Toda a composição do ambiente - iluminação amarelada de velas, os arranjos de flores, cemitério, tumbas, cruzes - já ajuda a construir uma aura de descolamento do comum, do cotidiano, do ordinário. Adentrar fisicamente naquele espaço parecia ser adentrar em um espaço de suspensão. E pela imersão na realidade sensível, você conseguia vislumbrar o inteligível, talvez coletivo, talvez individual. Pelo menos pra mim, já que não posso dizer pelos outros, me coloquei a pensar nos meus mortos, e depois nos mortos dos outros, e nos mortos de ninguém e nos mortos de todos. Na minha própria morte. Depois na morte em si. Em como ela é apreendida e perpassada nas culturas ao longo de toda existência humana. Também tem aquele momento "para onde vamos todos? Se vamos para algum lugar. Existe vida após a morte? Onde vivem os mortos, se não nas memorias dos vivos?". A impressão que me marcou, e que mais me tocou, foi de ver naquilo tudo, na expressão do visível e do invisível, a materialização, tão palpável, tão tangível, tão simples (mas nao simplória) de que nossos afetos transpassam as barreiras do tempo e da matéria. ... E cada símbolo em si, já permitia tanta reflexão. Você podia passar um bom tempo apenas a analisar as velas; quantas, as posições, o tempo de queima, quem tinha mais, quem tinha menos. E as tumbas que tinham apenas uma única vela, sozinha, queimando na cruz... O que significa? Há somente uma única pessoa que se lembra; e por que ela continua apesar de ser a única; ela espera que façam por ela também? Ou foi uma vela de compaixão, de quem tinha muitas velas para doar? Existem pessoas que vão para velar os mortos dos desconhecidos? E em algum momento, ao andar, direcionar olhos e pensamentos, não fizemos isso também? As flores; as de plástico e as naturais, a variedade, os arranjos, as plantadas em vasos. As que são da região e as que foram trazidas de fora. As que foram colhidas à mão... As flores são a única rebeldia de cor no meio do branco; das velas, das tumbas e das cruzes, e do preto; da terra, do mato e do céu. ... Tem uma passagem em cem anos de solidão, em que falam que "ainda podem mudar de cidade, porque ainda não enterradam um morto". E de certa forma, olhando assim, faz sentido que as pessoas voltem mais pra Vila Nova em dia de finados que em outras datas do ano. Certa vez, em uma aula sobre o gênero "retratos" na fotografia, o professor dizia sobre como o mistério é muito mais fértil para a arte do que as respostas. Que o fotógrafo tem que dar apenas dicas, nunca soluções. Quanto menos você sabe sobre algo ou alguém, mais sente que poderiam ter algo em comum. Quem seria aquela pessoa? Como era a vida dela? Como era sua casa? Por que ela tava sentada de tal forma? O mistério do que não vemos nos prende mais do que o que os olhos exergam. Tinha muito disso, lá. As cruzes brancas. Os túmulos sem nome. Nomes sem sobrenomes. Sobrenomes que se repetem; história de uma família. Sobrenomes que mudam; a história casamentos. A data de início e fim. A estrela e a cruz. E o mistério de toda uma vida que correu entre elas.