bhaktar:
Como o indivíduo que poucas vezes era ouvido e levado a sério em meio as questões familiares, especialmente por seu comportamento que por vezes beirava o excêntrico, Ravi aprendera ser um observador razoavelmente bom do comportamento humano. Era assim que conseguia, por vezes, ler o que poderia existir por trás do comportamento robótico de Lorenzo - embora o mais velho fosse realmente um especialista em parecer o mais blasé possível o tempo inteiro. Lola, por outro lado, e possivelmente por ainda ser jovem, era bem mais transparente, o que tornava mais facilmente perceptível que por trás da atitude rebelde existia alguém que vivia sob absoluta tensão. Percepção que o fez pensar em Luca que vivia igualmente tenso, porém potencialmente mais assustado - especialmente por ter Lorenzo enchendo a paciência sempre que possível. O que o fazia considerar que, ao contrário de sua versão mais jovem, que queria vivenciar mais do mundo do irmão mais velho, recebia mais que suficiente apenas com aqueles vislumbres esporádicos. Viver naquele tipo de angústia certamente não fazia bem aos chacras e menos ainda para a pele. Além do mais, gostava da liberdade e todos ali pareciam de uma forma ou de outra presos. - Você soou como o Rei Julian de Madagascar e sinto que estou prestes a levar um golpe! - pontuou com certo divertimento, embora fosse quase impossível não manter-se ligeiramente desconfiado diante de uma postura que exalava alertas dos mais variados. Enquanto refletia, daquela sua maneira por vezes um pouco lenta, o tronquilho em seu bolso colocou a cabeça para fora para que pudesse se fazer visto. - Ah, esqueci de apresentar! Esse é o Raj, meu tronquilho, assistente pessoal em herbologia! - meneou a cabeça de uma maneira que o fazia parecer excessivamente sério, mas o sorriso arteiro em seus lábios logo o traiu. Ravi voltou a retirar o tronquilho do bolso porque o mesmo parecia muito mais interessado em explorar as plantas ao redor que em dar atenção a conversa de ambos. - A família da minha mãe é meio fascinada por animais mágicos. Pensei em magizoologia se herbologia não desse certo, mas a morte do meu tio, pai da Elissa, a namorada do Pipi, traumatizou minha abuela o suficiente para saber que ela surtaria com a possibilidade. Enfim. Tronquilhos são inteligentes e ótimos auxiliares, realmente. - ao contar aquele pequeno fato familiar recordou-se imediatamente de Lorenzo informando categoricamente que jamais deveria falar sobre a família com alguém envolvido nos negócios dele - o que apenas amplificava sua percepção de que lidavam com algo pior que uma seita. Ravi coçou brevemente a testa larga. Um suspiro resignado escapou a ele, mas logo transformou-se em uma risadinha abafada. - Are, do jeito que você fala implica que estou fornecendo algo ilícito para o meu irmão. - e estava, mas adorava fingir que não. - Eu não diria que sou exatamente um fornecedor, mas, bem, ele me avisa quando precisa de algum chá, ou erva para poções e coisas assim. E não me custa ajudar já que ele banca meus estudos e tem sido meu suporte financeiro já que meu querido baba jamais pôde e quis me assumir. Daddy issues. - um ar de falso sofrimento pautou as feições de Ravi. Não sentia, necessariamente, a ausência da figura paterna, mas, em sua infância e início de adolescência aproximara-se da cultura indiana na esperança de que fosse percebido para além de um deslize. Entretanto, no presente momento, o que o divertia sobre aquele tópico era que mesmo casado e constituindo uma família seu genitor não possuía um herdeiro oficial do gênero masculino, e na Índia para as mulheres não eram dados os mesmos direitos em termos sucessórios. Nos últimos meses havia se tornado comum tentativas de contato que Ravi ignorava com muito divertimento. - Ninguém quer transar comigo! Sou um homem sensível, as mulheres me rejeitam. Apenas a masculinidade tóxica as seduz. Até Lorenzo conseguiu descolar um casamento, sabe Shiva como. - o sarcasmo pontuava seu timbre no instante em que dera um passo mínimo em direção a Lola. A distância entre ambos era confortável, mas não o suficiente para impedi-lo de sentir o sutil aroma que emanava de seus cabelos. - Eu sou irmão do dono da casa, normalmente não preciso passar por revista! Especialmente porque tenho sempre um soldadinho de chumbo na minha cola. - revirou os olhos, exasperado, porque morreria achando um exagero tremendo da parte de Lorenzo manter excesso de segurança ao redor de cada membro da família. Embora, considerando o que vinha descobrindo pelos últimos meses, a paranoia do primogênito se tornasse cada vez mais plausível. - Mas me parece que a revista não é bem feita se você consegue manter um canivete. Não recomendo tirar pedaços do meu corpo, nem deixar sua irmã viúva precocemente, porque infelizmente pra você e felizmente para mim e Lorenzo temos uma mãe latina e elas podem ser pior que o capeta na proteção da cria. Chega a ser totalmente constrangedor. - uma careta pontuou suas feições. Não era como se tivesse uma má relação com a mãe, mas ela costumava sufocá-lo, especialmente pela ausência paterna - o que se tornou ainda mais frequente quando Lorenzo resolveu viver na Itália com o pai. - Mas também imagino que nada assuste quem tem reuniões sobre a Bravta, hum? Me preocupa os rumos dessa seita de vocês e me parece que é melhor continuar não sabendo demais ou vou terminar mais envolvido que gostaria. Por Shiva! Odiaria ter que viver em função da seita e não dos meus próprios desejos. - pontuou, calmamente, utilizando-se de um pouco mais de seriedade do que era seu comum. Os olhos castanhos estavam presos aos de Lola como se tentasse enxergar algo a mais. - Respondendo sua prévia pergunta: meu irmão me chamou. Temos nossos próprios negócios. Mas acredito que ele esteja ao resgate do Luca o que me deixa com tempo livre e a mente criativa. - pontuou, com um sorriso artimanhoso ganhando o canto de seus lábios. - Levando em conta que você está entediada, sundar ladakee, posso pensar em uma ou outra maneira de entretê-la. - seu olhar lentamente percorreu o corpo de Lola, demorando-se um instante a mais no trajes finos que ressaltavam as curvas de seu corpo, nos lábios cheios tão característicos aos latinos, antes que seu olhar encontrasse o dela. - Quão disposta a se sujar a rajkumari está? De qual maneira vai depender de seu espírito.
Lola girou o canivete entre os dedos, sem pretensão de ser ameaçadora. Não que se achasse muito ameaçadora, mas sabia como ninguém fazer um escândalo, como uma espécie de estereótipo da mocinha de novelas mexicanas. Não era um traço sobre si que gostava, mas também parecia parte de um universo de maneiras para lidar com a realidade da máfia. Inclusive, com Lorenzo, a quem tivera a singela impressão de ter retornado da incursão de resgatar Luca. Suas feições artimanhosas desapareceram por alguns segundos e respirou fundo, julgando ser mero barulho de algum carro da vizinhança. Em seguida, buscou dentro de si a personagem que também não tinha a menor intenção de sair revistando Ravi, embora suas mãos não se importassem em passar a mão nele por inteiro. Considerando que nem direito a uma vida amorosa possuía, se envolver com outras pessoas era quase uma Black Friday: em que ela era a completa fake news. – Rei Julian de Madagascar, own. Eu não tenho tempo para maquinar uns golpes. Prefiro dá-los pessoalmente. – Lola estreitou os olhos e guardou o canivete no bolso da calça. Meneou a cabeça para indicar que o ouvia na descrição sobre Herbologia e estendeu a ele o olhar suavemente fascinado, porque não era todo dia que ouvia alguém aparentemente apaixonado por um monte de planta nada a ver. Inclusive, alguém que falasse bem da família, destacando todas as tradições. Família entrava no mesmo conceito de fake news na vida de Lola e nem tivera tempo para aprender a se chatear com aquilo. Apesar do excesso de idiomas ao seu redor, sabia perfeitamente como resumir várias existências envolvidas naquela “seita”: cada um por si. Menos as mulheres, a não ser que estivessem envolvidas com algum velho de piroca murcha. – Fico realmente passada que alguém no mundo bruxo goste dessa disciplina. Você também é adepto de banhos de floresta e praias de nudismo? – ela indagou, sentindo-se sob controle. Manteve uma sobrancelha alteada, no melhor dos intentos para frisar o duplo sentido daquela questão. – Agora, com todas essas informações gratuitas, posso atualizar meu banco de dados de golpes e, quem sabe, sequestrar o seu tronquilho. Acho que me valeria muita grana, considerando que você faz parte da planilha de gastos do Lore. E, bom, uma vez que se está nessa planilha, ninguém se torna mais um anjinho de Deus, sabe? Você pode não me contar qual é sua parte do pacto, essa de fornecedor meio que não cola, ainda mais falando de chá para alguém que não sabe beber outra coisa que não seja vinhos de milhões de dinheiros e com um gosto ruim da porra. Mas, em nome da nossa amizade em ascensão, vou acreditar. Até porque sou uma pessoa que tem um lado bom e espero que você resolva seus problemas de paternidade. – o desdém no final da frase casou perfeitamente com o ar de falso sofrimento de Ravi e Lola se permitiu a rir um pouco. – Ufa! Ainda bem que você trocou de assunto, porque family business é um negócio muito complexo. Eu pensei que você e aquela menina, a Lys, acho, se comiam, não? – Lola poderia não guardar os nomes, a não ser que fossem muito diminutos, como Luca, Ravi e Lys, mas conseguia reconhecer os rostos das pessoas facilmente. – E claro que você meteria uma ladainha com essa de homem sensível. Mas até que dá para acreditar, já que tem mulher que cai fácil na dos amantes de plantas. Deve ser a prova maior de sensibilidade, não? – ela deu um novo passo à frente a fim de enxergá-lo melhor. Apesar de ainda não ser o auge do inverno, fazia frio e a brisa fresca parecia ser capaz de se tematizar com o farfalhar das plantas ao redor, despertando um suave cheiro concentrado de grama. Pensou em avançar mais, mas se interrompeu no segundo que o ex-grifino dera um passo mínimo em sua direção. Fazendo-a se perguntar se o cheiro era dos arredores mesmo ou da pele de Ravi. – Acho que posso lidar com uma mãe latina, considerando que parte do meu sangue é do mesmo nível de loucura e baixaria. – um pequeno sorriso despontou em suas feições e ela se sentiu um pouco relaxada na presença do rapaz. Aparentemente, era um raro caso de não ter que ir muito a fundo, porque as perguntas e as afirmações não reverberavam no tanto de coisa que escondia. No entanto, tinha uma singela impressão de que ele não era bobo, nem nada. Mesmo concentrada em alguns aspectos, seus sentidos sabiam que muito do que fora dito era um intento de que ela desse um pouco com a língua entre os dentes. E era quando sua língua sempre ardia, porque sabia que estava perto de explodir sobre o contexto que vivia, restando-lhe dar mensagens passivo-agressivas nos chats e, secretamente, era quase uma decepção que ninguém notasse algo de errado. Fora que Luca tinha absolutamente pavor de agir, mas, do seu ponto de vista, ele, como ela, também estava à beira de um precipício. A diferença é que seu melhor amigo tinha mais responsabilidades de campo e ela era preparada para ser uma esposa e fiel seguidora do futuro-marido-promovido-a-aniquilador-da-competição-da-famiglia. Fato que lhe arrancou um suspiro exaurido, porque ninguém estava preparado para aquilo. – Digamos que devemos usar um pouco de magia para esconder as coisas e, hoje em dia, está mais fácil segurar um canivete que uma varinha. – e o fato de não estar com a varinha não a preocupava. Como costumava dizer, se fosse para brigar, que fosse no trouxa style, pois sabia que teria satisfação de quebrar a cara de alguém. – Você fala tanto da seita, mas duvido muito que não tenha nenhum detalhe sórdido. Afinal, temos que concordar que Clarice se casar com Lorenzo é a coisa mais bizarra do mundo. Parece que tem a mesma energia desse consagrado aí, o Pipi, atrás da tal Astrid. – Lola deslizou as mãos pelos próprios cabelos, quase em uma própria exposição de si mesma ao notar o olhar de Ravi dançando por seu corpo. Considerava-se uma pessoa de sangue quente, mas, em oportunidades em que poderia sair ganhando, suas veias começavam a latejar facilmente. Não retribuiu o olhar, pois passara uns bons minutos observando a “qualidade do produto” e se deteve em achar um milagre lembrar o nome dos dois enquanto deslizava a língua suavemente pelos próprios lábios. Deveria ser porque era tão repetitivo nos chats e também por pertencer a mesma Casa que o tal do Pipi. – Acho bom que não queira saber demais da seita, embora o fato de você também ser acionado pelo Lore o inclui. Acho que teremos uma longa noite pela frente. Que Deus cuide da alma de quem chamou Luca para sair. – ela suspirou teatralmente, porque não era da sua conta as tretas que escalavam entre ambos. Porém, não queria dizer que não ficava putérrima depois, sendo o band-aid do pobre do Luca. – Bom, dependendo do que Luca anda fazendo, Lorenzo dará uma volta completa para uma lição de moral e todos chegarão com uma imensa cara de bunda. O que nos dá tempo, como grifinos metidos a curiosos, romper a moralidade italiana norteada pelos princípios católicos. – intimamente, ela sabia que não era uma boa ideia falar qualquer coisa, ainda mais para Ravi, que tinha consciência de que era de certo modo querido para Lorenzo. O mesmo sobre Elissa, a quem tivera pouquíssimo contato. Não sabia o que tinha em mente, mas, com uma nova aproximação, que a fez, enfim, deslizar o dedo indicador pelo queixo de Ravi, sabia que não podia sair perdendo. – Posso manter suas pernas e seus braços, desde que você aceite entrar nessa imensa prisão e me tirar desse imenso tédio, o que acha? Posso te mostrar a minha coleção completa de canivetes italianos. – embora tivesse mesmo uma coleção, o que Lola queria era conhecer “o canivete do Ravi” e isso se expressou em um sorriso cheio de malícia. Considerando que ele era um pouco mais alto, ficou na ponta dos pés e murmurou: – Acho que é uma boa hora para quebrar vários códigos de conduta e tabus que assombram essa linda mansão, o que facilita a nossa próxima conversa, dentro do meu quarto: meramente negócios, mas onde você e eu estaremos completamente sem roupa. – ela voltou ao campo de visão dele e meneou a cabeça, indicando a porta da qual surgira inusitadamente. – Faço questão de você não se sentir mais de fora da turma, por ser um rapaz sensível que não transa. E, caso o grande Lore surja na sua mente nesse minuto, não se preocupe. Apesar de ser meio difícil, alguns seguranças são facilmente corrompidos com um vale night. Mas eu gosto de pensar que não é da conta deles, então, só me resta esperar que você me siga. – seus olhos castanhos brilharam suavemente na escuridão, ornando com o sorriso lascivo. – Caso não, foi ótimo saber sobre sua linda paixão por Herbologia. É bem fofo.














