostava de trabalhar ali, sentia que era invisível, dificilmente chegavam ordens diretas do diretor/produtor da série, normalmente tudo era resolvido com o próprio cameraman e a sua função se tornou muito automática com o passar do tempo, não existiam grandes desafios, era um emprego muito confortável nesse sentido.
Nesse dia, ela não estava tendo mais um dia comum de trabalho, sentiu a áurea do ambiente um pouco pesada, uma inquietação nas pessoas, os atores passando o texto, algumas correrias acontecendo atrás das câmeras, a secretária tropeçando no cabo e derramando café, coisas que não incomodaram Baxter, que sempre foi muito focada nas suas tarefas, tratando de ignorar todo o cenário a sua volta e prestar atenção no que estava fazendo - ajeitando, cuidadosamente e pacientemente, um botão da câmera que havia emperrado -. Imersa em seus pensamentos e desligada do mundo, Theresa ouviu seu sobrenome ser pronunciado, mas a voz que proferia a palavra não era a voz do cameraman, que estava acostumado a chamá-la, mas alguém que provavelmente tinha lhe dirigido a palavra pouquíssimas vezes. Levantou seu olhar e se deparou com Yzak, o dono do show, e, sem tempo de mostrá-lo qualquer prontidão, já estava carregada de informações: teria que ficar até mais tarde no estúdio e provavelmente participar da audição para Allie. Deduziu que a atriz, aparentemente, não deu certo e ele estava desesperado à procura de outra. Tá explicado o clima estranho do estúdio. Quando Yzak a indagou, Theresa já tratou de responder - Cla-Claro -, um pouco atordoada ainda das informações, mas seu trabalho era importante demais pra não atender a um chamado do chefão, ela tinha consciência da hierarquia ali.
Voltou sua atenção ao que estava fazendo, quando depois de uma hora de trabalho, uma pasta caiu no chão ao seu lado, fazendo-a tomar um susto e, finalmente, cair a ficha do que estava pra acontecer ali. Era o script com as cenas de Allie, e ela precisava se preparar. Não conseguiu entender como aquela loucura toda estava acontecendo em apenas um dia, mas sabia que tudo o que precisava era manter o seu emprego. Sem muita preocupação, Theresa desmontou seus equipamentos como fazia todos os dias ao final do expediente, pegou a pasta do chão e se sentou em um dos sofás mais reservados do estúdio. Ela não queria ingressar naquele show, mas ao menos decoraria as falas, mostrando empenho, afinal, Yzak precisava ver que pelo menos ela tinha interesse em ajudá-lo, e, mais uma vez, seu emprego era sagrado. Não daria o máximo de si na audição, mas o convenceria de que a intenção foi boa. Pouco mais tarde, o estúdio já estava praticamente desligado e poucas pessoas transitavam no lugar, a sensação de ânsia começou a tomar conta de seu corpo, ela só precisava passar por aquele dia atípico, manter a calma que em poucas horas estaria na sua cama novamente, na sua vida normal. Quando já não aguentava mais ler as falas da personagem de tanto nervosismo, Theresa viu seu chefe vindo em sua direção, o pulo do sofá foi instantâneo, ansiosa para o que vinha a seguir.
Assim que Theresa assentiu, confirmando sua presença no teste, Yzak lhe lançou um sorriso agradecido. Pouco a pouco o caos se desfazia, e a sua tão amada programação voltava a tomar forma. Agradeceu-lhe, e então deu meia volta, já encontrando seu próprio assistente com as chaves do seu GMC Acadia à sua espera. Saiu do estúdio satisfeito, rumo a uma entrevista de pré produção e pesquisa para o roteiro de seu próximo filme - sim, aquele pelo qual esperava desesperadamente a liberação da verba. Em seguida, foi até o drive thru mais próximo. Cerca de cinquenta minutos depois, já retornava ao lote 9, com três grandes sacolas de papel que estampavam a marca da hamburgueria Five Guys e, na outra mão, refrigerantes. “Meredith is already in your office, Sir.” Mal pisara no estúdio e o fantasma que apelidara de Pete - não havia decorado seu nome verdeiro - o cercava como um abutre. “Good. Don’t let anyone in my office, as you know.” Retrucou, sem sequer olhar para o universitário desesperado por um estágio com um chefe menos... Yzak.
Quando trancou a porta atrás de si, Meredith já havia fechado todas as cortinas. Estava sentada em sua cadeira de couro, com as longas pernas sobre a mesa. Encarava-o com um sorriso malicioso, ao passo que brincava com uma mecha de seus longos fios negros. Vestia um sobretudo rosa claro, e ele sabia bem que não tinha nada embaixo daquela única peça, exceto a cinta liga preta que se revelava devido à posição de seu corpo. “Missed me, Zacky?” Ela perguntou com a voz suave de quem está bastante feliz com o chamado surpresa. Abrindo um sorriso fraco, Yzak colocou as embalagens em cima do frigobar, e os refrigerantes dentro do mesmo. Caminhou até a moça e lhe depositou um terno beijo nos lábios. “You know I did.” Mentiu. De repente, a tinha envolta em seus braços. Já desabotoado, o sobretudo se abriu com o movimento, concretizando o pensamento tido há pouco. “Oh, Zacky.” Ela retrucou, feliz. Deus, como odiava aquele apelido. Zacky. Normalmente, rolava os olhos por repulsa mas, embora iludida, Meredith sempre sabia a que vinha, e por isso sequer se deu ao trabalho de tirar qualquer uma de suas peças de roupa. Como num pornô clichê, apenas desabotou a calça, enfiou a mão por dentro da cueca e envolveu o membro de Yzak com as mãos. Agora, rolava os olhos por prazer.
Enquanto os lábios quentes o saboreavam, sentia toda a tensão se esvair. Por alguns meros minutos era capaz de esquecer a raiva acumulada. Ou melhor, pela hora seguinte, que se passou alternando entre investidas nas mais diversas posições, boquetes, e claro, uma de suas atividades favoritas, sexo oral na própria Meredith, até que sentisse o corpo dela inteiro tremer para não gritar durante o orgasmo. Talvez fosse essa habilidade em particular que causasse tanta dependência vinda da garota nua em seu sofá. Yzak adorava a sensação de poder e domínio. Nada lhe excitava mais do que se sentir digno da submissão de uma mulher. Desconfiava gostar mais disso do que do sexo propriamente dito. “Thank you for coming.” Agradeceu, enquanto ambos se vestiam e ele preparava para expulsá-la dali com educação. “Maybe we can do something later?” Ela se apressou em sugerir, como em todas as outras vezes que tentou arrancar-lhe um jantar, sempre em vão. “Can’t. I have an audition to starting soon. Don’t know how long it’ll take.” Seu tom de voz era neutro, não esboçava interesse algum em dar sentido romântico aos encontros. Logo, abriu a porta, dando passagem. “Okay, then. Call me if you need anything.” Depositou-lhe um selinho e então saiu da sala, sorridente. Yzak por sua vez, não mudou de expressão. Parecia até entediado.
Buscou os lanches e foi até o encontro de Kevin e Theresa. Próximo à entrada estavam uma mesa com duas cadeiras, posicionadas de frente a uma parede preta. A câmera também já se encontrava sobre o tripé, pronta para a ação. “I kept them over the fridge so that they could still be heated.” Falou com uma careta, em um tom relaxado e divertido, entregando um pacote à loira. Em seguida, sentou-se ao seu lado. “You’re not vegan, right?” Arregalou os olhos, como se o pensamento só tivesse lhe ocorrido naquele momento. “Pardon me if you are. I just thought I’d bring some food for us, since we don’t know when we’re going home.” Suspirou. Ao abaixar o olhar pôde notar a folha de ofício com uma das cenas de Allie e Dean no papel. “Oh, you were reading your lines?” Perguntou, com uma pitada de choque. Não imaginou que ela fosse levar o comentário feito mais cedo a sério. “If you want to go first...” Deixou que seu rosto assumisse uma feição sapeca e desafiadora, enquanto indicava o local das audições com os olhos. Que mal teria deixar que uma mulher linda como aquela brincasse um pouco? Quem sabe assim não acabaria ganhando a sua confiança? “I guess you’ll have less pressure this way, since there are no other actresses here to judge you or anything.” Sabia o quão competitivo aquele mundo poderia ser e, por mais que ainda não fosse capaz de dizer exatamente como ou por quê, Yzak sentia uma energia diferente vinda de Theresa, que fazia com que tivesse a necessidade de protegê-la de qualquer mal.