Maria Bethânia por Marisa Alvarez Lima, 1980.
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Maria Bethânia por Marisa Alvarez Lima, 1980.
Tracey Emin, ‘Life Model Goes Mad’, 1996
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AA (Ansiosos Anônimos) e o breve resumo de uma vida sem graça.
Quando eu era pequena (tipo uns 10 anos de idade), estava no recreio, na escola, e uma vizinha de prédio me viu lanchando sozinha. Ela veio até mim e me perguntou porque eu estava sozinha e eu não soube dizer o motivo, mas disse que estava tudo bem. Há alguns anos trás, meu irmão Samuel veio me contar que essa vizinha tinha falado com ele este fato e que anos depois ele entendeu que tinha alguma coisa ali, só não sabia o que era a época. Eu era quietinha, quase calada, não tinha amigos. Só brincava como carta branca com os colegas do prédio, porque num pique pega eu morria de medo de ser pega e na minha vez de pegar, não conseguir pegar ninguém. O medo sempre me paralisou em vários níveis, desde a brincadeira até nos momentos mais sérios.
Meus primeiros sintomas mais sérios de ansiedade foram, aos 17 anos. Tinha começaram aquelas provas imitando vestibular, sabe? Meu coração batia forte, que parecia que ia sair rasgando o peito. Eu achava que era normal, que todo mundo ficava daquele jeito. Me lembro que em uma dessas provas, ao terminar, comecei a sentir um enjoo forte. Falei com a professora, que pediu pra uma colega me acompanhar até o banheiro, mas só deu tempo de sair da sala pra eu colocar os "bofes pra fora". No dia eu não entendi porque eu me senti daquele jeito tão estranho, do nada.
Para o meu alívio, passei de primeira na única faculdade que me inscrevi. Mas foi ali que as coisas começaram a piorar. Com 2 meses de curso eu já sabia que não queria aquilo e foi quando me corpo começou a gritar socorro e eu sem entender nada. Eu entrava pra aula pra fazer uma prova simples de filosofia ou matemática 1, mas começava a passar mal, enjoar e tinha que sair correndo pro banheiro. Eu não sabia porque eu estava daquele jeito e morria de medo de saber, de ser alguma doença pesada. Falando nisso, eu perdi as contas de quantas vezes eu desejei que fosse uma dessas doenças, pra pelo menos ser algo mais palatável aos olhos dos outros. Foi 1 ano e meio fingindo fazer um curso que eu não aguentava nem pensar em por os olhos nas matérias. As únicas pessoas que sabiam disso era minha psicóloga e meu então namorado. Namorado este que conheci virtualmente, porque né, - calada, sem amigos, não saia de casa, só olhava pro chão - só na internet eu conseguia me comunicar e conhecer pessoas (obrigada por tudo, twitter). E, psicóloga esta, que comecei a frequentar depois de tentar tirar carteira e não conseguir chegar a prova de direção. Lembro-me de certo dia, o professor de direção pedir pra eu esticar as mãos, para eu mesma perceber que estava tremendo. Depois deste dia, eu não consegui mais ir as aulas... Eu chegava no meio de caminho e começava a ter ânsia de vômito.
Estava em 2010 e depois te tomar coragem e decidir fazer vestibular para outro curso, a vida melhorou consideravelmente. Eu tive meus problemas na faculdade, envolvendo pessoas, claro, mas hoje estes problemas não me incomodam. O curso foi uma delícia de fazer de modo geral. Eu não me preocupava tanto com a vida. Até parei com a terapia. Tinha 1 (um) amigo, que era meu namorado na época e, por isso, eu não precisava nem olhar pro lado. Época tranquila pra cabeça. Pena que todo carnaval tem seu fim.
No final da faculdade, eu terminei meu namoro e então fiquei sem nada para me apegar. Perdi aquela base sólida toda de uma vez e comecei a tentar entrar de fato na vida adulta. Claro que não consegui “nem um pouco direito”. Comecei a ter crises diárias de ansiedade. Acordava todo dia, as 7h, passando mal, tremendo, muito enjoada e pensando que eu deveria estar trabalhando, mas não estava, que eu deveria correr atrás, mas não sabia como, que eu devia ser uma pessoa diferente, mas não era. Arrumei uma pós para fazer, que me salvou em alguns sentidos. Eu tinha um motivo pra sair de casa e colegas para me levar “pra rua”. Um amigo de twitter virou um affair, que me ensinou muito sobre as relações interpessoais, sobre as variadas formas de amor, de amizade e de companheirismo. Nessa toada fiz amigos, alguns que estão comigo até hoje.
Foi com 26 anos e meio ano após sair da faculdade, que comecei de fato a tratar o que sempre me fez diferente do resto e, ao mesmo tempo, como hoje vejo, é o que mais me faz parecer um ser humano. Fui a alguns psiquiatras, comecei a tomar remédio, procurei psicólogos e de uma crise em outra, procuro me adaptar a mim mesma todos os dias.
Hoje, em 2022, aos 32 anos, me vejo caminhando. Ainda com aquela sensação (sei que muitos tbm tem) de que não sou o que eu esperava de mim, mas, ao menos, estou caminhando. Eu sei que reclamo muito da vida, e talvez seja por isso que estou escrevendo este texto, mas as vezes é a reclamação que me segura viva. Expor minhas angústias me ajuda de alguma forma. A intensidade das minhas emoções me faz uma pessoa “doente”. Uma doença nada palpável, subestimada, mas muito sentida por mim, na grande maioria das vezes de forma solitária.
Sou uma mulher branca, de classe média e não precisei me esforçar muito na vida em sociedade, por causa dos vários privilégios que tenho. Também sou uma mulher que convive com TAG desde que se entende por gente, que tem sensações que transcendem a natureza do ser, percorrendo todos os orgãos e explodindo a cabeça, o estômago, a pele, os músculos, causando dores físicas e psicológicas.
Ainda não sei porque sou assim e talvez nem saberei. Tomo três ansiolíticos diariamente, além do tarja preta, que, de vez em quando, uso para encontrar algum boy ou quando minha chefe entra na sala. Ainda acho que não me esforço o suficiente, que tenho capacidade pra ser muito melhor do que sou, que deveria ser grata pela vida maravilhosa que tenho, mesmo sabendo que dou meu máximo todo dia mesmo tremendo, sem vontade de comer direito e sem concentração alguma para qualquer atividade relevante.
A vida para mim é cansativa. Tiro de coisas simples como piadas ou conversas fiadas com amigos e conhecidos, a força para vencer mais 24h, vivendo assim meu próprio AA (ansiosos anônimos).
Castle St. Michael’s Mount, Cornwall England
© Chris Hayward
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wynnejean