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@louis-gallagher
i can’t escape this now unless you show me how.
O que existia entre os dois poderia ser considerado como uma tragédia cômica e romântica. Poderiam escrever livros inspirados num romance completamente destrutivo com base naquela história de destruição para ambos os lados. Era um ator e não conseguia deixar de pensar em como aquilo tudo poderia ser facilmente um filme de baixo orçamento e conteúdo perturbador. E algumas vezes tentou escrever, mas pouco havia conseguido. As linhas eram perturbadoras demais e, apesar de toda sua formação, pretendia continuar sua carreira promissora como ator pornô. Kit só precisava viver o momento, já que a destruição não era unilateral.
Keaton podia ter um milhão de respostas para sua falta de originialidade, mas a mais realista delas tinha muito a ver com o fato de estar um pouco bêbado, de ser quatro da manhã. E também com a abstinência do outro, mas essa parte, seu orgulho não permitiria verbalizar. Por outro lado, seu orgulho sempre se desfazia diante de Lou. E o que não se desfazia diante daquele homem? Tudo o que Kit era sempre desaguava em seus sentimentos por aquele pintor.
Apesar disso, tudo o que ele respondeu foi: – Eu sei. – Estava mesmo em um estado deplorável e não tinha como negar. No entanto, todas as vezes que parava na frente daquela porta eram sempre iguais. Kit sempre estava fora de si, desesperado, pronto pra qualquer humilhação que precisasse passar pra ter uma foda decente com um homem que não era seu amigo. Não era seu amante. Não era seu ex. O que, exatamente, eles eram, era uma incógnita para o ator pornô, mas também não se preocupava com isso.
Os dois eram o que eram. Faziam mal um ao outro, machucavam um ao outro, mas não podiam se afastar um do outro ou mesmo viver um sem o outro. Quase como se houvesse algum tipo de ligação ou algo mais forte do que isso. E mesmo que não quisessem, seriam puxados um para o outro e obrigados a conviver com as bagunças causadas. Talvez aquilo fosse a essência do amor deles. Toda aquela loucura que alimentava as almas desesperadas de dois homens praticamente destinados àquilo. Não que Kit acreditasse, mas também não podia dar um descrédito total.
Uma vez com o homem que era seu tormento mais íntimo e o motivo de sua atuação constante, Kit deixou um sorriso aparecer. Aquele homem tinha Kit em suas mãos e nunca tinha percebido isso. Talvez o ator devesse considerar isso como uma grande vitória. – O que eu posso fazer se, sempre, sou eu o cara que falha nos nossos nunca mais? Que péssima imagem você tem de mim, Lou. Eu poderia ficar seriamente ferido com tamanha falta de consideração… -- Disse com seu usual tom debochado, deixando uma risada com um quê de amargura escapar. No fundo, o outro não estava tão errado assim. Ele queria mesmo uma foda e meia dúzia de palavras românticas. No entanto, existia uma puta diferença entre comer as atrizes e as fodas com Lou e suas palavras românticas. E as diferenças eram gritantes. Por isso que uma vez chamara o outro pra assistir algumas gravações dos filmes. Havia muita gente envolvida, estimulantes sexuais, energéticos e Kit até costumava chamar de “sexo técnico” e, com Louis era totalmente orgânico, puro e sujo, apaixonado e enraivecido. Transformava o ator em um adorador, um pobre homem necessitado pelo o que lhe é essencial. Desde o envolvimento físico até a bagunça e transformação interna.
Quando o outro olhou pra si com um olhar de fúria, Kit se arrastou pra ainda mais perto. De modo rápido sentou-se no colo do outro, colocando a mão livre no ombro alheio enquanto a outra ainda segurava a bebida e o DVD. – Implorar por você sendo patético por mim. Implorar por meia dúzia de palavras bonitas e por uma foda que vai valer a pena cada humilhação que eu fizer pra conseguir você gritando por mim. – E,sem muito pudor, Kit dizia essas palavras no ouvido do homem, deixando algumas mordidas no lóbulo alheio. – Que aprecie a minha obra, claro, mas que deixe eu continuar moldando-o ao meu modo, pra ser só meu e de ninguém mais. Implorar que seja meu mais uma vez antes de me expulsar de novo e nosso ciclo recomeçar. Quero você pra mim, Gallagher. E você pode parar com esse cu doce agora e se aproveitar de mim.
Seria o amor páreo para a fúria? Os sentimentos de Louis rasgavam suas irises carregadas, descansavam sobre as bolsas negras sob seus olhos e morriam dentro de sua conturbada psiquê; porém eram sempre destruídos no calor de seus lábios, perdidos no labirinto de sua língua, esquecidos dentro de seu paladar. Era-lhe sempre desta maneira, nunca diferente. Carregara tanto dentro de si que não seria um exagero dizer que possuía um universo inteiro por baixo de sua pele; ah, o que ele escondia sobre aquele sorriso de menino que, vez ou outra, desenhava seus lábios. Haviam escritas contra a parede, às vezes contra a carne pálida que vestia seu corpo, outrora diante da porta de Kit; quando o cansaço caía-lhe por completo sobre suas mãos e ele não tinha a quem recorrer a não ser ele, aquele que – inegavelmente e infelizmente – conhecia-o melhor que ele próprio. Amava-o, por todos os deuses que existem, amava-o como nunca antes e nunca depois, porém não era capaz de suportar tudo aquilo. Seu amor seria sua destruição, melhor dizendo, sua invisibilidade diante daquele par de olhos de seu amado destruía-o e não via maneira de escapar. Não estou dizendo que o artista desconhece sua influência sobre o Bass, pelo contrário ele a conhece e a cultiva, porém falta-lhe coragem e até mesmo sangue frio para usar-se disto contra ele; Lou deseja apenas o que é real, o que faz o líquido férreo queimar em suas veias tomar-lhe o corpo, liberar sua besta interior; mesmo que receba apenas a destruição, o fogo, o fim.
O oxigênio invadia-lhe as entranhas de forma descompassada, a modo de deixá-lo respirando alto, através da boca, buscando por uma serenidade inexistente diante do outro. Ergueu os olhos para ele, piscando-os rapidamente, desejando que fosse apenas outro de seus sonhos, ou pesadelos. Porém, tratava-se da mais fatal realidade e era fraco diante desta, por mais que tal fato ferisse seu orgulho e arrastasse-o para que fosse apreciado pelo verdadeiro motivo de sua ruína, aquele ser digno de todas as adorações de um culto depravado frente à seus olhos. Retirou o instrumento usado para melhorar-lhe a visão, deixando-o de forma quase neurótica em seu lado, as mãos caindo ao lado de seu corpo que parecia dançar sobre sombras, por mais que permanecesse banhado em inércia; havia tanto dentro de si que, em alguns momentos, parecia esquecer-se do que é real, Louis possui e engrandece todo um universo através de sua mente danificada, por muitas vezes deve ser considerado comum vê-lo como naquele momento, desconfigurado para com o que acontecia-lhe, perdido em mais do que seus olhos poderiam oferecer-lhe sem que cobrassem de sua frágil sanidade para isso.
Dobrou os lábios ressecados num tímido ‘muxoxo’, liberando todo o ar dentro de seus pulmões antes de sequer pensar em digerir aquelas falas, o olhar conturbado ainda sobre o outro, redesenhando-o a seu bel-prazer dentro de seu mais profundo íntimo. Queria ele tê-lo como sua imaginação o fazia, queria ele amar e ser amado; queria ele ser verdadeiramente alguém para o outro. – Não sempre –, constatou um Lou perdido demais em pensamentos para sequer ter certeza do que dizia, enfiando uma das mãos sobre os cabelos curtos e rebeldes, percebendo então o que havia dito. Não se arrependendo, apenas pensando que poderia ter se expressado melhor, de forma que não inflasse o ego alheio. Kit tinha um sério problema nesse aspecto, teria-lhe o doce sabor da vitória estas simplórias duas palavras. Gallagher sabia. Pelos deuses, ele sabia. – Nem mesmo a mais afiada das armas poderia verdadeiramente feri-lo, Kit. Pessoas como você não são moldadas para serem feridas, mas, sim, para ferir.
Ergueu a face pálida para acompanhá-lo em toda sua grandeza ao que sentou o corpo sobre o seu, uma onda percorrendo-lhe as entranhas e fazendo-se presente em um demorado suspiro, uma silenciosa oração para que não terminassem como eram-lhe o costume. Não hoje. Hoje não. As falas maliciosamente jogadas contra seu ouvido seguidas das marcas de dentes contra sua epiderme fizeram-no reagir em um rápido impulso para cima, para perto. A proximidade machucava-lhe tanto quanto a distância, o que poderia ele fazer? – Você... Keaton... Não outra vez, eu im—! –, calou-se para reorganizar aqueles seus insanos pensamentos e preferira não tê-lo feito, sua mente encontrava-se silenciosa e aquelas falas derramaram-se sobre ela como fogo. – Então é isso...? – Questionou um Lou num tom de crescente... Raiva? Fúria? Flamas? Respirara fundo, aproximando-se dele para destrair-lhe a atenção, mas aquele seu olhar não enganaria ninguém, enganaria? Kit deixaria-se levar?
Ele não precisava disso.
Aquele seu corpo magro poderia muito bem executar o que sua mente gritava-lhe, não? E que fosse para os sete infernos caso não. Subira mãos fortes sobre o tronco alheio, as bocas tão próximas que Keaton poderia sentir a fervura daqueles seus lábios, os dígitos agora presos sobre os ombros dele, aquele olhar dissimulado do Gallagher pesando sobre o outro como a mais verdadeira jura de amor. Porém, não houve qualquer afeição que aqueles seus movimentos outrora demonstravam quando ele jogou-o contra o chão; quando Louis pôs-se por cima dele, usando da rapidez de todo o momento planejado para pôr-se de pé, para cravar um destes mesmos pés sobre o pescoço alheio, usando de toda sua força ali. Talvez perdesse o equilíbrio, talvez fosse severamente espancado pelo outro depois, porém ele precisava de um momento para livrar-se dos gritos que dominavam-lhe a mente e quando se proferiu sua voz era suja e rouca, porém ainda como um sábio muito antigo em um final. – É ISSO QUE A PORRA DO MEU SENTIMENTO É PRA VOCÊ? CU DOCE? OH, KEATON... VOU LHE MOSTRAR O QUE É A MERDA DE UM CU DOCE! QUER SABER A VERDADE? VOCÊ APODRECERÁ SOZINHO E INFELIZ, COMO A IMUNDÍCIE QUE É. E NÃO VAI ME LEVAR JUNTO. NÃO MAIS. VAMOS, APROVEITE ENQUANTO AINDA PODE! EU SEI O QUANTO QUER QUEBRAR MINHA CARA! O QUANTO NÃO CONSEGUE OUVIR ALGUMAS VERDADES SEM FAZER ISSO. – Ainda havia força naquele seu pé e ainda havia fúria em seus lábios, porém não mais palavras. E foi quando cuspiu-lhe a face sem qualquer sentimento, tendo de respirar fundo para conter toda aquela adrenalina com a qual não estava acostumado, mãos trêmulas, um corpo inteiro implorando-lhe para cessar toda aquela flama que dançava por cada centímetro.
Esperou.
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Kit não conteve o sorriso ao ouvir a voz embriagada depois de uma tosse quase imperceptível de onde ele estava. Tombou a cabeça para trás na parede e deixou um suspiro longo atravessar suas narinas. Esperava um pouco de resistência, mas aquele tal de ‘nunca mais’ habitava a vida dos dois de modo que nunca era respeitado por ambos os homens. Quando Kit não o procurava, Lou era quem o fazia.
O ator pornô não acreditava em muita coisa, entretanto ele acreditava que o tipo de ligação que havia entre os dois. Não era algo que vinha dos céus. Era devastador demais para isso. Talvez fosse algo vindo do inferno, porque, às vezes, a necessidade que o ator tinha pelo outro era tão ou mais forte do que o ar que ele respirava. – Você bem sabe que eu adoro quando me chama pelo nome todo quando a gente está na cama, coração. Agora perdeu a graça. – Disse de modo a virar a cabeça para o lado da porta como se tivesse esperança, mesmo que mínima, que ela estivesse aberta. Entretanto ela continuava fechada. E Kit a esmurrou mais uma vez. Uma hora ele teria que abrir aquela maldita porta e parar de agir como um filho da puta.
Tateou os bolsos até achar o maço de cigarros e pegá-los. Acendeu um dos cilindros e sentiu o pulmão se encher de fumaça no primeiro trago. Tentou se lembrar das tais palavras de Lou, mas sabia da capacidade infinita que tinha de perdoar quase tudo o que o outro falava pra si. Talvez a palavra exata não fosse perdão, porque doía pra caralho não ter a escolha de não se arrastar de volta para o maldito Gallagher toda vez que aquele vazio rasgasse seu peito tão dolorosamente.
E Keaton sempre tentava resistir à necessidade de estar ao lado de Louis, mas não era assim tão simples. Era como se aquele maldito de olhos azuis que se escondia atrás daquela porta fosse uma droga ou algo ainda mais gostoso, que o levasse num mundo espetacular lhe proporcionasse viagens além do que qualquer entorpecente que já tinha provado. Seu corpo estremecia em êxtase a cada beijo depravado que trocavam. Kit era só um escravo, um viciado, um necessitado de tudo o que aquelas mãos de artista podiam causar em sua pele e do gosto que tinha queles lábios. Ao mesmo tempo o mesmo Louis Galagher era o fundo do poço mais escuro e mais úmido com o qual o ator lutava bravamente para sair, mas a cada tentativa ele se afundava ainda mais. Acabava batendo na porta do outro e bebendo com whislky barato qualquer resto de dignidade e se humilhando como se o outro fosse o deus de sua adoração ou até algo ainda pior.
– Qual delas? A gente já teve tantas últimas vezes, Lou, que já nem consigo considerar… – Disse sinceramente. – Abre a porta, vai? Se… Se é pra me fazer implorar, me deixa pelo menos olhar pra você enquanto me ajoelho.
Não saberia medir o ódio num contraste direto com o amor que por ele sentia; sendo muito além do que sua pobre mente humana reconhecera, um devaneio em que se perdia dia após dia. O declínio e a salvação de sua alma atormentada jazia naquele par de tempestuosos olhos azuis, no toque cheio de violência daquelas mãos e no sabor agridoce daqueles lábios, pois Kit era o que o mantinha forte tanto quanto era o que o deixava em pedaços quando saía por aquela porta dizendo que voltaria a encontrá-lo quando os ventos fossem favoráveis. Fechou as mãos num impulso, sentindo as unhas quebradiças invadindo-lhe a pele alva, cortando-a; encheu os pulmões e abandonou o cigarro contra o chão, apagando-o suavemente. Mirou os olhos na porta, desejando ser capaz de atravessá-la, ver a razão de seu tormento sem deixá-lo ver-lhe. Sentira sua falta, é verdade. Fechou os olhos.
Sentiu a saliva tornar-se ácida dentro de sua boca, palavras mínimas alheias envolvendo-o numa explosão de sentimentos que tanto lutara para eliminar de seu corpo. Ergueu-se e colocou mãos na fechadura, o toque gélido do metal acordando-o, fazendo-o recuar. – Coração? Perdera não só a vergonha na porra da cara, mas também a originalidade? Deplorável, Kit. – Pensara em rir e até sentira a voz tremer por isso, porém manteve-se intacto, como uma escultura ereta atrás daquela porta. Enquanto não o deixasse entrar, estaria salvo. Salvo de sua própria mente e seus anseios. Quis dizer mil palavras de ódio e outras mil de amor, mas toda vez que pensava na relação entre eles como um romance, ânsia subia por seu estômago, tinha vontade de vomitar.
Agora observava o teto, amaldiçoando-se pela centésima vez por deixá-lo lhe destruir. Sentiu lágrimas pesarem no início de seus olhos, pois amava-o tanto que a destruição parecia menos dolorosa; apesar de tudo que teve de suportar vindo de Kit, Lou o repetiria sempre, apenas para tê-lo consigo, aqueles minutos mínimos que chamavam paraíso quando estavam juntos. Mas, naquela madrugada, tinha de colocar para fora tudo que lhe queimava as veias, tudo que era como veneno acabando com barreiras meramente construídas por ele da última vez. E fora quando livrara-se da queimação em íris cerúleas e assumira uma expressão apresentável, digamos assim.
Rodou a chave e girou a maçaneta tranquilamente, esperando-o ver diante de seus olhos, mas não se surpreendendo ao vê-lo no chão. Lou tornou a sentar-se, sentindo o coração perder o ritmo constante apenas por correr o olhar sobre a figura alheia instantes antes, reconhecer seus traços e admirá-los; encaixou a cabeça contra os joelhos, não querendo que o outro visse suas fraquezas, tivesse certeza do poder que possuía sobre seus pensamentos, sobre seu corpo. – Implorar? Por uma foda e meia-dúzia de palavras bonitas? Ou por me ver como um idiota do caralho por você? – Perguntara ainda com o rosto escondido, antes de mirar o olhar no outro, perdendo novamente toda calma, que se tornara inexistente diante do loiro. – Se divertiu pelo menos? Veio para amaciar seu ego ao ver-me deste modo, perdido e ridículo? Oh, não...! Para me presentear com outro de seus trabalhos, suponho. Anda logo com isso, Kit. Não tenho a noite toda para você.
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A vida de um ator pornô, ainda que devidamente premiado em sua categoria, não era assim tão simples. Keaton então era quem poderia dizer esse tipo de coisa com propriedade. Quando a sua arte o encaminhou para aquele lado tão obscuro, Keaton mergulhou de cabeça e acabou se tornando tudo o que era. Agora já não sabia se era uma coisa boa ou ruim e, no fundo, tanto fazia.
Estava um pouco bêbado, era verdade, quando recebeu a ligação dizendo que tinham algo pra ele. Keaton foi e acabou passando uma semana ocupado com toda a questão do filme. Diferente de muitos, Kit gostava muito do que fazia, embora fosse tudo meio mecânico e não substituísse a realidade, não se sentia sujo ou prostituído a cada cena que fazia e acabava tendo mais amigos que a maioria das pessoas. O ponto era que um desses amigos era Louis Gallagher. Na verdade, eles tinham um passado inacabado que o corroía como ácido. Lou, como Kit costumava chama-lo, era o dono dos sonhos e dos pesadelos do ator pornô.
E se fosse somente isso, Kit ainda conseguiria conviver, entretanto toda vez que o loiro se olhava no espelho parecia que faltava alguma coisa. Era como se ele esperasse que Lou chegasse ali por trás e reclamasse que não havia espaço o bastante para que ele tirasse aqueles três pelos da cara que chamava de barba. Ou esperava algum tipo de atitude mais romântica. Esperava qualquer coisa, mas tudo o que tinha era um imenso vazio. E era por isso que Lou sempre era mantido por perto, ainda que o outro tivesse que se prestar ao papel ridículo de ser apenas uma espécie de amigo. Não, ele não era amigo de Lou, mas também não era namorado. A falta de segredos ou qualquer coisa acabava sempre na mesma questão.
E depois de umas semanas atribuladas o loiro saiu de casa e comprou o melhor whisky que seu dinheiro conseguiu pagar – o que não significava muita coisa já que a renda do ator não era assim tão alta – e foi para o apartamento do outro. Não teve dificuldade alguma de entrada, ao contrário. Claro que ele estava um pouco de ressaca do dia anterior que tinha bebido demais e não se lembrava de muito do que tinha feito, porém queria contar pro amigo do filme que tinha feito. Só que tudo tinha sido rápido demais, corrido demais e só hoje tivera condição de visitar com bebida e o DVD.
– Lou? – Bateu na porta. Conferiu o relógio de pulso e eram quase quatro da manhã. Bem, Kit não se importava em bater na porta do outro no meio da madrugada. Desde quando se conheceram, o loiro nunca tinha sido muito regrado em questão de horários ou motivos. Fazia o que queria e da forma que queria, impulsiva e furiosamente. Era intenso, necessitado, como um viciado em crise de abstinência fosse pela adrenalina que corria seu corpo vez ou outra a anestesiante tempestade atrás daqueles olhos azuis de seu ex. Apenas sentou-se ali na porta. Por algum motivo, Keaton não esperava que o outro o atendesse. Talvez estivesse mesmo, de fato, melhor sem Kit por perto ou qualquer besteira desse gênero. – Eu tenho alguma coisa pra você aqui fora. Não vai abrir, coração? – Disse com a voz levemente irônica e com um sorriso cínico na cara. Kit quase nunca era tão carinhoso com o outro, exceto quando queria sexo real, sem ter que depender de energéticos e Viagra.
A vida de um artista nunca é fácil; cada um se destrói a sua maneira, cresce a sua maneira e morre a sua maneira. Para o Gallagher, só há arte após um contato com o fim da linha, com algo muito além do que se possa ser descrito e não, não se confunda com qualquer ato religioso, pois não é disto que se trata esta narrativa; estava tão distante de Deus ou qualquer outra figura do gênero quanto queria e deveria estar. Sempre pensou que os artistas são – em parte – pecadores em sua própria forma e ele via isso a cada novo dia, em que seus traços que antes eram luz e beleza transformavam-se em sombras e decadência.
Sobrevivia com restos. Restos de dinheiro, comida, esperança e, principalmente, dignidade. Afinal, onde estava o jovem e promissor Louis, o gênio pintor, de anos atrás? Mendigando. Veja só, mendigando pela atenção de alguém que sempre o jogou para o segundo plano; que o desprezava num dia e então voltava no outro implorando por aquilo que eles erroneamente chamavam de amor. O amor também é ódio, destruição, talvez aqueles dois amaldiçoados por este sentimento só não tenham sido espertos o suficiente para descobrir tal coisa. Ainda.
A música no velho rádio, a voz que lhe tomava os ouvidos e a leve melancolia que se instalara no ambiente de forma permanente sequer pareciam afetar o moreno de cabelos castanho-escuros, muito encaracolados e rebeldes, além de dono de enormes olheiras e roupas tingidas de uma tinta espessa, negra como a noite. Louis dedilhava contra uma tela de madeira que por ele fora trabalhada durante dias até que pudesse iniciar suas pinceladas, aquela seria sua maior obra, era o que ele dizia sempre, porém novamente estragara-a sem qualquer chance de salvação. Haviam muitos desenhos nas paredes e rostos negros pela mesma tinta manchados de álcool ou queimados por cigarros; haviam discos quebrados pelo chão e café quente sobre a mesa, uma inconstância se estalara em sua vida e, como não poderia ser diferente, também se fazia presente em seu trabalho. As costas doíam e já não tinha qualquer noção de tempo – quebrara todos os relógios da casa – por ter esta sua mania de que este apenas lhe atrasa, exige e nada lhe oferece em troca de tamanha pressão. Sentiu as pálpebras pesarem e percebeu que talvez já fosse hora de dormir, o que ele chamava seus movimentos descontrolados pela cama e um par de horas de olhos fechados – ou talvez perdesse boa parte de seu dia dormindo, como poderia ele saber?
Recolheu os materiais, jogou o velho tecido de seda contra a tela e cuidadosamente afundou seus pincéis em água, um hábito típico. Acendeu um cigarro e estendeu o cansado corpo sobre o sofá, pensando se a galeria de arte faria uma exposição com sua conturbada obra, seus levianos pensamentos jogados de qualquer forma numa tela em branco. Fechou os olhos, fumaça aquecendo-lhe o pulmão até ouvir batidas na porta. Lá fora o céu negro era colorido apenas por estrelas e uma distante lua nova, já deveria faltar pouco para o amanhecer e só uma pessoa se atreveria a tanto, mas nem mesmo assim fora capaz de conter as batidas de seu coração que duplicaram de velocidade ao ouvir a voz. Tossira baixo, os pés descalços e muito desajeitados pelos discos quebrados e então sangue pelo caminho até a porta. Kit era um tremendo filho da puta e quando sumia assim só significava uma coisa: tinha fodido algumas loiras gostosas pelo que ele chamava de sobrevivência. O moreno rira em desgraça e sentou-se sobre o chão do lado de dentro da porta, limpando a garganta antes de qualquer coisa. — Sabe bem que eu não vou abrir essa porta, Keaton Bass. Te dei a escolha na última vez e você o quis assim, sair para nunca mais voltar.
Perfect. I love complicated.