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se salvar curte, gente please
Leooo somiu pq, posta mais
Boa tarde , a Autora parou de postar :( …… estou esperando ela posta , espero q ela volte um dia :( …….
Ta sumido em Léo, oque aconteceu com você ?
Boa tarde , a Autora parou de postar :( …… estou esperando ela posta , espero q ela volte um dia :( …….
Não vai mas posta capítulo novo?A fica é tão boa,Pra se parada assim!🙄
Boa tarde , a Autora parou de postar :( ...... estou esperando ela posta , espero q ela volte um dia :( .......
Trailer - Websérie Além de Alice
MEU ANJO
Capítulo 41
Especial P.O.V. Vanessa
-Não posso dizer que me surpreendo -respondi depois de um tempo em silêncio- essa aproximação repentina agora faz mais sentido.
Alexa mordeu o lábio inferior e desviou o olhar.
-Clara vai simplesmente surtar. Ela nunca vai me perdoar. -murmurou observando as próprias mãos.
-Bem, isso poderia ser evitado desde o início.
-Dinah. -grunhi.
Ela revirou os olhos mas ficou quieta.
-Escuta, Clara não vai gostar nem um pouco de ver a melhor amiga e a praticamente mãe nesse pé guerra. Apesar de tudo, Alexa, você sabe como ela é e que vai entender o seu lado.
Alexa sorriu fraco para mim e assentiu. Devolvi o sorriso e acariciei seu braço, em sinal de que tudo ficaria bem.
-Chancho, como você pode concordar com isso?
-Chee... Querendo ou não Alexa sempre fez parte da vida da Clara. Se ela escondeu isso dela, teve um bom motivo.
-Ainda não vejo vantagem nisso.
-E eu não vejo vantagem na Clara sabendo a verdade sobre Michael, pra que fazer ela sofrer e achar mais ainda que tem algo de errado com ela pra que ele a abandonasse? Ela já se acha fraca por todos os anos com Paul, se sente uma merda por nunca ter conhecido a própria mãe, ela não precisava de mais sofrimento. Eu sempre fui a família dela. E Clara sempre foi mais do que minha afilhada, ou a filha da minha melhor amiga falecida. Ela é sim minha filha, minha vida, e é uma garota incrível que não nasceu de mim, mas nasceu pra mim. Acredite, se eu escondi isso, foi pro bem dela.
Acho que mais nada precisava ser dito. Alexa tinha por Clara um amor tão puro, era realmente o de uma mãe para com a filha. Eu ficava imensamente feliz por saber que a minha garota teve ela como apoio durante aqueles anos. Mas agora ela não tinha apenas Alexa. Tinha todos nós, e principalmente a mim.
Confesso que no início foi difícil, extremamente difícil. Eu pensei inúmeras vezes antes de me envolver realmente com ela, se era uma boa ideia. Além de a ideia de novamente namorar alguém como Charlie ainda me assombrar, eu percebia seu olhar sem vida. Ela parecia ser tão quebrada e frágil. Às vezes ela simplesmente se encolhia, como se quisesse se esconder, ou simplesmente sumir. Agora eu sei a razão disso.
Vero e Lucy me imploraram dezenas de vezes para que eu não desistisse de Clara. Elas diziam que eu tava fazendo um bem absurdo a ela, e se eu acabasse com tudo, mesmo que estivéssemos ficando há pouco tempo na época, Clara só tenderia a piorar. Eu sabia que algo a fazia mal, só não sabia o que.
Toda a apreensão sumia quando eu estava perto dela. O medo de machuca-la, ou me machucar sumia rapidamente ao receber seus carinhos, sentir seus lábios nos meus, ou apenas ao ficar ao seu lado. Balancei a cabeça me livrando dos pensamentos, observando Dinah comprimir os lábios novamente, se levantar e se retirar.
-Eu não queria causar isso entre vocês.
Sorri e neguei com a cabeça.
-Está tudo bem, daqui a pouco ela vê que exagerou e te pede desculpas.
-Sabe, Van...
-Hm? -murmurei enquanto bocejava.
-Clara acordou.
Levantei num salto e fui correndo até o quarto. Aqueles olhos verdes quentes e marejados me encararam com um bico, e não pensei duas vezes ao me jogar na cama ao seu lado. Me sentei me encostando na cabeceira, e bati as mãos nas coxas indicando que era para ela se sentar ali.
No mesmo instante ela se aproximou e se sentou de lado no meu colo, passando os braços pelo meu pescoço e enterrando sua cabeça ali.
Abracei fortemente sua cintura e soltei um suspiro. Fechei os olhos ao sentir o cheiro de morangos que emanava dos seus cabelos. Clara estava enganada ao dizer que o meu cheiro era o melhor, o dela sim era.
O corpo da minha namorada começou a tremer levemente, indicando que ela estava chorando. Apertei os olhos tentando evitar que eu chorasse também, mas era inevitável, ter a pessoa que você mais ama na vida tão frágil, chorando nos seus braços, é uma das piores sensações, se não a pior.
-Está tudo bem, amor. -murmurei com os lábios colados em seus cabelos. -quer me contar com o que você sonhou?
Seu corpo tremeu mais ainda, agora começando a soluçar.
-Ei, fica calma. Não precisamos falar disso agora, só relaxa, cariño. -pedi em meio aos sussurros.
-Van... -ela retirou o rosto do meu pescoço e me encarou.
Seus olhos verdes agora avermelhados, com lágrimas escorrendo por todo o seu rosto esculpido por anjos. Não, Clara era um próprio anjo.
-Oi, meu amor.
-Você... Você promete nunca me deixar?
Franzi o cenho me sentindo desesperada com aquela pergunta.
-Clarinha... É claro que sim. Eu amo você, você é minha vida. Nada no mundo me faria deixar você.-murmurei colando nossas festas.
Clara era uma namorada tão perfeita. Mais ninguém no mundo seria capaz de me fazer feliz do jeito que ela faz. Ninguém me encararia com aqueles olhos verdes. Ninguém seria tão manhosa como ela.
Ninguém me chamaria de princesa, e me trataria como ela. Ninguém seria resmungão como ela. Não me traria os mais simples porém mais belos presentes, como aquele buquê. Não cuidaria de mim, não iria até a minha casa no meio da madrugada pelo simples fato de eu ter tido um sonho ruim, ou por estar morrendo de cólica e querer seu colo e um remédio.
Não me olharia como se eu fosse a joia mais rara e mais preciosa no mundo, como ela está fazendo nesse exato instante. Não faria os momentos mais simples se tornarem os mais importantes e mais belos da minha vida. Deus, como eu a amo. Ninguém no mundo seria como Clara Aguilar.
-Eu te amo. -ela sussurrou voltando a enterrar a cabeça no meu pescoço.
Aquelas simples três palavras, que hoje em dia são usadas, muitas vezes, sem as pessoas entenderem seu verdadeiro significado, fizeram meu coração acelerar e um sorriso largo enfeitar meus lábios.
Observei todos ainda dentro do quarto nos observando com um sorriso discreto. Sorri fraco e embrenhei os dedos nos fios do cabelo de Clara, acariciando seu couro cabeludo.
Ela ronronou e se aconchegou mais em mim, me fazendo sorrir mais ainda.
-Otária. -Normani cantarolou e eu revirei os olhos e lhe mostrei o dedo do meio.
-Vanessa Mesquita. -disseram minha mãe e Ally em uníssono.
-Desculpe. -resmunguei e apertei mais Clara no abraço, que riu baixinho.
(...)
-Bom, acho melhor deixar vocês três sozinhas... -disse me levantando, mas Clara segurou meu pulso me fazendo parar.
-Fica. Por favor.
Era impossível negar alguma coisa para aqueles olhos verdes brilhantes e suplicantes. Ela me puxou, me fazendo sentar no seu colo. Enterrei o rosto no seu pescoço, sentindo seus braços fortes e quentes envolverem meu corpo.
-Então... Podem começar.
A primeira coisa que Dinah fez foi voltar a estender a foto para Clara. Ela respirou fundo antes de voltar a analisar a foto. Era de um casal. A mulher de olhos claros e cabelo escuro estava grávida, um homem robusto e sorridente a abraçava por trás, com ambas as mãos pousadas em sua barriga.
A mulher na foto era linda, seu sorriso era tão largo e brilhante quanto seus olhos; os cabelos batiam na altura dos seios, suas mãos estavam protetoramente pousadas na barriga, entrelaçadas às do homem.
E então Clara virou a foto. Rose e Michael Aguilar. 1996.
-Eles pareciam tão... Felizes. O que diabos aconteceu? -ouvi sua voz rouca e trêmula perguntar.
Olhei para seu rosto e constatei que ela estava se segurando para não chorar novamente. Fiz um carinho na sua bochecha vendo ela fechar os olhos, e a primeira lágrima escorrer. Apliquei um beijo na lágrima que descia e abri os olhos vendo Clara me encarar.
Ela sorriu fraco e me deu um beijo na testa.
-A história é bem longa e... Não tão bonita. Bem, vocês sabem que eu, a mãe de Vero, sua mãe e a mãe da Vanessa éramos inseparáveis, certo? -minha namorada assentiu- nós morávamos na mesma rua, e costumávamos brincar juntas quando éramos crianças. Sempre fomos muito unidas, ao ponto de irmos pra mesma escola e ficarmos na mesma turma. Sempre fomos nós quatro contra o mundo -abriu um sorriso triste e olhou para a janela observando a chuva que havia começado a pouco tempo- e foi assim até a faculdade. No ensino médio, nós conhecemos quatro garotos, também eram amigos de infância. Façam as contas. -soltou uma risada sem humor.
"Michael e Paul se encantaram por Rose. Eu não poderia culpa-los, Rose era tão... Incrível. Tão cheia de vida, nada a abalava, se você estava com problemas ela simplesmente jogava tudo pro alto e ia te ajudar. Te defendia com unhas e dentes até o fim." Senti o corpo de Clara estremecer, então ela enfiou o rosto no meu pescoço. Me limitei a fazer um carinho na sua cabeça e beijar suas mãos.
"Mas... Sua mãe não tinha olhos pra ninguém a não ser Michael. E isso simplesmente... Enfurecia Paul. Eu... Gostava dele. Ele não era como é hoje em dia. Bem, se era, nós não percebíamos. Alejandro e Sinu viviam em seu próprio mundo encantado. Assim como os pais da Vero. Isso é tão raro... Ainda jovem assim você encontrar o amor da sua vida. Alguém que você queira ao seu lado não importa o que aconteça.
"Mas tudo desandou quando Rose e Michael assumiram um relacionamento. Deus... Eu nunca a vi tão feliz. Nunca vi nenhuma das minhas três melhores amigas tão felizes assim. Ao mesmo tempo em que nunca havia visto Paul tão infeliz. Nós... Nos aproximamos e acabamos ficando juntos. E isso me fez feliz também, porque eu realmente gostava dele, e estava disposta a fazer ele esquecer Rose. Mas ele não conseguia esquecê-la. Era como uma obsessão. Até o dia em que ele tentou estuprar Rose."
Senti o corpo de Clara ficar tenso, seus punhos agora estavam fechados, sua respiração pesada em meu pescoço.
-Shh... Está tudo bem, amor. -passei os dedos por seu braço e continuei acariciando seus cabelos com a outra mão, enquanto aplicava beijos no topo da sua cabeça. Senti seu corpo relaxar.
"No mesmo instante eu terminei tudo com ele e mandei ele ficar longe de Rose. Até mesmo os melhores amigos dele se revoltaram contra ele. Durante um tempo tudo ficou as mil maravilhas. Nós estávamos bem. Até que... Ele voltou. E estava irreconhecível. Queria Rose a todo custo, mesmo com Michael e os outros mandassem ele ficar longe.
"E então o colegial acabou, e fomos pra faculdade. Óbvio que ele apareceu novamente. Ele simplesmente não desistia... Era um doente. É um doente. Sempre foi obcecado pela sua mãe. E foi quando Rose engravidou. Seu pai não pensou duas vezes em pedi-la em casamento, não só porque ela estava grávida, ele já planejava fazer isso. Mas a notícia fez ele querer fazê-la oficialmente dele logo.
"A família de Rose não aprovava. Ou melhor, o pai dela não aprovava, a mãe me implorou pra que eu a ajudasse, e eu fiz sem pensar duas vezes. Ela mandava dinheiro escondido pra ajudar nas despesas, e assim vivíamos eu, Rose e Michael em um apartamento. Era tudo perfeito."
Alexa contava toda a história sem tirar os olhos da janela. Seu rosto assumindo uma expressão nostálgica que exalava saudade e dor. As lágrimas não demoraram para se acumular nos cantos dos olhos.
-Eles... Se casaram próximo ao sexto mês da gravidez. Paul viva por perto... Atormentando a vida de todos nós. Nossos amigos tentaram fazer de tudo pra deixá-lo longe, mas era impossível. Ele passou a fazer da minha vida, a de Rose e Michael um inferno. Era impossível se livrar dele, ele estava em todos os lugares.
"E então nós... Chamamos a polícia e demos um jeito na situação. E Clara... -ela chamou a atenção dela, agora olhando nos seus olhos- ele jurou fazer da minha vida um verdadeiro inferno quando ele voltasse. E realmente fez. Eu não queria que você descobrisse, não queria que você soubesse que você não foi escolhida por ele ao acaso. Aquela era a vingança dele. Ele não podia ter Rose, mas podia ter você. E... Você é tão parecida com ela... Talvez não tanto fisicamente, mas seu jeito... Suas manias... Sua educação... Vocês são simplesmente idênticas. E isso me enche de orgulho." Alexa respirou fundo e passou a mão pelos cabelos.
-O parto foi difícil. Muito difícil. Rose perdeu muito sangue, e... Acabou não aguentando. Os longos anos, principalmente os últimos meses tinham deixado ela frágil, tanto emocionalmente quanto fisicamente. Todos nós ficamos devastados. Eu e Michael fizemos um barraco, e apesar de só ser permitido o pai estar ali naquela sala, eu também estava. Não deixaria Rose passar por aquilo sozinha. Vocês tinham que ver a expressão de Rose quando Clara nasceu. Era tão... Lindo. O rosto de uma mãe ao ver seu filho pela primeira vez. Certamente foi a cena mais linda da minha vida, nunca irei esquecê-la.
"Ela aguentou firme até te segurar pela primeira vez. Você estava esperneando, mas assim que foi pro colo dela, você parou. Como mágica. Ela te deu um beijo na testa em meio às lágrimas. Michael não estava diferente. Eles disseram que te amavam. E foi então que a máquina passou a apitar. Michael rapidamente te tirou do colo dela e se afastou, mas parecia desesperado tentando entender o que estava acontecendo. Eu não ouvi o que as enfermeiras e médicos disseram, eu continuei do lado dela e segurei firme em sua mão. Ela... -respirou fundo tentando conter o choro, mas as lágrimas caíam desenfreadas pelo seu rosto- ela puxou minha mão... E disse... Olhando no fundo dos meus olhos: cuida dela pra mim. Eu te imploro. Eu amo vocês. Pra sempre."
Senti minhas própria lágrimas caírem livremente pelo meu rosto. Observei Alexa que agora estava sendo abraçada por Dinah; que limpava seu rosto e observava Clara, que encarava o chão sem esboçar nenhuma reação; com preocupação estampada em seus olhos.
-Michael... Ficou inconsolável. Ele não comia, não bebia, não dormia, em determinado momento ele simplesmente passou a não chorar e não reagir a nada. E eu estava fazendo o que Rose me pediu, estava cuidando de você. Um advogado nos procurou um tempo depois. Rose tinha feito um testamento, deixando todo o dinheiro da sua família; já que os pais dela morreram, no meu nome, pra que eu passasse pra você quando você completasse dezoito. Eu não toquei nesse dinheiro, em nenhuma propriedade da família Aguilar, na verdade. Aquela casa de praia não é a única.
"Seu pai não aguentou. Além do fato de ele não conseguir seguir em frente sem Rose, Paul mais uma vez voltou pra atormentar nossas vidas. Ele ameaçou o seu pai, disse que se ele não fosse embora me mataria e mataria você junto. Michael me pediu perdão... E também implorou pra que eu cuidasse de você. Sabe... Era assustador eu cuidar de você completamente sozinha. Michael foi sim um covarde ao ir embora sem mais nem menos, sem nem mesmo tentar.
"Mas como a vida não cansava de fazer das nossas vidas um saco de pancadas, e como Michael abriu mão da sua guarda, agora quem a tinha era uma tia sua, que roubou você de mim. Tudo por causa do seu dinheiro. Ela se mudou com você pra Nova York, e eu fui atrás. A princípio fiquei longe, porque ela não me queria na sua vida, mas eu insisti tanto que ela cedeu. Ela nem mesmo cuidava de você. Terminei a faculdade e me formei em psicologia, trabalhando em alguns consultórios até conseguir abrir o meu próprio, e poder cuidar de você da melhor forma possível. E então aquele filho da puta voltou. Eu juro Clara, juro que tentei de tudo. Desde um guarda costas, a chamar a polícia, a fazer você fugir, e até mesmo um assassino de aluguel pra ir atrás de Paul. Ele descobria tudo e vinha atrás de mim me ameaçar. E bem... O resto você já sabe."
O corpo de Clara não parava de tremer, aquilo estava me preocupando.
-Ela... Ela morreu por minha causa... -ouvi ela balbuciando.
-Clarinha... Clara olha pra mim... -puxei seu rosto, novamente sentindo meu coração se quebrar em mil pedaços ao ver o estado em que ela estava- não foi sua culpa, ok? Eu preciso que você entenda isso. Se nós formos culpar alguém, vamos culpar o Paul, tudo bem? Ele sim é o culpado por tudo isso. E ele está pagando por todas as merdas que ele fez a você e a sua família.
Ela assentiu, mas seus olhos continuavam vazios, sem expressão. Abracei seu corpo mais uma vez, me impressionando mais uma vez com como Clara era forte. Se fosse eu em seu lugar já teria desabado em lágrimas. Senti alguém nos abraçando e abri os olhos vendo Dinah. Ela estava sentada do outro lado de Clara agora, que tirou o rosto do meu pescoço e sorriu ao vê-la.
O rosto da minha namorada agora estava enterrado no pescoço de Dinah, que abraçava nós duas com força.
-Me desculpa... Eu juro que eu fiquei sabendo disso hoje, quando vi a foto. Talvez essa ideia de te contar não tenha sido tão boa...
-Estou bem... -ela esboçou um sorriso fraco.
-Me perdoa... -DJ murmurou com a voz embargada.
Me afastei limpando meu próprio rosto, vendo Dinah puxar Clara para seu próprio colo, voltando a abraçar seu corpo e conversar baixinho com ela a fazendo rir e revirar os olhos.
Seu riso de bebê me fez sorrir automaticamente, sentindo meu coração se acelerar e as borboletas no estômago surgirem. Me virei para Alexa, que observava a interação entre Dinah e Clara com um sorriso, em silêncio.
-É diferente com ela, não é? -perguntou fazendo Clara a olhar confusa.
-Com quem?
-Dinah. Digo... Você faria de tudo por qualquer amigo seu sem pensar duas vezes, mas com Dinah e Vanessa é diferente. Elas são uma parte de você.
Clara sorriu e assentiu olhando para nós duas.
-Eu era assim com Rose... É uma amizade tão linda... Você e Dinah me lembram muito nós duas. Eu faria tudo por ela, e uma parte de mim morreu quando Rose se foi diante dos meus olhos, e eu não pude fazer nada pra impedir.
-Bem... -a voz de Dinah cortou o silêncio que se seguiu- eu vou cuidar pra que nada disso aconteça com Clara, ou qualquer um deles.
-Sei que vai. -Alexa abriu um sorriso a encarando- obrigada por isso. Dinah sorriu e assentiu.
-Você... Continuou falando com Michael durante esses anos?
-Não. Ele me procurou, e disse que estava arrependido e que queria ver você. Eu não deixei. Eu sei que foi muito egoísta da minha parte fazer isso, mas eu não consegui perdoa-lo por ter nos deixado.
-Vocês eram... Você sabe... -Clara comprimiu os lábios e arqueou o sobrancelha, sugestiva.
-Oh, não. Por Deus, não. Mas ele era meu melhor amigo, e o amor da vida da minha melhor amiga falecida. Sem falar que era o pai da minha afilhada, e minha mais nova filha.
-Certo. -Clara suspirou- e os pais de Vanessa e de Vero?
-Bem, os de Vanessa eu falei poucas vezes durante esses anos, mas os de Vero eu perdi totalmente o contato quando me mudei. Pelo visto fiz bem, vendo o que os pais dela se tornaram. Um bêbado que quase fez mal à própria filha, e uma mãe que a abandonou. É estranho saber disso... Que eu na verdade não conhecia de verdade alguém com quem eu convivi metade da minha vida inteira.
-Não sei como você foi amiga de alguém assim. -Clara resmungou, como sempre.
Ela voltou a se acomodar no meu colo, apoiando o rosto no meu ombro, mas mantendo a mão entrelaçada à de Dinah.
-Nem eu, querida. -Alexa abriu um sorriso e encostou a cabeça no sofá, fechando seus olhos.
-Alexa? -ela fez um som nasal para que Clara continuasse- eu acho que... Tenho que conversar com Michael, certo?
Alexa abriu os olhos e a encarou.
-Tem certeza de que está pronta pra isso?
-Tenho. Digo, ele quer se redimir certo?
-Sim...
-Se você foi capaz de perdoa-lo... Acho que preciso dar uma chance pra que ele se explique.
Alexa sorriu e assentiu.
-Pode ligar pra ele e pedir pra que ele venha aqui?
-Claro, meu amor.
Clara sorriu e agradeceu.
-Amanhã.
-Certo. Você está... Bem com tudo o que eu te contei?
-Sim... Digo, ainda estou assimilando tudo isso. Mas vou ficar bem. Só não me esconda mais as coisas, por favor.
-Desculpe -murmurou- só não queria deixar tudo pior pra você.
-Sei disso. Está tudo bem. Obrigada, mãe. -Alexa sorriu largo e assentiu.
Era lindo ver a expressão em seu rosto quando Clara a chamava de mãe.
-De nada, meu amor.
Minha garota sorriu para ela, e se voltou para mim, colando nossas testas.
-Van? -chamou enquanto fazia um carinho gostoso na minha pele embaixo da blusa.
-Hm? -murmurei entorpecida pelo seu cheiro e seus toques.
-Vem comigo? Quero te mostrar uma coisa.
Assenti e esperei até que ela se levantasse, para entrelaçar nossos dedos e nos puxar para a sala de música. Clara me deixou em frente ao piano, e se sentou no banquinho. Limpou a garganta e me encarou com aquele sorriso de tirar o fôlego.
-Eu sei que Dinah vai aparecer aqui assim que eu tocar a primeira nota. -murmurou me fazendo rir e seu sorriso aumentar- preste atenção na letra, ok? Eu não seria nada sem você pra aguentar tudo isso.
Ai, porra. Eu já sabia que ia chorar de novo. Toda vez que Clara falava coisas assim eu me derretia por completo. Na verdade tudo que ela falava me derretia por completo. Desde os incontáveis elogios, aos pedidos manhosos e aos resmungos.
Assenti e lhe lancei um sorriso, observando enquanto ela respirava fundo e iniciava as notas suavemente. Assim que reconheci a música meu sorriso se alargou.
Remember those walls I built
Well baby they're tumbling down
And they didn't even put up a fight
They didn't even make a sound
I found a way to let you in
But I never really had a doubt
Standing in the light of your halo
I got my angel now
Não deu outra, no primeiro verso do Dinah e Normani apareceram na porta da sala totalmente ofegantes, sendo que alguns segundos depois todos os nossos amigos, seguidos por meus pais e Alexa entraram na sala. Clara corou ao ver a quantidade de gente que a observava agora, mas continuou mantendo seus olhos fixos a mim, com sua voz rouca e completamente enlouquecedora me envolvendo por completo.
It's like I've been awakened
Every rule I had you breaking
It's the risk that I'm taking
I ain't never gonna shut you out
Everywhere I'm looking now
I'm surrounded by your embrace
Baby I can see your halo
You know you're my saving grace
You're everything I need and more
It's written all over your face
Baby I can feel your halo
Pray it won't fade away
Meu coração errou uma batida ao ver o brilho voltar ao seus olhos, enquanto ela me observava. Era impressionante e ao mesmo tempo assustador como uma única pessoa me afetava. Como Clara conseguia, em um momento, fazer meu coração se acelerar e palpitar feito louco em meu peito, e em outro fazer ele bater lentamente, como agora.
I can feel your halo, halo, halo
Can see your halo, halo, halo
Can feel your halo, halo, halo
Can see your halo, halo, halo
Hit me like a ray of sun
Burning through my darkest night
You're the only one that I want
Think I'm addicted to your light
I swore I'd never fall again
But this don't even feel like falling
Gravity can't forget
To pull me back to the ground again
Foi impossível não rir ao ver Normani e Dinah abraçadas cantando igual duas loucas, mesmo que ainda não tenham se entendido. Algumas vezes durante a música Clara ria das duas, soltando aquela gargalhada alta de bebê me fazendo sorrir automaticamente. Ela quase errou uma nota de tanto que riu quando Dinah fez uma cara engraçada e gritou "Queen B, porra!".
Feels like I've been awakened
Every rule I had you breaking
It's the risk that I'm taking
I'm never gonna shut you out
Aquilo era um alívio. Saber que uma vez que ela finalmente havia me deixado entrar; me deixar tentar ajudar com todos os problemas que a cercavam, ela nunca iria se fechar novamente.
Everywhere I'm looking now
I'm surrounded by your embrace
Baby I can see your halo
You know you're my saving grace
You're everything I need and more
It's written all over your face
Baby I can feel your halo
Pray it won't fade away
I can feel your halo, halo, halo
Can see your halo, halo, halo
Can feel your halo, halo, halo
Can see your halo, halo, halo
Can feel your halo, halo, halo
Can see your halo, halo, halo
Can feel your halo, halo, halo
Can see your halo, halo, halo
Halo, halo.
Eu não disse nada. Apenas andei até ela e esperei que ela se levantasse. Quando o fez, envolvi sua cintura, sentindo seus braços protetores ao redor dos meus ombros.
Sorri ao ouvi-la resmungar alguma coisa sobre Dinah, e aplicar um beijo no topo da minha cabeça. Me derreti por completo ao ouvir sua voz rouca, sussurrar de forma manhosa em meu ouvido:
-Te amo, meu anjo.
-Arrasou Palmito! -gritou Dinah antes que eu pudesse responder minha namorada.
A sala foi tomada por palmas e gritos, fazendo Clara corar e esconder o rosto no meu pescoço. -Vocês estão deixando minha namorada constrangida.
-É cu doce.
-Dinah! -repreendeu Normani.
-Que é? -resmungou indo de braços cruzados até o outro lado da sala.
As duas ainda estavam brigadas, não pareciam querer se resolver tão cedo.
-Cu doce é vocês duas continuarem brigadas assim sem querer olhar uma pra cara da outra, como duas criança de cinco anos. -Clara disse em seu habitual resmungo.
Dinah mostrou o dedo do meio para Clara e saiu da sala reclamando. Apenas continuei abraçada à Clara, fazendo carinho nos seus cabelos enquanto sua respiração quente batendo no meu pescoço me arrepiava.
-Hija?
-Hm?
-Acho melhor já irmos embora... Agora que já sabemos que Clara está bem, vamos indo.
-Tudo bem.
Clara se soltou de mim para que nós pudéssemos nos despedir dos meus pais.
-Se cuida, hija. Te quiero. -sussurrou no meu ouvido enquanto me abraçava forte.
-También te quiero, mamá.
-Hey, Clara? -minha mãe chamou- se cuida também, ok? E converse com Michael, ele errou feio, mas... Talvez ele mereça uma segunda chance.
Clara sorriu fraco e assentiu.
-Vocês... Mantiveram contato?
-Não... Rose era como o pilar daquele grupo. Depois que ela se foi... Nada mais foi como antes. Alexa foi a única com quem mantive um certo contato durante todos esses anos.
-Certo. E você sabia quem eu era? Digo, quando nos encontramos pela primeira vez.
-Não -admitiu em um suspiro- Vanessa havia apenas me dito que seu nome era Clara. Depois de alguns encontros com você, vendo seus olhos, seu olhar, seu jeitinho comecei a suspeitar de que você fosse aquela Clara. E quando Vanessa me disse seu sobrenome tudo se encaixou. Entenda que... Não cabia a mim te contar tudo isso, ok? Até porque eu nem mesmo sabia que Paul tinha ido atrás de vocês duas.
Depois que voltamos de Nova York, meus pais precisavam de alguma explicação sobre o que havia acontecido com Clara. Eu estava disposta a inventar que ela tinha sido assaltada, ou algo do tipo, mas Clara preferiu dizer a verdade a eles.
-Está tudo bem, Sinu. Eu entendo. -ela sorriu e minha mãe retribuiu o gesto, assentindo.
-Rose era muito especial, Clara. Você está se tornando uma pessoa tão bonita por dentro e por fora, assim como ela. Tenho certeza de que ela teria orgulho de você. Assim como nós temos. -disse meu pai.
Clara sorriu largo, ela precisava ouvir isso. Ouvir como é especial, mesmo que não se dê conta disso ainda.
-Obrigada, Alejandro. É bom ouvir isso. Eu queria ter tido a chance de conhecê-la. -ela abaixou a cabeça e coçou a nuca. Gesto que ela fazia quando ficava desconcertada.
Prontamente passei o braço por seus ombros e beijei sua cabeça.
-Não fique assim, querida. Saiba que não foi sua culpa. Foi tudo por causa daquele crápu...
-Alejandro. -advertiu minha mãe enquanto eu lhe mandava um olhar o repreendendo.
-Certo. Desculpe. Por que não vão lá em casa essa semana? Sinu, você ainda guarda nossas fotos da época da adolescência, não é? -minha mãe assentiu- tenho certeza de que podemos mostrar algumas a Clara, e contar algumas histórias sobre Rose. -sorriu levemente e voltou a observar Clara- Digo, se você aceitar.
-É claro. Gostaria mesmo de saber um pouco mais da minha mãe. Alexa fica... Sensível quando falamos dela.
-Não foi nada fácil, Clarinha. Nós quatro éramos inseparáveis, mas ao mesmo tempo em que Alexa era ainda mais próxima da sua mãe, eu era ainda mais próxima da mãe de Vero. Então... Imagine como foi pra ela, era como se ela tivesse perdido a própria irmã. E querida... Nós ficamos imensamente felizes ao ver que era você com quem nossa filha estava se relacionando.
Clara soltou um tímido "obrigada" e me olhou, aplicando um beijo na minha testa.
-É verdade, amor. Eles estão quase me esquecendo e roubando você pra eles, no meu lugar.
Minha mãe cruzou os braços e revirou os olhos.
-Larga de ser exagerada, menina.
A gargalhada infantil de Clara se fez presente, me deixando hipnotizada.
-Hija você é muito... Como se diz? Otaria. Muito otaria pela Clara.
-Mama! -disse indignada- onde você aprendeu isso?
-DJ, Mani e Vero me ensinaram. -ela deu de ombros.
Revirei os olhos.
-Caralho, mas essas três são insuportáveis.
-Vanessa André. -aquele olhar ameaçador da minha mãe era de dar medo, sério.
-Desculpe. -revirei os olhos novamente.
-Ei, família! -Dinah exclamou entrando na sala novamente. -vamos jogar um jogo? Isso envolve vocês também. -apontou para os meus pais.
-Não querida, já estamos indo embora.
-Ah qual é, tia. Durmam ai, Clara e Vero não se importam.
Folgada.
-Acho que deveríamos perguntar às donas da casa, DJ -disse meu pai divertido- além disso temos que buscar Sofi.
-A Clara busca ela, não é Clara? -Dinah é muito abusada mesmo.
-Claro. -disse minha namorada já desgrudando de mim para ir buscar a chave do carro- onde ela está?
-Clarinha, não se incomode com isso. Fica pra próxima, DJ.
Tenho certeza de que Dinah vai bater o pé feito uma criança birrenta e usar algum argumento para que minha mãe fique.
DJ andou até ela, e a abraçou pelos ombros, a puxando para longe de nós e sussurrando algo em seu ouvido. Minha mãe revirou os olhos mas assentiu.
-Está bem, garota abusada. -não disse.
Dinah riu e aplicou um beijo na bochecha da minha mãe.
-Alejandro vai buscar Sofi então.
-Ah, não precisa. Eu vou buscá-la, Sinu. Vamos, amor?
Assenti e entrelacei nossos dedos.
-Obrigada, querida. Kaki, ela está na vizinha.
-Ok. -murmurei e puxei Clara até o carro.
Eu queria mesmo ficar um pouco sozinha com ela, queria saber como ela estava.
-Amor... -segurei seu braço e ela me olhou confusa- deixa que eu dirijo. Você precisa pensar, já vi que com Dinah não teremos descanso tão cedo.
Ela riu e assentiu. Abriu a porta para que eu entrasse, corei com o gesto dela, como sempre, e esperei até que ela desse a volta se sentando no banco do carona.
O caminho até a casa dos meus pais estava sendo silencioso. Às vezes lançava alguns olhares à Clara, que estava com os olhos fixos no caminho à frente, mas parecia estar longe.
-Cariño? -perguntei pousando a mão em sua coxa.
-Hm?
-Está tudo bem?
Ela suspirou e senti sua mão se encaixando perfeitamente à minha.
-Sim.
-Está brava com Alexa?
-Não... Eu só realmente odeio que me escondam as coisas. Essa não foi a primeira vez que ela fez isso, sabe.
-Eu entendo, amor. -fiz um carinho com o polegar nas costas da sua mão- tudo bem mesmo?
-Sim, não se preocupe, princesa.
Sorri levemente e puxei sua mão para aplicar um beijo nela.
-Está preparada pra falar com Mike amanhã?
-Não. -riu baixinho- mas sinto que se não for amanhã, depois não consigo mais.
-Sabe que não precisa falar se não quiser, certo? -lhe lancei um olhar rápido.
-Sim, Van. Não estou dizendo que já vamos nos resolver, nem nada. Mas acho que quanto mais eu adiar isso mais difícil vai ser. Não vou fingir que nada aconteceu, mas... Talvez ele realmente mereça uma segunda chance. Pela minha mãe.
Sorri refletindo sobre suas palavras. Clara sempre foi muito melhor com elas do que eu ou qualquer pessoa que eu conheça.
-Meu pai tinha razão. Onde quer que Rose esteja, ela com certeza está muito orgulhosa de você. -olhei para ela que sorria, e se aproximou de mim, aplicando um beijo na minha bochecha.
-Obrigada, amor. -sorri e assenti.
Voltamos àquele silêncio. Finalmente chegamos em frente a casa dos meus pais, com Clara fazendo carinho na minha mão entrelaçada à dela durante o restante do caminho.
-Hey, Clara?
-Sim?
-Eu sei que você não está exatamente feliz agora, e que as coisas estão ruins pra você; ou melhor, pra nós, porque tudo que te machuca me machuca também; mas... Eu prometo que tudo vai dar certo. Eu vou fazer você ficar bem de novo.
Ela suspirou e sorriu, envolvendo minha cintura num abraço. Passei meus braços por seus ombros e a apertei forte, sentindo sua respiração quente batendo no meu pescoço e consequentemente me fazendo estremecer. Com uma mão embrenhei meus dedos em seus cabelos, acariciando, e com a outra passei lentamente pelas suas costas sentindo seu corpo finalmente deixar aquela tensão, que permaneceu lá desde a hora em que ela acordou do desmaio.
-Amor... Sabe que precisamos conversar do que você sonhou, certo?
-Eu não... Quero falar disso. -respondeu já tensa novamente.
-Clarinha, guardar tudo isso vai ser pior. Eu sou sua namorada, queria que você confiasse em mim.
-Van... Eu... Eu confio, mas... É que foi uma lembrança. -sussurrou me apertando.
-Eu imaginei, amor. Sobre o que foi? -perguntei calma continuando o carinho em suas costas.
-O sequestro. -respondeu em um sussurro.
-Você se lembrou de tudo? -indaguei surpresa.
-De tudo não, mas certamente o que eu lembrei foi a pior parte.
-Por que você não gosta de me contar essas coisas? Digo... Óbvio que você não gosta de se lembrar, mas quando você conta pra mim parece que fica dez vezes mais desconfortável.
-Me desculpe... -sussurrou- não é bem você a questão... É só um medo idiota...
-De que, meu amor?
-É só que... -suspirou frustrada- eu tenho medo de que se eu conte o que ele fez comigo você sinta nojo... De mim.
Afastei seu corpo do meu e segurei seus ombros.
-Não repita isso nunca mais, Clara. Ouviu bem? -ela assentiu sem me olhar- o que ele fez com você se chama abuso, e o que aconteceu durante aqueles dois dias não foi uma traição. Você foi forçada.
-Mas eu... Eu deixei...
-Por Deus, pare de dizer esses absurdos! Você foi forçada, amor. -suavizei a voz tentando me acalmar.
-Van você não está entendendo... -franzi o cenho analisando seu rosto, tentando entender onde ela queria chegar- ele... Dessa vez ele... Não tocou em mim daquele jeito sem que eu pedisse.
-O que quer dizer com isso? -perguntei receosa.
-Tudo que ele sempre quis foi que eu pedisse por conta própria pra que ele me tocasse. Que eu não fizesse escândalo, simplesmente ficasse quieta, por mais que ele gostasse de me ver implorar pra que ele parasse e me debatesse.
Trinquei a mandíbula e respirei fundo. A vontade que eu tinha era de eu mesma ir até Nova York e acabar com a vida desse maldito.- e então eu tive... Eu tive que pedir, Van. Por favor não fica brava, nem me deixa, eu te imploro. Eu amo você, eu tive que fazer isso...
O desespero, medo e dor eram tão expressivos em seus olhos que me assustava. Segurei seu rosto com minhas mãos e a obriguei a me olhar.
-Hey, Clara, se acalma. Tente esquecer isso, e o que quer que ele tenha feito pra te fazer pedir, ok? Eu também amo você, não vou sair do seu lado tão cedo.
Puxei seu corpo para um abraço novamente, ouvindo ela murmurar um "obrigada". Clara é extremamente insegura, é um dos seus poucos defeitos.
Acarinhei suas costas e cantarolei uma música qualquer sabendo que isso a relaxava.
-Está mais calma, cariño?
Ela assentiu e suspirou.
-Depois conversamos mais sobre isso... Agora não é o momento, eu acho. Vamos buscar sua cunhada? -perguntei divertida.
Clara riu e apertou mais minha cintura. Seu abraço era tão bom, quando ela me abraçava eu sentia que estava em casa. Seu cheiro me passava segurança, seu calor e voz me confortavam; estar em seus braços era a melhor coisa do mundo.
-Aham. -Clara suspirou mas continuou agarrada à mim.
Ri baixinho do seu gesto e beijei seus cabelos.
-Desse jeito vamos ficar paradas aqui a noite toda, Clarinha. -disse rindo.
-Não me importaria com isso. -resmungou.
-Vamos lá, bebe resmungão.
-Já vai, paixão. Só me abraça mais um pouquinho.
Revirei os olhos rindo mas a apertei mais ainda.
-Certo, Van, agora você já está me sufocando. -reclamou com a voz esganiçada.
-Agora aguenta, Aguilar.
Ela grunhiu, e por ser dez vezes mais forte que eu rapidamente escapou dos meus braços. Clara foi resmungando durante o caminho todo até a casa da vizinha e eu apenas ria dela. Por fim parei e abracei sua cintura.
-Por mais que eu ame seu jeito resmungão e ache incrivelmente adorável, amo mais ainda seu sorriso. Sorria pra mim, cariño.
Beijei sua bochecha e a vi reprimindo um sorriso. Revirei os olhos e beijei a pontinha do seu nariz, finalmente arrancando um sorriso de lado seu. Tinha que ser logo esse maldito sorriso?
-Não me lance esse sorriso, sua maldita. -foi minha vez de resmungar.
-Por que não? -perguntou confusa.
-Você sabe porque. Esse seu sorriso é destruidor de calcinhas.
Ela sorriu de lado novamente e aproximou os lábios do meu pescoço.
-É mesmo? -murmurou passeando os lábios molhados pelo meu ponto de pulso.
-Uhum.
Balancei a cabeça me livrando dos pensamentos um tanto quanto indecentes e empurrei-a para longe de mim.
-Mantenha sua boca e dedos longe de mim por enquanto, Clara. Anda, vamos buscar Sofi. -ela riu e entrelaçou nossos dedos enquanto andávamos até a vizinha.
Toquei a campainha e conversei com a senhora Mikaelson por alguns minutos, agradecendo-a por cuidar da minha irmã e prometendo que apareceria mais vezes.
Clara pegou Sofi no colo, que já estava dormindo, e a deitou no banco traseiro do carro.
-Vai atrás com ela que eu dirijo. -arqueei a sobrancelha e a encarei- já estou bem, fique tranquila. Sorri e assenti, deitando a cabeça de Sofi no meu colo e acariciando seus fios castanhos, e seu rostinho rosado de criança.
Sentia o olhar de Clara queimar em mim e na minha irmã durante todo o trajeto, mas apenas encarei a rua perdida em pensamentos. Não demorou para que chegássemos, e com um suspiro Clara abrir a porta e voltar a pegar Sofi no colo. Peguei a pequena mochila que continha alguns brinquedos da pequena, e segui minha namorada que já me esperava na porta. Alexa nos esperava com uma cara nada boa.
-Precisamos conversar.
Clara respirou fundo e sem responder caminhou até as escadas. Segui-a, e abri a porta do seu quarto para que ela pudesse entrar. Ela depositou Sofi embaixo das cobertas na sua enorme cama, e deu um beijo em sua bochecha antes de se levantar.
-Vamos deixar ela e seus pais dormirem aqui, podemos dormir no quarto de hóspedes no primeiro andar. -sussurrou. Assenti e me sentei ao lado de Sofi na cama- vou descendo e ver que merda aconteceu dessa vez. Pode separar as roupas pra já deixarmos tudo arrumado?
-Pode deixar. -ela sorriu fraco e me deu um selinho- já desço.
Clara concordou com a cabeça e saiu do quarto. Andei até seu closet e peguei uma camiseta sua, voltando para a cama.
Puxei as cobertas para baixo para tirar a roupa de Sofi. A pequena estava usando calça jeans e camisa apertada, roupas extremamente desconfortáveis para se dormir.
Retirei as roupas e pus a camiseta grande de Clara. Voltei minha irmã para debaixo das cobertas e liguei o ar deixando o ambiente frio, do jeito que minha irmã gostava.
Peguei as camisetas para que eu e Clara dormíssemos, e roupas íntimas. Deixei a luz do closet acesa e dei um beijo na testa de Sofi antes de sair do quarto, indo para o primeiro andar. Fui até o quarto de hóspedes, que ficava perto da sala de música, deixar as coisas e já arrumar a cama.
Após arrumar tudo, rumei a sala encontrando Clara com a expressão séria.
-O que foi? -perguntei me recostando em seu corpo, que estava apoiado no sofá.
-Temos que voltar pra Nova York. -Alexa respondeu.
-O que? Por que?
Ela me estendeu o telefone e eu franzi o cenho lendo a mensagem.
"Preciso de você e Clara aqui em no máximo um dia. É urgente. -Donna"
-Quem é Donna? -perguntei fazendo careta.
-Senhora Baker. -Clara se pronunciou pela primeira vez.
-Quer porra aconteceu agora?
-Ela não disse. E não atende nossas ligações.
-Temos que ir, Clara.
-Não. Já foram muitas emoções por hoje, deixa a Clara descansar por enquanto.
-Van...
-Por favor. -a interrompi.
Ela suspirou e assentiu.
-Certo. Desculpe, você tem razão. O que quer que seja pode esperar, tenho certeza. -sorri e murmurei um obrigada mudo, recebendo um sorriso fraco dela.- DJ esta enchendo o saco de todas nós, reclamando que vocês estavam demorando. Ela quase ligou pra vocês mas Lucy não deixou. -comentou divertida.
-Onde elas estão? -perguntou Clara rindo.
-Já estão no quarto da Vero, nos esperando pro tal jogo.
-Nós não vamos.
-Talvez seja melhor mesmo, assim podemos tentar viajar cedo.
Assenti e Clara permaneceu quieta.
-Bom, vou lá enfrentar a fera, vulgo Dinah Jane. Tranquem a porta, ela com certeza vai tirar satisfações.
Ri e concordei.
Alexa sorriu e se aproximou, deixando um beijo na testa de Clara e um na minha em seguida.
-Boa noite, amores. Durmam bem.
-Boa noite mãe.
Alexa sorriu e subiu as escadas correndo.
Fomos até o quarto com Clara ainda em silêncio.
-Amor...?
-Sim?
-Será que você pode... É... Ir pra Nova York comigo amanhã? -perguntou coçando a nuca.
-Claro, cariño. Por que não fazemos assim, enquanto você liga pro Luis vendo se ele pode nos pegar no aeroporto, vou conversar com os meus pais. O que acha? -acariciei sua bochecha, vendo seus olhos se fecharem com o carinho.
-Uhum.
Ri e sai do quarto. Confesso que Luis ainda me deixava um pouco enciumada. Depois que ele e Natália ficaram oficialmente juntos me acalmei um pouco, mas a relação dele com Clara me enchia de ciúmes.
Chamei meus pais no quarto de Vero ignorando os gritos de Dinah, e indo até a cozinha.
-Aconteceu alguma coisa, Van? Onde está Clara? -perguntou minha mãe.
-No quarto -suspirei- o dia foi cheio, vai ser melhor pra ela esfriar a cabeça e descansar. E tem mais uma coisa...
-O que foi?
Umedeci os lábios e troquei a perna de apoio.
-Não sei ao certo. Alguma coisa aconteceu, ou está prestes a acontecer. A vizinha de Clara em Nova York, que ajudou a cuidar dela, mandou uma mensagem pra Alexa querendo a presença das duas lá.
Meu pai respirou fundo e passou a mão pelos cabelos.
-E onde você se encaixa nisso?
-Clara me pediu pra acompanha-la... Na verdade ela nem precisava ter pedido, porque eu já iria de qualquer jeito.
-Vanessa... Tem certeza de que quer se meter mais ainda nessa história?
-O que quer dizer com isso? -cruzei os braços e encarei meu pai com o maxilar trincado.
-Van... Nós a adoramos, você sabe disso. Além de ser sua namorada, só o fato de ela ser filha de Rose faz dela da família. Mas você não acha que talvez... Você esteja envolvida demais com tudo isso? Com toda a vida de Clara?
Ri sem humor nenhum e dei alguns passos até parar em frente ao meu pai. Minha mãe apenas alternava o olhar entre nós dois, pronta para intervir caso as coisas piorassem.
-O que eu de fato sei, pai... É que eu nunca vou deixá-la lidar com essas coisas sozinha. Clara é a pessoa mais doce, mas ao mesmo tempo mais frágil que eu conheço. Todos dizem que eu sou o que a mantém de pé até agora e eu vou acreditar nisso e não vou arriscar deixá-la. Eu a amo, pai. Ela precisa de mim nesse momento. E quer saber... Não vou ficar aqui perdendo meu tempo com você discutindo sobre algo que você não entende.
-Vanessa. -advertiu minha mãe.
-Só estou dizendo o que eu penso. Se vocês dois não são capazes de entender o que eu e Clara temos...
-Kaki, não foi isso que seu pai quis dizer. Ele está preocupado, que talvez, essa história toda comece a afetar você também, entende?
-Bem, vocês não deveriam se preocupar comigo. Se tem alguém aqui que precisa de atenção nesse momento, essa pessoa é a Clara.
-Ela é uma garota forte. -rebateu meu pai.
-É, mas eu não sou feita de vidro e nem ela de aço, -respondi entredentes- então por favor, pare com essa estupidez e me deixe voltar pra minha namorada. Não vim aqui pedir a permissão de vocês nem nada, vim comunicar. Vocês vão ficar com o quarto da Clara. Tenham uma boa noite.
Sai da cozinha sem dar tempo para que eles dissessem mais nada. Só espero que essa fase turbulenta passe logo e que todos possamos descansar em paz. Suspirei e entrei no quarto, trancando a porta e procurando por Clara.
Escutei o barulho do chuveiro e sorri, começando a tirar minha própria roupa e largar pelo chão do quarto. Abri a porta do banheiro e ela estava lá, perdida em pensamentos, enquanto ensaboava seu corpo.
Abri a porta do box e abracei seu corpo nu, sentindo ela dar um pulo com o susto.
-Deus, Vanessa, que susto.
Ri e beijei seu ombro.
-Desculpe. -sussurrei e suspirei, deitando a cabeça em suas costas. Seus dedos se entrelaçaram aos meus, que estavam pousados em sua barriga, e acariciaram minha mão.
-O que eles disseram?
-Meu pai veio com um papo estranho... Depois conversamos sobre isso, agora vamos descansar.
-Tudo bem.
Ela se virou e segurou minha cintura. Seus cabelos loiros estavam presos em um coque, uma gota d'Água deslizou por seu rosto até parar em seus lábios, atraindo minha atenção até lá. Passei os braços por seus ombros e puxei sua boca de encontro à minha. Sua língua quente e molhada encontrou a minha, explorando todos os cantos da minha boca.
O beijo era extremamente lento e excitante, mas nada aconteceria ali. Clara deslizou sua mão direita até minha bunda e a apertou, puxando meu corpo para mais perto do seu. Eu já não sabia mais no que me concentrar, nos seus lábios, sua mão na minha bunda ou seu corpo colado ao meu.
Chupei sua língua antes de sentir meu lábio inferior sendo puxado por ela, como no final de cada beijo nosso.
Me separei dela finalizando o beijo com um selinho. Seus olhos verdes clarinhos me encararam com um sorriso juntamente de seus lábios. O sorriso de Clara; o sorriso genuíno, chegava até seus olhos, o que me encantava ainda mais.
-Nunca vou me cansar do seu beijo. -ela colou nossas testas e sorriu mais ainda.
-Nem eu -murmurei entorpecida por seus toques- E nem quero.
Ela suspirou. Encaixei meu rosto na curva do seu pescoço e empurrei nossos corpos para trás, de modo que nós duas estivéssemos embaixo da água.
-Você molhou nossos cabelos. -resmungou e me apertou no abraço.
-Depois eu seco. -respondi rindo do seu resmungo.
Continuamos o banho, com uma lavando o corpo da outra, em meio a carinhos e risadas. Como prometido, sequei seus cabelos antes de secar os meus. Nos enfiamos embaixo das cobertas, com Clara deitada de bruços na cama e eu deitada em cima dela.
Toda vez que dormíamos juntas e ela acabava parando naquela posição por causa do seu sono inquieto, eu inconscientemente acabava em cima dela, do jeito que estou agora.
Acariciei seu rosto, observando seus olhos fechados e os lábios ligeiramente entreabertos. As bochechas pálidas, com os fios loiros emoldurando o rosto.
Beijei de leve sua têmpora e acomodei meu rosto sobre suas omoplatas. Estreitei os braços em sua cintura e fechei os olhos, sentindo que eu definitivamente estava no lugar certo; ao lado da minha garota.
MEU ANJO
Capítulo 40
"-Já... Chega... Por favor... -murmurei ofegante, minha cabeça já pendia para baixo já que eu não tinha forças nem mesmo para sustenta-la.
Meu corpo inteiro estava banho de suor, com as roupas molhadas e grudadas em mim. Meus fios Loiros caíam em frente aos meus olhos e agarravam na testa úmida.
Eu sentia a total exaustão tomar meu corpo, meus membros doíam por já estar naquela posição a horas. Desde que o efeito do clorofórmio passou e eu despertei, estou amarrada naquela maldita cadeira. Minhas mãos estavam amarradas em cada braço da cadeira, minha blusa estava na altura dos seios já mostrando os inúmeros hematomas espalhados pelo abdômen. Aparentemente eu não havia sido uma boa garota ao fugir.
Ao contrário dos pulsos, meus tornozelos estavam soltos, aquele maldito sádico dizia que gostava de ver meu corpo desesperado se debatendo quando ele me tocava. Isso o excitava.
-Clara, Clara... Você não aprende, não é? Nunca aprende. -fechou a mão em punho e me deu outro forte soco na barriga.
Quem nunca levou um soco no estômago que dê Graças a Deus por isso. O ar saiu completamente dos meus pulmões, aquela dor desmedida me tomando novamente. Me curvei para a frente tentando respirar, eu já não conseguia nem mesmo gemer de dor.
-Me deixe... Em paz -supliquei com dificuldade em meio à dor.
Paul estalou a língua e negou abrindo aquele sorriso asqueroso. Retirou lentamente sua jaqueta e tirou sua camisa. Fechei os olhos com força me negando a assistir aquela cena. Não, não, não, por favor, não -repetia como um mantra na minha mente.
-Eu não consigo fazer isso, querida. -sua voz soou incrivelmente perto- sua voz, seu cheiro, seu corpo, seus olhos... Tudo em você me encanta. Eu não consigo esquecer você -minha respiração se acelerou, seus lábios estavam praticamente colados aos meus, seu hálito de cerveja incrivelmente perto.
Senti sua boca grudar na minha sem cuidado algum, seus lábios secos e rachados tentando abrir minha boca selada. Não me movi, nem mesmo respirei, meus olhos continuam fechados com força.
Cada fibra do meu ser exalava medo, medo daquele homem e do que ele iria fazer comigo, eu apenas queria voltar para os braços de Vanessa. Queria me sentir segura mais uma vez, mesmo que eu não estivesse, na realidade.
-Me deixa tocar você... -ele murmurou vendo que eu fechava a boca com cada vez mais força.
Aproveitei sua distração com meu corpo, suas mãos viajando pelas minhas coxas e mordi seu lábio inferior com tudo enquanto chutava suas partes baixas.
Um grito de pura dor escapou de seus lábios, finalmente pude respirar aliviada mesmo que por alguns segundos.
-SUA VADIA -ele gritou com seu rosto retorcido pela dor.
-Isso não é nem metade do que você me fez passar, seu desgraçado -respondi entredentes, com a voz calma e baixa surpreendendo até a mim mesma, mas sem deixar de descontar minha raiva naquelas palavras.
Paul cuspiu no chão tirando o excesso de sangue da sua boca e apoiou as mãos nos joelhos.
-Você não foi uma boa garota, Clara. -nesse momento gelei, um arrepio percorreu meu corpo inteiro.
Aquelas palavras me assombraram por metade da minha vida.
-Definitivamente não foi uma boa garota. -ele me olhou, tentando ficar em pé corretamente ainda fazendo caretas de dor- sabe... Aquela Natália era uma boa garota. Ela sim, está merecendo atenção nesse momento. Talvez eu devesse...
-Não se atreva -respondi voltando a sentir aquela raiva desmedida- fique longe dela ou de qualquer outra pessoa, seu maldito pervertido.
Paul abriu um sorriso de lado e se aproximou lentamente.
-Talvez Natália não seja uma boa ideia. Talvez eu devesse ir atrás da sua namoradinha... Qual o nome dela mesmo?
Em nenhum momento em minha vida, nem mesmo nos diversos com Paul, eu senti tanto medo ou pânico.
-Não. Encoste. Nela. -murmurei entredentes, as mãos fechadas em punho.
-Ah... Vanessa. -fechei os olhos respirando fundo tentando me acalmar, tentando pensar que ele apenas estava falando aquilo para me provocar. Mas eu não correria riscos.
-Se você encostar em um só fio de cabelo de Vanessa, eu juro que eu mato você com as minhas próprias mãos. -minha voz fria assustou até mesmo a mim.
Paul soltou uma alta e longa gargalhada. Trinquei o maxilar querendo realmente realizar a ameaça por ele apenas pensar em tocar em Vanessa.
-Você deveria se ver nesse momento, Clara.
-Eu estou avisando, não encoste nela seu porco imundo.
Outros dois fortes socos me atingiram no maxilar. Minha visão ficou embaçada, eu já podia sentir a força se esvaindo do meu corpo. Minha garganta começou a arder, meus olhos se encheram de água.
-Por favor... Não encosta nela. Eu... Eu imploro.
-Deveria ter pensado nisso antes de me desafiar, querida.
-Não... -assisti Paul recolocar sua camisa e sua jaqueta. Dessa vez o desespero realmente me invadiu. Não. Isso não aconteceria com Vanessa. -espere...
Paul parou já prestes a sair, mas não se virou.
-Eu... Não vá. Me faça sua. Me toque.
Ele se virou com os olhos brilhando. Fechei os olhos e agora as lágrimas caíam desenfreadas. Aquelas palavras eram tudo o que Paul sempre implorou para que eu dissesse e eu sempre relutei. Mas eu nunca deixaria aquele inferno acontecer com minha latina. Eu morreria antes.
Ouvi seus passos lentos até mim, provavelmente ele estava desfrutando o momento. Ele desamarrou minhas mãos. Tirei as roupas vendo seus olhos percorrendo cada pedaço do meu corpo. Eu não seria idiota ao ponto de tentar escapar, além de ele ser o dobro do meu tamanho, eu já não tinha força alguma, cada movimento doía e eu temia que ele realmente fosse atrás de Vanessa.
E mais uma vez ele teve meu corpo para ele. E dessa vez eu não tentei impedir. Não esperneei, não me debati, não gritei, não grunhi de dor, permaneci com os olhos grudados na parede suja, com lágrimas escorrendo pelos olhos. Mas apesar de tudo eu estava aliviada. Minha latina estava segura."
Especial P.O.V. Vanessa
Suspirei pela enésima vez, massageando minhas têmporas. Tudo bem que eu já suspeitava de tudo aquilo, mas definitivamente Clara não precisava ter descoberto daquele jeito. Dei um último gole no chá que Alexa havia feito para que eu me acalmasse, e me apoiei no balcão da cozinha.
Todos estavam no andar de cima, esperando Clara acordar. Inclusive meus pais que se recusaram a ir embora enquanto minha morena dos olhos verdes não despertasse. Minha namorada já estava desmaiada a cerca de uma hora, já havíamos tentado de tudo para fazê-la acordar.
Escutei gritos vindo dos do segundo andar, rapidamente comecei a correr pela casa até que estivesse no quarto de Clara. Ela estava na cama, deitada nos braços de Dinah enquanto gritava a plenos pulmões e se debatia.
Dinah segurava deus braços com os olhos arregalados enquanto pedia para ela se acalmar. Me lançou um olhar suplicante pedindo por ajuda e rapidamente andei até a cama.
-Shh... Clarinha, está tudo bem, se acalma.
Subi de sapato mesmo e puxei ela para os meus braços. Aos poucos ela foi parando de se debater, seus olhos verdes se abriram vermelhos e marcados pelas lágrimas que desciam por seu rosto. Assim que ela me viu puxou meu corpo para um abraço apertado e voltou a soluçar furiosamente.
Meu coração se quebrava em mil pedaços por ver Clara daquele jeito. Vê-la sofrendo e não poder fazer porra nenhuma para mudar isso acabava comigo.
Meus próprios olhos ficaram molhados por sentir seu corpo tremendo e me agarrando. O abraço chegava a machucar, mas eu não ligava e me agarrava a ela na mesma intensidade.
Olhei para Dinah à minha frente que estava estática encarando minha namorada.
-O que aconteceu?
-Eu... Eu não sei. Uns minutos depois que você desceu ela começou a murmurar algumas coisas, nós continuamos tentando fazer ela acordar. Quando ela finalmente abriu os olhos no mesmo instante começou a gritar e se debater. -murmurou secava seu próprio rosto.
-Van... -ouvi aquela voz rouca e fraca me chamar.
-Oi, meu amor.
Acariciei seus cabelos e beijei o topo da sua cabeça. Ela se afastou ligeiramente e colou sua testa na minha.
-Estou tão feliz que ele não tenha tocado em você. Eu te amo. -voltou a chorar e apesar de eu não ter entendido nada voltei a apertar seu corpo contra o meu.
-Eu também amo você cariño. Vai ficar tudo bem eu prometo. Eu vou cuidar de você. -sussurrei em seu ouvido e balancei nossos corpos como se estivesse ninando um bebê.
Depois de um tempo ela dormiu. Dinah me ajudou a retirar a colcha da cama e ajeitar minha namorada embaixo dela.
Clara estava mais pálida ainda, sua expressão estava tão frágil, assim que desfiz o contato com seu corpo ela se encolheu como uma bola na cama e franziu o cenho. Eu queria abraçar seu corpo e protegê-la de tudo, dizer que tudo ficaria bem e tranca-la num quarto, assim ninguém ousaria voltar a machucar esse anjo.
Suspirei e encarei Dinah e Alexa.
-É óbvio que ela teve um pesadelo enquanto esteve apagada. Agora nós três vamos ter uma conversa séria e vocês vão me explicar direitinho o que vocês estão escondendo. Não temos muito tempo, quando eu durmo do lado dela e ela não sente mais meu corpo ela acorda um tempo depois. Vamos. -murmurei observando como ela agarrava um moletom meu que ficava na casa dela.
Ela dizia que ele tinha o meu cheiro e que ele a acalmava, então o moletom sempre ficava aqui. Sorri levemente com a cena e me aproximei do rosto de Clara antes de sair do quarto.
Agora sua expressão estava mais serena, seus lábios entreabertos deixando a respiração calma passar. Acariciei seu rosto e selei nossos lábios rapidamente antes de lhe deixar um beijo na testa e seguir Dinah e Alexa para fora do quarto. Descemos até a sala e me sentei na frente delas, no outro sofá.
-E então? Vão dizer o que estão escondendo?
Alexa respirou fundo antes de me olhar. Eu já desconfiava do que fosse, mas queria ouvir ela dizendo.
-Michael é o pai biológico da Clara. -disse confirmando minhas suspeitas.
MEU ANJO
Capítulo 39 -
-Eu quero que você me faça sua essa noite. -sussurrei
Vanessa afastou sua testa da minha e saiu do meu colo, se sentando na cama.
-Van? -ela me encarava com o cenho franzido- tudo bem?
-Tudo... Eu só... Você tem certeza?
Concordei vagarosamente.
-Você... Você não quer?
-Não, Clarinha! Não é isso! -ela se ajoelhou ao meu lado e puxou ambas as minhas mãos, dando um beijo em cada uma.
-A coisa que eu mais quero é te fazer minha, mas a última que eu quero é te machucar e te fazer lembrar de certas coisas. Quero que você faça quando se sentir pronta e com a pessoa certa, mesmo que essa pessoa não seja eu.
Ela estava de cabeça baixa, falando aos sussurros. Peguei em seu queixo e a fiz olhar para mim.
-Você é a pessoa certa. Não foi a primeira, infelizmente, mas vai ser certamente a última.
-Eu queria tanto mudar seu passado... Ver seu olhar assustado no rosto quando algum homem a não ser Troy se aproxima quebra meu coração em pedaços.
-Ei, você está me fazendo aprender a lidar com isso. -acariciei seu rosto- Você me quer?
Ela umedeceu os lábios.
-Sim, mas...
Calei-a com um selinho suave. Afastei ligeiramente seu corpo do meu, e me despi. De forma lenta, tirei a blusa enorme que batia até metade das minhas coxas, e a joguei no chão. Seus olhos desceram pelo meu corpo, me fazendo corar. Eu me sentia exposta, mas dessa vez de uma forma boa.
Todas as nossas amigas já haviam me visto nua, mas aquilo era diferente. O olhar de Vanessa de desejo e acima de tudo, admiração fazia meu corpo esquentar. Ela se aproximou lentamente, e pôs suas mãos nos meus ombros, me fazendo estremecer. Seus lábios se aproximaram da minha pele, ela beijou dois pontos na minha testa enquanto descia com as mãos por meus braços.
Pegou meu braço direito e fez o mesmo que com a testa, aplicando beijos nele, me fazendo franzir o cenho. E então entendi o que ela estava fazendo. Ela estava beijando cada cicatriz no meu corpo.
Normalmente eu não gostava que tocassem nelas, nada me expunha mais que isso. E nada me lembrava mais o quanto eu sou fraca.
Seus beijos foram para meu outro braço, logo depois indo para o meu abdômen. Quando as cicatrizes na região do meu torso acabaram, Vanessa se dirigiu para as minhas costas, onde as pequenas cicatrizes provocadas pela queimadura dos cigarros estavam. Não eram tantas, pelo menos.
Vanessa segurou firme na minha cintura, senti sua língua percorrendo o caminho da minha coluna. Arfei e fechei os olhos, aproveitando a sensação.
-Você é linda, amor. -sussurrou no meu ouvido.- absurdamente maravilhosa.
Sua voz suave estava um pouco rouca, meu corpo tremeu apenas ao ouvi-la. Sua mão que estava apoiada na minha coxa direita, acariciou a última cicatriz antes de voltar a subir pela minha barriga.
A medida que sua mão subia, minha respiração ficava cada vez mais irregular. Com cuidado, ela envolveu meu seio direito e esperou alguns segundos provavelmente esperando por alguma reação minha. Ela estava fazendo tudo devagar, possivelmente com medo de me assustar.
Agora com uma mão em cada seio meu, ela iniciou uma massagem maravilhosa.
-Vanessa... -gemi seu nome baixinho, começando a rebolar involuntariamente contra seu sexo.
Seus lábios aplicavam beijos gostosos no meu pescoço. Até que eu senti sua língua percorrendo desde a base do pescoço, até o lóbulo da minha orelha, onde mordeu e chupou. Ofeguei e arqueei as costas, agora sentindo ela apertar meus seios com força, dando início a uma massagem mais intensa.
Sua mão direita desceu lentamente pelo meu abdômen, adentrando minha calcinha preta e se dirigindo até meu clitóris.
Nesse momento gelei. Apertei os olhos e a boca, meu corpo passou a tremer e minha respiração se acelerou. Rapidamente Vanessa retirou sua mão de lá.
-Shh... Ei, ei, Clarinha olha pra mim.
Ela soltou meu corpo e voltou a se ajoelhar na minha frente. Senti meu rosto ser tomado por suas mãos.
-Abre os olhos. Não é ele que está aqui, sou eu. É a Vanessa que está te tocando.
Umedeci os lábios, e ainda tremendo abri lentamente os olhos.
-C- Van? -ela sorriu fraco e concordou- me... Me desculpe.
-Clara, pare com isso, não é sua culpa. Eu amo você, e posso esperar o tempo que for pra te fazer minha. -murmurou enquanto acariciava minha bochecha esquerda.
Ela já ia se afastar mas segurei seu pulso.
-Não... -minha voz saiu falha, limpei a garganta- Eu quero agora.
-Clarinha...
-Por favor. Eu quero que você faça amor comigo.
Vanessa mordiscou o lábio inferior parecendo ponderar meu pedido. Logo ela suspirou e assentiu.
-Tudo bem.
Sorri e me deitei na cama, puxando Vanessa para cima de mim. Ela se inclinou e voltou a distribuir beijos pelo meu pescoço e colo. Seus toques e a visão da sua bunda empinada fizeram meu corpo se esquentar novamente.
Minha namorada chupou demoradamente meus seios, enquanto novamente descia sua mão até meu clitóris. Voltei a ficar tensa e ela parou o tratamento nos meus seios.
-Olha pra mim Clarinha. Só pra mim.
Nesse momento meu corpo relaxou por completo. Uma sensação de puro prazer nunca sentida por mim antes me invadiu. Soltei um longo gemido enquanto arqueava meu corpo.
Seus movimentos no meu ponto de prazer se aceleravam gradativamente, tendo em vista minhas reações ao seu toque.
Seus lábios se dirigiram à minha orelha, onde aplicou beijos. Mordi meu lábio inferior com força e raspei as unhas nas suas costas.
Eu esqueci totalmente onde estava, esqueci de Paul e de todos aqueles anos, me concentrei apenas em Vanessa e no prazer que ela estava me dando.
-Você é tão linda, Clara... -gemeu no meu ouvido.
Ofeguei e agarrei mais ainda seu corpo. Sua boca voltou a cobrir meu seio, sugando com gana me fazendo estremecer ao pensar no que ela poderia fazer se a descesse um pouco mais.
Gemi e levei as mãos ao seu cabelo a apertando contra meu seio. Minha respiração se acelerou, senti meu corpo inteiro tremer e uma queimação gostosa no ventre.
-Hmm... Mais... Mais rápido. -resfoleguei rebolando em seus dedos, sentindo os movimentos se intensificarem ainda mais.
Nem mesmo vi quando tinha começado a rebolar.
-Você está vindo pra mim, Clarinha? Hm? -a voz com o falso tom de inocência soou em meus ouvidos.
Grunhi e arqueei as costas uma última vez antes de um orgasmo intenso me atingir.
-Vanessa! -gritei seu nome arranhando com vontade suas costas.
Meu corpo tremia, ela ainda fazia agora uma leve massagem intensificando meu orgasmo. Ficamos alguns minutos tentando recuperar o fôlego. Mas o calor não diminuiu, muito menos a vontade que eu estava dela. Vanessa havia acabado de me mostrar um novo mundo.
Seus toques voltaram a acender meu corpo. Puxei sua boca para um beijo sôfrego, seus dedos desceram até minha entrada.
-Posso? -murmurou com os lábios colados nos meus.
Assenti antes de voltar a beija-la. Seu dedo me invadiu, soltei um gemido que fez ela descolar nossas bocas.
-Tudo bem? -perguntou ofegante.
-Só... Só continua.
Ela espalhou beijos por todo meu rosto, fazendo a sensação ruim que eu estava me deixar. Seu dedo voltou a se movimentar dentro de mim. Seus beijos voltaram aos meus seios, acho que ela encontrou uma forma imensamente prazeirosa de me distrair.
Vanessa apertou o bico do meu seio esquerdo entre seus dedos e chupou o direito. Mordi meu lábio inferior procurando não gemer feito uma puta, mas foi inevitável. Gemi sim feito uma puta.
-Mais... Por favor... -implorei em meio aos gemidos.
Ela adicionou um segundo dedo e seus movimentos se aceleraram em meu interior. Seu polegar se dirigiu ao meu clitóris massageando de forma rápida.
-Oh, Deus... Vanessa -agarrei seu corpo e voltei a arranha-la.
Certamente suas costas estariam em carne viva no dia seguinte.
-Você gosta assim, Clarinha? Quer mais amor?
Sua mão esquerda se entrelaçou com a minha, e a prendeu acima da minha cabeça.
-Você me deixa louca, amor... -sussurrou- eu amo tanto você...
Se possível os movimentos se tornaram ainda mais rápidos. Ofeguei sentindo a queimação voltar. Minha namorada ficou sussurrando palavras ora doces, ora não tão doces, fazendo meu calor aumentar.
-Eu estou completamente louca pra sentir o seu sabor... -sussurrou no meu ouvido e chupou o lóbulo da minha orelha. -goza pra mim, Clara.
E foi o que bastou para outro orgasmo arrebatador me invadir. Gemi murmurando o nome de Vanessa uma última vez, e senti seu corpo estremecer sobre mim. Fechei os olhos aproveitando aquela sensação de paz deliciosa. Minha respiração totalmente irregular.
-Tudo bem? -voltei a abrir os olhos, Vanessa me fitava preocupada.
-Tudo ótimo! Deus, não acredito que passei tanto tempo sem deixar você me tocar.
Vanessa gargalhou, e eu a acompanhei.
-Te deixei desconfortável com... Você sabe, as coisas que eu disse? Tudo bem mesmo? -perguntou depois de um tempo.
-Claro que não amor. Não se preocupe. Eu amei as coisas que você disse. -tracei o caminho dos seus lábios, que abriram um sorriso tímido- Céus, Van você é tão boa...
Ela corou e escondeu o rosto no meu pescoço.
-Como você consegue ser uma pessoa na cama, e outra fora dela?
Ela voltou a me encarar e semicerrou os olhos.
-Você é culpada pra falar disso. Você vira um furacão na cama, Clarinha.
Corei furiosamente e dessa vez eu escondi o rosto no seu pescoço cheiroso, ouvindo seu riso baixo.
-Eu realmente quero sentir seu sabor, mas... Uma coisa de cada vez, não é? -sorri contra sua pele com suas palavras e apliquei um beijo nela.
-Depois dessa noite você pode fazer o que quiser comigo sempre, princesa. -rebati divertida.
Vanessa riu novamente e concordou.
-Van...?
-Hm? -murmurou em meio ao carinho que fazia no meu couro cabeludo.
-Você... Gozou?
-Eu... Sim...
-Isso é sexy, sabia?
Seu rosto enrubesceu.
-Dar prazer pra você foi quente... Muito quente... Não aguentei.
Sorri e lhe dei um selinho demorado.
Ela inverteu as posições, agora me fazendo deitar em seu peito.
-Boa noite, meu amor. Obrigada por me deixar fazer você minha.
-Eu já era sua bem antes disso, princesa. Eu amo você.
Ela sorriu e fez um carinho com seu nariz em minha bochecha antes de selar nossos lábios.
-Também amo você, cariño.
(...)
Parei o carro na frente do seu prédio, e me virei para a loira ao meu lado.
-Ally? Está tudo bem?
Ela murmurou um sim como resposta e fungou pela última vez.
-Desculpe, acho que são os hormônios. -ela riu sem humor e limpou seu rosto.
Comprimi os lábios e tirei meu cinto, pegando sua mão entre as minhas.
-Olha pra mim. -puxei seu rosto. Seus olhos estavam avermelhados, algumas lágrimas ainda escorriam por ele- vai ficar tudo bem. Você precisa contar ao Troy, você sabe.
Ela suspirou e assentiu.
-Sei disso. Mas não deixa de ser difícil.
-Eu entendo. Quer dizer, não a parte de você sabe... Dizer ao meu namorado que estou grávida mas a parte de ter que conversar sobre assuntos delicados. -tentei brincar com a situação, o que deu certo pois a risada de Ally cortou o silêncio naquele carro.
-E como você está? Depois de tudo isso? Digo... Apesar de nos vermos todos os dias não conseguimos ter uma conversa decente desde Nova York.
-Estou bem. -admiti em um suspiro- eu e Vanessa... Demos um passo a mais na relação.
Ela arregalou os olhos sabendo do que eu estava falando. -Por que não disse antes?! Fico muito feliz por vocês Clara. Deve ser um alívio pra você.
-E é. Conseguir não pensar mais tanto assim naqueles anos é realmente muito bom. Mas não estamos falando de mim, e sim de você.
Sua expressão voltou a exalar angústia.
-Prefiro falar de você no momento. -ela resmungou me fazendo rir.
-Para com isso bobinha. Não adianta tentar negar, você realmente vai ter um filho.
-Eu sei -respondeu em meio ao suspiro- ainda parece tão irreal. Bom, é melhor eu ir.
-Quer que eu fique aqui com você?
-Não, tudo bem. Acho que preciso de um tempo sozinha pra pôr os pensamentos em ordem. -sorriu fraco.- se importa se eu deixar o exame com você? Eu... Ainda não sei quando vou dizer ao Troy.
-Claro que não. Enfia no porta luvas. -ela assentiu e fez o que eu disse.
Enquanto isso eu dei a volta no carro e abri a porta para ela.
-Pode deixar que eu arrumo pra você suas vitaminas pré natais, e tudo mais que você precisar.
-Tudo bem. Obrigada.
Esperei até que ela saísse e a acompanhei até a frente do seu prédio.
-Tem certeza de que não quer que eu fique?
-Tenho sim, Clara. Obrigada.
-Qualquer coisa me liga ok? Vou estar na Vanessa.
-Ok. -ela sorriu.
-Sério, se precisar de qualquer coisa é só chamar. -insisti.
-Ok, mamãe. -ela brincou rindo.
Revirei os olhos mas acabei sorrindo, feliz por fazê-la rir pelo menos um pouquinho. Já estava voltando para o carro, quando me lembrei de uma coisa.
-Ah... Ally, só mais uma coisa.
-Sim?
Olhei para os lados para ver se tinha alguém por perto, e enfiei a mão no bolso, tirando os pacotinhos prateados. Coloquei eles na mão de Ally.
-Clara... O que é isso?
-Pra você e o Troy aprenderem a usar proteção.
Ally bufou e jogou as camisinhas em mim.
-Sua idiota! -ralhou e me deu um tapa.
Gargalhei e recolhi as camisinhas, pondo dentro da sua bolsa. Ela corou e revirou os olhos, provocando outra risada em mim.
-Fica bem baixinha. Despedi-me dela com um beijo na testa e esperei até que ela entrasse para que pudesse sair dali. O apartamento de Dinah e Vanessa era apenas duas quadras à frente, então se algo acontecesse eu realmente estaria aqui num pulo.
Entrei no apartamento com a chave que Vanessa havia me dado e encontrei Dinah esparramada no sofá assistindo tv.
-Papel!
Ela sorriu para mim e abriu os braços me convidando para deitar neles. Foi exatamente o que eu fiz.
Assim que deitei no peito da minha melhor amiga meu corpo relaxou por completo. Suspirei enquanto sentia seu carinho no meu couro cabeludo.
-Tudo bem?
Acenei em concordância e fechei os olhos.
-Cadê a Vanessa?
-Está no banho. Não quer fazer uma visitinha pra ela?
Dei um tapa em seu braço e ela se limitou a rir.
-Vou fingir que não ouvi isso.
Dinah suspirou e continuou o carinho no meu cabelo. Confesso que já estava quase dormindo, até que senti um cheiro bem conhecido por mim impregnar o ambiente.
-Clara?
Abri os olhos ainda sonolenta e encarei Vanessa parada na minha frente.
-Oi, Van.
Sentei-me enquanto bocejava e esfregava os olhos. Quando olhei novamente para ela, Vanessa sorria terna. Ela se aproximou mais ainda e pousou as mãos na minha nuca, enquanto eu a abraçava pela cintura e apoiava o queixo na sua barriga.
-Você fica adorável com sono. Fica adorável de qualquer jeito, na verdade. -disse enquanto arrastava os dedos pelos fios do meu cabelo e eu corava.
Dinah se sentou corretamente no sofá e revirou os olhos.
-Começou com a melação.
-Melhor melação do que você e Normani ficarem se comendo por todos os lugares possíveis e impossíveis. -rebateu minha namorada.
-Até parece que vocês são diferentes. Ainda não me esqueci daquela vez no cinema, ou quando estávamos vendo filme aqui em casa, ou no banheiro do shopping, ou no carro, ou no...
-Tá, tá já entendemos.
-Vanessa, dava pra ouvir seus gemidos lá na primeira fileira!
Ela revirou os olhos e se jogou no sofá ao meu lado.
-E agora pra piorar a situação, Clara resolveu virar relativa então já vi que vou ouvir gritos de ambos os lados em tudo quanto é lugar.
-Vai se foder Dinah.
-Pena que a Normani está ocupada no momento... Sabia que uma vez, ela...
-Não quero saber de detalhes Dinah -a interrompi.
-Para de graça porque quando a Vanessa não tá perto eu praticamente faço um monólogo da minha vida sexual pra você.
-Primeiro: não somos obrigadas a ouvir isso, segundo: quando estamos sozinhas eu não tenho opção a não ser te ouvir porque você não cala a boca.
-Qual a diferença de me ouvir quando está sozinha e quando Vanessa está aqui?
-Quando ela está aqui posso fazer isso.
Puxei o rosto de Vanessa contra o meu e a beijei. De início ela ficou surpresa, para logo depois sorrir e envolver meu pescoço passando a retribuir o beijo. Ouvi um resmungo vindo de Dinah. Antes eu apenas ia dar em Vanessa um beijo rápido, mas como sempre quando eu estava com ela me desliguei totalmente das coisas a minha volta e passei a acelerar cada vez mais o ritmo do beijo.
Seu gosto mentolado estava ainda mais presente, ela provavelmente estava comendo uma bala de menta ou mascando algum chiclete minutos antes. Ela arranhou minha nuca, o que provocou um forte arrepio em todo o meu corpo.
Apertei sua cintura e a puxei para mais perto já querendo o corpo de Vanessa colado no meu novamente, e desejando ouvir seus gemidos mais do que tudo.
-Ok, já entendi, parem de se comer na minha frente. -Dinah me separou de Vanessa e se sentou entre nós duas. -Deus, vocês parecem cadelas no cio.
Logo ela se distraiu com a tv e ainda ofegante, olhei para Vanessa do outro lado de Dinah. Ela me olhou ao mesmo tempo e sorriu. Passei lentamente a língua pelos lábios, o que fez seu sorriso morrer e sua atenção se dirigir para lá. Ela umedeceu os próprios lábios.
Ri de sua ação e ela semicerrou os olhos para mim. Se recostou no braço do sofá, cruzou as pernas e calmamente deslizou dois dedos para dentro da sua boca.
Arregalei os olhos e quase engasguei com a visão. Eu e Vanessa estávamos cada vez mais a vontade no quesito sexo. Desde aquela noite em que ela me teve por completo, nós tivemos inúmeros momentos... Mais íntimos.
As pessoas faziam do sexo um tabu, mas para nós era algo... Natural. Ela era minha e eu era dela, e aquela era apenas mais uma forma de provar isso.
Balancei a cabeça e me recusei a continuar encarando Vanessa ou acabaria ficando ainda mais molhada do que já estava. Ouvi sua risada e senti meu corpo estremecer com aquele som.
Senti meu celular vibrar no meu bolso, peguei e vi que era uma mensagem da Keana.
"Hey branquela, amanhã é meu aniversário, não se esqueça. Quero sua bunda gorda aqui na minha casa às 20:00. Traga suas amigas e sua namorada xoxo"
Sorri e respondi a mensagem da minha amiga louca. Vanessa tinha um ciúmes absurdo dela, então seria difícil convencê-la a ir, mas eu tentaria.
(...)
Dinah não nos deixou sozinha pelo resto daquele dia, alegando que nós iríamos "nos atracar" se ela fizesse isso e que ela não estava afim de sair do apartamento no momento. À noite, teríamos um jantar com os pais da Vanessa na minha casa.
Alexa passaria o restante das nossas férias conosco, então convidou os meus sogros para o jantar. Obviamente nossos amigos se convidaram também.
Alexa e Sinu costumavam ser muito amigas, mas aparentemente acabaram perdendo um pouco contato quando minha madrinha se mudou para Nova York. Sinu também conhecia e parecia ser íntima de Michael, o que não deixou de parecer um pouco... Estranho.
-Anda logo Dinah, desse jeito vamos nos atrasar mais ainda.
Ela me ignorou e continuou andando pelo quarto. Revirei os olhos e apoiei o queixo no peito de Vanessa, que me encarava fixamente.
-O que? -perguntei sem jeito.
-Nada. -Vanessa suspirou- é que você é tão linda.
Corei e escondi meu rosto, fazendo minha latina rir e o puxar de volta, colando nossos lábios. Entreabri os meus para aprofundar o beijo, mas no mesmo instante senti um tapa forte no meu braço me fazendo pular de susto.
-Ai, porra. -esbravejei.
-Ai porra digo eu. Nada de troca de germes e saliva na minha cama.
DJ me lançou um olhar mortal e me deu outro tapa, dessa vez mais fraco. Depois de muita espera, finalmente fomos para a minha casa.
-Ei DJ, olha o que eu fiz pra você.
Peguei o pen drive no porta luvas e coloquei para tocar. Vi pelo retrovisor Dinah arregalar os olhos e me agarrar para distribuir beijos na minha bochecha.
-Você é a melhor amiga do mundo! -ela cantarolou.
Eu ria enquanto tentava me concentrar sem jogar o carro para o outro lado a pista, mas estava difícil com Dinah me chacoalhando.
-Já está de bom tamanho Chee, volta pro teu canto. -Vanessa empurrou Dinah de volta para o banco de trás.
-Ciumenta. -ela resmungou.
-Só cuido do que é meu. -rebateu e apoiou a mão na minha coxa.
Sorri e entrelacei nossos dedos. Aumentei um pouco o volume para apreciar a voz da Beyoncé. Mani e DJ tinham razão por gostarem tanto dela.
-Você não existe, sabia? Olha como deixou ela toda alegre com apenas umas músicas. -olhei para Dinah pelo retrovisor, ela estava com a cabeça encostada no banco enquanto sorria e cantarolava a música, alheia ao que estávamos dizendo.
Durante a tarde ela e Mani haviam discutido, e não sabíamos o motivo. Dinah passou o restante do dia com uma carinha triste que estava me matando.
-Eu só amo muito vocês. -puxei a mão de Vanessa e dei um beijo no dorso.
Ela sorriu e suspirou. Logo chegamos, e Dinah reclamou emburrada dizendo que queria ouvir mais Beyoncé. Eu ri e abri a porta para ela antes de abrir a do carona para Vanessa. Como sempre ela corou com o meu gesto, e entrelaçou nossos dedos.
Passei meu outro braço pelos ombros de Dinah e baguncei seus cabelos, ainda ouvindo seus resmungos.
-Para com isso, vadia.
Ri e resolvi deixar minha melhor amiga em paz. Destranquei a porta de casa e esperei as outras entrarem.
-Clara Aguilar. -engoli em seco com aquela voz já sabendo que iria levar esporro. -você já viu que horas são?
Lucy estava parada impaciente na minha frente, de braços cruzados. Abri um sorriso nervoso e cocei a nuca.
-É... Desculpe? -perguntei incerta e ela revirou os olhos.
Me aproximei e abracei seu corpo quando vi que ela iria abrir a boca para falar novamente. Ela bufou mas me embalou em seus braços, beijando meus cabelos.
-Está perdoada dessa vez. -resmungou.
Ri e me afastei, Lucy dizia isso todas as vezes em que eu chegava atrasada em algum lugar. Entrelacei meus dedos com os de Vanessa novamente e a puxei para a sala.
-Boa noite, Sinu. -cumprimentei a mãe de Vanessa, que abriu um largo sorriso ao nos ver.
Abraçou nós duas ao mesmo tempo e deu um beijo na testa de cada uma.
-Olá, querida. Estão bem?
Sorri e assenti, sentindo Vanessa deitar a cabeça no meu ombro.
-Está cansada, mi hija? -Vanessa concordou e bocejou- não quero nem saber o que vocês duas estavam fazendo pra você estar com essa cara de cansaço.
-Mama! -Vanessa praticamente gritou, corada. -Nós... Nós não fizemos nada, ok? Dinah me fez acordar cedo hoje.
-Certo. -ela semicerrou os olhos para nós duas, nos examinando.
Limpei a garganta e tratei de mudar de assunto. (...)
-Van? Vamos comigo até o escritório? Quero te mostrar uma coisa.
Ela me olhou daquele jeito desconfiado de sempre mas assentiu. Abri a porta e andei até a escrivaninha, onde eu estudava às vezes quando precisava de uma maior concentração. Me apoiei lá e puxei Vanessa para ficar entre as minhas pernas. Ela apoiou as mãos nos meus ombros e sorriu.
-É que sabe... No... No início do mês fez quatro meses que estamos ficando... Sabe, desde o primeiro encontro... Primeiro beijo... E eu definitivamente não queria ter deixado a data passar em branco.
Vanessa arregalou os olhos e se afastou ligeiramente.
-Oh meu Deus Clarinha... Me desculpa... Eu... Eu me esqueci completamente.
-Está tudo bem, amor. -fiz um carinho na sua bochecha- a faculdade estava uma loucura, e logo no último dia de aula nós viajamos.
-Mesmo assim. Me perdoa... Sou uma péssima namorada.
Um bico apareceu em seus lábios, logo tratei de mordê-lo.
-Van... Está tudo bem mesmo. Nós duas esquecemos, você é uma namorada incrível e eu amo você.
Ela sorriu fraquinho e colou nossas testas antes de me beijar. Depois de um tempo afastei seu corpo do meu, e peguei o delicado buquê. Cocei a nuca sem jeito.
-Eu... Eu comprei isso pra você.
Novamente seus olhos se arregalaram e ela intercalou o olhar entre mim e as flores.
-Clara... São... São lindas! Você é perfeita.
Ela jogou seus braços ao meu redor e suspirei aliviada por ela ter gostado. Encheu meu rosto de beijos antes de pegar o buquê da minha mão com os olhinhos brilhando, admirados.
-Você que montou? -perguntou sorrindo.
-Sim -respondi sem graça- cada uma tem um significado que representa nós duas, por isso... Ficou parecendo uma bandeira gay.
Vanessa gargalhou, aquela risada que era música para os meus ouvidos. A risada mais linda e perfeita.
-Amor não fala isso, ficou lindo. Eu amei. Por que não me diz o que cada uma significa? -pediu sorrindo largo.
-Hmm... Eu não me lembro o significado de todas elas, mas... os cravos vermelhos significam respeito, amor e paixão. Porque eu amo você. -dei um passo para mais perto dela e acariciei seu rosto, um sorriso tímido apareceu em seus lábios.- cravos rosas significam felicidade e gratidão. Porque nada me faz mais feliz do que você. Tulipas vermelhas, amor verdadeiro e terno. Porque você é o amor da minha vida. Orquídeas vermelhas significa desejo... Sexual. -corei e Vanessa soltou uma gargalhada, provavelmente rindo da cara que eu fiz.
-Isso é tão lindo Clarinha... -me fitou com aqueles grandes olhos chocolates brilhando- e essa daqui, o que significa?
Apontou para a solitária flor branca bem no centro do buquê.
-Orquídeas brancas significam perdão... No caso sou eu me desculpando por ter posto flores que significam "desejo sexual" num buquê de flores pra você.
Ela riu mais uma vez antes de me puxar para um beijo.
-Eu amei... Você é maravilhosa. -sorri e lhe dei um último selinho. -Eu nunca tinha ganhado flores antes...
Ela olhava para as flores em suas mãos com um largo sorriso, como se aquele simples presente fosse o melhor do mundo.
-Como assim?! Uma garota como você merece ganhar flores todos os dias.
Ela suspirou e deixou delicadamente as flores sobre a cadeira da escrivaninha antes de apoiar aos meus nos meus ombros. Enlacei sua cintura e a puxei para mais perto.
-Sabe... -murmurou enquanto brincava com a gola da minha camisa- eu gostei muito dessas orquídeas vermelhas...
Senti meu corpo esquentar e um arrepio intenso me percorrer, ao ouvir a malícia escondida por trás do falso tom inocente em sua voz.
-É mesmo? -perguntei em um fio de voz.
-Sim... Mas... Talvez eu não tenha entendido direito o significado dessa flor... Será que podemos ter uma aula prática? -sussurrou antes de morder o lóbulo da minha orelha.
Apertei com força sua cintura e rapidamente inverti as posições prensando seu corpo na mesa, fazendo Vanessa arfar.
-Não me provoque, Mesquita. -murmurei enquanto aplicava beijos em seu pescoço.
-Eu já disse o quanto eu amo a sua pegada? -sorri com os lábios em sua pele e mordi seu pescoço com força prensando seu corpo cada vez mais na mesa atrás dela.
Me afastei e fitei seu rosto. Ela já estava ligeiramente ofegante, com os cabelos bagunçados, lábios inchados entreabertos, olhos banhados de luxúria. Porra. Vanessa era tão sexy.
Grunhi e fiz ela se sentar em cima da mesa. Arranquei sua camisa e continuei as carícias pelo seu colo, arrancando o primeiro baixo gemido de Vanessa. Minha namorada entrelaçou os dedos nos fios da minha nuca e puxou com força me fazendo encara-la.
-Eu já te disse... -passou o dedo por meus lábios, sem retirar os olhos deles- o quanto eu sempre tive vontade de ser fodida em cima de uma mesa?
Arfei com sua fala. Talvez Vanessa tenha abusado um pouquinho do vinho. Eu poderia gozar apenas escutando ela dizer coisas desse tipo.
Observei seu peito subindo e descendo rapidamente, o tempo parecia parar a minha volta. Eu nunca a quis tanto como a quero agora. Sua língua atrevida passou lentamente por seus lábios entreabertos, me limitei a engolir em seco.
-Seu desejo está prestes a ser realizado.
Empurrei seu corpo até que ela estivesse deitada e sentei em seu quadril. Vanessa abriu um sorriso malicioso e puxou minha camisa para cima. Deixei que ela a retirasse, e segurei seus pulsos acima de sua cabeça, direcionando minha boca para o seu ouvido.
-Quero ouvir você gritando meu nome hoje. Você vai gozar bem gostoso, Vanessa. -chupei seu ponto de pulso sentindo seu corpo estremecer e um gemido abafado sair dela.
Suas pernas se entrelaçaram na minha cintura, Vanessa rebolou levemente a procura de algum atrito. Rosnei e soltei seus pulsos beijando ferozmente sua boca.
Desci as mãos pelo seu corpo, passando por todas as curvas sinuosas, apertando os seios sem pudor algum.
Mordi seu lábio inferior, e desci os beijos. Chupei seu pescoço, clavícula, colo e finalmente chegando nos seios, onde parei para observá-la. Lentamente subi as mãos e parei na base de cada seio. Seus olhos que antes estava fechados, se abriram para me encarar. Seu lábio estava preso entre seus dentes e ela se apoiou nos cotovelos. Abri um sorriso de lado e lambi lentamente seu seio direito, arrancando um gemido longo e manhosa dela.
Mas eu não queria assim. Queria fazer Vanessa gritar tanto de prazer que ela sairia rouca daqui. Com esse pensamento em mente, apertei o esquerdo e chupei com vontade o direito, revezando entre beijos, mordidas e lambidas em seu bico. Seus gemidos aumentavam gradativamente.
Chupei e assoprei o mamilo sensível uma última vez antes de continuar descendo pelo seu abdômen lisinho. Retirei sua saia com pressa e me ajeitei entre suas pernas.
-Porra, Vanessa. -rosnei.
Ela usava uma calcinha rendada vermelha. Minúscula. Ela sabia o quanto eu amava quando ela se vestia assim.
-Quer dizer então que você estava escondendo o jogo durante a noite inteira... -sussurrei em seu ouvido com a voz rouca, aplicando beijos pela região.
Vanessa arfou e cravou as unhas na minha bunda ainda coberta pela calça jeans.
-Você não foi uma boa menina, Mesquita.
Estalei a língua e fiz sinal de negação.
-Vire-se. Agora.
Vanessa mordeu o lábio inferior e se virou de costas para mim. Encarei sua bunda volumosa à minha frente. Isso era um monumento... Era tão grande, durinha e empinada. Perfeita. Espalmei ambas as mãos em sua bunda e apertei com força.
Vanessa gemeu e apoiou a testa na madeira. Subi os beijos pela linha da sua coluna, sentindo sua respiração ficar cada vez mais desregulada.
-Você é tão gostosa, Vanessa. -gemi em seu ouvido.
Em resposta ela começou a movimentar sua bunda, em um ritmo lento e torturante. Alisei a lateral do seu corpo antes de seguir com a mão até sua barriga, adentrando o tecido da calcinha.
-Porra Van, você está tão molhada. -suspirei deslizando os dedos por entre suas dobras, fazendo a garota sob mim arfar.
Iniciei uma massagem lenta em seu clitóris, sentindo seu corpo estremecer sob mim.
-Hmm... Mais... Mais Rápido. -choramingou rebolando.
Com a outra mão tirei os cabelos da sua nuca e me inclinei, espalhando beijos pela pele levemente suada. Prendi seu clitoris por entre meus dedos e apertei. Em resposta Vanessa gritou meu nome e seu corpo foi impulsionado para frente.
Mordi seu ombro, e puxei seu corpo contra o meu, deixando nós duas de joelhos sobre aquela mesa. Vanessa arfou e levou os dedos para a minha nuca, me arranhando.
Lentamente movi meus dedos sobre seu clitoris, enquanto a outra mão se dirigia ao seu seio esquerdo.
-Clarinha por favor... -choramingou rebolando em meus dedos numa tentativa falha de mais contato.
Não esperei nem mais um minuto e desci os dedos até sua entrada, a penetrando de uma vez com dois dedos. Vi sua boca se abrir em um O perfeito, enquanto arqueava seu corpo.
-Oh... Clara... -gemeu.
-É assim que você quer, Vanessa? Hm? Responde. -grunhi e desci mão que estava em seu seio para lhe dar um tapa na coxa. Não era muito fã desse tratamento, mas Vanessa dizia que amava quando eu fazia coisas desse tipo... Tudo pela minha namorada.
-Porra... Isso... É assim que eu quero. -ela mordeu seu lábio inferior, e seu rebolado se tornou mais intenso.
-Será que você aguenta mais, Mesquita? -sussurrei em seu ouvido pausadamente, minha voz saindo mais rouca do que o normal.
Vanessa não respondeu, em resposta só gemeu mais alto. Adicionei um terceiro dedo e Vanessa gritou. Estoquei com força, entrando e saindo rapidamente. Com a mão esquerda segurava sua cintura possessivamente, meu corpo colado no seu e minha boca no seu ouvido, sussurrando palavras sujas.
Curvei os dedos em seu interior, atingindo um ponto esponjoso. Sorri vitoriosa, já Vanessa mais uma vez arqueou o corpo e gemeu.
-PORRA. Clara... Oh, céus... Isso... Mais... Mais rápido, amor...
Passei a estocar rapidamente só naquele local, voltei com a mão para o seu seio e apertei com força. Vanessa soltou um gemido de dor e prazer. Chupei seu ponto de pulso, enquanto sentia seu corpo tremer a minha frente.
-Vamos Vanessa... Goza gostoso pra mim.
-Hmm... Clara! -puxou meus cabelos, seu corpo tencionando e tremendo em meus braços.
Rapidamente tirei os dedos de dentro dela e massageei o clitóris, estendendo a sensação do orgasmo.
Fiz ela voltar a ficar de quatro na minha frente, e salivei com a visão do seu sexo lisinho e rosado, com o líquido deslizando por suas coxas.
Lambi e chupei tudo ali, ouvindo seus gemidos fracos. Vanessa ainda estava sensível devido ao recente orgasmo, então apenas a chupei demoradamente enquanto massageava sua bunda, até que ela gozasse de novo nos meus lábios gemendo meu nome.
Antes que ela desabasse em cima daquela mesa, delicadamente virei seu corpo, e escalei o mesmo aplicando suaves e lentos beijos. Vanessa sorria com os olhos fechados, uma expressão serena e o sorriso satisfeito no rosto.
Apoiei o queixo no seu peito sentindo suas mãos acariciarem meu cabelo.
-Tudo bem? -perguntei tirando os cabelos do seu rosto.
Ela abriu lentamente os olhos. Eles brilhavam e exalavam admiração. Vanessa suspirou e assentiu.
-Te machuquei?
-Não, meu amor. Você se supera cada vez mais, isso sim.
Corei e Vanessa riu me dando um selinho. Ficamos um tempo assim, uma olhando para a outra. Perdidas no olhar da outra.
-Feels like I'm falling and I'm, lost in your eyes. -meu sorriso cresceu ao ouvir sua voz suave sussurrar aquelas palavras- Minha garota dos olhos verdes de esmeralda.
Assenti e beijei seus lábios novamente.
-Sua garota. Só sua.
Ela sorriu durante o beijo calmo e fez um carinho gostoso nas minhas costas. Era uma sensação indescritível estar com Vanessa. Eu poderia passar um dia inteiro tentando definir, e mesmo assim não conseguiria.
Minha língua serpenteava por sua boca, redescobrindo cada canto. Meu coração se aqueceu e voltou a bater mais rápido no peito, um arrepio percorreu meu corpo.
Ela terminou o beijo com vários selinhos e se afastou ligeiramente.
-Me explica o que você fez pra me deixar tão louca por você? -ela perguntou sorrindo- Eu nunca senti isso por outra pessoa.
-Nem mesmo por aquele babaca do seu ex namorado da época da escola? -resmunguei.
-Nem mesmo o babaca do meu ex da época da escola. -ela respondeu rindo.
Me deu outro selinho, e um beijinho de esquimó em seguida. Sorri com seu gesto e franzi o nariz.
-Você fica adorável assim. -ela falou suspirando.
Corei novamente e enterrei o rosto em seu pescoço.
-Vamos, amor? Daqui a pouco a Dinah está vindo até aqui e nos arrastando pelos cabelos, além de ficar enchendo nosso saco.
-Mas aqui está tão bom Van. -resmunguei.
-É que digamos que essa mesa de madeira não é uma das mais confortáveis. -ela riu.
Levantei num pulo do seu corpo e a puxei delicadamente junto.
-Desculpe.
-Está tudo bem. Por algumas pessoas vale a pena. -ela repetiu a frase que eu disse a ela quando eu acordei no hospital, e piscou.
Eu sorri e lhe dei um beijo na bochecha. Catei suas roupas no chão e estendi para que ela pudesse vesti-las. Enquanto isso vesti minha blusa.
-Vai dormir aqui hoje, não é?
-Eu não sei. Não queria deixar a Dinah sozinha lá, principalmente agora que ela e a Normani brigaram de novo. -ela revirou os olhos.
-Eu sei, mas eu já ia falar pra ela ficar aqui também mesmo. Por favor princesa, fica aqui comigo hoje.
Fiz um biquinho e inclinei a cabeça para o lado, sabendo que ela não resistiria.
-Essa cara não vale -resmungou- ah, tudo bem vai. Não resisto a você quando faz essa carinha.
Sorri e biquei seus lábios.
-Por favor, você nunca resiste a mim.
Mordi seu lábio inferior e pisquei.
-Pior que é verdade. -respondeu meio aérea para logo revirar os olhos.- vamos lá, convencida. Me leva? -pediu manhosa, e foi sua vez de fazer biquinho.
Sorri e assenti.
-Claro, amor.
Me virei de costas esperando até que ela montasse, e saímos do escritório com Vanessa segurando seu buquê, para que colocássemos na água.
-Vamos, escrava. -brincou e apontou para a cozinha.
-Olha que eu te solto. -afrouxei o aperto, ameaçando soltá-la e Vanessa soltou um gritinho, se agarrando mais no meu corpo.
-Sua vaca, não me solta. -Eu ri, e levei um tapa no braço por isso.
-Ai, amor.
-Você mereceu. -resmungou.
Ri e continuei andando até a cozinha, passando pela sala onde todos estavam com uma cara estranha, nem mesmo tinham reparado em nós. Assim que cheguei na cozinha soltei o corpo da minha namorada delicadamente no chão, e peguei um vaso o enchendo de água para que ela colocasse as flores lá.
Assim que o fez, ela segurou meu rosto e me deu repetidos selinhos.
Sorri de lado e agarrei sua cintura, fazendo-a arfar e quando ia acabar com a distância entre nós, ouvi algo que me chamou bastante a atenção.
-Qual o seu problema? Por que continua escondendo essas coisas dela?
-DJ...
-Não vem com DJ pro meu lado -rosnou- ela merece saber a verdade, você escondeu provavelmente a coisa mais importante a porra da vida dela toda.
-Por favor, não vamos discutir isso. Não aqui e não agora. Eu fiz isso pro bem dela.
-Foi mesmo pro bem dela?!
-O que você quer dizer com isso? -sua voz soou mais alta e irritadiça.
-Que você só não quer contar isso pra ela agora, porque sabe o quão chateada ela ia ficar por você saber disso o tempo inteiro, saber a porra toda e não dizer nada.
-Quer falar baixo, por favor? Eu sei o que é melhor pra ela, eu a criei, ela é minha filha.
-Olha o que você está fazendo com a sua própria filha. Ela merece saber a verdade, Alexa. Se você não contar, conto eu.
-Você não tem esse direito. -grunhiu.
-E nem você de esconder as coisas. -rebateu.- Ela precisa saber a verdade sobre Michael.
Verdade sobre o Michael? Que verdade? Franzi o cenho, com os pensamentos a mil. E então tudo se esclareceu em um estalo. Todos os olhares, cuidados, carinhos, toda a ajuda e aproximação, toda a tentativa de me deixar o mais confortável possível, o jeito com que Alexa sempre me implorava com os olhos para que eu o aceitasse.
-Amor? Clara? Amor você está me assustando, você está bem?
Desviei o olhar para o rosto da minha namorada. Seus olhos castanhos expressavam carinho, cuidado e preocupação. De repente uma tontura me bateu e se não fosse suas mãos na minha cintura eu teria caído.
-Clarinha! Clara olha pra mim, o que você está sentindo?
-Estou... bem. Balancei a cabeça para me livrar da tontura, contudo só piorava.
-Eu preciso falar com a Dinah. Vamos até a sala. -pedi e ela comprimiu os lábios mas assentiu e me deixou apoiada nela por precaução, caso a tontura voltasse.
-Clara não tem que saber de nada por enquanto.
-O que eu não tenho que saber?
Dinah segurava uma foto nas mãos, e assim que me viu arregalou os olhos e escondeu a foto atrás de seu corpo. Alexa se virou lentamente nos calcanhares e me encarou apreensiva.
-Clara...
-Alexa, o que eu não posso saber?
Todos na sala me olhavam calados. Até mesmo os pais de Vanessa.
Me soltei do corpo da minha namorada, que tentou segurar minha cintura. Lancei-lhe um sorriso fraco e delicadamente a soltei de mim. Ela entrelaçou os dedos nos meus novamente num gesto mudo dizendo que não iria me soltar. Internamente eu agradeci por isso, não sabia o que faria sem Vanessa.
-Me mostra a foto. -pedi já na frente de Dinah.
-Papel...
-Se você realmente se importa comigo, me mostre o que você está escondendo.
Ela suspirou e lançou um último olhar irritado a Alexa, e me estendeu a foto. Respirei fundo antes de encarar o pequeno retângulo na minha mão.
Arregalei os olhos e arfei ao ver o conteúdo da imagem. Meus batimentos se aceleraram, minha visão começou a ficar turva.
Senti quando eu soltei a mão de Vanessa e a foto, que caiu como que em câmera lenta no chão. Ouvi eles gritarem meu nome, o grito de Vanessa em especial. Mas já era tarde, perdi o controle das minhas pernas e a escuridão me tomou por inteiro.
MEU ANJO
Capítulo 38 -
Senti beijos se espalhando por meus ombros e um carinho gostoso no meu couro cabeludo. Enterrei discretamente o rosto no travesseiro tentando reprimir um sorriso e um suspiro. Ouvi uma risadinha atrás de mim.
-Não me engane, mocinha. Sei que você já está acordada. -senti os beijos carinhosos se espalhando pela minha bochecha, mandíbula, pescoço e ombros.
-Mas assim está tão bom... -respondi manhosa.
Vanessa riu de novo e se deitou ao meu lado e abraçou minha cintura, dando-me um beijinho de esquimó.
-Bom dia, amor.
-Bom dia princesa. -sussurrei e beijei sua testa- dormiu bem?
Ela se limitou a assentir. Franzi o cenho e esquadrinhei seu rosto.
-Está tudo bem Van?
-Eu só...
Vanessa se interrompeu quando a porta foi aberta com tudo, e Dinah e Normani se jogaram em cima de mim.
-ACORDA, PAREDE.
-Aí caralho minhas costas.
Tentei mover meu corpo para me livrar delas, mas as duas retardadas fizeram força para baixo.
-Será que dá pra vocês saírem de cima da minha namorada?
-É, saiam de cima de mim suas Orcas. -me arrependi dessas palavras assim que elas saíram da minha boca.
As duas se entreolharam e abriram sorrisos maldosos.
-Do que você nos chamou, Clara?
Essa não.
-Eu... Eu... Chamei de lindas, maravilhosas, gostosas, donas do meu cu, por favor não façam isso que estão pensando. -me desesperei.
-Ah Clara -Mani suspirou- você não deveria ter dito aquilo.
As duas me viraram rapidamente na cama.
-Não...
Ambas direcionaram as mãos para o meu corpo e começaram a fazer cócegas. Eu me contorcia na cama enquanto ria escandalosamente e murmurava desculpas. Podia ouvir Vanessa gritando para que elas parassem e tentando puxa-las.
-PARA, PARA POR FAVOR!
Três segundos depois, todos entraram no quarto de olhos arregalados perguntando o que estava acontecendo.
-Dinah Jane e Normani Kordei.
As duas pararam as cócegas e engoliram em seco.
-S-sim Ally?
A baixinha se aproximou da minha cama com os braços cruzados e uma expressão séria.
-Posso saber... -ela abriu um sorriso e me olhou- por que vocês não me chamaram pra festinha?
Ela subiu na cama e rapidamente as três riram antes de distribuir cócegas por meu corpo. Voltei a me contorcer e Vanessa continuava tentando empurra-las para longe.
-Parem com isso, deixem a Clara em paz.
Pude ver Alexa, os pais de Vanessa, Troy, Sofi e Vercy rindo da cena próximos à porta. Vero sacou o celular e começou a filmar. O resultado de Vanessa empurrar todas elas foi Normani cair da cama, e Dinah parar as cócegas desesperada para socorrê-la. Ally ainda rindo, saiu da cama e parou ao lado de Troy.
Choraminguei e me joguei nos braços de Vanessa.
-Oh meu amor... -ela me apertou em seus braços- está tudo bem?
Assenti e encarei seus olhos chocolates com um biquinho. Ela tomou meu rosto em suas mãos e me deu um longo selinho.
-Não faz essa carinha... Meu coração fica partido desse jeito...
Aumentei meu bico e inclinei a cabeça para o lado.
-Urgh, Clara! Você é tão fofa e adorável! -apertou minhas bochechas e me deu outro selinho.
Todos atrás de nós riram da demonstração estranha de carinho de Vanessa.
-Acho que vou vomitar. -exclamou Dinah mas apenas revirei os olhos.
-O que você ainda está fazendo aqui mesmo, Jane? -me virei para encara-la e ela franziu os lábios.
-Vanessa, acho que esse seu leite está azedo.
Todos gargalharam e eu me limitei a repetir a ação de revirar os olhos e enterrar o rosto no pescoço cheiroso da minha namorada.
-Van... Olha do que a Dinah está me chamando. -resmunguei.
Vanessa riu e aplicou um beijo no topo da minha cabeça me fazendo sorrir.
-Deixem meu bebe resmungão em paz.
-Credo Clara, você está parecendo uma criancinha pedindo socorro pra mãe.
Bufei e descansei o rosto no pescoço de Vanessa.
-Amor? -perguntou suavemente enquanto acariciava meu rosto.
-Hm?
-Vamos levantar?
Neguei e a abracei forte.
-Vamos cariño. -respondeu rindo.
Resmunguei um pouco mas levantei de cima dela, ignorando as risadas dos outros. Escovei os dentes e troquei de roupa, vendo que todos os outros já tinham saído do quarto.
Desci as escadas até o primeiro andar, indo para a cozinha onde todos estavam. Vanessa estava fazendo alguma coisa ao lado da pia, andei até ela e abracei seu corpo por trás passando o braço pela sua cintura e deitando o rosto nas suas costas. Vanessa virou o rosto para me olhar e sorriu.
-Acho que alguém está carente hoje.
Ri baixinho e acenei concordando com o que ela dizia.
-Apenas quero ficar pertinho da minha Van o dia todo.
Ela sorriu um pouco corada.
-Linda. -sussurrou e piscou para mim.
Vanessa me fez sentar e disse que faria o meu café. Após fazer isso, ela veio até mim e se sentou no meu colo, e foi assim que comemos.
-Vanessa, tem outras cadeiras na cozinha, você sabe né?
-Sim, mas eu prefiro ficar no colo da minha namorada.
Arrastei o nariz pela sua bochecha satisfeita pelas suas palavras, e beijei a mesma logo depois.
Os pais de Vanessa nos encaravam sorrindo, mas ainda meio apreensivos. Eles certamente achavam que nós éramos... Intensas demais. Dado ao pouco tempo em que estávamos juntas.
O que eu poderia fazer se aquela garota sentada no meu colo era a coisa mais importante da minha vida? Ou melhor, se ela é a minha vida?
Por um tempo, quando íamos visita-los eu ficava um pouco mais distante de Vanessa, quase não a tocava. Ficava constrangida e evitava certos contatos.
Mas depois de um tempo, depois de eles e Vanessa conversarem comigo eu vi que não tinha porque ficar assim perto dos pais da minha própria namorada.
Ainda achava que determinados limites não precisavam ser ultrapassados, por exemplo eu não via necessidade em beijar Vanessa na frente deles. Ela não se importava mas ainda era um pouco... Desconfortável para mim. Nada que o tempo não me ajudasse a me acostumar.
(...)
Já estávamos a horas na praia, Vanessa estava deitada aos meus pés, exposta ao sol. Eu, é claro, estava embaixo de uma barraca. Muito tempo no sol não me fazia muito bem.
Minha latina estava fazendo de tudo para me provocar, ela havia colocado um biquíni branco que ficava em perfeito contraste com sua pele morena. Eu suspirava de cinco em cinco segundos não conseguindo me concentrar em outra coisa a não ser em seu corpo.
-Clarinha?
-Hm? -subi o olhar que estava em sua bunda para seus olhos.
-Pode passar protetor em mim por favor? -mordiscou o lábio inferior e me olhou de forma inocente.
Esse olhar era tão... Sexy. Engoli em seco e Dinah que estava ao meu lado riu e murmurou um "boa sorte" antes de se juntar a todos os outros, que estavam se divertindo na água.
-Hm... É... É claro.
Ela sorriu e se sentou, depois de me passar o protetor solar. Ela segurou os cabelos com uma mão enquanto eu apertava a embalagem e o líquido caía em minhas mãos. Elas tremiam.
Encostei lentamente na pele extremamente quente de Vanessa, que pareceu estremecer para logo relaxar sob meu toque.
Espalhei o produto pela sua pele, vendo os olhos de Vanessa se fecharem e um suspiro se espalhar por seus lábios.
Por fim, passei a mão por seus ombros e vi o quanto eles estavam tensos e cheios de nós. Comecei a massagea-los, desfazendo lentamente os nós e vendo Vanessa soltar um pequeno gemido que me fez engolir em seco. Logo ela se virou para mim.
-Pode passar aqui pra mim? -ela apontou para seu colo.
Desci os olhos para seus seios e abdômen, incapaz de não fazer isso. Quando voltei para seu rosto ela sorria de lado.
-Gosta do que vê? -ela pergunta em forma de sussurro.
Engulo em seco novamente e trato de ir terminar de passar o bendito protetor nela.
Passei o restante da manhã brincando com Sofi, como havia prometido no dia anterior. Na parte da tarde, Michael chegou com seus dois filhos. Ele e Alexa estavam muito próximos, eu diria que estavam namorando, e como agora ele passava boa parte do tempo conosco foi convidado para essa viagem.
Seus filhos eram... Simpáticos. Apesar de serem mais reservados. Seus nomes eram Chris e Taylor.
Chris era um garoto de quinze anos que era educado e fácil de se lidar, na medida do possível. Seu cabelo era liso e curto, ombros largos e corpo forte para a sua idade, olhos castanhos brilhantes e expressivos, embaixo de sobrancelhas grossas. Seus lábios carnudos eram rosados, ele tinha uma certa semelhança com Taylor.
Sua irmã era bem diferente dele, era mais extrovertida, ainda era educada, porém não tinha muito filtro. O que lhe vinha a mente ela perguntava. Tinha catorze anos e seu sorriso não saía do rosto em momento nenhum. Ela tinha um sorriso bonito e longos cabelos castanhos, com bonitos olhos da mesma cor dos cabelos.
Os dois adolescentes eram extremamente agradáveis. Eram fáceis de se conversar, apenas não tocavam em determinados assuntos mais pessoais. Eles se deram bem com todos.
-Hey Sofi, o que acha de irmos tomar aquele sorvete agora?
A baixinha arregalou os olhos e encheu meu rosto de beijos.
-Sim! Vamos lá Clarinha, não podemos perder tempo, vamos! -ela me puxou freneticamente pela mão até que me levantei rindo.
-Ok princesa, mas vai lá pegar um casaco.
Ela começou a correr pela escada até que a repreendi.
-Sofi. Vá devagar baixinha.
Ela sorriu amarelo e passou a subir mais devagar. Andei até Sinu, que estava conversando com Vanessa.
-Sinu, está tudo bem se eu levar Sofi pra tomar um sorvete?
-É claro que sim querida. Pode ir.
Sorri e assenti. Vanessa se sentou na ponta do sofá e abraçou meu corpo, deitando a cabeça na minha barriga.
-Quer que eu traga alguma coisa pra você, meu amor? -perguntei enquanto brincava com seus cabelos.
-Não, obrigada cariño.
-Por que você está tão quietinha assim hoje? Esta se sentindo bem?
-Apenas com um pouco de dor de cabeça.
Afastei Vanessa de mim e franzi o cenho.
-O que mais está sentindo? Está tudo bem? Quer remédio? -perguntei preocupada.
-Calma amor -Vanessa riu- não é nada demais. Daqui a pouco passa.
-Vou passar na farmácia e comprar aspirina. -estiquei a mão e toquei suavemente em sua testa, iniciando uma massagem leve ali.
Vanessa fechou os olhos e sorriu.
-Clara, eu diria pra você ir logo antes que Vanessa te amarre numa cadeira pra você não sair, nunca vi essa menina tão carente e dependente, eu hein. Não foi assim que eu te criei minha filha.
Vanessa revirou os olhos e eu ri.
-Menos mãe.
Sofi desceu as escadas correndo me fazendo repreende-la com o olhar, enquanto carregava seu casaco na mão.
Ela parou ao meu lado e eu agachei ficando da sua altura. Peguei o casaco da sua mão e vesti em seu pequeno corpo. Ela estava inquieta, querendo sair logo. Assim que terminei de arruma-la dei um beijo em sua bochecha e segurei sua mão.
-Eu já volto princesa.
Dei um beijo na testa de Vanessa que sorriu fraco e concordou.
Sofi pulou nas minhas costas e fomos saltitando até o carro. Eu não me lembrava de nada por aqui então teria que me virar para achar uma farmácia e uma sorveteria. Dei algumas voltas pela pequena cidade praiana mas consegui encontrar.
-Ei Sofi, nós vamos parar aqui primeiro mas prometo que é rapidinho ok? -vi seu aceno frenético pelo retrovisor e ri.
Descemos na farmácia e eu fiz Sofi se distrair momentaneamente com algo do outro lado da loja enquanto pegava aspirinas e testes de gravidez. Peguei testes de marcas variadas, as mais conhecidas e que sabia que eram mais confiáveis.
Dei uma última olhada em Sofi do outro lado da loja e fui pagar as coisas.
Senti uma baixinha abraçando minha cintura e ri bagunçando seus cabelos.
-Pronta pra tomar um sorvete Sofi?
-Sim! Vamos logo Clarinha!
-Só um minuto baixinha. -respondi rindo.
A atendente da loja riu e acenou para Sofi, que ao ver isso se enfiou atrás de mim ainda me agarrando.
Depois de pegar a sacola fui de novo para o carro com a baixinha, abri a porta para ela e pus seu cinto.
-Vamos, Clara! -disse me empurrando.
-Está bem, está bem.
Dei mais algumas voltas com o carro mas encontrei uma pequena e aconchegante sorveteria. Aparentemente a única na cidade. Havia apenas um casal sentado em uma das mesas ao lado da parede.
Fiz a baixinha se sentar em uma mesa enquanto comprava os sorvetes. Quando eu cheguei lá ela praticamente pulava de ansiedade, então entreguei logo para ela o sorvete.
-Come devagar baixinha. -disse para ela rindo.
Acho que ela nem me ouviu.
-Clara? -me chamou depois de um tempo.
-Sim?
-Você ama a Van?
-Sim, Sofi, eu amo muito a Van.
-Por que você ama ela?
-Hm, deixa eu pensar.
Me debrucei sobre a mesa e encarei os olhinhos grandes e curiosas de Sofi.
-Eu amo ela porque... Ela é uma pessoa incrível. Ela é inteligente como você, é linda, educada, é fofa, tem um coração enorme e vive cuidando de mim. Existem vários motivos pra eu amar sua irmã.
-E... É por isso que você vive... Abraçando e beijando a Van?
-Sim baixinha -ri- ela é minha namorada, isso são demonstrações de carinho.
-Ei Clarinha, você também vive cuidando de mim, e me dando presentes, e você também é linda e inteligente e tem olhos verdes grandões e parece uma princesa então eu amo você.
Eu ri da constatação da baixinha mas por dentro meu coração pulava de alegria.
-Eu também amo você Sofi. Muitão.
Baguncei seus cabelos e apliquei um beijinho na sua testa.
-Agora, o que acha de irmos pra casa?
Ela concordou e saímos da sorveteria de mãos dadas com ela saltitando ao meu lado.
(...)
-Ally? -chamei entrando em seu quarto.
-Estou aqui Clara.
Ela estava no banheiro lavando o rosto.
-Eu trouxe os testes.
Ela me olhou e respirou fundo, mordendo o lábio inferior.
-Você... Quer fazer depois? Se quiser tudo bem.
-Não. Eu já quero acabar com isso logo.
Concordei e lhe entreguei a sacola.
-Eu trouxe diferentes, de marcas variadas. Eu recomendo que você deixe pelo menos dois sobrando, posso esconder pra você.
Ela sorriu fraco e assentiu. Tranquei a porta do quarto enquanto esperava ela fazer os testes. Ela saiu do banheiro um tempo depois com três palitinhos na mão.
-Fez direitinho? -eu me levantei e ela assentiu.
Comecei a andar pelo quarto enquanto passava a mão pelos cabelos.
-Tem certeza de que fez certo né?
-Clara, não tem muito mistério em fazer xixi em um palito. -ela disse rindo.
-Bom. Isso é bom. -continuei andando de um lado para o outro.- sabe, esse teste tem eficácia de 95 a 99% e ele detecta a presença ou ausência de um determinado hormônio na urina da mulher quando engravidamos, por isso... -Ally revirou os olhos e parou na minha frente, me segurando pelos ombros.- Por Deus Clara, você está divagando. Relaxa.
-Desculpe estou ansiosa.
Ela me fez sentar na cama pelos minutos restantes.
-Acha... Acha que já dá pra ver? -me perguntou.
-Já dava a uns dois minutos atrás só achei que você precisava de um tempo.
-Certo. -ela suspirou.
Suas mãos tremiam, ela pegou os palitos em suas mãos.
-Eu não consigo. Olha pra mim.
Respirei fundo e olhei os três.
-E então? -perguntou ansiosa.
(...)
Vero desceu as escadas correndo e parou na minha frente com meu violão na mão.
-O que você quer que eu faça com isso? -perguntei confusa.
-Que você toque né. -respondeu rindo.
Ela fez todos nós irmos para o lado de fora, onde ela cismou de acender uma fogueira na areia e fez todos nós nos sentarmos em volta. Ela havia estendido cangas por lá, assim não iríamos nos sujar muito.
Do meu lado esquerdo se sentou Dinah, e do outro lado Vero. Vanessa estava sentada à minha frente ao lado de seus pais e com Sofi no seu colo.
Comecei a dedilhar as canções que elas pediam no violão, enquanto todos nós cantávamos. Na verdade mais riamos do que cantávamos. Já era noite, o vento suave batia brincando com os cabelos e era possível ouvir o som da maré ao fundo.
Ri e terminei de tocar a última música que eles pediram. Olhei para Vanessa e escolhi uma que eu tenho certeza de que ela ia adorar.
Loving can hurt
Loving can hurt sometimes
But it's the only thing that I know
And when it gets hard
You know it can get hard sometimes
It is the only thing that makes us feel alive
Vanessa me olhou sorrindo, seus olhos brilhavam. Os mais velhos por não conhecerem muito bem a música, deixaram de cantar.
We keep this love in a photograph
We made these memories for ourselves
Where our eyes are never closing
Hearts were never broken
And time's forever frozen still
Vi a hora em que Alexa se levantou e pegou minha Polaroid começando a tirar fotos nossas. Olhei para todos no nosso pequeno círculo e sorri. Estava feliz por todos poderem estar presentes. Estava feliz até mesmo por Michael estar ali com seus filhos. E claro, com a pequena adição à família, Luis e Natália. Éramos uma pequena e desajeitada família, mas que amávamos e aceitávamos uns aos outros acima de tudo.
So you can keep me inside the pocket
Of your ripped jeans
Holding me close until our eyes meet
You won't ever be alone
Wait for me to come home
Loving can heal
Loving can mend your soul
And it's the only thing that I know
I swear it will get easier
Remember that with every piece of you
And it's the only thing we take with us when we die
We keep this love in a photograph
We made these memories for ourselves
Where our eyes are never closing
Our hearts were never broken
And time's forever frozen still
Eu cantava olhando no fundo dos olhos da minha namorada, às vezes desviava apenas para não errar as notas no violão mas logo voltava a encara-la.
So you can keep me inside the pocket
Of your ripped jeans
Holding me close until our eyes meet
You won't ever be alone
And if you hurt me
Well that's okay baby
Only words bleed
Inside these pages you just hold me
And I won't ever let you go
Antes de cantar as próximas linhas eu me levantei, e andei lentamente até Vanessa. Todos pararam de cantar, restando apenas a minha voz agora. Eu me ajoelhei à sua frente e cantei o último trecho da música olhando em seus olhos enquanto sorria.
When I'm away
I will remember how you kissed me
Under the lamppost back on 6th street
Hearing you whisper through the phone
Wait for me to come home.
Dinah se levantou correndo e entrou. Franzi o cenho não entendendo sua ação. Cinco minutos depois, ela voltou, entregou algo na mão de Vanessa e parou na minha frente me estendendo a mão. Pus o violão de lado e aceitei a ajuda para levantar.
-Eu quero que você fique com essa aqui.
Me estendeu a foto. Na base dela, na parte branca estava a data do dia de hoje. Nela era possível ver o brilho nos olhos de todos. Estávamos sorrindo enquanto cantávamos, aproveitando o momento. Mas acima de tudo, estávamos felizes. E o melhor, era que essa foto pegou justamente o final da canção, quando eu olhava dentro dos olhos de Vanessa, ajoelhada à sua frente.
-Dinah... Essa foto está linda, eu... Eu não vou ficar com ela é um momento tão meu quanto de qualquer um de vocês.
Dinah pegou a foto da minha mão e mostrou para cada um. Parou ao lado de Vanessa e me encarou.
-Agora me diz quem acha que a Clara deveria ficar com essa foto.
Não foi uma grande surpresa ver que todos concordaram. Dinah caminhou até mim com um sorriso de orelha a orelha.
-Acho que isso pertence a você. -disse brincalhona.
Ri e peguei a foto.
-Ei, dá uma olhada atrás.
Virei a foto e vi o que Dinah havia escrito. O trecho da música estava lá "So you can keep me inside the pocket of your ripped jeans" e uma carinha sorrindo. Desci mais os olhos pelo pequeno quadrado em minha mão e li uma coisa que fez meu coração se aquecer ainda mais.
"Agora você carrega um pedacinho de cada um de nós. Sempre que se sentir perdida quero que olha para essa foto e se lembre que nós vamos amar você loucamente, intensamente e perdidamente até o fim. Nós somos sua casa, e nela você sempre será bem vinda. Eu amo você. Para sempre e com todo o amor, sua DJ."
Cobri minha boca com a mão e voltei a olhar para Dinah. Seu sorriso ainda estava presente. Me joguei em seus braços.
-DJ... meu Deus, obrigada. Eu amo você. Muito.
Ela me apertou mais no abraço, e me segurou com firmeza começando a me rodar em seus braços. Gargalhei enquanto pedia para ela me colocar no chão. Ela riu novamente e me soltou. Sorri e lhe dei um longo beijo na bochecha.
-Hm... Clarinha?
Me virei para Vanessa e sorri.
-Sim?
-Eu queria... Te perguntar uma coisa.
Ela se levantou e parou na minha frente, pegando minhas mãos. Não sabia do que se tratava mas meu coração já estava acelerado.
-Há uns meses atrás eu te conheci e... Eu posso afirmar com certeza que esse foi um dos melhores dias da minha vida. Eu não sou tão boa com palavras como você, então acho que não vou enrolar muito. -ela sorriu e acariciou meu rosto. Inclinei-o contra a sua mão apreciando o carinho.- o ponto é que eu amo você. Amo seu jeito manhoso, e o modo como parece que você é tão dependente de mim quanto eu sou de você. Eu amo o seu sorriso, seus olhos, o jeito que você franze o nariz quando ri. Amo o fato de você ser tão forte e apesar de tudo o que aconteceu durante a sua vida, você não se deixou abalar. Amo como você parece confiar sua vida a mim, acreditando que eu sempre vou te proteger e cariño, eu prometo que sempre vou estar aqui pra você. Não importa o que aconteça. Eu não ligo pra o que os outros digam ou façam. Eu amo como você passa a mão pelos cabelos quando você está nervosa e amo o modo como seus olhos brilham quando eu digo que te amo... Enfim, você entendeu a ideia, eu amo absolutamente tudo em você. -ela disse arrancando risadas de todos nós e eu já podia sentir meus olhos se lacrimejarem.- você sempre fez tudo por mim, sempre me fez sorrir mesmo quando tudo estava desmoronando ao nosso redor. Eu admiro isso em você. Quando você me pediu em namoro... Você cismou que iria fazer um pedido oficial depois. Sim, o seu pedido foi simples, mas foi de coração. E já que te conhecendo bem você faria isso de qualquer maneira... Bem... Eu decidi fazer.
Ela puxou das costas uma caixinha de veludo preto. Eu arregalei os olhos e olhei da caixa para seu rosto repetidas vezes.
-Espera... Só mais uma coisa. -ela guardou a caixa no bolso do casaco e limpou seu rosto antes de pegar o violão e limpar a garganta.
-'Cause all of me loves all of you. Love your curves and all your edges, all your perfect imperfections. Give your all to me, I'll give my all to you. You're my end and my beginning. Even when I lose I'm winning. -havia sido apenas uma parte do refrão, mas eu não ligo. Havia sido o suficiente.
Sua voz suave e levemente rouca me provocava arrepios. Era a voz mais bonita. Não deixei nem Vanessa tocar a última nota antes de envolvê-la em um abraço apertado. Ela riu e beijou minha bochecha antes de envolver minha cintura.
Respirei fundo sentindo seu cheiro gostoso, e me afastei sorrindo.
-E então Clara , você quer ser minha namorada? Oficialmente? -sussurrou a última parte para mim e piscou.
Eu ri e acenei freneticamente tomando seu rosto em minha mãos e lhe dando um longo beijo, sem me importar com as pessoas à nossa volta que agora batiam palmas e gritavam.
Vanessa se afastou novamente e limpou meu rosto. Abriu a caixinha preta e me mostrou seu conteúdo. Dentro, estavam duas alianças de prata. Ela pegou as duas e deixou na palma da sua mão.
-Olhe o que está escrito nelas.
Peguei as duas e quando olhei o que estava escrito, meu coração errou uma batida. Ao invés de estarem gravados "Vanessa" e "Clara", estavam lá "Princesa" e "Cariño". Sim, era algo diferente, mas não deixava de ser perfeito. Vanessa pegou uma das alianças e pôs no meu dedo anelar da mão direita, aplicando um beijo em cima logo em seguida. Fiz o mesmo com ela e a puxei para um último beijo. Simplesmente ignorei o fato de seus pais estarem lá assistindo tudo.
-Eu amo você. -sussurrei em seus lábios.
Ela sorriu e beijou minha testa antes de entrelaçar nossas mãos.
-Aí que lindas! Deixa eu ver essa aliança. -Mani parou ao meu lado e puxou minha mão da de Vanessa.- vocês são tão fofas! Dinah Jane, por que você não fala coisas assim pra mim? -deu um tapa em DJ que estava parada ao seu lado.
-Aí, amor. -ela esfregou seu braço.- Eu só...
-Não quero saber. -Mani cruzou os braços e saiu de perto de nós duas.
Dinah revirou os olhos e bufou.
-Mereço.
-Vai lá atrás da sua namorada, DJ. -eu ri.
Virei-me para Vanessa e prendi os braços ao redor do seu pescoço.
-Gostou da surpresa, cariño?
-Eu amei. Você é perfeita. -beijei a pontinha do seu nariz e deitei a cabeça em seu ombro.
-O que acha de já irmos deitar? -perguntou enquanto sua mão percorria o caminho da minha coluna por baixo da blusa, num carinho gostoso me fazendo estremecer.
-Tudo bem.
Ela pegou minha mão e a beijou antes de entrelaçar nossos dedos. Demos boa noite a todos e andamos até Michael que estava conversando com Alexa, para saber se ele precisava de alguma coisa, se Alexa já havia mostrado seu quarto, etc. Ele nos deu parabéns pelo namoro e disse que nós duas tínhamos muita sorte de termos uma a outra. Ele me encarava com um brilho nos olhos, de um jeito... Diferente.
Quando nós duas nos afastamos para voltar para casa ele me chamou.
-Clara?
-Hm? -parei e me virei.
-Eu queria... -sorri o encorajando a continuar mas ele olhou para seus pés, e depois de um tempo me olhou de novo. Parecendo ter perdido a coragem de falar o que quer que fosse falar.- Não é nada. Boa noite.
-Boa noite, Mike. -dei um beijo em sua bochecha e ele sorriu largo.
Eu e Vanessa chegamos no quarto, e tomamos outro banho antes de nos jogar na cama.
Eu estava deitada em seu peito, ela acariciou meu rosto antes de se inclinar e me beijar. O beijo começou calmo, e foi ficando mais necessitado e desesperado com o passar dos minutos, terminando com Vanessa já ofegante em meu colo e sem blusa.
Desci os beijos por seu queixo, mandíbula, lóbulo da sua orelha e parando em seu pescoço, ouvindo seu suspiro.
-Van?
-Hm? -murmurou tentando controlar a respiração.
-Eu... Acho que estou pronta.
Ela me encarou com o cenho franzido, confusa. Tirei os cabelos do seu rosto e colei nossas testas.
-Eu quero que você me faça sua essa noite. -sussurrei.
MEU ANJO
Capítulo 37
-Reconheceu esse lugar?
Virei para Alexa que estava parada atrás de mim e arqueei a sobrancelha.
-Deveria?
Ela deu de ombros e olhou em volta.
-Apenas... Dê uma volta por aí.
Franzi o cenho mas concordei. Puxei a mão de Vanessa para que ela fosse comigo. Passei o braço por seus ombros e entrelacei nossas mãos, dando um beijo em sua cabeça enquanto andávamos até a casa.
Parei em frente a mesma e inclinei a cabeça, esforçando-me para que alguma coisa me viesse à mente.
A casa majestosa à minha frente tinha sua frente inteira de vidro, parecia ter uns três ou quatro andares. Era enorme tanto de comprimento quanto de largura. Havia algumas árvores em volta dela. A cada passo que eu dava o ambiente me parecia cada vez mais familiar.
Virei sobre os calcanhares levando Vanessa junto, e encarei a praia à nossa frente.
As ondas batiam calmamente, o mar era cristalino, de um azul bem clarinho. Era final da tarde, as cores se mesclavam no céu dando aquele ar de paz instantâneo. Suspirei e encarei a praia vazia.
Olhei para Vanessa e ela olhava para a vista à frente com um sorriso discreto. Sorri apenas por ver a expressão serena em seu rosto. O vento ligeiramente forte batia jogando seus cabelos para todos os lados, ela se encolheu.
-A vista é tão linda...
Murmurou parecendo hipnotizada. E eu não estava diferente. Porém hipnotizada por ela.
-Realmente, é muito linda.
Ela se virou para me olhar e corou quando viu que eu falava dela.
-Para, Clarinha. -reclamou sorrindo com a língua entre os dentes.
Ri e beijei sua bochecha, virando-nos para a frente da casa novamente.
-Você já deveria ter se acostumado, princesa.
Eu dizia para Vanessa o quanto ela era linda todos os dias. Mesmo quando nós não conseguíamos parar para ter uma conversa decente na faculdade, eu mandava uma mensagem dizendo o quanto ela é maravilhosa e o quanto eu a amo. Até mesmo quando estávamos brigadas e ela não queria olhar na minha cara eu mandava mensagem com esses dizeres e me desculpando. Nem sempre funcionava, mas eu fazia questão.
-Não é todo mundo que recebe elogios todos os dias de Clara Aguilar.
-Vocês me colocam demais em pedestal. -resmunguei e tirei meu braço dos seus ombros, cruzando os meus e andando calmamente até uma árvore que continha umas marcações estranhas.
Ouvi seu suspiro e depois de um tempo ela andou até meu lado e abraçou meu braço direito.
-Desculpe... -sussurrou. Ela sabia o quanto eu odiava ser muito elogiada e ser colocada em pedestal- você entendeu errado o que eu quis dizer.
Apenas beijei sua testa e respirei fundo. Estiquei a mão esquerda e passei a mão nas marcas na árvore.
-O que é isso? -perguntou Vanessa curiosa.
Aproximei-me da árvore e vi que se tratavam de iniciais. Em cima estava escrito A.F. e embaixo C.A.
Arregalei os olhos e olhei em volta mais uma vez antes de pousar os olhos sobre as iniciais.
"-Alexa, Alexa, olha só essa árvore ela é grandona!
Alexa riu e parou ao meu lado bagunçando meus cabelos.
-É verdade meu amor. Está gostando da viagem?
Acenei freneticamente e puxei suas mãos para baixo.
-Está legalzona! A casa é do tamanho do céu!
Ela riu mais uma vez e se abaixou ficando da minha altura, aplicando um beijo na minha bochecha.
-Que bom que gostou. Ei, tive uma ideia.
Ela me fez andar de cavalinho em suas costas, o que foi legalzão!
Eu adorava a Alexa. Ela sempre me levava para passear e tomar sorvete, e ver filmes. Era diferente da tia chata que morava comigo. Ela não gostava de mim.
Alexa começou a imitar sons de animais, foi uma imitação péssima mas eu ri para que ela ficasse feliz, assim como eu estava. Ela riu e continuou correndo até a cozinha. Pegou alguma coisa na gaveta e saiu correndo para fora, parando em frente à árvore grandona.
Ela esticou a mão e fez cortes na árvore com uma faca grandona.
-O que significa? -perguntei confusa.
-Está vendo essas daqui de cima?
Apontou para o A e o F.
-Uhum.
-Esse é o meu nome, Clara. Alexa Ferrer. E sabe o que é isso aqui embaixo?
Indicou o C e o A . Inclinei a cabeça para o lado e me esforcei para pensar.
-Clara Aguilar? -perguntei.
-Isso! Agora essa árvore grandona aqui está marcada como nossa. O que acha de virmos aqui mais vezes pra visita-la?
-Eba! -concordei animada.
Ela riu e me desceu das costas dela.
-Vamos à praia mamãe?
Eu sabia que Alexa não era minha mamãe. Mas ela cuidava de mim como se fosse e toda vez que eu chamava ela assim, ela sorria bem grandão e seu olhos brilhavam. Eu gostava de ver Alexa feliz.
-Vamos, pequena."
Acariciei aquele pedaço na árvore e sorri negando com a cabeça.
-Alexa Ferrer e Clara Aguilar. -respondi à minha namorada.
Ela sorriu e deitou a cabeça no meu ombro enquanto me olhava.
-Gostou de ter vindo aqui Clarinha? Se lembrou?
Tirei os cabelos do seu rosto e beijei sua testa.
-De algumas coisas. Lembro de ter vindo aqui com Alexa e de ela ter marcado essa árvore. Acho que na adolescência vim no máximo duas vezes, vim mais na infância, já tinha me esquecido desse lugar.
Ouvi Alexa chegando ao meu lado e me virei para olhá-la. Ela continha um sorriso de lado no rosto e olhava para as marcas na árvore.
-Era tudo tão mais fácil antes de Paul, não era?
Observei seu sorriso triste e suspirei. Vanessa me soltou e acenou em direção à Alexa. Sorri fraco e deitei a cabeça no peito da minha madrinha. Ela passou os braços ao meu redor e me apertou forte.
-Senti falta desse lugar. -murmurou enquanto afagava meus cabelos.
-Eu também, mãe.
Ela me apertou mais ainda no abraço e enterrei a cabeça no seu pescoço.
-Sabe que aqui foi a primeira vez que você me chamou assim? Nós passamos o dia todo na praia e você estava exausta. Eu te deitei na cama e você disse sonolenta "Boa noite, mamãe." Esse foi provavelmente o dia mais feliz da minha vida.
Sorri e beijei sua bochecha.
-De quem é essa casa? Você aluga toda vez que a gente vem? Porque pelo tamanho não é barata não!
Ela riu e negou.
-Ela é sua, Clara.
Afastei-me e franzi o cenho.
-Minha? Como assim?
-Ela era da sua família. Eu e sua mãe... -olhou em volta sorrindo- passamos muitos momentos aqui. Ótimos momentos. Ela deixou essa casa pra você. Me fez prometer que sempre te traria aqui.
Ainda me assustava o fato de ela ter feito um testamento com aquela idade. Obviamente ela sabia que iria morrer para fazer Alexa prometer tantas coisas. Acho que ainda não estava pronta para saber o que houve com ela.
-Por que não me disse isso antes? Por que não viemos mais aqui?
Ela deu de ombros.
-Não queria que Paul se lembrasse da existência desse lugar.
Arqueei a sobrancelha.
-Se lembrasse?
-É... Hm... Essa é uma conversa pra outra hora, Clara. Olha os pais de Vanessa chegaram.
Ela saiu dali e foi cumprimentar os Mesquita que desciam do carro.
-Você ouviu isso?
Vanessa que estava com os lábios comprimidos concordou.
-Estou cansada das pessoas esconderem coisas de mim. Como seu eu não fosse aguentar. -reclamei frustrada e passei as mãos pelos cabelos.
-Esquece isso por enquanto cariño.
Ela se acomodou nos meus braços, aspirei seu cheiro sentindo a irritação deixar meu corpo.
-Clarinha!
Escutei aquela vozinha de criança e sorri me separando de Vanessa para falar com a pequena.
-Oi meu amor! Que saudade que eu tava de você!
Peguei Sofi no colo e abracei lhe dando um abraço apertado.
-Eu também estava com muitas saudades! Desse tamanhão aqui!
Ela abriu os braços o máximo que conseguiu me fazendo rir e lhe dar um beijo na bochecha.
-Ei! E eu não ganho um abraço? -reclamou Vanessa fazendo um biquinho lindo.
-Kaki!
Sofi puxou Vanessa para perto e abraçou nós duas ao mesmo tempo.
-Não acha que está grandinha demais pra colo não baixinha?
Sofi parou para pensar um pouquinho.
-Acho não!
Respondeu nos fazendo rir.
-Deixa ela amor.
Segurei Sofi com um braço e puxei Vanessa para mais perto aplicando um beijo na sua bochecha.
-Você ainda vai mimar mais ainda essa menina... -ela sussurrou resmungando.
-Não tem problema, né Sofi?
A baixinha assentiu freneticamente.
Ri enquanto via os pais de Vanessa se aproximando. Eles deram um abraço apertado na filha, e disseram estar com saudades. Na hora de eu ir cumprimenta-los Sofi passou para as costas de Vanessa e eu dei um abraço apertado nos dois, que sorriam para mim.
Vanessa abraçou minha cintura com uma mão enquanto com a outra segurava Sofi nas costas, e passei o braço ao seu redor abraçando as duas ao mesmo tempo.
Sofi sorriu largo para mim e eu sorri de volta, aquela era a criança mais fofa.
-Clara, quanto tempo!
-É verdade, senhora Mesquita. Peço desculpas, não temos tido muito tempo.
-Querida, está vendo aquele mar ali atrás? -concordei confusa- Se você continuar me chamando de senhora vai parar ali rapidinho.
Ri da sua expressão ameaçadora e rapidamente concordei.
-Mãe será que dá pra você parar de ameaçar minha namorada? Grata desde já.
Sorri e beijei a bochecha de Vanessa.
-Ih parou com esse grude viu Vanessa. Coitada da Clara, não consegue ficar um minuto só.
-SOFIA! -gritaram Dinah e Normani ao mesmo tempo aparentando estar bravas.
Sofi gargalhou e desceu das costas de Vanessa, indo correndo e pulando no colo de DJ. Todos os nossos amigos se reuniram ao redor de Sofi e a cumprimentaram com beijos e longos abraços. Logo todos eles começaram a brincar com a baixinha, e até mesmo Luis e Natália estavam no meio.
-Já que é assim... -Vanessa se soltou do meu corpo e bufou indo para o outro lado.
A segurei pela mão e puxei forte fazendo com que seu corpo batesse contra o meu. A apertei forte.
-Não princesa, fica aqui pertinho de mim.
Enterrei o rosto em seu pescoço e apliquei beijinhos lá.
-Aí que melação... -reclamou Sinu.
-Sinuhe!
-O que foi agora, Alejandro?
Sinu cruzou os braços e bateu o pé direito no chão.
-Deixa as meninas em paz, mulher.
-Está tentando me dizer o que fazer? -arqueou uma sobrancelha.
Alejandro revirou os olhos e saiu dali resmungando.
-Esse homem só sabe resmungar agora. Deve ser a idade.
Ri e senti meu corpo vibrar pela risada de Vanessa, que ainda estava agarrada à mim.
-É sério isso? Vocês só ficam assim agarradas quando estão juntas? Não se desgrudam não?
Vanessa negou e me apertou mais ainda. Ri e beijei o topo da cabeça da minha princesa.
-Clara considerando o fogo de Vanessa se você fosse homem eu diria pra vocês usarem camisinha, mas devido às circunstâncias...
-MÃE! Porra...
Mesmo que corada eu gargalhei do jeito de Sinu.
(...)
-Ei Alexa, Michael não vem mais?
-Ele vem amanhã. Ele perguntou se poderia trazer os filhos dele, eu disse que poderia tudo bem por você?
-Claro.
Ela sorriu e voltou a conversar com Dinah e Mani.
-Vamos Sofi, come só mais um pouquinho. A pequena estava emburrada no meu colo, sem querer comer mais.
-Se você comer tudinho eu prometo que levo você a praia amanhã e brinco o dia todinho com você, e tento achar uma sorveteria pra você comer um sorvete bem grandão.
Sofi arregalou os olhos e enfiou o garfo na boca. Vanessa ao meu lado riu. -Vai com calma princesa.
Sofi terminou o prato em algumas poucas garfadas e sorriu para mim.
-Muito bem Sofi. Agora vai lá brincar um pouco, vai.
Ela desceu do meu colo e correu até Troy, que estava sentado no chão, pulando nas suas costas.
-É impressionante como a Sofi gosta dos nossos amigos né princesa?
Pousei a mão esquerda na sua coxa e acariciei. Ela deitou a cabeça no meu ombro e concordou.
-Nunca pensei que eles fossem ser tão apegados assim à ela. Acredita que tem vezes que elas marcam de levar Sofi pra algum lugar sem mim?! Eles simplesmente vão na casa dos meus pais e buscam a minha irmã.
Ri e puxei sua mão aplicando um beijo nas costas.
-Van?
-Hm? -ela me olhou e murmurou.
-This is our fate, I'm yours.
Ela sorriu largo e colou sua testa na minha.
-Lucky I'm in love with my best friend. -cantarolou um trecho de outra música.
Era uma das suas preferidas.
-Lucky we're in love in every way. -murmurei com os lábios praticamente colados aos seus.
Levei minha mão ao seu rosto iniciando a carícia de sempre, e Vanessa finalmente terminou a ligeira distância. O beijo era calmo, tínhamos todo o tempo do mundo. Era apaixonado, eu tentava transmitir todos os meus sentimentos naquele simples beijo.
Eu amo tanto Vanessa, e era tão estranho. Foi uma espécie de amor à primeira vista, desde a primeira vez em que bati os olhos nela fiquei encantada. Talvez tenha sido o sorriso, o olhar, o jeito, eu não sei. Talvez nunca iria descobrir.
A vida é feita de escolhas. E sabe, se eu não tivesse escutado todos à minha volta dizendo que eu e Vanessa daríamos certo, se eu não tivesse arriscado, eu tenho certeza absoluta de que eu não seria feliz como eu sou agora.
Mesmo sem ter ela como minha namorada, tendo ela apenas como amiga, isso já me deixaria satisfeita. Mesmo se meu amor não fosse correspondido, porque apenas a sua companhia já me faz bem. Me sinto bem quando eu cuido dela.
As palavras de carinho e o jeito que eu a trato são pouco comparado ao que essa garota incrível merece. Por isso não ligo quando reclamam que nós estamos melosas demais, que não nos desgrudamos, estou apenas dando o meu melhor para Vanessa. Ela merece ser tratada como uma rainha.
-Eu amo você. -murmurou nos meus lábios.
Meu coração se acelerou assim como cada vez em que ela diz isso. Assim como em cada vez em que bato os olhos nela, quando ela me beija, quando segura minha mão, quando acaricia meu rosto. E quando sorri. Uau. Seu sorriso é algo... Fora do comum. Sou completamente e inteiramente apaixonada por esse sorriso.
-Também te amo meu amor. -beijo a pontinha do seu nariz e ela sorri.
Suspirei e abracei seu pequeno corpo enquanto olhava em volta.
A sala era completamente espaçosa. O chão era todo de madeira, a casa era um mesclado de antiga com nova. Um som enorme estava no canto, ao lado de uma estante lotada de CDs. Troy estava sentado no chão brincando com Sofi em seu colo.
Os pais de Vanessa estavam sentados no sofá, com Ally que continuava com um semblante estanho, como estava há dias, ao seu lado ao seu lado.
Normani estava sentada no colo de Dinah, que fazia um carinho em seu braço enquanto ria de algo que Alexa falava.
Vero e Lucy estavam em sua própria bolha, deitadas agarradinhas no outro sofá na frente do que os meus sogros estavam.
Luis e Natália já haviam se retirado com a desculpa de que estavam cansados. Sei.
A casa era muito grande. Tinha uma sala de música, uma biblioteca, vários quartos todos sendo suítes, inúmeros banheiros espalhadas pela casa, varanda em dois deles, o meu, que Alexa havia separado para mim e o da minha madrinha.
A casa, apesar de ser tecnicamente uma casa de praia, tinha uma piscina enorme no quintal, que também era enorme.
-Gostou daqui Van?
Ela tirou o rosto do meu pescoço e concordou.
-Podíamos vir sempre pra cá né Clarinha.
-Sim princesa. E podemos trazer a Sofi quando viermos de novo! Hm... Vou comprar uns brinquedos e fazer um quarto só pra ela, o que acha?
-Você sabe o que eu acho... Que você mima demais minha irmã.
-Mas... Ela merece.
-Eu sei cariño, mas isso vai ser ruim pra ela no futuro.
-Ok... Vou tentar maneirar um pouquinho...
Vanessa sorriu e beijou minha testa.
Vi Ally passar feito um furacão, e subir as escadas correndo. Franzi o cenho para aquilo, ninguém viu essa cena, todos estavam distraídos.
-Hm... Van eu já volto.
Ela concordou e se afastou para que eu pudesse me levantar. Meu quarto ficava no terceiro andar, e era um dos primeiros, sendo o único a estar com as luzes acesas.
-Ally? -perguntei não obtendo resposta.
Entrei no quarto e a porta do banheiro estava escancarada. Ally estava lá, ajoelhada no chão e vomitando. Corri até ela e segurei seus cabelos.
-Não Clara... Me deixa... Sozinha. -murmurou ofegante em uma das vezes em que conseguiu parar de botar tudo para fora.
Revirei os olhos e corri até a porta do quarto a trancando, enquanto voltava para o banheiro ouvi o barulho da descarga.
Voltei a segurar seus cabelos e esperei até que ela parasse de passar mal. Ally começou a chorar e fiquei meio sem saber o que fazer, então apenas me sentei no chão ao seu lado e ela deitou a cabeça no meu ombro. Entrelacei nossos dedos e fiz carinho nas suas mãos até que ela estivesse melhor.
Seu corpo todo tremia de tanto soluçar, meu coração se apertava por não poder fazer muita coisa para ajudá-la.
Levantei e a fiz se levantar também. Limpei suas lágrimas e lhe lancei um sorriso fraco. Peguei na minha bolsa uma escova de dentes nova, que eu carregava por garantia.
Enquanto ela lavava o rosto e escovava os dentes prendi seu cabelo em um rabo de cavalo e liguei o ar do quarto.
-Por que não vai tomar um banho, baixinha?
Ela sorriu fraquinho e concordou. Seu semblante voltou a ficar tristinho e ela desatou a chorar novamente.
-Ei... Não fica assim AllyCat. Vamos lá vai... Eu ajudo você.
Tirei a jaqueta dos seus ombros e joguei sobre minha cama. Ajudei-a a tirar a camisa colada lançando no mesmo lugar que a jaqueta. Fiz ela se apoiar em meus ombros enquanto descia seu short. Enquanto ela tirava as roupas íntimas liguei a água e deixei em uma temperatura agradável.
-Te espero no quarto. -murmurei antes de sair do banheiro fechando a porta para que ela tivesse um pouco de privacidade.
Apesar de estar muito aflita deitei na cama e esperei até que ela saísse do banheiro enrolada na toalha.
Peguei uma blusa minha qualquer e dei para que ela se vestisse. Já vestida e com o rosto seco, ela se deitou ao meu lado de frente para mim.
-Quer me contar o que houve? -perguntei carinhosamente.
-Eu... Clara eu estou grávida.
Sentei rapidamente na cama e arregalei os olhos.
-Você... O que?
Ela se sentou e abraçou as pernas.
-Foi o que você ouviu. -murmurou sem me olhar.
-Por isso você tem estado tão estranha?
Ela deu de ombros.
-Ally... Por que você está chorando?
-Porque eu não sei o que fazer Clara! Como eu vou contar isso pros meus pais?! Deus eles vão ficar tão decepcionados... Como eu vou terminar minha faculdade? Como eu vou criar uma criança? E o Troy... Clara, o Troy vai me deixar -a baixinha tinha os olhos arregalados, ela segurava minhas mãos com força- ele... Ele não pode me deixar.
-Ei, ei fica calma. -limpei novamente suas lágrimas que escorriam livremente pelo seu rosto. -uma coisa de cada vez, tudo bem?
Ela acenou fraquinho.
-Primeiro, você tem certeza absoluta de que está grávida? Já fez o teste de gravidez?
-Não... -ela fungou- mas estou atrasada, e tenho tido muitos enjoos. Eu só sei Clara, não vai ser preciso um teste pra comprovar.
-Certo... Mas olha só, vamos fazer um teste só pra confirmar ok? Eu compro pra você e nós descobrimos juntas tudo bem?
-Ok. -ela fungou mais uma vez.
-Eu presumo que você não queira que os outros saibam.
-Ainda não... Pode manter em segredo por favor?
-Claro baixinha.
Ela sorriu e agradeceu.
-Você acha que eu já devo contar pro Troy?
-Eu ao menos esperaria até o resultado do teste... Mas a escolha é sua. No que você decidir eu vou te apoiar.
Ela mordeu o lábio inferior e desviou o olhar.
-Acha que ele vai me deixar?
-Sinceramente eu acho que não. Ele te ama.
-Mesmo assim... Ele pode ficar assustado... Eu não sei...
-Tenho certeza de que ele não vai fugir. Ele pode ser esse banana que ama uma briga, mas é louco por você AllyCat. Vai ficar tudo bem.
Lágrimas silenciosas voltaram a escorrer por seu rosto. Deitei na cama e a puxei para que ela se deitasse no meu peito.
-E quanto ao resto? O que eu vou fazer?
-Escuta... Você já é uma mulher independente. Já não mora mais com os pais, tem um namorado, é cheia de amigos, se seus pais se recusarem a te ajudar, você vai ter pessoas de sobra se oferecendo pra isso. E quanto a faculdade... Nós vamos dar um jeito ok? Eu vou te ajudar.
-Obrigada Clara... Você não precisava fazer nada disso.
-Vai dar tudo certo. Se der positivo no teste, quando voltarmos pra Miami vou marcar um médico pra você tá bom? E eu quero acompanhar de perto toda a gravidez, ir com você em consultas e tudo mais.
Ela riu baixinho.
-Não foi você que me disse pra ir com calma, que talvez eu não esteja grávida?
-Desculpe estou ansiosa.
-Vai gostar de ter um sobrinho Clarate? -perguntou divertida.
Aquele era um novo apelido que Dinah, Mani e Vero haviam criado. Elas passaram uma tarde inteira decididas a me irritar e inventaram esse apelido. Mereço.
-Eu vou adorar! Digo, pra você pode ser que seja bastante complicado por causa da faculdade e tudo mais, mas como eu te disse eu vou ajudar. Quando você estiver muito cansada eu posso cuidar dele ou dela, posso levar pra minha casa e tomar conta até que você descanse, posso... -ri pela cara engraçada que Ally fez- Ok, eu quero muito um sobrinho.
Ela gargalhou dessa vez me fazendo rir junto.
-Estou vendo.
-Desculpe vou parar de fazer planos... Vamos esperar pelo resultado.
Ela suspirou e assentiu.
-Está cansada?
-Um pouco.
-Dorme AllyCat.
Ela sorriu pelo apelido e se acomodou sobre mim. Beijei sua testa e ajeitei o cobertor sobre ela.
-Boa noite. -sussurrei.
Ela apenas sorriu e fechou os olhos. E cerca de apenas cinco minutos depois, ela apagou, com os meus carinhos em sua cabeça.
Eu até deixaria a baixinha passar a noite na minha cama mesmo, mas eu teria que inventar explicações à Vanessa, eu sabia o quanto ela era desconfiada.
Primeiro destranquei a porta do quarto e fui até o de Ally e Troy, puxando o cobertor mais para baixo e ajeitando o travesseiro. Voltei ao meu quarto e peguei a baixinha no colo.
Acomodei ela embaixo do cobertor e a cobri até os ombros. Beijei sua bochecha e sai do quarto deixando a porta encostada.
Desci rapidamente as escadas encontrando Vanessa cochilando no sofá.
-Ela tentou te esperar, mas estava muito cansada. -disse Sinu.
Eu sorri e me sentei ao lado de Vanessa.
-É, eu demorei muito lá em cima...
Ao ouvir minha voz ela abriu levemente os olhos e resmungou, vindo se acomodar nos meus braços. Ri baixo e beijei sua bochecha.
Olhei para Sinu e ela nos encarava sorrindo de canto. Corei com a intensidade do seu olhar.
-Vocês são fofas juntas, já te disso isso?
Assenti sem graça.
-Formam um casal bonito.
-Obrigada, Sinu.
Vanessa era linda enquanto dormia. Tinha uma expressão serena linda. As maçãs do rosto coradas como sempre, a boca ligeiramente aberta, linda.
-Você realmente gosta da minha filha, não é Clara?
A voz de Sinu interrompeu meus pensamentos.
-Eu amo a sua filha. -respondi com convicção.- eu sei que ainda vamos brigar muito, que eu vou me chatear, que ela vai se chatear, mas eu prometo fazer ela a mulher mais feliz do mundo.
Ela sorriu suavemente.
-Você já faz isso querida. Mesmo que você não perceba você já faz Vanessa imensamente feliz.
Sorri e fiquei sem graça novamente.
-Bom, acho melhor já subir com ela. Boa noite Sinu.
-Boa noite querida. Quer que eu mande Alejandro subir com ela?
-Não, tudo bem.
Peguei minha namorada no colo, que abraçou meu pescoço e deitou a cabeça lá.
-Boa noite pessoal. -todos responderam e eu mandei um beijo no ar para Sofi, que respondeu acenando freneticamente.
Subi as escadas enquanto pensava na situação de Ally. Se ela estivesse mesmo grávida seria um pouco difícil para eles... Mas nada que não possamos ajudar.
Chutei a porta do meu quarto e deitei Vanessa na cama. Tirei seu short e deixei ela com aquela camiseta mesmo.
Escovei os dentes e troquei de roupa, indo direto para a cama. Nem preciso dizer que minha namorada me procurou e se ajeitou sobre mim.
E ali, olhando para ela deitada sobre mim, com a luz baixa da tv iluminando seu rosto, sua respiração uniforme batendo na minha pele, seu corpo quentinho sobre o meu, o sorriso fraco nos seus lábios, eu posso dizer que eu, mais uma vez, me apaixonei por Vanessa Mesquita.
MEU ANJO
Capítulo 36 -
Os dias daquela semana se passaram rapidamente. Luis e Natalia vieram nos visitar nos dias que se seguiram, ficamos até domingo em Nova York.
Alexa ainda estava hesitante com relação à Luis mas agora tudo estava bem.
Dessa vez consegui me despedir propriamente da senhora Baker, que também havia ido me visitar todos os dias daquela semana e inclusive levado uma torta para mim.
Apresentei Vanessa devidamente para ela, como minha namorada, ela nem mesmo ficou surpresa. Apenas nos deu um longo abraço e pediu para que Vanessa cuidasse de mim.
Luis havia se tornado extremamente próximo, tornando-se como Dinah para mim, o que provocava um ciúmes louco na minha loira.
Ele e Natalia estavam bem, gostavam um do outro e diria que dali sairia coisa boa sim. Luis confessou achar que está se apaixonando pela garota, que também estava bem próxima de todos nós.
No dia de ir embora Luis, Natalia e senhora Baker nos levaram para o aeroporto. Luis me prometeu que ligaria sempre que pudesse, e senhora Baker mandou eu vir visitá-la mais vezes ou iria até Miami e me puxava pelas orelhas.
O restante do mês, ao contrário daquela semana, passou lentamente. Cada um teve que se desdobrar em dois para que pudéssemos pegar o ritmo das coisas na faculdade novamente.
Eu e Vanessa continuávamos naquela fase um pouco estranha. Mal conseguíamos nos ver devido à falta de tempo. Tive até mesmo que largar a academia e apenas ir correr, passando a acordar mais cedo e ir antes da faculdade, assim quando tinha um tempo livre eu encontrava a minha namorada.
Nós preferimos fazer o combinado de dormirmos uma na casa da outra apenas em final de semana, assim não cairíamos na rotina. Apesar de eu sentir falta dela a maior parte do tempo eu sabia que era uma coisa necessária.
Nos finais de semana, quando estávamos juntas, fui obrigada a passar uma boa parte do tempo realizando os intermináveis trabalhos tanto pelas faltas quanto os trabalhos do final do bimestre.
Vanessa algumas vezes reclamava de falta de atenção, e eu não a culpava, estava difícil administrar meu tempo. Tivemos muitas discussões, desde coisas bobas como ciúmes à assuntos mais sérios.
Algo que sinceramente me incomodava, era a presença agora constante de uma nova pessoa na família. O famoso Michael. Ele e Alexa, que tirou um tempo de folga para ficar aqui em Miami, viviam juntos e fofocando pelos cantos. Digo, eu gostava dele, aparentava ser um cara legal e nos tratava bem. Mas o jeito que ele me olhava era... estranho? Parecia que eu o conhecia de algum lugar... Algo nele me fazia me sentir bem, confortável. Em casa.
E finalmente e infelizmente era dia vinte e sete de junho. O pior dia do ano. Alexa teve que voltar para Nova York alguns dias antes, para resolver algo da clínica e supostamente voltaria hoje ou amanhã. Acho que ela se esqueceu do perigo de me deixar sozinha nesse dia.
Andei de um lado para o outro enquanto passeava as mãos pelo cabelo. Acabei parando na frente do aparador, que era na frente do espelho e pousei ambas as mãos nele.
Encarei fixamente meu reflexo. Não era aquela Clara de sempre. A garota estava com ansiedade estampada nos olhos e ações, cabelos extremamente bagunçados e selvagens, pernas trocando de posição de apoio à todo o tempo, unhas ligeiramente roídas, olhos vermelhos.
Mordi o lábio inferior e olhei para o bar do outro lado da sala. Não. Eu não iria beber. Rosnei e levei as mãos à cabeça puxando os fios com força, voltando a dar voltas pela sala.
Eu estava sozinha em casa. Era sábado, eu havia implorado para Dinah e Normani distraírem Vanessa e os outros, argumentando que queria ficar sozinha no dia de hoje. Vero entendeu minha vontade e foi para a casa de Lucy. Nem se atreveu a me desejar um feliz aniversário, só me deu um beijo na testa, mandou eu não fazer merda, e disse que estaria com o celular ligado e por perto o tempo inteiro.
Parei na frente do bar e certamente meus olhos brilharam avaliando as opções. Ainda hesitante o abri, me odiando por ser tão fraca.
Quer saber, foda- se. Peguei a garrafa de Vodka, um copo, o enchi até a metade e virei de uma vez.
Sorri com aquele gosto forte descendo pela garganta e a queimando. Enchi o copo dessa vez até a boca e acabei com ele em três longos goles. Não queria saber de cuidados hoje, só queria acabar com as memórias torturantes.
Depois de quatro copos senti aquela tontura começar a bater, mas ainda não era o suficiente. Ainda estava sóbria e pensando claramente.
Olhei do copo para a garrafa repetidas vezes. Dei de ombros e larguei o copo no bar, bebendo direto da garrafa. Andei até o som e o liguei, botando logo no máximo. Led Zeplin. Sorri aprovando e me movimentei pela sala ao som da canção enquanto virava a garrafa.
Dei o último gole. Larguei o copo vazio no chão. Ou seria garrafa? Copo de plástico? Olhei para baixo e tentei focar o olhar. Acabei gargalhando de mim mesma, copos de plástico não tem vidro. Andei até o bar. Os pés estavam me traindo, tentava andar em linha reta mas não conseguia.
Senti uma vibração na bunda. O que é isso? Passei a mão repetidas vezes lá e ri ao constatar que era meu telefone. O nome na tela brilhava e dizia que era Vanessa. Mais uma vez. Vanessa era tão linda certo? Ela era a namorada mais linda. Mas sabia ser irritante com o lance do ciúmes. Sei que eu também sabia ser.
Silenciei a chamada e fiquei aérea alguns segundos parada em frente às bebidas tentando me lembrar o que estava fazendo ali.
Estiquei o braço e passei o dedo pelas garrafas, pegando uma qualquer, abrindo e virando. A queimação era engraçada. Era uma sensação boa, mas estranha ao mesmo tempo. Digo, por que queima? Quero ser médica e ao menos sei isso. Ou sei?
Ri novamente e corri até a frente do espelho. Sorri e a garota de olhos verdes sem vida sorriu de volta.
-Você é fraca -me disse a garota. Deu um longe gole na bebida e voltou a falar- e covarde. Fraca e covarde, boa combinação.
Ri e me apoiei no aparador atrás de mim. Ele agora estava longe do espelho, o que estava fazendo ali? Acho que a garota dos olhos verdes mortos afastou para mim.
-O que Vanessa vai pensar de você?
Franzi o cenho. O que Vanessa tinha a ver com isso?
-Cale a boca.
-O que sua namorada vai pensar se vir você fazendo isso?
-Isso não te diz respeito.
-É claro que diz.
-E por que isso?
-Porque eu sou você.
Ri e revirei os olhos dando mais um gole.
-Você fala como se soubesse de tudo.
-E eu sei.
-Você é apenas meu reflexo como sabe de tudo?
-Sei de tudo que se passa na sua cabeça, até mesmo coisas que você não sabia sentir. Como você se culpar pela morte da sua mãe. Como o real motivo por você estar fazendo isso, foi porque ela morreu no dia do seu aniversário, por sua causa, não apenas por Paul ter te encontrado nesse dia há nove anos atrás.
-Pare com isso. -rosnei.
-Mas é a verdade. Você a matou.
Sussurrou e abriu um sorriso estranho.
-Não.
-Sim. Você a decepcionou onde quer que ela esteja agora, assim como está fazendo com Alexa e Vanessa. Você é um nada, Clara.
-CALE A BOCA.
Gritei antes de socar o espelho. Senti o sangue escorrer por minha mão. Não doía, e pelo menos a garota dos olhos verdes mortos parou de falar. Apenas ri e sai de frente do espelho. Agora ela não me incomodaria mais.
Simplesmente sentei no chão, o encarando fixamente. Não conseguia forças para beber mais. Não sabia o que sentir.
Estava com sono? Fome? Sede? Irritada? Chateada? Com dor? Nada. A palavra certa era entorpecida. Um tempo sem mais bebida no organismo havia me deixado apenas um pouquinho mais consciente das ações.
Olhei para as garrafas quebradas no chão da casa e ri. Vero me mataria. O pensamento era reconfortante. Seria bom. Eu poderia encontrar minha mãe e me desculpar por ser um fracasso.
Abracei os joelhos e quando fui ver estava chorando. Lágrimas escorriam pelo rosto, soluços cortavam o ambiente agora silencioso pelo CD ter acabado, espasmos violentos dominavam meu corpo.
Tudo o que eu não queria era sentir aquela pressão forte no peito, a confusão e os sentimentos bombardeando minha mente e meu corpo. Rangi os dentes ao sentir as lágrimas inundarem cada vez mais e mais meu rosto.
Eu quero a minha mãe, pensei. Mas qual delas? Alexa, a única que sempre tive ou Rose, a que sempre quis conhecer? Decidi que estava sendo injusta com Alexa. A que sempre me deu tudo, fez o que pode por mim.
Os soluços e espasmos só pioravam. Decidi acabar com aquela garrafa, assim pelo menos o choro iria acabar. Senti os pensamentos se dispersando novamente e suspirei aliviada.
Joguei a garrafa terminada do outro lado da sala e abri a outra resmungando pela mão direita estar ardendo. Por que estava sangrando mesmo?
Ouvi a porta da casa se abrindo e passos ressoando no assoalho.
-Que porra aconteceu aqui?! CLARA?
Ri tentando não fazer barulho mas foi impossível.
-Oh meu Deus. Dinah...
-Van relaxa.
A garrafa foi arrancada da minha mão e eu resmunguei sem forças para protestar mais do que isso. Eu queria a garrafa de volta.
Senti braços fortes nas minhas coxas e costas. Deitei a cabeça no pescoço cheiroso e sorri. Que perfume bom. Quem era?
Lutei para abrir os olhos e vi uma cabeleira loira.
-DJ!
Gritei.
-Era só o que me faltava. Puta que me pariu viu.
Fui carregada até o quarto enquanto ria. Senti uma água gelada no meu corpo. Minha mão direita ardeu, Dinah a estava lavando.
Suspirei e deitei a cabeça na beirada da banheira.
-Vou fazer um café forte pra ela e subir com a Vanessa. Consegue assumir sozinha dai?
-Se ela cooperar sim.
-Ela está bêbada Dinah, olha pra ela.
-Caralho por que isso agora? Tudo estava bem.
-Amor...
-O que?
Perguntou suspirando.
-Você... Se lembra que dia é hoje certo?
-Aniversário dela ué.
-Só isso Dinah? Pensa mais um pouquinho. Alexa disse que ela sempre pira nesse dia. Nós esquecemos.
-MERDA. Caralho como eu pude esquecer.
-Amor... Dinah, relaxa isso acontece.
-Puta que pariu... Me desculpa Papel.
Sussurrou a última parte carinhosamente. Abri os olhos sem entender muito bem aquela conversa. Os pensamentos lentamente querendo voltar a se organizar.
-Vou lá fazer o café.
-Ok Manibear.
Mani sorriu e lhe deu um selinho antes de sair. Dinah suspirou e me lançou um sorriso fraco. Comecei a tremer de frio, mesmo estando aquele calor infernal.
-Por que não me dá suas roupas?
Acenei e comecei a tirar as roupas, me atrapalhando e prendendo os braços e começando a rir. Dinah continuou seria e comprimiu os lábios.
Vanessa chegou e se apoiou no batente da porta, me observando de lá. DJ ensaboou todo o meu corpo, e ajudou a tirar o sabão. Queria sair dali logo, a água estava muito gelada.
-Pode deixar que assumo a partir daqui.
-Chancho...
-Sou a namorada dela. Tudo está bem, pode ir.
Dinah suspirou e concordou.
Vanessa se sentou na cadeira que Dinah estava antes e sorriu para mim. Como uma cadeira foi parar ali?
-Oi meu amor. Está com muito frio?
Acenei freneticamente e ela sorriu fraco novamente.
-Vamos só lavar seu cabelo e você sai dai, tudo bem?
-Mas Van... Es- está frio.
-Eu sei amor, mas aguenta só mais um pouquinho ok?
Fez um carinho gostoso na minha bochecha.
-T-tudo bem Van. Mas só por você.
Ela sorriu e pegou o shampoo, começando a enxaguar meu cabelo. Fechei os olhos sentindo suas mãos leves e macias trabalharem no meu couro cabeludo.
Tive que ficar mais uns dez minutos embaixo daquela água gelada, até que finalmente pude sair.
Vanessa me enrolou na toalha e me levou até o quarto. Eu via a decepção nos seu olhos, era isso que mais doía. Ela pegou uma blusa larga e me ajudou a vesti-la.
Me fez sentar na cama e secou meus cabelos.
Mani e Dinah entraram no quarto. Mani me entregou a xícara de café e se agachou na minha frente.
-Bebe tudo Clara.
Pousou as mãos nas minhas coxas e apertou levemente. Concordei e bebi o café forte todo.
-Não faz mais isso ok? Nem mesmo comigo por perto quero ver você assim de novo. Promete que não vai fazer mais?
Abaixei o olhar e concordei. Senti seu dedo no meu queixo.
-Não fica com vergonha, tá tudo bem. É normal se sentir perdida de vez em quando, não foi a primeira e nem vai ser a última vez ok?
-Ok Mani. Obrigada.
Ela sorriu e beijou minha testa.
-Vamos estar no quarto da Vero, se precisarem de alguma coisa já sabem.
Vanessa concordou e as duas saíram do quarto de mãos entrelaçadas.
-Vem Clara, deita aqui.
Vanessa ligou o ar e se instalou embaixo dos cobertores. Ainda calada, deitei ao seu lado. Minha namorada suspirou e me puxou para perto dela.
-Sabe que precisamos ter uma conversa séria não sabe Clara?
Concordei e funguei escondendo o rosto no seu pescoço.
-Amor... Olha pra mim.
Ela limpou as lágrimas do meu rosto e beijou minhas têmporas.
-Por que você não me atendeu?
-Eu só queria ficar sozinha Van. Esse dia é... O pior do ano. É horrível, eu odeio o meu aniversário.
-Eu sei bebê resmungão. Mas você precisa aprender a lidar com essas coisas sem surtar. Sabe o quanto me deixou preocupada? Dinah e Normani não me deixaram vir até aqui de jeito nenhum.
-Eu pedi pra que elas não deixassem.
Sussurrei e fiz círculos aleatórios no sem ombro.
-Por que bebeu tanto? A sala estava... Uma bagunça pra dizer o mínimo.
-Me desculpa... Eu prometo que limpo tudo amanhã.
-Está tudo bem, eu já limpei.
-Desculpa Van...
Ela apenas ficou em silêncio. Respeitei seu espaço. Ela estava brava comigo e com razão. Brinquei com o cordão que eu havia dado para ela de aniversário, passando o dedo pelo pingente. Ela nunca o tirou do pescoço.
-Amanhã nós conversamos sobre isso.
Respondeu apenas depois de um tempo.
-Isso... Isso vai influenciar em alguma coisa em nós?
-Se você continuar não se cuidando vai.
Senti o desespero me invadir.
-Não... Van por favor não me deixa, eu vou me cuidar eu prometo, nunca mais vou te magoar ou te preocupar.
-Ei, calma Clarinha. Relaxa, eu estou aqui não estou?
-Está.
Concordei e me obriguei a me acalmar, voltando a deitar a cabeça em seu peito.
-Você me perdoa amor?
-Sim Clarinha, eu te perdoo.
-Tem certeza?
Perguntei incerta.
-Sim meu amor, relaxa.
Respondeu rindo.
-Mas ainda vamos ter aquela conversa amanhã. E pode ter certeza de que Alexa vai saber.
-Ah não.
Reclamei.
-Ah sim. Nem vem que não tem.
-Mas Van...
-É pro seu bem. Agora vamos dormir vai.
-Será que Alexa vai ficar muito puta comigo?
-E você ainda pergunta Clara?
-Você vai me ajudar né amor?
Ela estreitou os olhos.
-Não sei se está merecendo.
-Poxa Van.
Reclamei manhosa.
-Dessa vez é sério. Não estou tirando sua razão de estar puta, revoltada, chateada, mas dessa vez passou dos limites. Nesse ritmo você acaba com a sua vida.
-Não vai mais acontecer eu prometo. Foi só um deslize...
Fiz um biquinho, ela sorriu e passou a mão pelo meu rosto.
-Linda.
Sussurrou me fazendo sorrir. Minha visão ainda estava meio embaçada, apesar de ter escovado os dentes umas três vezes com certeza ainda estava com gosto de bebida. Aquela sensação de a mente estar inebriada ainda estava presente, dificultando meus pensamentos.
-Talvez isso seja a pior coisa pra se dizer, mas... Parabéns meu amor. Espero que você seja a pessoa mais feliz do mundo e que todos os seus sonhos se realizem.
Puxou meu rosto e me deu um longo selinho. Sorri entre o beijo.
-Tudo bem Van. Eu já deveria ter me acostumado. Eu já sou a pessoa mais feliz e tenho meu maior sonho realizado.
Arrastei o nariz sobre sua bochecha e apliquei um beijinho lá.
-Não sabia o que você queria de aniversário então tive que inventar.
-A única coisa que eu quero é você do meu lado pra sempre.
Ela sorriu e me beijou novamente.
-E você vai ter isso. Se você cooperar.
Revirei os olhos e ela riu. Logo caímos naquele silêncio de novo, onde eu sentia seu cheiro inebriante e ela acariciava meu cabelo.
-Van?
-Hm?
-Eu prometo que vou arranjar mais tempo pra você.
-Já é a última semana de aula Clarinha.
Ela disse rindo. Parei para raciocinar.
-Ih é mesmo. Mas a promessa ainda tá valendo né?
-Claro.
Respondeu risonha e beijou minha testa.
-Mas sério. Princesa eu prometo que nessa semana vou ficar mais com você, e que nas férias não vou sair do seu lado. Nem um pouquinho.
Ela riu e me apertou em seus braços.
-Tudo bem então.
Ficamos em silêncio novamente.
-Amor o que será que aquele cara quer com a Alexa?
-Você não está querendo dormir de jeito nenhum hoje né?
-Desculpe.
Sussurrei e beijei seu pescoço.
-Não sei, acho que você deveria deixar esse ciúmes de lado e deixar Alexa viver a vida dela também.
-Mas ela não pode namorar.
-Por que não?
-Porque eu não quero deixar Van.
Respondi resmungando.
-Aí meu Deus.
Ela disse rindo.
-Você pode namorar e ela não?
-Não.
-Por que?
-Porque não.
-Porque não, não é resposta.
-É sim.
-Mas você mesma diz que não é.
Levantei a cabeça e olhei para o seu rosto, que continha um sorriso.
-Mentira não digo nada.
Ela riu e beijou minha bochecha.
-Diz sim Clarinha. Deita aqui e fica quietinha vai, tenta dormir.
Concordei e fiquei quietinha como ela disse.
-Mas Van...
Ela suspirou.
-Fala Clarinha.
-Por que a Alexa tem que namorar?
-Deus Clara. Nem parece que está fazendo dezenove anos.
Arregalei os olhos.
-Van eu já tenho dezenove?!
-Puta que pariu...
Resmungou.
-Desculpe. Eu tento controlar o que eu falo mas não consigo.
-Tudo bem amor. E quanto à Alexa, só deixa ela ser feliz. Michael é um cara legal você não acha?
-Acho.
Respondi a contragosto.
-Então deixa ela. Acha que consegue fazer isso?
-Acho que sim. Mas eu ainda amo ela.
-Eu sei que ama.
Ela sorriu e beijou a pontinha do meu nariz, me fazendo franzir o mesmo e ela riu.
-Você parece uma criança quando está bêbada.
-Não estou bêbada.
Ela revirou os olhos e me fez deitar no peito dela novamente.
-Tenta dormir meu amor.
Sussurrou e fez carinho em mim.
Continuei com os círculos imaginários na sua pele, e bocejei começando a sentir sono.
-Van?
Chamei quebrando o silêncio novamente.
-Pelo amor de santo Cristo, o que houve dessa vez Clarinha?
Disse parecendo estar cansada.
-Eu amo você.
Respondi manhosa. Ela abriu um sorriso bobo e pareceu se derreter toda pelo que eu disse. Me deu vários selinhos e terminou beijando minha testa.
-Também amo você meu anjo.
Sorri e deitei.
-Van, você pode...
-Clara, eu juro que se você continuar eu vou pegar minhas coisas e ir dormir na sala.
-Não, fica aqui comigo por favor.
Apertei seu corpo e enterrei o rosto em seu pescoço.
-Então para de falar Clarinha, você precisa dormir. Pra que inventamos de dar aquele café pra você...
-Eu só ia pedir pra você cantar pra mim...
Ela suspirou e tirou o cabelo do meu rosto.
-Ok Clarinha. Mas é pra dormir tudo bem?
Concordei e me ajeitei em cima dela. Eu tinha a combinação perfeita, seu cheiro floral e sua voz baixa e suave ressoando apenas para mim. Passei a não ouvir mais nada e adormeci rapidamente.
(...)
Juntei, ou tentei juntar, minhas coisas rapidamente. Eu já estava atrasada, e Lucy me mataria. Acabei desistindo de enfiar todos os cadernos na bolsa e apenas enganchei no braço e voei para fora da sala. Mas obviamente, tive que esbarrar em alguém, tropeçar e cair.
-Ei, vai com calma tigresa.
Disse rindo. Olhei para cima e soltei um suspiro aliviado ao reconhecer a pessoa.
-Porra, Keana.
-O que é? Foi você que saiu correndo feito uma louca da sala.
Peguei em sua mão estendida e levantei. Alcancei a bolsa enquanto ela recolhia meus cadernos.
-Onde você está indo desse jeito?
-Viajar com uns amigos, estou super atrasada.
-Vamos indo até seu carro, eu te acompanho.
Sorri e comecei a andar rapidamente pelo corredor com Keana em meu encalço.
-E então, conseguiu pegar o ritmo das coisas por aqui?
-Graças aos céus sim. As semanas perdidas atrapalharam bastante, mas sentei a cara nos livros e consegui.
Keana sorriu.
-Que bom Clara. Se precisar de ajuda em alguma matéria já sabe.
Sorri e assenti.
-Obrigada.
Descemos correndo as escadas indo até o estacionamento.
-Finalmente férias, huh.
Comentei aliviada.
-Pois é. Esse semestre foi complicado viu.
-Concordo. Já não aguentava mais ver livros e mais livros na minha frente.
-Quem mandou escolhermos medicina, certo?
Perguntou rindo. A acompanhei e passei os olhos pelo estacionamento procurando o carro de Vero.
-Keana, desculpe mas estou realmente atrasada. Vou ter meu couro arrancado e servido se não chegar em menos de...
Olhei a hora no celular e arregalei os olhos.
-De dez minutos, puta que pariu adeus!
Dei-lhe um abraço rápido e um beijo na bochecha e corri até o carro.
-Tchau, maluca. Quando voltar liga pra irmos fazer alguma coisa.
Apenas fiz um sinal de joinha e entrei no carro largando tudo no banco do carona e arrancando com o veículo do estacionamento.
Ainda ofegante liguei o rádio para tentar relaxar.
Já distraída, apoiei o braço esquerdo na janela e a bochecha na mão. Hoje havia finalmente sido o último dia de aula. Estávamos prestes a viajar, minha namorada e Alexa deram a sugestão de fazermos essa viagem, mas o lugar era surpresa.
Não fazia a mínima ideia de para onde era, se o lugar era quente ou frio, se era longe ou perto, não sabia nada. As duas foram neutras, dizendo para levar roupa de banho mas também levar casaco. Levar short mas também levar calça.
Alexa resolveu os problemas que havia tido em sua clínica, e voltou no dia seguinte ao meu aniversário.
Nós tivemos uma longa conversa. Assim como eu e Vanessa. Prometi nunca mais fazer o mesmo. Mas era difícil, porque o real motivo por eu ter feito o que fiz foi algo que me assombra todos os dias: a morta da minha mãe.
Isso era algo que eu não ligava tanto antes, talvez por eu nunca ter conhecido Rose. Balancei a cabeça tentando afastar os pensamentos, ou meu bom humor acabaria imediatamente.
Mais um motivo para Alexa e Vanessa terem bolado essa viagem, foi para comemorar o fato de finalmente, as coisas com Paul estarem resolvidas. Ele havia confessado, sido definitivamente preso e sentenciado, sem direito a fiança.
E eu estava apenas enrolando para fazer o teste de DNA, acho que estava com medo de saber a verdade. O fato é que, se ele realmente for meu pai, além desse fato ser assustador, não faria tanta diferença na minha vida.
Digo, Paul está preso. É perturbador ele ter feito isso com a suposta própria filha. Mas... Se ele não é meu pai, quem é? Outra pergunta que me provoca certo receio. Tenho minhas desconfianças de Alexa, ela diz não saber, mas já que ela disse ser melhor amiga da minha mãe obviamente ela sabe quem é. Não sabe? São tantas perguntas não respondidas, e nem mesmo perto de terem respostas.
Massageei as têmporas já sentindo aquela dor incômoda, isso acontecia quando eu estava com coisas demais na cabeça. Buzinei uma última vez para que o idiota a minha frente entendesse que o sinal já estava aberto, mas ele não se mexeu.
Revirei os olhos e apertei o botão de início do celular. Uma foto minha e de Vanessa estava na tela bloqueada. Estávamos no Central Park, eu estava de óculos escuros e Vanessa estava montada nas minhas costas. Ela beijava minha bochecha enquanto tentava reprimir um sorriso com os olhos fechados. Eu sorria abertamente para a foto, Luis a havia tirado.
Acariciei seu rosto na foto já sentindo falta da minha princesa e sorri. Meus pensamentos sobre ela foram interrompidos por uma buzina insistente atrás de mim. Se tem uma coisa que me estressava e relaxava ao mesmo tempo era dirigir.
Revirei os olhos e pisei fundo no acelerador, chegando correndo em casa e estacionando o carro de qualquer jeito. Peguei as coisas e desci do carro, encontrando todos sentados na sala.
Lucy parou na minha frente de braços cruzados.
-Você já viu que horas são?
Abri um sorriso amarelo e joguei tudo em cima da mesa.
-Desculpe... O professor nos prendeu na sala. Justamente no último dia de aula, não entendo isso.
Ela semicerrou os olhos provavelmente avaliando o que eu disse. Puxei seu pequeno corpo para perto e a girei no ar.
-AI, ME PÕE NO CHÃO SUA LOUCA. VERO ME AJUDA.
Ela começou a estapear meus ombros enquanto ria e a pus no chão com cuidado. Ela me deu um último tapa me fazendo rir e foi até onde Vero estava, que sorriu e abriu os braços para que ela se aconchegasse lá.
Vanessa estava sentada no banquinho do bar, girando de um lado para o outro. Estava com um biquinho no rosto, provavelmente por eu não ter ido falar com ela assim que cheguei.
-Oi meu amor.
Disse antes de me aconchegar em seu corpo, que estava mais alto devido à cadeira.
-Eu estava com saudades, cariño...
Sussurrou me apertando. Suspirei e senti seu corpo quente contra o meu me relaxar completamente.
-Eu também estava princesa.
Fiz uma trilha de beijos desde seu pescoço até seus lábios, que continham um sorriso. Apertei sua cintura e puxei seu corpo para mais perto, tinha dias que não conseguia dar um beijo decente ou ao menos ficar assim tão perto da minha namorada.
No final de cada dia eu ficava cansada demais, e ia dormir tarde por passar horas estudando, e antes das aulas tinha a corrida, o que ocasionava meus constantes atrasos na parte da manhã. Chegava bem no horário de as aulas começarem, isso não me permitia passar muito tempo com Vanessa.
Puxei seu lábio inferior e me separei dela em seguida. Fiz com que ela descesse do banco e a puxei até o sofá para que ela se sentasse no meu colo. Ela se sentou ali de lado, e passei os braços por sua cintura.
-Você está tão cheirosa, Van.
Sussurrei e dei um beijinho no seu pescoço.
-Você sempre me diz isso Clarinha.
Comentou rindo. Sorri e apreciei o carinho que ela iniciou no meu cabelo. Seu braço estava ao redor dos meus ombros, então deixei a cabeça na curvatura do seu pescoço já começando a ficar sonolenta.
-Você deve estar exausta, dorme um pouquinho amor.
Disse e afastou os cabelos do meu pescoço. Neguei resmungando e a apertei em um abraço.
-Por que não?
Perguntou rindo.
-Quero aproveitar meu tempo com você Van.
-Que namorada mais manhosa essa que eu fui arranjar, hein.
Vanessa disse rindo e beijou o topo da minha cabeça. Sorri e entrelacei nossas mãos, começando a brincar com seus dedos.
-Agora pode me dizer pra onde estamos indo?
-Posso não.
Sorriu sapeca. Revirei os olhos e deitei a cabeça no encosto do sofá.
-Por que eu não posso saber?
Reclamei provavelmente parecendo uma criança.
-Porque não, boba.
-Porque não, não é resposta.
Tentei imitar sua voz naquela frase que ela disse dias atrás, mas ao invés disso saiu algo horrível e esganiçado fazendo Vanessa gargalhar.
-Eu não falo assim Clarinha.
-Fala sim.
-Falo nada.
-Fala s...
Ela me calou com um longo e delicioso beijo.
(...)
Acordei com beijos molhados se espalhando por meu rosto. Sorri ao sentir Vanessa acariciar minha bochecha.
-Ei, acorda cariño. Já chegamos.
Abri os olhos lentamente, vendo o rosto da minha namorada à centímetros de mim.
Dei-lhe um selinho e sai do carro me espreguiçando. Franzi o cenho e olhei em volta. Aquele lugar me era familiar.
Oi amore quando sai mais ?
postei :D
MEU ANJO
Capítulo 35 –
Ela arqueou a sobrancelha e cruzou os braços me encarando. Dinah estava com uma expressão divertida, andou até a cama e se jogou lá, nos assistindo.
-Posso saber o que diabos ele está fazendo aqui?
-É que... Sabe o que é...
Cocei a nuca nervosa.
-O que é o que? Desembucha Clara.
-Hm... Naquele dia em que brigamos eu fui pro arranha céu que eu te mostrei, e... E ele estava lá.
-O que isso tem a ver com ele estar aqui Clara ?
Segunda vez no dia em que ela me chamava assim. Ai como é bom namorar mulher ciumenta.
-Nós... Nós combinamos de nos encontrar depois, mas não do jeito que você está pensando. Só como amigos.
Ela semicerrou os olhos.
-Achei que ele fosse um babaca com você.
-Ele era. Mas algumas coisas aconteceram e ele mudou. Pessoas erram e amadurecem, Vanessa.
-Isso é o que ele diz.
-Não, é o que eu vi. Eu sou amiga dele há muito tempo, bem antes de namora-lo. Eu o conheço bem.
-É o que você acha.
Massageei as têmporas e fui até o armário, pegando uma blusa mais larga.
-Qual a questão hein? Por que ultimamente não podemos ficar no mesmo lugar sem que nós comecemos a brigar?
-Eu só estou tentando entender o que a porra do seu ex está fazendo aqui.
-Eu já disse o que ele faz aqui, ele veio me ver.
Tirei a regata colada e joguei no chão irritada.
-Ele por um acaso sabe que você namora?
-Sabe, só não sabe que é com uma mulher.
-Pois ele vai saber agora.
Pegou sua blusa na cama -ela estava apenas de sutiã e calça jeans- e a vestiu.
-É sério isso? Precisa mesmo disso? Você não confia em mim?
-Em você confio.
-Você nem mesmo conhece o garoto pra desconfiar dele!
-Foda- se.
-Que lado é esse seu agora Vanessa? Juro que não estou te entendendo. Estava tudo tão bem, mas agora você só briga comigo. Segunda vez hoje, terceira vez só nessa semana.
-Olha só Clara, vou deixar uma coisinha bem Rose pra você.
Me empurrou com força até me fazer bater na porta do quarto. Seu corpo se moldou ao meu, me fazendo arfar.
-Você é minha. Você é minha namorada. E eu cuido do que é meu.
Agarrou minha nuca e me puxou para um beijo de tirar o fôlego. Seus lábios se moviam sobre os meus com força, chegava a provocar uma dorzinha gostosa.
Ela puxava meus fios e me empurrava cada vez mais contra a porta. Mordeu meu lábio inferior com tanta força que cheguei a sentir gosto de sangue.
-Gente pelo amor de Deus, ainda estou aqui. Se quisesse ver pornô lésbico procurava no Google.
Vanessa se separou de mim e fez uma cara que fez Dinah fechar o bico, antes de se virar e me beijar novamente. Sou boba nem nada, decidi aproveitar o momento e a puxei pela bunda para mais perto, ouvindo um gemido da sua parte.
Ela descolou nossos lábios e me segurou pelos fios que tanto puxava.
-Você entendeu bem o que eu disse?
Assenti freneticamente.
-Bom. Te espero na sala.
Me empurrou para longe da porta e saiu do quarto. Dinah me encarava boquiaberta sentada na cama. Esse beijo chegou a me fazer ver estrelas.
-Ok, que porra foi essa?
-Acredite Dinah estou tão assustada quanto você.
-Caralho eu sabia que ela era ciumenta, mas com você chega a ser doentio.
Ri e finalmente consegui vestir minha camisa.
-Me diz, só eu que vejo nada demais ao voltar a falar com meu ex?
Ela comprimiu os lábios e negou.
-Vou ser honesta, eu também me sentiria incomodada.
-Ela não entende que eu não sinto interesse por mais ninguém.
-Desde quando Vanessa é racional igual você? Você tem que lidar com ela como se estivesse lidando com uma criança.
-É o que ela tem sido na maior parte do tempo.
Resmunguei.
-Chega de brigar né minha gente.
-Estou tentando fazer isso mas está difícil.
-Eu diria que o problema é falta de sexo, mas do jeito que ela gritou hoje o problema não é esse. Não está dando conta Aguilar?
Mostrei o dedo do meio.
-Aposto que me saio melhor que você.
-Se eu tivesse alguém pra praticar eu apostava, mas vou recusar educadamente.
Gargalhei.
-E a Normani? Ela deve estar louca pra praticar com você.
-Primeiro: vai se foder. Segundo: estou indo devagar com ela. Agradeça por não estarmos mais querendo nos matar pelos cantos.
-Acredite, estou agradecendo. Ter que acabar com as brigas de vocês não era legal.
-Sei que você não se importa, só está de graça.
-Na verdade só quero que vocês se resolvam mesmo. Já aviso logo que se continuarem desse jeito vou ter uma conversinha seria com as duas.
-Que isso? Virou Cupido?
Revirei os olhos e joguei o travesseiro na cara dela.
-Vem, vamos logo pra sala.
-Tá maluca? Acha que vou pisar lá com a Vanessa desse jeito?
-Mas...
-Mas nada. Nem fodendo.
-Que ótima amiga você é. O que está acontecendo que todas vocês estão se revoltando?
-Vai que a mulher é tua. Daqui a pouco ela es...
-CLARA
Dinah foi interrompida por um grito de Vanessa. Cheguei a tremer com seu tom de voz.
-JÁ ESTOU INDO AMOR.
Gritei de volta.
-Eu vou é atrás da Ally, sua mulher também não vai querer me ajudar. Muito menos Vero e Lucy.
-Obviamente não, já estão se comendo de novo. Vai lá que enquanto isso fico aqui vendo tv.
Se acomodou na minha cama e ligou a televisão, zapeando pelos canais. Folgada.
O apartamento de Alexa era enorme para apenas uma pessoa, era composto por cinco quartos -todos sendo suíte-, dois banheiros, sala de jantar e sala de estar, e cozinha. Sim, Dinah estava tendo que dormir com Normani.
Ela havia pedido pra trocar de lugar com Vanessa, mas quem disse que minha namorada quis sair do meu lado. Andei até o quarto de Ally e Troy, e bati na porta sem obter resposta. Bati mais umas três vezes mas fiquei com medo de a Vanessa vir me puxar pelos cabelos se eu demorasse mais e entrei no quarto.
Desejei nunca ter visto a seguinte cena. Troy estava por cima de Ally, com a língua enfiada na garganta dela e com a mão dentro da blusa.
-TROY TIRA A PORRA DA MÃO DAI AGORA
Gritei e ele deu um pulo, caindo da cama.
-Allyson vem aqui por favor.
Ela me encarou de olhos arregalados mas andou até mim. Me afastei seria e deixei que ela passasse. Troy se sentou na cama parecendo irritado. Olhei para o meio das suas pernas e ri.
-Toma um banho gelado.
Ele me mostrou o dedo do meio e sai, fechando o quarto.
-O que houve Clarinha?
Perguntou nervosa ajeitando a blusa. Cruzei os braços e a encarei.
-Posso saber o que estavam fazendo?
-Você sabe.
Desviou os olhos e corou.
-E você não pode falar nada, você e a Vanessa ficam se agarrando por tudo quanto é lugar.
Revirei os olhos e passei por ela.
-Tanto faz.
-Clarinha, você está com ciúmes?
-Óbvio que não.
Retruquei irritada.
-Que bonitinha, você tem ciúmes das suas amigas também.
-Não tenho não.
-Tem sim.
Rolei os olhos novamente.
Ela me parou e me deu um beijo na bochecha. Eu não consegui ficar sem sorrir, Ally é a pessoa mais fofa da face da Terra.
-Por que me chamou?
-A Natalia está aí. Lembra que anteontem encontrei com o meu ex?
Ela assentiu.
-O que tem isso?
-Ele está aí também. E eu tinha esquecido de falar com a Vanessa.
-Deixa eu adivinhar, ela brigou com você?
-Brigou. E depois me agarrou pra deixar claro que sou dela.
Ally riu.
-Só a Vanessa mesmo. Vamos lá que eu te protejo grandona.
Sorri e dei um beijo na sua bochecha. Abracei-a por trás e andei com ela até a sala. Luis e Natália estavam sentados em um sofá, e Vanessa no outro. Ela me olhou abraçada a Ally e semicerrou os olhos. Encarou meus braços ao redor da baixinha e comprimiu os lábios. Até das nossas amigas? Sério isso?
Me sentei no sofá, Ally ficou entre eu e Vanessa por segurança. Os dois à nossa frente nos encaravam confusos. Eu me lembrava muito vagamente de Natália. Era como se minha mente estivesse enevoada, a memória estava lá mas como se estivesse coberta.
-Então... Natália certo?
A loira concordou vagarosamente.
-Será que posso falar com você um minutinho na cozinha?
-Hm, claro.
Ela me seguiu até o cômodo.
-Desculpa, longa história. Vamos conversar aqui.
Ela sorriu e assentiu.
-Tudo bem. Você está melhor?
-Estou. A costela já tinha parado de doer, mas Paul fez o favor de me bater bem em cima dela de novo, então está meio dolorida.
-E sua cabeça?
-Melhor. Ainda dói de vez em quando.
-Se lembra de alguma coisa?
-Muito pouco. Agora me lembro de ter fugido, não lembrava muito do seu rosto. A partir do momento que você sai do apartamento nem adianta tentar, são só pedaços que não consigo juntar ou entender.
Ela franziu o cenho, parecia estar preocupada.
-Deve estar sendo horrível.
Apenas dei de ombros.
-E está. Digo, a confusão... É realmente terrível. Mas sabe, quando se passa por isso por muitos anos você já fica meio que... Esperando por coisas ruins assim acontecerem.
-Por que voltou pra cá?
-Por... Sua causa.
-Minha?
Perguntou surpresa.
-Sim, a senhora Baker, a vizinha simpática, você deve ter esbarrado com ela no hospital, disse pra Alexa que Paul estava... Com você.
-E então você veio pra cá?
-Bem, sim.
-Já te disseram que você é louca?
-Na verdade já.
Ela riu.
-Por que passar por isso por alguém que você não conhece?
Dei de ombros novamente.
-Não conseguiria conviver comigo mesma pensando em como poderia ter sido se eu tentasse te ajudar.
-Você é uma boa pessoa. Fico surpresa por você ter passado por isso tudo e ainda conseguir ser tão... Você.
-A questão é, você ver o lado bom de tudo. Acredite, tudo tem um lado positivo.
-E qual foi o de sofrer abuso por todos esses anos? O de não ter uma mãe ou um pai?
-Bom... Eu tive Alexa. Ela é incrível, me ama pelo que eu sou e me trata como uma filha. E quanto ao abuso, se eu não tivesse passado por tudo isso não teria conhecido esses malucos que eu chamo de amigos, e pior, não teria conhecido o amor da minha vida.
Natália abriu um sorriso doce.
-A garota que você estava abraçada?
-Não, a outra. A que estava sentada no sofá. Ela está puta comigo.
Ela riu.
-Ciúmes?
-Acertou em cheio.
-Boa sorte com ela.
-Ah obrigada, vou precisar.
Natália sorriu novamente.
-Se importa se eu perguntar como Paul te achou?
-Eu... Estava indo pra casa da minha melhor amiga. Ela mora nessa rua. Foi... Literalmente do nada. Ele me abordou e... Você sabe o resto.
-Com você já foi na primeira, huh?
-É. Ele me disse pra não contar pra ninguém, aquela história de sempre. Disse que sabia onde eu morava, claro que estava blefando, ele me escolheu aleatoriamente. Mas eu fiquei com tanto medo que... Não dava pra ser racional. E claro também, que ele passou a me seguir depois disso. E começou a ficar assustador... Ele estava em todas as partes.
-Foi uma forma de chamar minha atenção, infelizmente ele me conhece. Mas agora já está tudo bem, ele está preso, em breve vai ser o julgamento, e se Deus quiser tudo vai dar certo.
Ela sorriu.
-Espero. E obrigada. Por vir até aqui e me ajudar.
-Não precisa agradecer. Não era sua culpa.
-Mesmo assim. Você não precisava voltar.
-Está tudo bem.
-Não está, mas ok. E desculpe.
-Pelo que?
Perguntei confusa.
-A verdade é que fui burra, você me mandou ir embora e eu fui. Deveria ter ficado.
-Natália, se você tivesse ficado era capaz de coisa pior ter acontecido com nós duas.
Ela arqueou a sobrancelha.
-Você não tem noção de como chegou lá pelo visto.
-Como assim?
Ela suspirou e pegou seu celular. Mexeu em alguma coisa e me estendeu. Era eu na foto, estirada no chão. Meu rosto estava irreconhecível, ambos os olhos inchados, a pele completamente roxa. Os cortes na testa abertos e sangrando horrores.
-Vai passando.
A próxima era do meu abdômen, a região da costela fraturada estava dez vezes mais arroxeada, outros cortes e mais roxos estavam espalhadas por lá. A outra era a coxa direita, onde havia levado à facada.
Próxima, do braço direito, também uma facada. E a ultima era das queimaduras superficiais de cigarro. Ainda assim a região superior das costas, onde haviam sido as poucas queimaduras, estava em carne viva.
-Eles mandaram a gente não mexer em você até a ambulância chegar, só a das queimaduras que a Dinah tirou depois.
Limpei a garganta e devolvi o celular.
-Agora vejo porque não me lembro.
-E agora tudo faz sentido, quando a garota que você diz ser sua namorada te viu ela desmaiou.
-Desmaiou? Por que ninguém me disse isso?!
-Calma, Dinah a segurou antes que ela caísse. Devo admitir que você estava horrível Clara.
Ri e tive que concordar.
-Realmente, não foi um dos melhores momentos. Mas ei, seus pais não viram nada de errado acontecendo com você?
-Nahh. Eles são ótimos pais mas só os vejo a noite, passam o dia trabalhando.
-Entendi. Fico feliz que você esteja bem agora.
-Eu que deveria dizer isso pra você. Quem quase morreu aqui foi você. Sua namorada chorava todos os dias. As outras tentavam parecer fortes mas eu via os olhos vermelhos. Você tem bons amigos.
-Tenho sim. São ótimos.
Ela sorriu.
-Posso te perguntar uma outra coisa?
-Claro.
-Quem é aquele garoto na sala?
-É meu ex. Por isso não estamos tendo essa conversa lá, ele não sabe de o que aconteceu comigo. Gostou dele foi?
-Ele é lindo.
-Quer uma ajudinha?
-Hm... Não quero parecer inconveniente ou atirada. Vocês ainda sentem alguma coisa um pelo outro? Porque não quero atrapalhar nem estar me metendo em nada.
-Não, imagina. Eu e ele já terminamos há muito tempo. Eu amo a Vanessa. O máximo que pode acontecer é voltarmos a ser amigos agora. Me dá seu número, depois eu passo pra ele.
Anotei o número dela no meu celular, ela anotou o meu.
-Obrigada Clara.
Sorri para ela.
-Imagina. Ei, aparece aí qualquer dia, devo ficar até domingo. Assim nós conversamos e te conto algumas coisas sobre Luis.
Ela riu.
-Pode deixar. Agora tenho que ir.
-Já?
-É, tenho que ajudar minha mãe no trabalho hoje.
-Tudo bem. Mas não deixa de aparecer.
-Ok.
Ela sorriu e me acompanhou até a sala. Pegou sua bolsa no sofá, se despediu de Ally e Vanessa com um beijo no rosto e acenou para Luis, que olhou feito um idiota para ela.
Abri a porta, ela veio até mim e me abraçou antes de sorrir e desaparecer pelo elevador. Tranquei o apartamento e andei até Luis.
-E aí.
Ele se levantou e me abraçou forte. Ao me separar vi Vanessa me fuzilando com os olhos.
-É... Luis, lembra que eu disse que estava namorando?
Ele assentiu.
-Então... Essa daqui é a Vanessa. Minha namorada.
Puxei ela pela mão, ela se levantou e ainda meio relutante cumprimentou Luis, que novamente estava com cara de idiota.
-Mas... Mas você... Que?
Ri e dei um tapa leve na sua cabeça.
-Você é lésbica?!
Fiz uma careta.
-Não sou lésbica nem hetero.
-Então é bi? Pansexual, sei lá.
-Também não. Só curto Vanessa Mesquita.
Abracei minha namorada por trás e beijei sua bochecha. Ela corou, e finalmente sorriu para mim. Bipolar.
-Vocês são lindas juntas. Fico feliz por você Clarinha.
-Obrigada Luis.
Ele sorriu e voltou a se sentar. Fiz o mesmo e puxei Vanessa para o meu colo. Ela passou o braço pelo meu pescoço, e deitou a cabeça no meu ombro.
-Por que não ligou avisando que viria? Se Alexa te vê aqui você está fodido.
-Sabe como eu sou, gosto de viver no perigo.
-Ah sei. A que devo a honra da visita?
-Só queria te ver. Sei que agora você mora em Miami, e tem uma outra vida mas não queria me afastar de você de novo.
Os braços de Vanessa se estreitaram ao meu redor, aposto que ela odiou ouvir isso.
-Eu também não Luis. É bom você ter mudado mesmo, ou vou ser a primeira a mandar você vazar está me ouvindo?
Senti o sorriso de Vanessa no meu pescoço. Luis gargalhou.
-Sei bem que você faria isso. Não se preocupe, as intenções são boas.
-Acho bom. Deixa eu te perguntar uma coisa, o que você achou da Natália?
-Natália?
Perguntou confuso.
-É, aquela garota que estava aqui.
-É... é bonita, por que?
-Ótimo. Gostou dela?
-Acho que sim. Não conversei nem cinco minutos com a garota, mas parecia ser gente boa.
Deu de ombros.
-Vocês vão sair essa semana ok? Ok.
-Tenho escolha?
-Não.
Ele bufou.
-Para de graça. Como se sair com uma garota linda e divertida fosse uma coisa ruim.
Vanessa me beliscou.
-Aí Van.
Luis riu de mim.
-Já gostei de você Vanessa.
Ela riu e voltou a posição antiga.
-Pra você prestar atenção no que fala Clarinha.
Revirei os olhos e concordei.
(...)
Ficamos conversando mais um tempo com Luis, acho que Vanessa havia gostado dele. Depois ela e Ally deixaram a desconfiança de lado e interagiram com ele.
Alexa apareceu por lá, e colocou o menino para fora sem nem ouvir as explicações dele. Não vai querer ver a cara dele tão cedo.
Entrei na cozinha para levar um copo de água para a Vanessa. Normani e Dinah estavam lá com cara de bunda, uma olhando para a cara da outra.
-O que está acontecendo aqui? Já voltaram a brigar?
Uma apontou para a outra. Revirei os olhos e peguei o copo d'água.
-Deus dai-me paciência pra lidar com todos vocês. Senta aqui as duas agora.
Coloquei uma cadeira do lado da outra e esperei elas sentarem. As duas abriram a boca para falar mas as interrompi.
-Sem mas. Sentem logo. Não sabem se resolver feito duas adultas, então agora vou fazer vocês duas se entenderem feito crianças mesmo. Na marra. Sentem logo.
As duas resmungaram e se sentaram.
-Isso. Agora vamos lá, Dinah, qual a questão?
-Ela não entende que sou apaixonada por ela, sempre fala "ah vou te dar uma chance" aí no dia seguinte ela já nem olha pra mim direito. Parece maluca.
-Hm. Normani agora fala você.
-E ela não entende que eu tenho medo. Medo de ela surtar e dizer que era uma fase, de me deixar.
-Eu já te disse inúmeras vezes que eu te amo porra. O que mais você quer que eu faça?! Faça-me o favor né Normani, não entende porque não quer.
-Está bem, olha só.
Puxei uma cadeira e me sentei na frente das duas.
-O problema aqui está sendo falta de comunicação. Vocês passam a maior parte do tempo ocupadas demais gritando uma com a outra pra conseguirem se entender. A partir de agora não quero ouvir um pio mais alto de nenhuma das duas, entenderam?
Ambas concordaram relutantes.
-Dinah, você tem que ser mais paciente e racional. Tenta pensar um pouquinho antes de dizer o que pensa, as pessoas têm sentimentos. Escuta, você sempre amou a Mani. Já passou pela fase da negação, e da aceitação também. Isso é tudo muito novo pra ela. Não que pra você seja fácil, mas tenta ver o lado dela também.
Ela concordou e abaixou o olhar, brincando com a sua mão.
-Normani, a Dinah te ama minha filha. Sempre foi assim e sempre vai ser. A insegurança é totalmente normal, ter um pé atrás é totalmente normal, assim como desconfiar. Mas ao ponto de você nunca tentar? É preferível você se arrepender de ter feito do que de imaginar como poderia ter sido. Ela já disse que te ama não já?
Ela assentiu.
-Então por que não tenta?
-Eu... Não sei.
-Você a ama?
Ela olhou para Dinah e a encarou sorrindo levemente.
-Amo.
-Isso que eu queria ouvir, e isso deveria ser o suficiente. Agora vamos lá, peçam desculpas uma pra outra.
Dinah fez uma careta.
-Isso é mesmo necessário?
-É. Agora vai logo.
Ela resmungou mas se virou para Mani.
-Desculpe.
-Desculpe Mani.
-Agora se abracem.
Elas reviraram os olhos mas se abraçaram forte. Dinah enterrou o rosto no pescoço de Mani, que estava de olhos fechados e sorrindo.
Senti um toque no meu ombro, quando olhei era Vanessa.
-Clarinha, por que está demorando?
-Oi minha latina linda.
Ela sorriu corada e me beijou.
-Como fez as duas ficarem no mesmo cômodo sem discutir?
-Foi na marra mesmo. Agora vamos progredir aqui, se beijem.
-O que?
-Anda Dinah.
Revirou os olhos novamente e puxou Mani pela nuca. Comemoramos e logo saímos da cozinha, deixando aquelas duas lá se resolvendo.
Sim, eu e Vanessa havíamos nos entendido. Ela viu que havia exagerado e que Luis queria nada comigo a não ser minha amizade, e me pediu desculpas. De novo.
-O que quer fazer agora princesa?
Tirei o cabelo do seu pescoço e apliquei um beijinho ali. Estava a abraçando por trás enquanto íamos até meu quarto.
-Hm, vamos ver um filme?
-Claro.
Liguei o ar e fechei as cortinas e a porta, deixando tudo pronto para o filme.
-Clarinha acho que vou tomar um banho antes.
Segurei sua cintura e lhe dei um selinho.
-Ok.
-Você quer... Tomar comigo?
Seu rosto estava corado, ela ficava acariciando meu ombro sem me olhar.
-Está me chamando pra tomar banho com você?
-Sim...
Ela enfiou o rosto no meu pescoço toda vermelhinha me fazendo rir.
-Oh moça... Devo dizer que não sou tão fácil assim, não é desse jeito que vai conseguir me levar pra cama.
-Idiota. Agora quero tomar banho sozinha também.
Se soltou de mim e foi até o banheiro. Ri e corri pra abraçar seu corpo.
-Estou brincando princesa, claro que quero tomar banho com você.
Fiz um biquinho para que ela me perdoasse. Ela riu e me deu um selinho demorado.
-Você é tão fofa Clarinha.
Sorri e beijei sua testa.
-Você que é Van.
Tirei sua roupa primeiro, e deixei tudo no chão do banheiro. Enquanto nos despíamos já havia ligado a banheira que estava quase cheia.
Não pude deixar de encarar o corpo de Vanessa, a minha latina é tão linda. Eu estava olhando não com desejo, mas sim com admiração. Me perguntando como alguém pode ser tão maravilhosa.
Subi a mão por seus braços e prendi seu cabelo em um coque, fazendo o mesmo com o meu em seguida.
Entrei na água morna e abri os braços esperando Vanessa se encaixar entre eles. Ela deitou a cabeça no meu ombro, dei um longo beijo na sua bochecha.
-"Quando eu te vi me apaixonei e você sorriu porque sabia."
Sussurrei no seu ouvido e apliquei um beijo na sua nuca.
-Shakespeare?
-Isso.
-Que lindo Clarinha.
Sorriu com a língua entre os dentes. Ficamos ali trocando beijos, carinhos e risadas. Nada mais que isso aconteceu.
MEU ANJO
Capítulo 34
Sorri amplamente, puxei o rosto de Vanessa que estava enterrado em meu pescoço.
-Você o que?
-Não me obrigue a dizer novamente.
Resmungou.
-Repete pra mim, Van. Por favor.
Fiz um biquinho, ela revirou os olhos e negou.
-Mas Clarinha... Você me ouviu.
Reclamou novamente, com o rosto parecendo um pimentão, e com uma expressão adorável estampada no mesmo.
-Sim, mas quero ouvir de novo. Eu amei ouvir isso.
Ela mudou da água pro vinho, sorrindo com a língua entre os dentes e acariciando meu rosto.
-Eu amo você Clarinha.
Disse pausadamente, olhando no fundo dos meus olhos.
Sorri, dei um beijo em sua testa e abracei forte seu pequeno corpo. Meu coração batia rápido no peito, eu sabia que os meus sentimentos por Vanessa eram recíprocos mas ainda assim ouvi-la dizendo que me amava era... Indescritível.
-Eu também te amo, princesa. Muito.
Vanessa voltou a enterrar o rosto em meu pescoço, e aplicou um beijinho lá. Suspirei e acariciei seus cabelos, ainda processando o que acabou de acontecer.
-Clara?
-Hm?
-Acha que estamos sendo precipitadas?
Tirou seu rosto do meu pescoço e me encarou.
-O que quer dizer?
-Você sabe... Estarmos tão dependentes assim uma da outra, nosso namoro, o "eu te amo"... São tantas coisas.
Suspirei e tirei uma mecha que estava caindo em seu olho, eu sabia que teríamos que conversar seriamente sobre isso em algum momento.
-Sinceramente? Talvez estejamos. Foi tudo tão rápido e intenso, mas eu estou nenhum pouco preocupada com isso. Você me faz bem, Vanessa. Eu não quero ficar um minuto longe de você porque eu quero aproveitar ao máximo nosso tempo juntas. Eu quero te fazer feliz, quero ver sempre esse seu sorriso lindo no rosto. Com você estando bem, preciso de mais nada.
-Parece que você sempre sabe o que dizer, como se expressar. Eu nunca sei o que dizer.
Sorri e beijei sua testa.
-Está tudo bem. Gestos e ações valem mais do que palavras.
Ela apoiou o queixo no meu peito e suspirou, seu rosto com aquele sorriso bobo estampado. Eu amava quando ela me olhava assim.
-E quanto ao eu te amo... É apenas como eu me sinto. Eu quero você pra sempre, eu quero um futuro com você.
Os olhos dela brilhavam, o sorriso estava mais amplo, rasgando seu rosto.
-Eu te amo tanto...
Sussurrou antes de colar nossos lábios rapidamente.
-Posso te fazer uma outra pergunta?
-Claro Van.
-Eu te faço bem? Digo, nós literalmente acabamos de começar o namoro, mas sabe, a sensação que dá é que já estamos juntas há muito tempo.
Pensei por um momento em como formular uma resposta. Em como mostrar para uma pessoa que o único motivo para você continuar seguindo em frente e aguentando o que quer que seja é ela.
-Vanessa... Tem noção de o que teria acontecido comigo se eu não tivesse conhecido você? De como teria sido acordar do coma no hospital sem você? Eu teria... Surtado. Eu teria desistido. Eu sou tão... Completamente fodida. E eu te digo que, se foi preciso passar por tudo isso pra conhecer você, os anos de abuso e tortura, eu não mudaria um segundo sequer. Se foi preciso tudo isso pra que eu encontrasse você, eu... Passaria por tudo de novo e de novo.
Seu rosto ficou sério, ela se sentou e me puxou junto.
-Não repete isso, ok? Eu não posso ser egoísta ao ponto de ouvir você falando isso e não protestar. Estamos falando da sua vida, Clara.
-Eu sei disso. Não me arrependo de o que eu acabei de dizer.
-Deveria. Você não mereceu passar por isso. Ninguém merece. Sabe, uma vez a Dinah me contou uma coisa que você disse à ela. Sobre você ser quebrada demais pra nós podermos te consertar. Pra eu poder te consertar.
Abaixei o olhar e brinquei com os seus dedos.
-Você ainda se sente assim?
-Não.
Disse sem muita convicção.
-Clara.
-Eu não sei, talvez. Acho que sim.
-Primeiro, você não é um brinquedo pra ser consertado. Segundo, eu amo você. Isso deveria ser o suficiente.
-E é. Eu só ainda penso que não é sua obrigação cuidar de mim dessa maneira, ainda fico esperando a hora que você vai resolver ir embora.
-Você realmente acha que eu vou fazer isso?
Perguntou parecendo magoada.
-Não, meu amor não foi isso que eu quis dizer.
Puxei ela para se sentar de lado no meu colo. Fiz um carinho nas suas costas, ela entrelaçou nossos dedos.
-Eu me expressei mal. Não é que eu ache que você vá fazer isso, tenho medo de que toda essa complicação se torne um fardo muito grande pra você.
-Clara, olha pra mim.
Levantou meu rosto de modo que eu a encarasse.
-Eu quero ficar com você. Eu quero cuidar de você. Eu quero você. Nada que você ou que qualquer um diga vai me fazer mudar de ideia. Eu sei que é difícil, mas vamos tentar apenas deixar tudo de lado, só aproveita o dia. Aproveita nós aqui, juntinhas.
Sorri suavemente e passei o nariz pela sua bochecha.
-Ok, Van.
Beijei sua maçã do rosto e puxei mais seu corpo contra o meu.
-Você me chamou de amor de novo.
Vanessa comentou sorrindo com a língua entre os dentes.
-É.
Respondi tímida com o rosto corado. Ela riu e me deu um selinho.
-Acho melhor nós já irmos embora.
Nós levantamos e pegamos as bolsas. A claridade estava incomodando muito, então procurei os óculos escuros na bolsa, constatando que eu havia os esquecido em casa. Praguejei, fazendo Vanessa rir.
-Linda.
Sussurrou antes de me puxar pela gola da camisa e me beijar.
Andamos pelas ruas com as mãos entrelaçadas, enquanto conversávamos e observávamos as vitrines.
-Van, Van olha isso!
Puxei sua mão, tentando atrair sua atenção para a loja.
-O que foi Clarinha ?
-Olha.
Apontei para a loja.
-A Sofi gosta de Frozen?
-Sim, por que?
Perguntou confusa.
-Me espera aqui fora, eu já volto.
Dei-lhe um selinho sem lhe dar tempo de responder e entrei na loja. Olhei para ver se Vanessa estava me olhando, mas ela estava distraída observando o outro lado da rua.
Peguei o bichinho de pelúcia e levei até o caixa para pagar. Entreguei-o para a atendente.
Até que vi outra coisa que me chamou a atenção. Peguei o outro bichinho e voltei ao lugar de antes. A atendente sorriu e passou os dois no scanner.
-Sabe, dei um deles de presente pra minha irmã. Ela amou, foi uma boa escolha.
Sorri e lhe entreguei o cartão de crédito.
-Não tenho irmãos. Um deles é pra uma baixinha muito exigente.
Ela riu, terminou de passar o cartão na máquina, e me entregou junto com a notinha. Disse que era para ela embrulhar apenas um deles, deixando o outro apenas em uma sacola. A garota sorriu, e me estendeu a sacola.
-Tenho certeza de que ela também vai aproveitar muito o presente.
Apontou para algo atrás de mim. Me virei e vi que ela falava de Vanessa, que ainda estava parada ao lado de fora da loja, dessa vez me encarando fixamente com os braços cruzados e uma expressão nada boa.
Corei sob o olhar da garota e apenas peguei a sacola, fazendo-a rir.
-Sua namorada?
-É.
Sorri e concordei. Mas a garota fez uma cara estranha, e apenas sorriu fraco.
-Obrigada e volte sempre.
Agradeci e andei até a saída da loja, a garota piscou para mim e acenou.
-Posso saber o que você tanto falava com aquela garota?
Perguntou séria. Engoli em seco e parei à alguns passos de distância.
-Van não fiz nada demais.
Sua expressão era tão assustadora que chegava a me dar medo. Muito medo.
-Vamos embora Clara Aguilar.
Puta que pariu fodeu.
-Mas Van...
-Agora.
Suspirei mas abaixei a cabeça concordando. Ela passou feito um furacão na minha frente e começou a andar na direção errada.
-É, princesa...
-O que é?
Resmungou.
-É que... V- você está indo na direção errada.
Ela bufou e me deixou guia-la na direção correta.
Eu estava com medo de até mesmo olhar para ela, e eu ao menos sabia o que tinha feito de errado. Não seria eu a perguntar. Passei o caminho todo de cabeça baixa. Demoramos mais alguns minutos para chegar.
Abri a porta do apartamento para ela, que entrou rapidamente e foi até meu quarto. Dinah estava no sofá, para variar, e acompanhou os passos de Vanessa com o cenho franzido.
-Eita. Que merda você fez dessa vez Papel?
-Eu?! Por que eu tenho que ter feito alguma coisa?!
-Pra ela estar assim? Você fez alguma coisa certamente.
Bateu no espaço ao seu lado e desligou a tv.
-O que aconteceu?
-Eu não sei. Estava tudo bem, até que nós paramos em uma loja e eu pedi pra ela esperar do lado de fora. Quando eu voltei ela estava assim.
-Hm. Me diz uma coisa, quem te atendeu foi homem ou mulher?
-Mulher.
-Era jovem?
-Sim.
-Bonita?
-Não prestei atenção.
Dei de ombros.
-É cega ou o que?
-Eu tenho a Vanessa, preciso de mais ninguém.
Dinah revirou os olhos.
-Ok. Enfim, ela ficou brava porque ficou com ciúmes.
-Ciúmes?
Perguntei confusa.
-Mas nada aconteceu!
-O que você comprou?
-Dois bichinhos de pelúcia, um pra Sofi e outro pra Vanessa.
-Essa garota que começou a puxar conversa?
-Bem, sim.
-Perguntou se você namorava?
-Perguntou.
-Ela piscou pra você?
-Aham.
-Ela estava te cantando, sua burra.
Deu um tapa na minha testa.
-Aí porra! E como eu ia saber disso?
-Se você não fosse tão pamonha ia perceber.
-E o que caralhos eu fiz pra Vanessa ficar brava?!
-Vamos lá, vou explicar pra você como se estivesse explicando pra uma criança.
Se ajeitou no sofá e limpou a garganta.
-Hm, espera. VERÔNICA VEM AQUI AGORA.
Vero surge de lá de dentro correndo e se aboleta no sofá ao meu lado.
-O que houve?
-Uma garota deu em cima da Clara numa loja, agora a Vanessa tá puta com ela.
Vero riu.
-Já estive no seu lugar. Boa sorte com isso.
-Agora explica pra essa burra que não se deve contrariar uma mulher.
-Uhh, ela tem razão. Vanessa vai estar certa mesmo quando ela não está. Aceite isso.
-Porra. Nenhuma. Aconteceu. Sinceramente, precisa dessa tempestade toda num copo d'água? Justamente quando acabamos de nos resolver?
-Ih relaxa, briga boba, hoje mesmo passa. Nunca contrarie sua namorada, escute o que eu estou dizendo. Você é mulher deveria saber disso.
-Não ligo de admitir quando estou errada.
-Você é uma das poucas pessoas no Universo que é desse jeito. Vanessa não é assim.
Bufei e voltei a me recostar no sofá.
-Mas eu só queria comprar um presente pra ela e pra Sofi.
Reclamei triste.
-Vai lá falar com ela agora.
-Não seria melhor esperar ela se acalmar?
-Ela não vai querer olhar pra tua cara de qualquer jeito mesmo, vai agora.
Disse Dinah. Respirei fundo e peguei a sacola com os bichinhos.
Abri a porta do quarto e Vanessa estava de braços cruzados, perto da janela.
-Van?
Perguntei receosa. Sem resposta.
-Van... Por que está brava comigo?
Deixei a sacola na cama e parei na sua frente. Toquei em seu rosto, mas ela o virou para o lado.
-Vai lá conversar com a sua amiguinha.
Resmungou. Eu acabei rindo, mas parei e engoli em seco ao ver seu olhar assassino na minha direção.
-Ela estava dando mole pra você e você fez porra nenhuma. E olha que eu estava longe de você Clara, do lado de fora da loja eu vi aquela puta praticamente te comendo com os olhos.
-Mas Van... Eu não percebi que ela estava me dando mole, na verdade eu ainda vejo nada demais nas coisas que ela disse.
Ela semicerrou os olhos na minha direção.
-Volta pra lá então!
Emburrou mais ainda e virou para a frente.
-Van...
Abracei seu corpo por trás e pousei o queixo em seu ombro.
-Me desculpa? Eu prometo que não faço mais.
Ainda não via coisa alguma de errado no que aconteceu, mas me lembrei de o que Dinah e Vero disseram. Vanessa permaneceu irredutível.
Afastei seu cabelo do pescoço e distribui beijos pela região. Senti o corpo dela ficar tenso, ela se arrepiou sob meu toque.
Mordi seu ombro e suguei com força seu ponto de pulso. Ela arfou e deitou a cabeça no meu ombro.
Segurei com mais força sua cintura, puxando seu corpo contra o meu e subi os beijos por seu pescoço.
-Você me perdoa, amor?
Perguntei sussurrando em seu ouvido. Subi as mãos por seu corpo, apertando seus pequenos seios em minhas mãos. Vanessa mordeu o lábio inferior e concordou freneticamente.
Ri baixinho no pé do seu ouvido, e levei as mãos para baixo da sua camisa. Até que ela em um rápido movimento se vira e me empurra até eu bater na parede mais próxima, iniciando nosso beijo sôfrego.
Gemi no instante em que nossas línguas se enroscaram. Segurei por trás de seus joelhos e a puxei para cima para que ela pudesse entrelaçar as pernas em minha cintura.
Andei com ela até a porta e com cuidado, apoiei-a lá enquanto trancava. Perdi a linha do raciocínio quando Vanessa passou a língua por meu lábio inferior, para logo introduzir na minha boca novamente.
Já ia levá-la para a cama, mas ela descolou nossos lábios e protestou.
-Não... Eu quero aqui.
A maneira como ela disse isso foi tão... Sexy. Expeli todo o ar dos meus pulmões nesse momento.
-Mas... Mas eu posso te machucar aqui, e...
Vanessa revirou os olhos e tirou ela mesma sua blusa. Desci os olhos para seus seios e não consegui afastar o olhar de lá. Ela voltou a enlaçar os braços em meu pescoço, e chegou ligeiramente seu corpo para trás afim de me dar uma visão mais ampla.
-Quer fazer as honras?
Trinquei a mandíbula e voltei a apoia-la na porta antes de voltar a beijar seu pescoço e abrir o fecho do seu sutiã. Ao tirar aquela peça, me afastei e observei seu corpo.
-Você é tão linda...
Comentei em meio a um suspiro. Ela sorriu pela primeira vez desde entrei no quarto e fez um carinho na minha bochecha.
Subi lentamente a mão que estava em sua bunda, passando por seu corpo que parecia ser esculpido por deuses, até chegar em sua barriga.
Ela se inclinou e voltou a me beijar, dessa vez calmamente.
Passei a mão para seu seio direito, e apertei. Desci os beijos por seu pescoço e colo, substituindo minha mão pela minha boca. Logo ela voltou a ronronar e morder sua boca.
A pele bronzeada era macia, seus seio cabiam perfeitamente nas minhas mãos. Puxei o bico com os dentes, fazendo minha namorada arfar.
Ela desceu do meu colo e abaixei seu short e sua calcinha rapidamente.
-Você tem certeza de que quer...
-Anda logo Clara.
Me interrompeu.
-D-desculpe.
Voltei a beija-la, era melhor do que ouvi-la reclamando.
Acariciei sua intimidade lisinha arrancando suspiros baixos e fracos seus. Circulei seu clitóris com o dedo antes de descer até sua entrada e a penetrar.
Ela mordeu minha boca com força e descolou nossos lábios. Lentamente movi o dedo dentro dela.
-Vai logo Aguilar , minha virgindade você já tirou outro dia.
Revirei os olhos e concordei. Vanessa brava comigo era algo que eu nunca gostaria de ver novamente. Retirei meu dedo por completo dela, ela já ia protestar mas dessa vez introduzi dois de uma vez com força.
Ela gemeu alto e encostou a cabeça na porta de olhos fechados. Movimentei os dedos rapidamente e levei minha boca ao seu ouvido.
-É assim que você quer, Vanessa?
Ela se limitou a concordar.
-Responde.
Rosnei em seu ouvido e curvei os dedos, achando seu ponto G. Ela gritou meu nome.
-Hm isso... É... É assim que eu quero.
Levantei sua coxa direita para ter um acesso melhor e continuei empurrando os dedos cada vez mais fundo, deixando-os lambuzamos com o líquido da minha namorada.
Assisti a cena à minha frente completamente hipnotizada. Seu corpo começando a ficar coberto por uma fina camada de suor, seus lábios entreabertos, seus cabelos desgrenhados, seu corpo totalmente descoberto, e o melhor, a expressão de prazer em seu rosto. Meu próprio corpo esquentava mais ainda apenas em dar prazer à Vanessa. A ideia de eu estar a machucando passou pela minha cabeça novamente, mas pelo jeito que ela gemia e agarrava meu braço com força ela estava é gostando.
Sua respiração começou a se acelerar, seus olhos reviravam nas órbitas. Quando senti que seu corpo chegava ao ápice, parei os movimentos e retirei os dedos de dentro dela.
-Por que diabos você parou?! Eu estava perto.
Ela reclamou.
-Você...
Levei os dedos molhados com seu líquido à minha boca, lambendo-os com devoção. Seu queixo caiu, ela parou de falar na mesma hora e me encarou fixamente. Ri baixo e desci distribuindo beijos por seu corpo.
Apoiei sua perna no meu ombro e lambi desde sua entrada até seu ponto de prazer.
-Claraaaa.
Gemeu longamente.
Mordisquei o clitóris e voltei a penetra-la com dois dedos.
-Faz... Faz aquilo de novo.
Novamente encurvei os dedos e bombeei em sua parte sensível.
-Porra, isso. M- mais rápido Clarinha.
Aumentei a velocidade e separei os grandes lábios com a mão esquerda, dando uma forte e longa chupada. Era um gosto diferente. Não era ruim, pelo contrário. Vanessa era deliciosa.
-Rebola pra mim Van.
Sussurrei antes de voltar com a boca para seu sexo quente. Ela iniciou um rebolado lento, que aumentou a velocidade com o tempo. Senti seus dedos se entrelaçarem nos meus fios, e empurrarem mantendo minha cabeça ali e aumentando o contato.
-Clara! Eu... Eu vou...
Arranhei sua coxa e passei as unhas até suas costas, puxando ela para mais perto de mim. Seu corpo todo começou a tremer violentamente, segurei-a firme para que ela não caísse.
Lambi os dedos e passei o nariz por sua intimidade sentindo seu cheiro afrodisíaco maravilhoso.
Ela estava ofegante, abracei seu corpo e ela soltou completamente seu peso sobre mim. Peguei-a no colo e caminhei até a cama, cobrindo-nos com o cobertor e dando um beijo na sua testa.
-Está tudo bem Van?
Perguntei preocupada.
-Está brincando? Eu estou ótima!
Ri e entrelacei nossos dedos, acariciando o dorso com o polegar.
-Já está mais calma agora?
Sua respiração ainda estava se regulando, ela piscou sonolenta e concordou.
Peguei a sacola no pé da cama e trouxe até mim, tirando os presentes.
-Eu só entrei naquela loja pra comprar um bichinho pra você e pra Sofi, Van. Poxa vida, eu queria fazer uma surpresa pra vocês, não brigar com você.
Ela fez uma careta adorável e acariciou meu rosto.
-Desculpa Clarinha... Eu só fiquei com ciúmes.
Abaixou a cabeça com uma carinha triste. Puxei seu queixo para cima.
-Está tudo bem princesa. Só não precisa mais agir desse jeito, eu só tenho olhos pra você. Mais ninguém.
Enchi seu rosto de beijinhos, ela riu.
-Ei, quer ver o que eu comprei pra você ou não?
-Quero!
Ela se sentou animada na cama, seus olhinhos brilhando.
Ri e tirei o seu de dentro da sacola. Ela arregalou os olhos e seu queixo caiu alguns centímetros.
-Aí meu Deus, Clara!
Ela pegou o bicho de pelúcia e me puxou para um abraço apertado.
-Muito. Obrigada. Eu. Amei.
Disse entre selinhos. Para ela eu havia comprado uma banana de pelúcia. O bichinho usava óculos escuros, e segurava uma plaquinha onda estava escrito "Sou deliciosa!". Foi impossível não pensar em Vanessa na hora, isso era a sua cara.
-Esse é o melhor presente de todos! Você é a melhor namorada do mundo!
Me puxou e me deu um último selinho. Ela parecia uma criança. E quando dizem que é preciso pouco para fazer alguém ficar alegre ou feliz, é realmente verdade.
-Gostou mesmo Van?
-Eu amei!
Abraçou forte a banana me fazendo rir. Quão fofa era essa cena?!
-Linda.
Beijei sua bochecha e tirei os fios que caíam em seus olhos.
-Comprei o Olaf pra Sofi, acha que ela vai gostar?
-É óbvio que sim. Ela já te ama, Lo. Quando você der o presente então...
Sorri e beijei a pontinha do seu nariz.
-Que bom então. Ahh, eu deveria ter comprado o Sven também.
Lamentei, e Vanessa fez uma careta.
-Desse jeito ela vai ficar mimada. Com você fazendo todas as suas vontades assim.
-Eu tinha prometido um brinquedo pra ela Van. Me senti culpada, tive que comprar.
Ela sorriu e fez um carinho na minha maçã do rosto.
-Você gostou muito da Sofi, não é?
-Ela é tão lindinha. Ela é idêntica à você, talvez por isso eu seja tão louca por ela.
Vanessa riu.
-Você é tão perfeita, cariño...
-Você que é.
No momento em que nossos lábios se encostaram, alguém tentou abrir a porta. Por sorte eu a tranquei. Obviamente, eu nem precisei esperar a pessoa falar para saber quem era. Sabia que era Dinah.
-Coelhas, abram a porta.
Revirei os olhos e levantei da cama, jogando a roupa para Vanessa e destrancando a porta.
Voltei correndo para a cama e me joguei nos braços da minha namorada, que riu e me beijou.
-Chega de agarração na minha frente. Clara, Natália e um garoto chamado Luis estão aí pra falar com você.
Ela fez uma cara engraçada ao pronunciar o nome de Luis.
-O que? Por que ele não ligou?
Prendi o cabelo em um coque e substitui o short curto que eu usava por uma calça jeans.
-Clarinha, quem é Luis?
Merda.
-Hm... É... Luis é meu... Ex namorado.
MEU ANJO
Capítulo 33
Luis se virou com o cenho franzido, me encarou por alguns segundos antes de arregalar os olhos. -Oh meu Deus, Clara?! Quanto tempo! -ri e andei até ele parando ao seu lado, ele me surpreendeu ao me abraçar- Como estão as coisas? -Estão... Bem. -Você sumiu.
Me virei e apoiei os braços no corrimão, observando a cidade à minha frente. -É. Eu precisei sair daqui sabe, aqui nunca me fez bem.
Ele sorriu e concordou. De alguma maneira ele parecia... Diferente. -Você fez bem em ter ido. Mas ei, como está Alexa? -Ainda te odiando.
Ele riu alto e negou com a cabeça. -No fundo ela me ama, você sabe disso. -Vai sonhando, Luis. -respondi também rindo.
Ele me encarou enquanto sorria mas logo o sorriso morreu, sua expressão ficou séria. -Você não parece bem.
Abri e fechei a boca várias vezes sem conseguir formular nenhuma frase. -Para com isso, estou bem. -sorri fraco e ele comprimiu os lábios e concordou. Suspirei e voltei a olhar para a rua- e então, como está sua mãe? -Ela... Morreu. Um tempo depois que terminamos.
Me virei para ele, seu olhar estava perdido e os nós dos seus dedos estavam brancos de tanto apertar o corrimão. -Eu sinto muito. -pus minha mão em cima da sua e apertei.
Ele me olhou sorrindo e segurou minha mão. Ele definitivamente estava diferente. Não se parecia em nada com o antigo Luis, o namorado que era grosso na maior parte do tempo, tratava mal a mãe, bebia, usava drogas.
Por um tempo eu achei que ele me fazia bem, até que chegou uma hora em que eu cansei. Eu não precisava de alguém me tratando mal, já bastava a merda que era minha vida.
Mas tinham aqueles momentos. Aqueles poucos momentos em que o lado carinhoso dele se sobressaia, que ele era gentil, e dizia o quanto eu significava para ele. Talvez a lembrança desse seu lado me fez não querer dar um tapa na cara dele e desejar nunca mais o ver na vida. -Sabe, ela gostava de você. Ficou cerca de uma semana sem falar comigo quando terminamos. -Você quer dizer quando eu terminei com você.
Ele puxou sua mão da minha e fechou a cara. -Tanto faz. -resmungou parecendo uma criança.
Ri e um tempo depois ele me acompanhou. Vê-lo depois de tanto tempo era de certa maneira... Bom. Ele terminou o cigarro e apagou jogando no chão em seguida. -Você parece diferente. Aprendeu algo depois que terminamos? -arqueei a sobrancelha sugestiva, e ele riu fraco e me encarou. -Depois de você e minha mãe praticamente me humilharem? Não tive muita escolha.
Dei, ou melhor tentei, dar um tapa em seu braço, mas ele foi mais rápido e recuou rindo. -Ei, é verdade. -revirei os olhos- mas sério. Quando você terminou comigo, eu... Percebi o quão idiota eu era. Percebi que eu fui idiota por não ir atrás de você. E depois, quando minha mãe morreu, me dei conta de que eu tinha decepcionado as duas pessoas mais importantes da minha vida. Eu parei com as drogas e as bebidas. Bem, tirando o cigarro, disso eu não consegui desgrudar.
Ri e neguei com a cabeça. -Não acha que poderia ter se dado conta disso tudo um pouco antes? Só um pouquinho?
Ele riu e concordou. -Bem que eu queria. Eu até iria falar pra nós sabe, tomarmos um café juntos, sairmos qualquer hora, mas... Pelo brilho nos seus olhos acho que talvez essa não seja uma boa ideia.
Apesar de estar brigada com Vanessa no momento, sorri. Lembrar dela me deixava triste novamente, pela maneira que ela estava lidando com a situação. -Hm, provavelmente não. Não nesse sentido pelo menos.
Ele concordou e olhou para suas mãos. -E quem é o sortudo da vez?
Hesitei ao responder. -Conheci em Miami. -desconversei.
Ele sorriu e concordou. -Luis? -Sim? -Você... Você sabe, namorou alguém depois de mim? -Te confesso que não consegui gostar de ninguém depois de um tempo. Eu procurava em todas uma coisa que nenhuma tinha. Você. E sabe como é, nós adolescentes não somos lá muito funcionais. -aquilo me pegou de surpresa, eu não imaginava que ele se sentia assim com relação à mim- Namorei algumas depois de você. Aliás, terminei um relacionamento semana passada. Não estava dando certo. -deu de ombros e voltou a se apoiar no corrimão. -Você está mesmo diferente. -murmurei mais para mim mesma e ele riu. -Então quer dizer que você foi pra Miami? -Sim. -Tem parentes lá? -Você sabe que a única pessoa que eu tinha até então era a Alexa. -Esqueci desse detalhe. -murmurou e passou a mão pelo cabelo- Mas como você foi parar lá então? -É uma longa história. -Acho que você não está muito afim de contar, não é mesmo? -riu sem graça.
Me virei para ele e o encarei. -Não, é que... É complicado.
Ele apenas sorriu e concordou. -Entendo. Ei, o que veio fazer aqui? -Vim... Passear. Com alguns amigos. -No meio do semestre? -É... Hm, sim... É que... -É complicado?
Suspirei e concordei, vendo o sorriso compreensivo no seu rosto. -É. É complicado. -ele se limitou a concordar. Limpei a garganta e tratei de mudar de assunto. -Então você ainda se lembra desse lugar? Achei que era a única que me lembrava disso daqui.
-Como eu poderia me esquecer daqui?! O dia em que fizemos você subir até aqui foi o melhor. -Eu era uma criança, eu estava morrendo de medo! -ele riu- Brady fez aquilo de propósito. -Óbvio, você tinha medo de tudo.
Revirei os olhos e neguei. -Isso é mentira. Ainda fala com eles? -Não. Apenas com o Brady, às vezes. Ele ia pirar se te visse agora, sempre teve aquela obsessão por você. É tão estranho... Naquela época eu nunca imaginei que namoraria você. Eu sempre tive uma admiração estranha, sempre achei que você parecia uma espécie de... Anjo. E então eu cresci, e me tornei aquele babaca. -Tudo bem errar de vez em quando, Luis. Sinceramente? As únicas coisas de que eu sinto falta, tirando Alexa, são nossas brincadeiras de criança. -Ouch, essa doeu. Nosso namoro não significou nada pra você? -se fez de ofendido.
Arqueei a sobrancelha e comprimi os lábios. -Do jeito que você era babaca? Não muito.
Ele riu mas concordou comigo. -É tem razão.
Luis pegou seu celular para olhar a hora e fez uma careta. -Tenho que ir. Tenho que terminar um trabalho da faculdade.
Novamente arregalei os olhos. -Você?! Fazendo faculdade?! O que diabos aconteceu enquanto eu estive fora?!
Luis riu e coçou a nuca. -Ossos do ofício. Você está falando com um futuro grande advogado da grande Nova York. -se gabou e abriu os braços.
Revirei os olhos. -Abaixa essa bola aí. -ele riu. -Tenho mesmo que ir. Foi muito bom te ver Clara. -sorri e dessa vez eu me aproximei, envolvendo-o em um abraço.
Nos afastamos, e Luis se virou para ir embora, mas parou no lugar e se voltou para mim. -Ei... Será que você pode me dar seu número? Pra você sabe, aquele café inofensivo.
Ri e concordei. -Claro. -anotei meu número no seu celular e o entreguei para ele novamente. -Tchau Clara, apareço lá qualquer dia pra dar um abraço bem apertado na Alexa. -É capaz que ela te mate desse jeito.
Ele riu e acenou novamente antes de ir. Suspirei e voltei ao limite do arranha céu, observando a grandiosidade da cidade à minha frente e tentando não pensar em Vanessa.
(...)
Mais dois dias se passaram. Eu e Vanessa conversávamos apenas o necessário, como "oi" ou "bom dia". Obviamente esses dois dias foram uma merda, principalmente à noite. É estranho estar tão dependente assim de alguém.
No mesmo dia recebemos uma ligação do delegado, ele se desculpou pela hora mas sugeriu que eu realmente ajudasse na emboscada de Paul.
Eu não estava com cabeça para aquilo, apenas pedi para Alexa e Dinah conversarem com ele e fui dormir. Agora estava no apartamento da minha mãe. Eu não conseguia dizer que aquele apartamento era meu. Não depois de tudo.
Os policiais estavam no meu antigo quarto, com todo o equipamento ligado, parecia que estava toda a delegacia aqui.
Dinah estava parada à minha frente enquanto ajeitava a escuta na minha roupa, ela não deixou ninguém tocar em mim para instala-la.
Rolei os olhos perto apartamento, parando-os na porta, onde estava Vanessa encostada no batente. Ficamos um tempo nos encarando até que sorri, eu sentia falta dela, me perguntava o motivo daquela briga idiota. Ela olhou em volta, para alguns policiais andando pelo apartamento checando as câmeras, antes de me lançar um sorriso fraco e sair. -Como ela está? -perguntei em um sussurro à Dinah.
Ela parou o que estava fazendo e me olhou. -Vocês deveriam conversar. -suspirei e fechei os olhos. -Você acha que eu não quero? -Ela tende a ser infantil às vezes, eu entendo isso, mas vocês acabaram de começar o namoro. Sempre se deram incrivelmente bem, e sinceramente? Eu nunca vi um amor tão palpável e real quanto o de vocês. Talvez seja cedo demais pra fazer essa pergunta, mas estamos falando de você, então... Você ama a Vanessa? -Amo. -respondi sem pensar nem hesitar.
Dinah sorriu e acariciou meu cabelo. -Então o que vocês estão esperando? Não gosto nada dessa porra toda aqui que você armou, mas tenho aprendido a não te contrariar nessas últimas semanas. Você acaba fazendo de todo jeito. -deu de ombros me fazendo rir- Apesar da sua ideia idiota, ela não precisava surtar daquele jeito. As duas tem culpa no cartório. Por que não foi falar com ela? -Eu sei que nenhuma de nós está certa, eu não deixei de ir conversar com ela por me considerar certa e ela errada. Eu só... Quis dar um espaço pra ela esfriar a cabeça e pensar. -Quem precisa de espaço é astronauta. Agora vão se resolver, fazendo o favor. Prefiro recolher as roupas de vocês espalhadas pela sala do que consolar vocês. -ela se afastou e pegou seu copo na mesa.
Apenas ri e mostrei o dedo do meio para ela. -Estou falando sério.
Mostrei novamente o dedo do meio e ela riu. -Ei, o que quis dizer com "Mas estamos falando de você, então..."-tentei imitar sua voz. Mas saiu meio esganiçada.
Ela riu e voltou com o copo para a mesa. Logo ficou séria e limpou a garganta me encarando. -Qualquer idiota percebe que você faz tudo por ela.
(...)
E aqui estava ele. Paul andou pelo apartamento praticamente vazio, passando o dedo pelos móveis empoeirados. Olhou em volta, fiquei com medo de ele saber que algo estava errado. Mas ele apenas sorriu e me encarou enquanto sentava no único e impessoal sofá. -Posso saber o motivo de você me chamar com tanta urgência? Você sabe, eu deveria estar bem longe de você. -seus olhos brilhavam ao me encarar.
Respirei fundo tentando eliminar o nervosismo no meu corpo, que gritava em alerta. -Eu... Eu... -pensei em qualquer coisa, mas nada me vinha à mente. A não ser por uma coisa. Respirei fundo e tomei coragem- por que? -Por que o que, querida? -se fez de desentendido? -Por que eu durante todos esses anos? -Eu estava apenas cuidando de você, Clara. -o modo como ele disse meu nome fez um arrepio varrer meu corpo. -Isso não foi bem cuidar. -Mas é claro que foi. -se levantou e parou à minha frente- Cuidar de você é minha obrigação como pai. Sempre cuidei de você, garotinha.
Minha respiração ficou presa na minha garganta. E foi quando eu lembrei. O pedaço do quebra cabeça se encaixando afinal. Paul era meu pai. Isso não poderia ser real. A cena daquele dia repassava várias e várias vezes na minha mente. "Você é minha filha, Clara. Minha garotinha."
Fechei os olhos com força e balancei a cabeça. Eu tinha que terminar isso. -Você... Você não é meu pai, pais não estupram nem espancam. -me aproximei mais e o encarei firmemente- Pais não me tratam como você me tratou a vida inteira.
E ele simplesmente riu. Alta e longamente. Por que ele não simplesmente admitia? -Mas é claro que sou, querida. Você apenas foi tratada da maneira que merecia. Você não era uma boa garota. -Na sua concepção. -Bem, sim. -Se você é meu pai por que nunca te conheci antes dos dez anos? Por que Alexa nunca disse nada sobre você? Por que não tenho fotos com você? Por que não tem seu nome na minha certidão? São muitas perguntas, Paul. Vamos lá, abra o jogo. -Por que isso tudo agora? O jogo de eu foder e você calar a boca estava bem melhor. -rosnou.
Eu consegui, mas precisava de mais. -Ainda não. -murmurei para a escuta e Paul me encarou confuso- Eu apenas quero saber. É errado querer saber sobre meu... pai?
Ele sorriu aprovando a palavra e negou. -Mas é claro que não. Mas infelizmente querida, eu não vou te dizer. Por que não pergunta pra vadiazinha da sua vizinha? -Cala a boca. Ela não é uma vadia e é mais do que minha vizinha você sabe disso. -rosnei.
Ele me encarou por mais um tempo antes de desferir um tapa forte na minha cara. Eu senti a ardência, meus olhos lacrimejaram mas respirei fundo e o olhei novamente.
Sai da frente dele, e andei até o sofá, olhando para a parede diretamente para onde a câmera estava escondida e fiz um sinal pedindo para que eles esperassem mais um pouco.
Me virei para Paul que me encarava parecendo curioso. Eu não sabia o que perguntar ou fazer, então agi por impulso. Levei as mãos à barra da camiseta e a tirei, revelando o sutiã preto rendado.
Seu olhos penetrantes e asquerosos desceram pelo meu tronco, e voltaram parando nos meus seios. Ele lambeu os lábios e deu alguns passos à frente. -Fiquei sabendo que você está namorando uma garota. Não gostei nada disso. E mais uma vez, você foi uma má garota, Clara. -soltou um suspiro e parou à minha frente.- Acho que você está precisando de uma lição.
Me segurou pelo pescoço e empurrou, fazendo meu corpo cair no sofá. Arfei e tentei empurra-lo, mas foi tarde de mais. E foi tudo tão rápido, foi o tempo de ele me dar um soco no rosto e um na costela para que eu parasse de me debater, e deslizasse a mão pelo meu corpo antes de os policiais finalmente aparecerem.
Eles o tiraram de cima de mim. Senti o gosto de sangue e quando passei a mão no rosto senti o lábio e a bochecha cortados. Ao menos consegui o que queria, eu sabia que ele não ficaria parado ao me ver praticamente me entregando.
Dinah correu até mim e pegou minha blusa no chão antes de me abraçar forte, ela estava ofegante, lágrimas escorriam por seu rosto. -Se algum dia você resolver fazer algo do tipo de novo eu juro que eu te mato.
Ri mas imediatamente me arrependi, minha costela doeu onde ele havia socado. Justamente na que ele havia fraturado anteriormente.
Ela se afastou e segurou meu rosto entre suas mãos. Limpei suas lágrimas, ela sorriu fraco e beijou minha testa. Saiu de cima de mim, vesti a blusa e me virei à tempo de ver Paul sendo algemado. -Paul Smith, você está preso. Você tem o direito de permanecer calado, tudo o que disser poderá ser usado contra você no tribunal.
Eles tentaram o levar porta à fora, mas ele se debateu. -ESPERA! Querida, você não vai deixar eles me levarem, não é? Não faça isso com seu próprio pai. -apenas o olhei com desprezo. -Apodreça no inferno, Paul.
Ele rosnou e voltou a se debater. -ISSO NÃO VAI FICAR ASSIM. VOCÊ E A PUTA DA ALEXA VÃO VER SÓ, ME AGUARDE PRINCESINHA. ME AGUARDE.
Passei a mão pelos cabelos e olhei para Dinah. Ela me encarava com o cenho franzido. -Pai, huh?
Concordei e suspirei. -Parece que sim. -Algo nisso me parece estranho. Por que ele não quis te contar tudo de uma vez? -Eu não sei. -Vamos verificar isso depois. Não pode ser verdade. -murmurou, mais parecia que estava falando com ela mesma.
Respirei fundo e obriguei meu coração a se acalmar. Minhas mãos ainda estavam trêmulas, o medo ainda tomava conta do meu corpo.
Nós fomos até a delegacia e passamos por toda aquela burocracia. No final quando estava tudo praticamente resolvido eu podia finalmente respirar em paz. Ao sair soltei um longo e alto suspiro, finalmente podendo respirar aliviada. Sem ter que me esconder novamente.
Bem, quase tudo estava resolvido. Todos estavam aqui, mas eu ainda não havia conversado com Vanessa.
Ela estava parado ao lado de Ally, enquanto a baixinha falava sem parar. Mas Vanessa estava distraída. Olhava fixamente para mim. Respirei fundo e andei até as duas.
Ela ainda me olhava, e agora eu não sabia decifrar sua expressão. -Oi. -disse para ela sem saber o que dizer.
Ela sorriu fraco e acenou. -Oi.
Ally olhou de uma para a outra e revirou os olhos. -Parem de se tratar feito estranhas. -resmungou.
Ela me puxou pelo pulso para frente, o que fez com que eu me chocasse contra Vanessa. Segurei em sua cintura para que ela não caísse, ela arfou e apertou meus braços. Esse era o mais perto que havíamos estado nesses últimos dois dias.
Estava tão perto que nossas respirações se misturavam, podia sentir seu hálito de menta delicioso. Desci o olhar para seus lábios, fazendo esse percurso repetidas vezes.
Me aproximei de seu rosto mas quando estava a centímetros de distância, ela se afastou. Limpei a garganta e passei a mão pelos cabelos. -Podemos conversar?
Ela concordou sem me olhar. -Nos encontramos em casa. -disse para Ally que sorriu e piscou para mim.
Sorri de volta e andei com Vanessa até o Central Park, que era perto dali.
Era impressionante como o tempo havia mudado nesses dois dias. As árvores estavam marcadas pela mudança do inverno para a primavera, aquele vento um pouquinho mais forte do que o normal batia. As flores vivas e bonitas decoravam as árvores, passarinhos cantavam e dançavam entre si ao nosso redor. -Então... Você realmente conseguiu. Ele foi preso afinal.
Sorri e concordei. -Tecnicamente sim, vamos saber em poucos dias o que vai acontecer. Ele pode ser acusado por agressão, tentativa de estupro e se conseguirem arrancar a confissão dele por abuso sexual também. Apesar de o delegado ter me assegurado de que ele não poderia sair sob fiança, não com as coisas das quais seria acusado. Sabe como essas coisas correm de forma lenta. Vamos ver se Paul vai abrir o bico.
Ela murmurou algo incompreensível e olhou em volta. -Vanessa... -chamei. Ela suspirou e me olhou- eu sinto sua falta.
Ela apenas me encarou por mais alguns segundos antes de se jogar em meus braços. Respirei fundo sentindo seu cheiro, que como sempre me acalmou na mesma hora. -Como eu senti falta do seu cheiro, dos seus beijos, de você. -murmurei e me afastei o suficiente para encara-la. Me inclinei e distribui beijos pelo seu rosto antes de finalmente selar nossos lábios.
Ela suspirou e levou suas mãos à minha nuca enquanto as minhas iam até sua cintura. Pedi passagem com a língua que imediatamente foi concedida. Seu sabor mentolado me fez suspirar. Sua língua quente e macia se enroscando com a minha era algo que eu nunca me cansaria.
Encerrei o beijo, ela me segurou e me deu um último leve e carinhoso selinho antes de me deixar me afastar. Ela finalmente sorriu para mim. Sorri de volta e entrelacei nossos dedos, puxando sua mão e dando um beijo no dorso. -Me desculpa?
Ela negou. -Você não tem que pedir desculpas Clarinha. Eu fui uma criança, deveria ter ficado e conversado. Mais uma vez eu agi feito uma idiota. -murmurou. -Ei, não fala assim. Eu sei que lidar com isso tudo é pedir demais, ok? Eu só... Tenho medo de você simplesmente cansar de aturar a garota problema e ir embora. -Isso não vai acontecer. -disse convicta- Eu não simplesmente aturo você e os problemas, Clara. Eu quero cuidar de você. A partir do momento em que você deixou eu entrar na sua vida, seus problemas passaram a ser meus também. Eu odeio ficar brigada com você, foi um motivo tão idiota e sem fundamento. -Eu sei princesa.
Ela sorriu e voltou a me abraçar, acomodando a cabeça na curvatura do meu pescoço. -Como eu senti falta de você me chamando assim, dos seus carinhos. Foram dois dias mas pareceu uma eternidade. -murmurou. -E eu senti falta de você.
Senti seu sorriso contra a minha pele, ela me deu um beijo rápido no pescoço.
-É loucura sentirmos tanto a falta uma da outra assim?
-Pode ser -ponderei- mas eu não ligo.
Ela riu baixinho e encostou os lábios na minha pele novamente. -Desculpa por não te apoiar. -Está tudo bem, meu amor. Nem sempre vamos concordar em tudo. Isso se chama relacionamento.
Ela se afastou com um sorriso largo no rosto. -Do que me chamou?
Corei e desviei o olhar. -De meu amor. -ela levantou meu queixo. Seus olhos brilhavam, o sorriso apaixonante ainda estava lá. -Quer dizer que sou seu amor?
Sorri e concordei. -É. Você é o amor da minha vida.
Ela suspirou e colou nossas testas. -Não existem palavras pra expressar o que você é pra mim. -disse antes de me beijar.
Ficamos assim, nos beijando, trocando carinhos e rindo. Ela se desculpou mais uma vez, assim como eu.
Até que o lado criança de Vanessa se pronunciou novamente, e ela me fez começar a correr atrás dela. Fazer o que, como diziam as meninas sobre mim, uma vez otária, sempre otária. Consegui alcançá-la, mas acabei tropeçando e cai puxando ela para cima de mim.
Nem devo dizer que minha costela doía como o inferno, mas eu não me importava. Ter Vanessa assim comigo novamente era melhor do que qualquer coisa. -Desculpe, estou te machucando. -ela ia levantar mas a puxei para baixo e a beijei. Como no nosso primeiro encontro.
Movimentei meus lábios sobre os dela, Vanessa acariciou minha bochecha levemente, bem em cima do corte e da onde tinha levado o tapa.
Ela se afastou e sorriu, apoiando a cabeça no meu peito. Fiz meu outro braço de apoio para poder encara-la melhor. -And I will try to fix you. -sorri sabendo ao que ela se referia.
Passei a mão pelo seu rosto, ela deitou seu rosto nela e fechou os olhos apreciando o carinho.
Vanessa prendeu o lábio inferior entre seus dentes, e um tempo depois abriu os olhos. Repentinamente pareceu estar nervosa. Desviei o olhar e esperei até que ela estivesse pronta para me dizer o que quer que fosse. -Cariño? -chamou depois de um tempo. -Sim? -Eu... -Você...?
Respirou fundo e se inclinou, olhando no fundo dos meus olhos. -Eu amo você.
MEU ANJO
Capítulo 32
Mais dias se passaram, eu conseguia me lembrar de pouquíssimas coisas. Nada de relevante. As dores na costela estavam quase acabadas, apenas uma forte dor de cabeça de vez em quando. Eu havia conversado com todas as meninas novamente, levei bronca de todas.
Inclusive um pouco de Vanessa, mas ela e Normani foram as mais compreensivas. Eu havia até mesmo me desentendido com a minha namorada, mas depois de um tempo tudo já estava resolvido.
Agora estávamos na delegacia, só faltava o meu depoimento. O certo era eu ir assim que saísse do hospital, mas não era como se eu pudesse fazer isso sem memória alguma.
Nós tentamos dizer isso aos policiais novamente, que eu ainda estava confusa quanto ao que aconteceu, quanto mais eu forçava minha mente a se lembrar mais a dor de cabeça aumentava.
Eles haviam me dado o prazo de uma semana, e bem, hoje era o último dia. O policial que ficou encarregado do meu caso e o delegado ouviam atentamente o que eu dizia. Eles me fizeram algumas perguntas antes de eu começar. -Bem, agora por que você não me conta quando isso tudo começou? -perguntou o delegado. Sua voz era grave mas eu podia ver que ele estava tentando ser gentil.
Concordei e tentei afastar o nervosismo. Eu teria que falar com cuidado para não simplesmente explodir, não seria legal uma crise no meio da delegacia. -Hm... Há alguns anos atrás, quando eu tinha dez anos, eu estava voltando da escola sozinha porque Alexa não poderia me pegar. -Essa é a senhorita Ferrer certo? -Sim. Ela é minha madrinha, na verdade. Era amiga da minha mãe. -Certo, continue por favor. -Alexa teria uma reunião com os pais de um adolescente que estava dando problemas, ela é psiquiatra, e a senhora Baker, minha vizinha que ajudava a cuidar de mim estava viajando. Nessa época eu morava com minha tia mas ela não queria saber de mim. Simplesmente não se importava. Era numa sexta feira, dia do meu aniversário. Já estava no final da tarde. E ironicamente, o dia estava horrível. Estava prestes a cair um temporal, eu me lembro de ter tido que apertar o passo para chegar em casa. Eu não morava muito longe de lá. Enquanto eu andava na rua tive a impressão de estar sendo seguida, mas não via ninguém atrás de mim.
"Mais tarde nesse mesmo dia, minha tia saiu, e Alexa não pode me visitar por ainda estar presa no trabalho. Estava caindo o mundo lá fora, e eu estava encolhida no sofá assistindo tv. E foi quando eu ouvi alguém bater na porta. O que era estranho, porque minha tia saiu com a chave e eu havia tirado uma cópia da minha pra dar a Alexa. Escondido da minha tia, claro.
"Alexa tinha me ensinado a sempre perguntar antes quem era e foi isso que eu fiz. Não houve resposta. Eu perguntei novamente, mas nada. Eu achei que a pessoa já pudesse ter ido embora, e foi quando eu abri a porta. E lá estava Paul.
"Lembro de ter ficado impressionada com a sua altura. Ele usava uma calça jeans, e casaco com capuz preto. Eu não conseguia ver seu rosto. Ele me pediu para entrar. Eu lhe disse que Alexa havia me ensinado a ser uma boa garota, que eu não podia falar com estranhos ou abrir a porta pra quem eu não conhecia. Paul me convenceu a deixá-lo entrar, disse que queria ser meu amigo e que me daria presentes e brincaria comigo. O primeiro dia foi assim, apesar de não conseguir vê-lo eu sabia que ele me observava atento. Durante um tempo ele ficava apenas lá conversando comigo. Dizia que era meu amigo mas que eu deveria manter segredo, ou ele não poderia voltar. Às vezes me trazia um presente. Eu ficava feliz com isso, com mais alguém cuidando de mim. Acho que no fundo eu procurava nele o pai que eu nunca tive.
"Enfim, até que um dia eu fiz algo que ele não gostou. Ele ficou irado. Se descontrolou e gritou comigo. Após alguns minutos gritando ele começou a me bater. Longe do rosto, provavelmente pra não deixar as marcas à mostra.
"Depois disso as visitas ficavam mais frequentes, mas menos agradáveis. Muitas vezes aparecia bêbado e me batia até não aguentar mais. Eu era só uma criança, ele havia me dito pra não contar isso pra ninguém então eu não contei.
"Mas um tempo depois... Começaram os abusos sexuais. Eu não entendia direito o que estava acontecendo. No início não era tão frequente, mas acho que ele passou a ficar tão obcecado por mim que não parou mais.
"Eu fui crescendo, Alexa passou a perceber que alguma coisa estava errada. Ela viu meus machucados mas eu dizia que havia caído. Eu tinha medo dele. Até o dia em que ela entrou no meu apartamento e... Hm... E viu... O que ele fazia comigo. Ela chamou a polícia na mesma hora e prestou queixa mas... Alegaram que não tinham provas suficientes pra incrimina-lo. Alexa sempre me disse que isso era uma desculpa, a verdade era que o amigo de Paul trabalhava aqui."
Os dois me encararam surpresos, provavelmente não imaginaram que eu diria isso. -Enfim, Alexa se mudou pro meu prédio, mais precisamente pro apartamento na frente do meu. Por um tempo conseguiu evitar que ele viesse, mas sabe, ela não estaria lá o tempo inteiro. Minha tia não queria conceder minha guarda a Alexa, então essa foi a solução que ela achou pra cuidar melhor de mim.
"Por volta dos meus catorze, ou quinze anos, eu não conseguia chegar perto de homens. Eles me assustavam, e me lembravam Paul. Eu comecei a ter uma espécie de surto, quando eu ficava muito estressada eu começava a machucar a mim mesma ou a alguém perto de mim. Até hoje, se eu me sinto muito sobrecarregada eu posso ter um surto. Alexa me ajudou a superar o fato de que eu não conseguia ficar perto de homens aos poucos. Só consegui namorar um menino durante toda a minha vida.
"Quando eu fiz dezoito anos, minha tia se mandou. A única generosidade foi deixar algum dinheiro pra mim. Alexa tentou me convencer a morar com ela mas eu não aceitei, Paul não me visitava há algum tempo, achei que já estivesse tudo bem.
"Obviamente não estava. Ele voltou, e foi dez vezes pior. Dessa vez, ele disse que se eu contasse pra Alexa ele iria fazer o mesmo com ela. Todas as vezes em que tentei me livrar dele, seja fugindo, seja Alexa vindo à polícia, não deram certo. À certa altura eu não via mais motivo pra continuar tentando. Até que Alexa teve a ideia de Miami. Não havíamos tentado lá, e ela conhecia uma pessoa. Verônica Iglesias.
"Quando eu cheguei lá, descobri que Vero havia sido uma paciente de Alexa, sua história é um pouco parecida com a minha. Ela ajudou a me esconder, e cuidou de mim."
O delegado respirou fundo e esfregou as têmporas. Me encarou durante um tempo parecendo ponderar tudo que eu acabei de falar. -E quanto à esses dois dias em que a senhorita esteve sequestrada? -Eu não me lembro de muita coisa. Nessa ultima semana eu me lembrei de ter voltado pra Nova York, mas a partir do momento em que Natalia saiu do apartamento não me lembro mais. -eu já havia contado antes para eles do que eu havia me lembrado. -E você voltou a se encontrar com a senhoria Alvarez? -Não. Ainda não. -Se me permite... -se pronunciou o policial- nós conversamos com seu médico, mas será que poderia explicar novamente por que perdeu suas memórias? -Paul me deu três pancadas. Uma na nuca e duas na testa, por isso fiquei em coma. Além disso por causa do estresse que eu passei nesses dois dias, um jeito de meu corpo lidar com o trauma pode ter sido o de simplesmente... Apaga-lo.
Eles me fizeram mais perguntas, mostrei meus exames e contei mais alguns detalhes. Agora Alexa e Dinah já estavam na sala comigo. Dinah insistiu e bateu o pé dizendo que iria entrar também, Vanessa ficou esperando do lado de fora com Normani. Ela até quis entrar, mas eu não queria fazê-la passar por isso. Dinah andava para lá e para cá, eu apenas esfregava as têmporas torcendo para a dor passar.
Paul não havia sido encontrado, passaram todo esse tempo o procurando, e nada. -Anos atrás, quando eu falei com o suspeito ele estava em total controle. Ele e a vítima sabiam de seus direitos, e ordenamos uma vigilância por garantia. Sinto muito. -disse se referindo à denúncia que Alexa fez alguns anos atrás. -Sim! Uma "vítima" que era uma criança, e uma vigilância por um dia. UM DIA! -gritou Alexa também sem parar quieta no lugar. -Clara tira a blusa. -disse Dinah que até então estava calada por incrível que pareça. -Mas... -Clara, apenas vire. -DJ... -Clara, por favor.
Me virei de costas e pus meu cabelo sobre meus ombros. Senti Dinah subir minha blusa e ouvi ambos respirando fundo. -As marcas de cigarro foram causadas recentemente, correto? -Sim. -resmungou Dinah- além da costela fraturada, facada na coxa direita e no braço, pancadas na cabeça e muito mais. Isso é prova o suficiente pra vocês?
Dinah desceu a blusa, e deu um beijo em minha testa, me lançando um sorriso fraco. Passou seu braço por meus ombros e encaramos os dois. Ambos desceram os olhos pelas cicatrizes nos meus braços e na testa, e se entreolharam em seguida. -Sinto muito... A justiça funciona de modos diferentes para abusos antes e após a maioridade penal. -Que se foda a maioridade penal! Foi estupro e tortura de todo jeito. Olha pra ela! -Mas não há como provar, a não ser por uma confissão. O exame de corpo de delito não continha nenhum... -me olhou com receio mas apenas neguei em sinal de que não me importava- fluido. Não existem evidências de que foi ele. Escuta... -se levantou e deu a volta na mesa, se sentando na beira- eu acredito em vocês. A prova disso foi a demissão do amigo dele no mesmo instante. E eu realmente quero ajudar, mas não posso fazer nada sem provas concretas ou uma confissão.
Dinah revirou os olhos. -Eu não tenho tempo pra isso. -olhou para mim.- Eu não vou deixar nada acontecer a ela. Nunca mais. Nem que pra isso eu tenha que fazer um trabalho que deveria ser de vocês. -Não acho que a senhorita esteja nos entendendo. Não há nada que possamos fazer. Não há meio de provar que realmente foi Paul quem fez isso sem a confissão, como dissemos. -disse o policial. -Confissão? -perguntei. -Sim. -Eu posso te dar uma confissão. -disse com determinação. -Senhorita Aguilar... -Eu posso te dar uma confissão se é isso que precisa. Vocês fazem isso o tempo inteiro certo? Só, você sabe, me... Usem como isca e peguem ele.
O policial olhou para o delegado, que me olhava pensativo. -Nós... Podemos verificar o que pode ser feito. Até lá preciso que vocês voltem para sua residência. Pela manhã lhes informo o que será feito.
Concordei com a cabeça, já me sentindo com um peso a menos nos ombros.
Dinah e Alexa não disseram nada, mas eu sabia que ouviria reclamações e objeções assim que passasse pela porta.
(...)
-Você. Não. Vai. Fazer. Isso. -disse entredentes. -Van... Entende que é pra isso tudo finalmente acabar. Eu quero me ver livre dele, você tem que estar comigo nessa. -Olha bem o que você está me pedindo! -gritou- Você está arriscando sua vida de novo. Você me prometeu, Clara. Você prometeu que não ia fazer coisas imprudentes. -Eu preciso fazer isso, pra ele finalmente pagar preciso da porra de uma confissão. -Isso é insano. Você não pode estar falando sério. A gente está falando de um homem que abusou você durante metade da sua vida. Estamos falando do homem que te sequestrou, drogou, estuprou e te espancou. Ele te bateu tão forte que te deixou em coma Clara. Te bateu tão forte que você não se lembra de nada do que aconteceu. -Você sabe que não foi só isso, sabe que o trauma também ajudou nessa parte da memória. -E a porra do trauma foi causado por quem?!
Respirei fundo e parei em frente à janela. Todos os outros nos olhavam em silêncio, ninguém ousaria interromper Vanessa. Eu nunca a havia visto tão brava. -Você deveria me apoiar nessa. Isso tudo já está sendo difícil o suficiente. -Entende que eu não vou ficar sentada olhando enquanto você faz a pior burrada da sua vida. Não tem como garantir que ele não vá fazer nada com você. -Há alguns dias atrás, você dizia que me apoiaria com o que quer que fosse, dizia que estaria aqui por mim sempre. Isso mudou, não foi? Vai fugir na primeira dificuldade que enfrentamos? -me virei para encara-la, a cada segundo ela parecia ficar mais brava ainda. -Essa não é nem de longe a primeira dificuldade, Clara. E é isso que você acha?! Que eu estou fugindo?! Eu estou tomando conta de você, sua idiota. Eu não quero que nada de ruim aconteça com você, e você não está facilitando muito.
Andei até ela e segurei suas mãos entre as minhas. -Eu só quero o seu apoio. Van, minha vida está uma bagunça, meus pensamentos estão à mil, tudo à minha volta... Está tremendamente confuso. Por favor não me deixa sozinha agora. Não quando eu mais preciso de você, e quando você é a minha única certeza. -ela fechou os olhos e suspirou. -Você está me pedindo muito Clara. Isso pode arruinar ainda mais sua vida, você não está pensando claramente. Eu... Preciso sair. -soltou minhas mãos e saiu correndo do apartamento. -Vanessa -murmurei com a voz já fraca, indo até a porta. -Clara... Deixa ela. Olha, você sabe que não concordo com o que você está fazendo. Mas a Vanessa... Está preocupada. Esse é o jeito dela de lidar com as coisas, ela surta e sai correndo e só assim consegue parar pra pensar e enfrentar o que quer que seja.
Respirei fundo e esfreguei as têmporas. -Só... Vai atrás dela, por favor. Não quero que ela faça alguma besteira. Cuida dela pra mim. -Pode deixar. Vai ficar tudo bem. -DJ sorriu fraco e beijou minha bochecha antes de correr atrás de Vanessa. -Clara... -murmurou Alexa. -Não. Agora não. -Clara, escuta... -Mani, não. Tenho que ir.
Peguei meu casaco, a touca e as luvas e sai dali. Ouvi eles gritando meu nome mas apenas acelerei o passo. Acho que eu também precisava pensar um pouco. Entrei no metro, numa estação qualquer indo para um lugar qualquer sem prestar muita atenção.
Andei pelas ruas no piloto automático, não conseguia enxergar nada ao redor. Quando dei por mim estava na frente do prédio abandonado. É estranho como velhos hábitos nunca morrem.
Subi aquela velha escadaria, abrindo a porta quando cheguei lá em cima e respirando o ar puro. O vento feroz batia jogando meus cabelos para todos os lados, meus lábios estavam ligeiramente rachados pelo frio.
Até que vi alguém no parapeito do arranha céu. Um garoto. Ele estava de costas, os cabelos eram extremamente curtos, os braços estavam apoiados no corrimão e um pé cruzado sobre o outro. Segurava um cigarro com uma das mãos e eventualmente o levava até a boca, parecia estar distraído.
Usava um sobretudo preto, com um cachecol da mesma cor e calça jeans.
Franzi o cenho e ligeiramente cheguei mais perto do menino para vê-lo melhor, ele não me era estranho. Arregalei os olhos ao reconhecer a pessoa. -Luis?!
MEU ANJO
Capítulo 31
-Clara, acorda.
Senti alguém cutucando minhas costas. Resmunguei e virei a cara para o outro lado. -Clara. -O que foi Normani? -Levanta, já está quase na hora do almoço. Aproveita e chama sua namoradinha e sua amiguinha também.
Bufei e me levantei com cuidado para não machucar Dinah. -DJ... Acorda.
Ela fez uma careta engraçada e fofa ao mesmo tempo. Ri e dei um beijo em sua bochecha, me espreguiçando antes de indo até a cozinha.
Fiz um café para mim enquanto fazia o café da manhã de Vanessa, pondo tudo em uma bandeja ao terminar e indo para a sala.
Dinah ainda estava esparramada no sofá, agora mexendo no celular. -Bom dia Papel. Opa, café na cama. Acho que vou roubar você pra mim.
Ri e apenas continuei meu caminho até o quarto. -Clara? -parei e fiz um som nasal para que ela continuasse- da próxima vez tomem cuidado com aonde vocês tiram a roupa fazendo o favor.
Dinah jogou a blusa de Vanessa em mim. Corei e fui rapidamente até o quarto, deixando uma Dinah rindo igual um animal na sala.
Abri a porta e andei até a cama, deixando a bandeja na extremidade esquerda da mesma. Fui até o lado direito e me sentei ao lado de Vanessa na cama.
Ela ainda dormia, estava deitada de bruços com os braços embaixo do travesseiro. O lençol branco cobrindo apenas metade do seu corpo, da sua bunda para baixo.
Me permiti apenas admirar minha namorada por um tempo. Seu rosto com perfeitos traços latinos, sua boca ligeiramente carnuda e entreaberta, seus longos e grossos cílios encostando na bochecha, as maçãs do rosto rosadas e proeminentes, tudo nela me deixava cada vez mais apaixonada.
Suas manias, seu jeito infantil, brincalhão e carente, absolutamente todos os seus defeitos e qualidades. Tudo isso fazia de Vanessa uma pessoa... Perfeita. Perfeita com suas imperfeições.
Dizem que aos olhos da pessoa amada, você não tem defeito algum. Comigo e com Vanessa era diferente, nós reconhecíamos que tínhamos ainda muito para melhorar, sabemos reconhecer os defeitos uma na outra mas nem por isso deixamos de nos apaixonar e muito menos de respeitar uma a outra.
Ela me faz uma pessoa melhor, eu nunca poderia desistir de uma pessoa assim. Fui idiota apenas por cogitar a ideia de deixá-la ir. Eu já conhecia e amava Vanessa com todas as forças.
Sorri e estiquei a mão tirando o cabelo de seus olhos, vendo um pequeno sorriso surgir em seus lábios. Me inclinei e distribui beijos molhados pelos ombros dela, subindo até o rosto enquanto o acariciava.
Me afastei quando vi que ela já estava completamente acordada, enquanto reprimia um sorriso. -Por que parou? Estava tão bom... -disse manhosa.
Ri e continuei os carinhos. Ela se virou e enlaçou meu pescoço enquanto sorria. -Bom dia, minha princesa. -fiz um carinho na sua bochecha.
Seu sorriso se abriu mais ainda, seus olhinhos ainda estavam um pouco inchados por causa do sono. Ela me puxou e me abraçou. Deitei na cama e enfiei o rosto em seu pescoço, sentindo seu cheirinho. Sorri apenas por estar tão perto dela. -Bom dia Clarinha -me deu um beijo na bochecha.
Ela me apertou em seus braços, ficamos um tempo assim até que apoiei minha cabeça em seu peito e a encarei. -Dormiu bem? -Mais ou menos... -respondeu com uma careta. -O que houve, paixão?
Ela sorriu pelo apelido mas logo voltou a ficar séria. -Você me deixou aqui sozinha ontem à noite. -fez um biquinho que tive que morder. -Oh Van... Me desculpa, eu acordei no meio da madrugada e não consegui mais dormir, aí fui pra sala.
Seu bico aumentou, biquei rapidamente seus lábios. -Não faz assim... Agora estou me sentindo pior, eu prometo que não faço mais isso ok?
Ela concordou mas ainda ficou com aquela carinha triste. -Ei, eu fiz seu café. -comentei tentando anima-la.
O que parece que funcionou, pois seu rosto se acendeu no mesmo instante e ela se sentou rapidamente na cama. Ri e puxei a bandeja para perto de mim. -Eu fiz panquecas pra você.
Eu podia jurar que seus olhos brilhavam. E só nesse momento reparei que ela ainda estava sem camisa. Desci os olhos para seus seios descobertos, e engoli em seco alcançando a camisa na beirada da cama. -Hm... Veste isso.
Ela arqueou a sobrancelha e sorriu de lado mas fez o que eu pedi. Suspirei aliviada e dei mais um gole no meu café. Ela puxou a bandeja para o seu colo e rapidamente cortou um pedaço da panqueca e comeu. -Isso está divino, meu Deus.
Me deitei de lado e observei ela comer. De vez em quando ela me dava uma garfada, realmente havia ficado bom.
Quando ela acabou deixou as coisas de lado, e se deitou do mesmo modo que eu. Se esticou e me deu um demorado selinho, que logo se transformou em um beijo calmo. Minha mão foi para a sua cintura e se instalou embaixo da camisa, sentindo sua pele quente.
Vanessa sorriu em meio ao beijo e se aproximou mais colando nossos corpos. Passamos um tempo assim, eu sentindo seu gosto maravilhoso, com seu corpo pertinho do meu. Dava até mesmo para sentir seu coração batendo, estava acelerado em seu peito. Assim como o meu, que ficava daquele jeito no momento em que eu batia os olhos na minha morena. E isso era algo que nunca iria mudar.
(...)
Estávamos eu, Vanessa e Dinah sentadas na sala. Os outros haviam saído para comprar coisas para comer, nós ainda teríamos que ficar mais alguns dias em Nova York.
E por falar neles, no instante em que saímos do quarto, mais cedo, fui bombardeada por perguntas e rodeada por diversos braços. Ally me perguntou trocentas vezes se eu estava bem, só ficou tranquila depois de checar pela enésima vez.
Alexa me puxou para um abraço e disse que conversaríamos depois. Me pediu desculpas diversas vezes, tanto pelo que aconteceu quanto por não poder ficar no hospital o tempo inteiro. Ficamos cerca de dez minutos daquela maneira, ter Alexa por perto era tão bom. Ela cuidava de mim e se preocupava comigo, sem nem mesmo ter essa obrigação. -É... Clara? -Sim? -perguntei sem tirar os olhos da tv. -Podemos conversar um minuto?
Olhei para Dinah com o cenho franzido, mas concordei. -Hm... Claro. Deixa só eu deixar a Vanessa no quarto.
Sim, Vanessa já estava dormindo de novo. Foram muitos dias sem descansar nem um minuto. Peguei o corpo da minha latina nos braços e fui até o quarto, pondo-a embaixo das cobertas.
Fechei as janelas e as cortinas, estava ventando e chovendo horrores. Liguei a tv apenas para abafar um pouco o barulho da chuva.
Ajeitei o cobertor no seu corpo e lhe dei um beijo na testa antes de sair do quarto, deixando a porta encostada. Dinah estava sentada na mesa da sala parecendo estar tensa. -Do jeito que essa chuva está daqui a pouco ela acorda morrendo de medo, então vamos, qual a bomba da vez?
Me sentei à sua frente e esperei até que ela resolvesse me olhar. -Então... Lembra que nós te dissemos que você teria que ficar uns dias a mais aqui? -Sim. O que tem isso? -É que... -ela soltou um suspiro e esfregou as têmporas- quando nós achamos você, ele não estava mais lá. E a polícia não achou nem a sombra do desgraçado. E sabe... Eles precisam do... Seu depoimento.
Me levantei da cadeira e andei em volta da mesa. Eles precisam do que? -Você tem que estar brincando comigo. -murmurei. -É o único jeito de ele pagar pelo que ele fez, Clara. -Foda se ele! Escuta, apenas vamos embora logo pra Miami, por favor? Eu juro que nunca mais volto só não me faz passar por isso de novo. -Clara. -ela se levantou e me segurou pelos ombros- esse é o trabalho deles, ok? Eles já conhecem milhares de histórias como a sua. Eles não vão te julgar nem nada do tipo, eu preciso que você entenda isso. Alem do mais, agora você não pode simplesmente ir embora. E quanto a Natalia?
Respirei fundo e concordei. -Você está certa. Mas... DJ, se eu já quase não consegui contar pra vocês imagina pra pessoas desconhecidas. -Ei, dizem que é mas fácil conversar com alguém que você não conhece e que não conhece você. Eles não sabem nada da sua vida, não tem como te julgar. A única pessoa que pode dizer o que foi aguentar todos esses anos é você Clara. Isso eu entendo. Agora senta, e relaxa. -Como diabos eu vou fazer isso sem minhas memórias Dinah? Eu me lembro de nada. -Esse é o problema. Acha que nós já não tentamos conversar com eles? Acha realmente que eles ligam pra isso? -perguntou- enfim, eles te deram mais uns dias, uma semana no máximo. Todas nós já estamos fodidas na faculdade mesmo. -deu de ombros e se sentou novamente. -Puta que pariu a faculdade! -gemi em desgosto e passei a mão pelos cabelos. -Agora não adianta ficar assim, docinho. De repente nós pedimos pra Alexa conversar com aquele tal de Michael, huh? -balançou as sobrancelhas sugestiva me fazendo rir. -Quem é esse homem afinal? -Não faço ideia. Pergunta pra Verônica. -Ela também não sabe. -Aliás, boa ideia essa de vocês de fingir que são primas. Nós caímos direitinho.
Abri um sorriso de lado e me debrucei sobre a mesa. -Vocês compraram toda a história, docinho.
Dinah riu e bateu palmas. -Olha quem está mostrando as garras.
Um trovão ressoou, aquele barulho ensurdecedor. -Se a Van não acordou até esse momento, agora acordou viu.
E não deu outra. Nem um segundo depois Vanessa apareceu na porta do quarto com os olhos arregalados e ombros encolhidos. Suspirei e cheguei minha cadeira para trás, ela correu até mim e se encolheu no meu colo. Seu pequeno corpo tremia, era de quebrar o coração. -Shh, calma princesa. Já já vai passar.
Acariciei suas costas e ela concordou freneticamente com a cabeça. Dinah se sentou ao nosso lado e me ajudou a distrair minha latina, arrancando risadas dela com as inúmeras piadas. E eu apenas a observava rir. Sua gargalhada alta e gostosa enfeitava aquele dia chuvoso e sem graça.
Eu deveria estar com cara de idiota enquanto a olhava, certamente o sorriso bobo estava lá. -O que está olhando, cariño? -perguntou tímida. -Você. Você é linda. -ela corou e enfiou o rosto em meu pescoço. -Você já me disse isso ontem. -resmungou baixinho. -E vou repetir todos os dias. Espera, do que me chamou antes?
Seus braços se estreitaram em meu pescoço. Ela murmurou algo incompreensível. -O que? Não estou ouvindo Van. -Te chamei de cariño. -tirou a cabeça do meu pescoço e me encarou com o rosto extremamente corado.
Sorri e beijei a pontinha do seu nariz. -Você é tão adorável.
Seu rosto enrubesceu mais ainda. -Ai minha glicose... -reclamou Dinah ao meu lado, mas apenas ignoramos. -Para, Clarinha. -Não posso fazer nada se você é a namorada mais linda. -ela sorriu com a língua entre os dentes e me deu um selinho.
Cobri seu rosto de beijos fazendo Vanessa rir. Dinah revirou os olhos e saiu da sala. -Van? Posso te perguntar uma coisa? -Claro Clarinha. -Eu... Te machuquei ontem? Fiquei com medo de ter feito algo que você não gostou, ou que tenha te machucado... -É claro que não, Clara. Você foi perfeita. Aquilo ontem... Foi maravilhoso. Sabe, eu nunca me senti tão completa. Você me faz sentir assim.
Sorri e beijei sua bochecha. -Eu também me sinto assim princesa. Agora vamos lá fazer companhia pra Dinah antes que ela faça escândalo de novo.
Ela riu e se levantou do meu colo. A chuva havia diminuído, apenas com aquela fina garoa caindo.
E novamente, Dinah estava jogada no sofá. Essa menina não sabia fazer outra coisa da vida. Nos sentamos e vimos um filme qualquer que passava. Passei meu braço pelo ombro de Vanessa e entrelacei nossos dedos. Vez ou outra ela acaricia minha mão com o polegar e depositava um beijo nela.
Um tempo depois todos chegaram. Ally, Troy e Lucy se sentaram conosco para ver filme, enquanto o resto foi ajudar Alexa a fazer o jantar na cozinha.
O resto da noite foi desse jeito, recheada de brincadeiras, todos enchendo o saco de Alexa por ter deixado a comida queimar um pouco, e ela se desculpando repetidamente.
Alexa insistiu para que todos nós ficássemos juntos na sala, então ela afastou os sofás e ajudou a espalhar os colchões. Ficaram Ally e Troy em um, Vero e Lucy em outro, Vanessa e eu em outro e Normani e Dinah no que sobrou. Afastadas uma da outra, claro. Mas por incrível que pareça hoje a interação entre as duas estava bem melhor. Sem troca de farpas.
Alexa deu um beijo na testa em mim e em Vero antes de se acomodar sofá. -Boa noite querida. -Boa noite Al. -murmurei sorrindo antes de deitar a cabeça no ombro de Vanessa.
Vanessa resmungou e me puxou para deitar em seu corpo. Sorri e aspirei seu cheiro. -Você gostou de dormir assim, não é? -sussurrei em seu ouvido. -Sim. A intenção é que você se sinta protegida, está funcionando? -sussurrou de volta.
Ri baixinho e concordei. -Está. Continue com o bom trabalho.
Ela beliscou minha cintura, e eu ri novamente. -Durma bem, bebê resmungão.
Aquele apelido idiota já não me incomodava tanto assim, ela não iria parar de me chamar dessa maneira mesmo. Beijei seu queixo e suspirei voltando a esconder o rosto em seu pescoço. -Você também princesa.