Lorraine Iara, a sereia dos rios que quer se casar.
Figurino: Igor Castro e Daniel Filho
Make: Daniel Filho
Foto: Iagor Perez, Davi Pontes e Daniel Filho
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Lorraine Iara, a sereia dos rios que quer se casar.
Figurino: Igor Castro e Daniel Filho
Make: Daniel Filho
Foto: Iagor Perez, Davi Pontes e Daniel Filho
Dezembro de 2014, sou Lorie. Menos de 6 meses sendo Lorie. Estava no ENUDS (Encontro Nacional Universitário de Diversidade Sexual) que aconteceu em Mossoró. Na noite anterior da fotografia houve uma festa e ao voltar lembro que passei mal in drag. Para mim foi uma situação inusitada porque o meu alter ego tem um limite muito tênue entre o que realmente sou, quer dizer, ele se relaciona diretamente com minha transsexualidade, a qual eu não defino. Sentir um vômito descer pela garganta para mim foi uma das experiências mais fortes que tive como Lorie. Sentir a vulnerabilidade do meu corpo sendo ela. Recentemente, penso muito sobre o que é gênero e minha opinião é que ele se relaciona com o corpo. Eu acredito muito que o corpo é um fator importante. É por meio dele que nos expressamos ou nos escondemos. No processo de sê-la, modificar meu corpo, contribui muito para a transformação que não é só a mudança da maquiagem, da roupa e da peruca. Olhar-me no espelho e ver Lorie sair de dentro de mim.
Limpei meu vômito e aceitei um convite de participar de uma roda de conversa de fim de festa, um assunto que reúne pessoas quando a festa não anima mais ninguém: astrologia. Em frente a uma barraca vermelha do alojamento
do evento, um colega comenta em tom de brincadeira, barraca vermelha atrai gira. Falamos sobre misticismo e assuntos afins. Lorie se abarca muito no misticismo, vive-o de uma maneira cotidiana, busca na vida coincidências que apontam caminhos, sincronias. Está entre tudo, nunca é nada de fato. Nunca é não e nunca é sim. Às vezes me incomoda essa atitude. Lorie apesar de ter uma obstinação, por outro lado também se deixa levar pelo que está fora e busca lá sinais para seguir. Como se deixasse as coisas decidirem parte de sua vida por si. Foi assim que agi ao me desmontar nesse dia. O processo de desmontação geralmente é divertida, enquanto me desmonto lembro de tudo o que aconteceu enquanto era ela, é como sentir nostalgia, mas guardando aquele segredo de que eu sou ela e sempre de alguma forma sou ela o tempo todo.
Nesse dia no entanto acredito que me desmontei de uma forma um tanto melancólica. O vômito havia despertado em mim questionamentos. Um outro ponto aliás que me incomoda dessa vulnerabilidade que Lorraine tem em relação ao mundo externo é que isso me faz um tanto desorganizado. Demaquilei-me rapidamente, guardei o salto, nem tirei a roupa. A peruca, um amigo prendeu em cima da barraca, como uma bandeira em estandarte. De início tive medo de perder a peruca. Ela marcava a presença de Lorie naquela barraca, de outra forma. Dormi do lado de fora da barraca, antes de fechar os olhos, observei a peruca, não sei se admirado ou admirada.
A peruca voava pendurada na barraca como uma bandeira em estandarte. Depois do tempo, acordei onde estaria meus pés e minhas mãos. Não parecia fazer parte do meu corpo. Acordava devagar, ventava muito forte, aliás ventava muito em Mossoró e era uma dádiva porque o sol lá é intenso. Sorri por dentro. Virei devagar para o lado ainda deitado onde uma outra amiga dormia. De súbito, a peruca se soltou da barraca, sobrevoou até deitar-se na minhas pernas. A peruca era uma cauda netuniana, ilusão. Minha amiga confirmou que era uma cauda de um sereia netuniana. Imediatamente registrou a fotografia que é exibida no início desse texto.
Depois de alguns dias, houve uma outra festa na qual me montei novamente. Foi a última vez que me montei em 2014 no dia 16 de dezembro. A banda “Verônica decide morrer” se apresentaria no dia, cuja vocalista é uma travesti; dentre outras apresentações, a do grupo “Baphão Queer” também me chamou a atenção. Naquele dia Lorie estava decidida em se drogar, depois da experiência do vômito, havia uma certa curiosidade em deixar o corpo e o espírito vulneráveis. Um amigo da delegação do Ceará me cedeu um LSD que se chamava “Kama Sutra”. Engoli a droga e comecei a curtir a festa e a música. Quando minha noção de espaço-tempo mudou completamente. Minha visão parecia desmembrar o espaço de acordou com meu olhar. Ao mesmo tempo que os espaços se tornavam menores porque eles existiam em função da minha atenção sobre eles, eles pareciam inúmeros porque minha visão criava diversos espaços diferentes que surgiam de acordo com a situação do momento. Quer dizer, eu não vivia no espaço real, eu vivia em quadros de filme ou cenários que minha visão recortava no espaço da festa, para ser mais claro. Esse início da onda foi uma experiência interessante mesmo que eu já previsse que algo ruim poderia acontecer com essa mudança na minha maneira de sentir o mundo. Tentei interagir com algumas pessoas, mas minha relação com elas era limitada, tornei-me muito antissocial.
Logo aconteceu a performance do grupo “Baphão Queer”. Era uma dança que aconteceu no meio da rua. Do espaço do evento havia uma sacada de onde podíamos assistir. Minha noção de espaço-tempo levou a performance, para mim, a um nível estonteante. A ocupação da rua pelos dançarinos foi genial já que minha noção de espaço-tempo estava diferente. O grupo havia se apropriado de uma frase de um pastor evangélico: “homossexualidade é demônio no corpo”. Não sei se há algo de realmente extradionário nessa frase, mas eu cresci em família evangélica e em subúrbio de uma metrópole do Rio de Janeiro onde a homofobia e que dirá a transfobia era normal no cotidiano. Não quero me aprofundar nesse texto nesse assunto, mas a opressão que sofri não foi pouca e diversos caminhos da minha vida me levam a respeitar e muito a militância LGBT e como só estar presente em um evento que discute questões de gênero e sexualidade me empodera.
A simples ironia da frase junto com o efeito da droga foi renovador para mim. Olhei rapidamente para o lado, dispersando minha atenção do ato e reparei uma menina que fazia parte da organização do evento. Uma menina trans, que naquele dia que era uma festa proposta a ser uma festa Drag, estava vestida de menino. Eu nunca havia me sentido mais Lorie do que naquele dia, talvez por causa do efeito das drogas que me situavam mais ainda na minha persona drag, e nessa situação, ver essa menina trans vestida de menino me deu uma angústia sobre como eu enxergo o meu gênero.
Não demorou muito até que efeito da droga me fez entrar numa onda negativa absurda. Assim que a performance terminou, e eu, no mesmo estado de catarse, vivia os espaços-tempo numa frequência maior talvez. E depois parecia que algumas ações se repetiam, como se eu estivesse presa no tempo, aliás, não é nada incomum depois do consumo do LSD. Entrei numa onda muito ruim. Para mim as pessoas eram controladas por mim, pela minha visão, como se elas fossem imagens criadas por mim. Comecei a me sentir vazia diante do mundo, solitária. E, realmente, depois de o efeito passar repensei e cheguei a conclusão de que há muito que se repete aqui. Os gestos das pessoas, algumas atitudes, mas minha atenção estava de um jeito que isso me incomodava demasiadamente. Talvez venha daí a minha urgência em pensar minha liberdade de gênero. Lorie para mim é um manifesto à minha liberdade de gênero.
Meus amigos não entendiam o que se passava, porém eu já me encontrava montada in drag e sentada na escada de acesso do evento e pedi desesperada que alguém me acompanhasse. Meus amigos estavam incomodados comigo ali sem fazer nada mas não demonstravam. Um dado momento pedi que dois deles trocasse de papel. Como se pudessem um e outro atuarem baseados em outro e um, uma simples troca. Um deles tem um tique de levantar o cabelos com as mãos por cima do rosto e o outro calvo, mas com um cabelo razoalmente grande na parte não-calva, tentou repetir o gesto. Engraçado para eles mas não para mim que a questão do pedido além do incômodo com a repetição do espaço-tempo era minha percepção do gênero.
Todas as outras pessoas me pareciam mais femininas que o comum, isso é, dentro da minha visão sobre o que é feminino. As pessoas estavam mais bonitas também. No primeiro momento isso me assustou, mas logo passei a admirar a beleza das outras pessoas e não era à toa, claro, o nome da droga era “Kama Sutra”, depois inclusive me disseram que ela é mais indicada para situações mais íntimas. O susto em relação a beleza das pessoas se dava a me incomodar. Por que era que a beleza das outras pessoas podia me incomodar? Lembro que em um dado momento entrei em um banheiro e ele se encontrava com as paredes sujas. Lá pude ver que o banheiro sujo não era bonito e isso foi um alívio. Os fluidos das paredes pareciam se mover e evaporar vagarosamente, a intensidade com que via a beleza das pessoas se manifestava de outra maneira no banheiro sujo. Depois pensei que se ali houvesse um espelho eu poderia ter entrado em choque, já que a imagem de outras pessoas mexiam tanto comigo, que dirá minha própria imagem? A beleza me emocionava.
Resolvi me isolar, inclusive dos amigos e aos poucos fui me convencendo de atravessar a rua e seguir para o alojamento
. Engraçado que ao chegar no alojamento
, Verônica da banda que havia tocado estava conversando com uns amigos. Como já conhecia as músicas da banda na festa, elas me ajudaram a me nortear numa situação na qual eu nem sabia se realmente existia. Curti bastante a música até um certo momento que minha vontade era de arrancar a peruca e me desmontar completamente em meio ao rock n' roll. A peruca realmente me incomodava, minha cauda netuniana parecia coçar na minha cabeça. Nunca tive essa sensação montada e entrei em mais uma contradição. Passei a me sentir mal por querer me desmontar. E devia ter me desmontado naquele dia, acredito que teria me divertido mais. Foi que entrei para o alojamento e encontrei-a. Seus amigos perguntaram sobre minha situação e eu contei por alto. Acharam graça porque, como disse, essa não é uma situação incomum e ela me perguntou se eu queria que ela tocasse de novo. Na mesma hora tive medo de tudo começar a se repetir novamente, o tempo, o espaço, tudo. Convenceram-me de voltar à festa, mas lá resolvi voltar depois de a onda voltar novamente, o local da festa induzia.
Naquele momento Saturno saía da minha casa 5 para não voltar mais antes da minha maturidade; traduzindo, o Senhor do Tempo que nos dá lições dolorosas mas importantes para a vida, deixava a casa da expressão pessoal e apesar de muita tristeza ao longo dos dois anos e meio ou três anos, não sei exatamente, junto com ele veio Lorie que já existia porém tomou forma corporal. Fui para o alojamento novamente e me desmontei. Bem, Lorie precisava dormir para amanhecer Igor.
No dia seguinte, descobri que meu par de botas havia sido roubado. Bem, tive que andar com o único calçado que me restava. Meu salto alto.