i can’t escape this now unless you show me how.
louis-gallagher
Seria o amor páreo para a fúria? Os sentimentos de Louis rasgavam suas irises carregadas, descansavam sobre as bolsas negras sob seus olhos e morriam dentro de sua conturbada psiquê; porém eram sempre destruídos no calor de seus lábios, perdidos no labirinto de sua língua, esquecidos dentro de seu paladar. Era-lhe sempre desta maneira, nunca diferente. Carregara tanto dentro de si que não seria um exagero dizer que possuía um universo inteiro por baixo de sua pele; ah, o que ele escondia sobre aquele sorriso de menino que, vez ou outra, desenhava seus lábios. Haviam escritas contra a parede, às vezes contra a carne pálida que vestia seu corpo, outrora diante da porta de Kit; quando o cansaço caía-lhe por completo sobre suas mãos e ele não tinha a quem recorrer a não ser ele, aquele que – inegavelmente e infelizmente – conhecia-o melhor que ele próprio. Amava-o, por todos os deuses que existem, amava-o como nunca antes e nunca depois, porém não era capaz de suportar tudo aquilo. Seu amor seria sua destruição, melhor dizendo, sua invisibilidade diante daquele par de olhos de seu amado destruía-o e não via maneira de escapar. Não estou dizendo que o artista desconhece sua influência sobre o Bass, pelo contrário ele a conhece e a cultiva, porém falta-lhe coragem e até mesmo sangue frio para usar-se disto contra ele; Lou deseja apenas o que é real, o que faz o líquido férreo queimar em suas veias tomar-lhe o corpo, liberar sua besta interior; mesmo que receba apenas a destruição, o fogo, o fim.
O oxigênio invadia-lhe as entranhas de forma descompassada, a modo de deixá-lo respirando alto, através da boca, buscando por uma serenidade inexistente diante do outro. Ergueu os olhos para ele, piscando-os rapidamente, desejando que fosse apenas outro de seus sonhos, ou pesadelos. Porém, tratava-se da mais fatal realidade e era fraco diante desta, por mais que tal fato ferisse seu orgulho e arrastasse-o para que fosse apreciado pelo verdadeiro motivo de sua ruína, aquele ser digno de todas as adorações de um culto depravado frente à seus olhos. Retirou o instrumento usado para melhorar-lhe a visão, deixando-o de forma quase neurótica em seu lado, as mãos caindo ao lado de seu corpo que parecia dançar sobre sombras, por mais que permanecesse banhado em inércia; havia tanto dentro de si que, em alguns momentos, parecia esquecer-se do que é real, Louis possui e engrandece todo um universo através de sua mente danificada, por muitas vezes deve ser considerado comum vê-lo como naquele momento, desconfigurado para com o que acontecia-lhe, perdido em mais do que seus olhos poderiam oferecer-lhe sem que cobrassem de sua frágil sanidade para isso.
Dobrou os lábios ressecados num tímido ‘muxoxo’, liberando todo o ar dentro de seus pulmões antes de sequer pensar em digerir aquelas falas, o olhar conturbado ainda sobre o outro, redesenhando-o a seu bel-prazer dentro de seu mais profundo íntimo. Queria ele tê-lo como sua imaginação o fazia, queria ele amar e ser amado; queria ele ser verdadeiramente alguém para o outro. – Não sempre –, constatou um Lou perdido demais em pensamentos para sequer ter certeza do que dizia, enfiando uma das mãos sobre os cabelos curtos e rebeldes, percebendo então o que havia dito. Não se arrependendo, apenas pensando que poderia ter se expressado melhor, de forma que não inflasse o ego alheio. Kit tinha um sério problema nesse aspecto, teria-lhe o doce sabor da vitória estas simplórias duas palavras. Gallagher sabia. Pelos deuses, ele sabia. – Nem mesmo a mais afiada das armas poderia verdadeiramente feri-lo, Kit. Pessoas como você não são moldadas para serem feridas, mas, sim, para ferir.
Ergueu a face pálida para acompanhá-lo em toda sua grandeza ao que sentou o corpo sobre o seu, uma onda percorrendo-lhe as entranhas e fazendo-se presente em um demorado suspiro, uma silenciosa oração para que não terminassem como eram-lhe o costume. Não hoje. Hoje não. As falas maliciosamente jogadas contra seu ouvido seguidas das marcas de dentes contra sua epiderme fizeram-no reagir em um rápido impulso para cima, para perto. A proximidade machucava-lhe tanto quanto a distância, o que poderia ele fazer? – Você… Keaton… Não outra vez, eu im—! –, calou-se para reorganizar aqueles seus insanos pensamentos e preferira não tê-lo feito, sua mente encontrava-se silenciosa e aquelas falas derramaram-se sobre ela como fogo. – Então é isso…? – Questionou um Lou num tom de crescente… Raiva? Fúria? Flamas? Respirara fundo, aproximando-se dele para destrair-lhe a atenção, mas aquele seu olhar não enganaria ninguém, enganaria? Kit deixaria-se levar?
Ele não precisava disso.
Aquele seu corpo magro poderia muito bem executar o que sua mente gritava-lhe, não? E que fosse para os sete infernos caso não. Subira mãos fortes sobre o tronco alheio, as bocas tão próximas que Keaton poderia sentir a fervura daqueles seus lábios, os dígitos agora presos sobre os ombros dele, aquele olhar dissimulado do Gallagher pesando sobre o outro como a mais verdadeira jura de amor. Porém, não houve qualquer afeição que aqueles seus movimentos outrora demonstravam quando ele jogou-o contra o chão; quando Louis pôs-se por cima dele, usando da rapidez de todo o momento planejado para pôr-se de pé, para cravar um destes mesmos pés sobre o pescoço alheio, usando de toda sua força ali. Talvez perdesse o equilíbrio, talvez fosse severamente espancado pelo outro depois, porém ele precisava de um momento para livrar-se dos gritos que dominavam-lhe a mente e quando se proferiu sua voz era suja e rouca, porém ainda como um sábio muito antigo em um final. – É ISSO QUE A PORRA DO MEU SENTIMENTO É PRA VOCÊ? CU DOCE? OH, KEATON… VOU LHE MOSTRAR O QUE É A MERDA DE UM CU DOCE! QUER SABER A VERDADE? VOCÊ APODRECERÁ SOZINHO E INFELIZ, COMO A IMUNDÍCIE QUE É. E NÃO VAI ME LEVAR JUNTO. NÃO MAIS. VAMOS, APROVEITE ENQUANTO AINDA PODE! EU SEI O QUANTO QUER QUEBRAR MINHA CARA! O QUANTO NÃO CONSEGUE OUVIR ALGUMAS VERDADES SEM FAZER ISSO. – Ainda havia força naquele seu pé e ainda havia fúria em seus lábios, porém não mais palavras. E foi quando cuspiu-lhe a face sem qualquer sentimento, tendo de respirar fundo para conter toda aquela adrenalina com a qual não estava acostumado, mãos trêmulas, um corpo inteiro implorando-lhe para cessar toda aquela flama que dançava por cada centímetro.
Esperou.
Lou conseguia ser o seu bem e o seu mal. Conseguia ser tudo aquilo que o fazia diferente e também aquilo que o tornava igual aos outros. Isso conseguia deixar o Kit bem irritado com a vida, porque, no fundo, Kit só queria ser alguém normal. Já existia insalubridade demais em sua vida para que ela fosse coroada com um relacionamento tão complexo como aquele.
O ponto era que desde o dia em que Keaton colocou seus olhos em Louis Gallagher não conseguiu mais ver sua vida sem aquele maldito. Sempre só conseguia desejar mais e mais doses do corpo dele, de toda aquela merda romântica que fazia com que Kit se sentisse em casa. Kit se tornava um homem melhor na presença do outro, seu coração não podia conter todo aquele sentimento dentro de si.
Nunca havia conhecido uma relação com tantos meandros como a deles. Como se o vento levasse Lou para bem longe de si e ele ficasse ali, como uma estátua, esperando o homem da sua vida voltar para si. E se esse fosse o ponto, sabia que era o lado dele em que a corda arrebentava, porque Kit procurava seu amado quando o desespero era maior do que qualquer outra coisa.
Kit sabia que deveria estar pronto pra qualquer tipo de resistência, mas não era verdade. Não com um ator pornô completamente bêbado parado na porta do apartamento alheio. Tinha de usar seus artifícios para conseguir o que queria. O que era seu por direito.Lou não podia ser cruel o bastante para negar ao outro o mais forte de seus desejos, porque se queria vê-lo rastejar, não podia ser assim tão cego. Kit estava completamente atado ao outro e não podia simplesmente desfazer todas aquelas amarras. Estava sendo patético para ter sua recompensa.
Aquele homem e toda sua classe jogados em seus braços enquanto fala de coisas que eles nunca serão. O ator não via a menor condição de terem uma relação normal porque eram diferentemente iguais e com a mesma capacidade destrutiva. Bass era uma pessoa diferente antes de conhecer Lou, antes de arrastá-lo para seu estilo de vida. Bass era fútil e destrutivo. Gastava todo seu dinheiro com formas novas de sentir o sangue ferver e a cabeça reagir de modo diferente. Era um homem que todo o melhor que existia em sua vida era o sexo sem compromisso que as câmeras captavam.
-- Não achei que chegaria o dia que admitiria que precisa de mim tanto quanto eu dependo do nosso ciclo. – Disse. Kit era egocêntrico e cínico o suficiente para manter o tom de deboche e o sorriso que mais parece uma daquelas fotos after sex. O que lembrava ao Kit os filmes caseiros que tinha feito com Lou, mas também das vezes e acordava no meio da noite para fotografá-los juntos com o celular. O ex-namorado jamais soube da existência das fotos e jamais saberia. Gostava mais de ser o egocêntrico cínico do que ser a garotinha apaixonada que não sabe ser romântica.
Seus dedos finos deslizaram pelos cabelos de Lou e se deixaram conduzir do modo que ele queria. Por outro lado sabia muito bem quando suas palavras saíram que o outro reagiria muito mal a elas. O ponto era que Kit estava cansado de que seu amado tentasse lutar contra. Não tinha caminhado e comprado whisky para ouvir os choramingos de um homem ou sentir repulsa de si. Kit precisava do lado mais cafona de Lou e não do mais ríspido.
Talvez fosse por isso que havia dito que o que o artista sentia fosse nada mais do que cu doce.
Sentiu cada mísera gota do seu sangue efervescer e todo o seu corpo estremecer. A fúria envolvia ao loiro de modo que chegava a ser visível. Não esperava que Lou pudesse ser assim tão baixo por apenas duas palavras mal colocadas. Podia até ser classificadas como palavras de bêbado, mesmo que alguns teimem em dizer que o álcool é a droga da verdade. Mas não... Kit tinha que amar aquele homem daquele modo. Amava-o tanto que chegava a corroer seus ossos, de um modo tão destrutivo que poderia causar todo o mal do mundo ao outro a fim de compensar todo o mal que ele fazia a si. Amava-o de modo tão obsessivo que mataria pelo artista. Era tão forte que qualquer um podia ver a quilômetros de distância.
As palavras do artista machucavam ao outro como se fossem facas provando a teoria que Louis tinha falado há alguns minutos. Não era qualquer um que poda ferir um homem como Keaton, mas o maldito que estava nos seus braços segundos antes sabia escolher as palavras. Sabia quando perder toda a sua áurea de alta sociedade e de intelectual para jogar algumas das verdades que mais atormentavam ao ator.
O pior era que Louis não poupou esforços para sair por cima. O pescoço fora apertado com o pé alheio, fazendo com que as mãos dele envolvessem o tornozelo e os olhos ferozes do ator conseguiram esconder os reais sentimentos daquele momento, engolindo suas lágrimas e toda a dor que estava sentindo, exibindo apenas uma fúria que o outro sabia que não seria ignorada. E conforme o desespero ia apertando e Kit se debatendo embaixo do pé alheio, passou a não escutar a segunda parte. Sua única preocupação é sair de lá vivo apenas para lembrar algumas verdades que o outro havia esquecido. A dependência era mútua e Kit não ia perder tempo mostrando ao outro o que era o tal cu doce na relação deles.
Assim que se viu liberto, Kit se encolheu em posição fetal para tossir. Uma tosse carregada por conta dos anos em que o cigarro era seu companheiro inseparável. Enquanto estava se retorcendo para buscar o ar, sua mente trabalhou nas maiores formas de punir o outro. Podia mostrar a ele que estava na industria pornô porque queria, porque era muito bom com atuação “normal”, fazê-lo se arrepender por ter tentado estrangulá-lo. No entanto o que Kit fez foi ficar de pé com um sorriso torto. Pegou a garrafa de whisky e a virou como se fosse um remédio para a dor que tinha sido causada pelo outro, tanto interna quanto externa. A região pisada já tinha se levantado alguns vergões e a marca do sapato alheio ficaria ali, se tornaria roxa e Kit não sabia se teria condições de sustentá-la.
Deixou a garrafa cair e foi para cima de Lou como era previsto. O loiro poderia ser um homem intensamente imprevisível em alguns aspectos, mas para outros era exatamente aquilo que deveria ser. A irritação era algo que estava fora de seus limites naturais, mas não como Lou acreditava. Não por ter umas verdades jogadas na cara. A irritação provinha do pé na garganta e da sensação de ter visto a morte muito de perto. Ele não era fã da experiência.
Kit perdeu as contas de quantos socos deu em Lou. Apenas parou quando sentiu o braço se cansar. Ainda assim, ficou ali próximo ao homem que amava para segurá-lo. O ator pornô o amava demais e, mesmo no auge de sua irritação, não fez tanto estrago no rosto alheio. Preferiu socos e chutes onde não estragaria o rosto que tanto amava.
-- É assim que você vê nossa situação então, Louis Gallagher? Fácil, simples, devastadora apenas pra mim? Você é mais inteligente que isso.-- Disse com intervalos longos entre as palavras por causa do cansaço que o espancamento lhe havia gerado. Era incrível como aquele pintor, mesmo sangrando, ficava absurdamente lindo. Era quase um crime. Ria internamente pelas verdades que Lou dizia, no entanto, sabia que o objetivo era machucá-lo. Não havia como escapar daquela coisa que unia aos dois. -- Você só precisa compreender seu posto nisso aqui. VOCÊ ME PERTENCE E SE EU AFUNDAR NUMA ESCURIDÃO, NO VAZIO, NUMA IMUNDÍCIA COMO DISSE, MEU AMADO, VOCÊ VIRÁ COMIGO! -- Kir não soube de onde veio a força com a qual ele gritou daquele modo. Estava cansado de bater, bêbado e com o ego ferido. Não ia dizer que também estava magoado e que acabaria bebendo tudo o que visse pela frente por causa de tudo aquilo. -- Você sabe que não tem escapatória.
E ele soltou Lou então, voltando a se sentar na beirada da porta a fim de conseguir equilíbrio. Sua vida não tinha muito sentido se ele não tivesse pra quem voltar, se ele não tivesse o romântico Louis em seus braços e que eles terminariam sem roupa no chão do ateliê. Kit já havia tentado romper aquela ligação de todas as formas possíveis, porque por mais que houvesse amor entre os dois e, que quando se entendiam, era como se eles chegassem num mundo em que não haveria mais problemas e que teriam a eternidade inteira para permanecer naquele mundinho só deles. Kit não romantizava nada. Não era saudável amar tanto quanto ele o fazia e nem era saudável ser amado de volta. Não sendo um tão destruidor para o outro como era o caso. Quando tudo o que eles tinham era uma necessidade de que não fossem novamente afundados naquela paixão suja, mas havia um ímã que os atraía e os chocava todas as vezes que fugia.
-- E se eu sou assim é porque você me arruinou, Lou. Tem de conviver com a magia dos seus pincéis quando se trata de mim. -- Riu nervosamente, olhando-o com ar de superioridade que nem sequer poderia existir. Se havia alguém superior ali era o pintor e mais ninguém. – Se eu pudesse destruir com você da minha cabeça, do meu corpo, Lou, eu faria. AGORA VOCÊ E EU SOMOS A MESMA MERDA E VAMOS ACABAR DO MESMO JEITO. SOZINHOS. INFELIZES E... – As palavras simplesmente travaram. Talvez aquela frase inacabada fosse o suficiente para que ambos soubessem seus devidos finais. Fugir não era uma ação fácil, uma vez que os ventos sempre obrigavam ao Kit ser o infeliz jogado na porta alheia implorando por uma chance de amá-lo uma última vez. Tiveram tantas últimas vezes que nem Keaton acreditava naquele argumento bobo.












