Hoje ele foi embora
Hoje ele foi embora. Não embora como das outras vezes, com promessas de uma possível volta, como quem vai passar uns dias na reabilitação. Não, hoje ele foi embora. Levou as malas, os livros, minhas cartas de amor. Tudo que eu mesma separei e embalei, enquanto esperava que ele se decidisse, se ia de vez ou se voltava. Dessa vez não ouve dúvidas, ele foi embora.
Moro em uma rua movimentada, todos os dias os carros passam na frente da minha casa, e as vezes manobram diante do portão. Eu sempre ouço o barulho que os pneus fazem, o farfalhar das pedras. Já perdi a conta de quantas vezes ouvi esse som nos últimos meses, e achei ser ele. Voltando pra casa depois do trabalho, da academia, de qualquer lugar.
Esses breves segundos, esses reflexos de memória, quando acordo de madrugada e minha mão cai ao lado, sobre um travesseiro vazio. Esses momentos tão desprevenidos que me dou conta da realidade, eu não tenho palavras pra descrevê-los.
Hoje ele foi embora. Mas quando chegou pra buscar suas coisas, eu sabia que ouviria o som dos pneus novamente, e dessa vez não seria ilusão. Eu ouviria o latido específico que meu cachorro dá ao vê-lo. Ouviria o som da voz, o cheiro, a atmosfera no ar. E doeu, tanto quanto eu achei que doeria. Doeu quando ele chegou e eu senti o peso da gravidade se amenizar. Mesmo enquanto eu chorava e ouvia ele no outro cômodo chorar também, enquanto ele colocava as coisas no carro, enquanto meu cachorro pulava de alegria. Mesmo diante da dor, eu senti aquele velho conforto, e isso doeu também.
Não pude olhar em seus olhos por muito tempo. Estou sempre pronta pra perdoar, diante de sua expressão tão dócil. Mesmo quando ele vai embora, de novo, de novo, e de novo, e quando suas palavras não tem mais nenhuma credibilidade.
De fato, ele foi embora. Minhas lágrimas não o seguraram. Meu cachorro deu um uivo melancólico e latiu manhoso por muito tempo. Eu chorei como criança e me perguntei: poderia ter feito algo que o faria ficar?












