"Você deve compreender que a mudança é inevitável, e quando direcionada para o amor e a autorrealização, é sempre boa." (Leo Buscaglia)
— Papai, vá embora, você está cansado.
Eram quase oito horas da noite, e Daisy, Mason, Samuel e Celine se encontravam no lado de fora da delegacia, enquanto o pai de Daisy piscava seus olhos bonitos lentamente, demonstrando a sua exaustão. Após uma cena um tanto quanto constrangedora diante de todos dentro daquela recepção, Daisy viu o chefe do departamento, o Delegado Sales, pedindo para que Marjorie o acompanhasse, e aquilo encheu seu peito de algo que não sabia se era bom ou ruim. Poderia ser bom, mas sabia que prejudicaria Charlie de algum modo, e era isso o que ela mais temia.
E depois de tudo aquilo, Celine acabou resmungando a sua vontade por um cigarro, e Daisy mal hesitou em acompanhá-la, mandando para o Inferno o seu nojo por cigarros. Elas puxaram Mason com ela, e o pai de Daisy acabou indo junto para tentar conversar com a filha – o que não deu certo, já que esta só conseguia expressar o seu desprezo pela mãe de Charlie, com raiva e desgosto.
— Mas e quanto a você? – ele tampou os dois olhos pesados com os dedos, respirando fundo antes de voltar-se para a filha novamente, que torceu a boca rachada em um bico.
— Eu vou ficar. Falei que ficaria aqui até Ian ser solto, e ele não foi, então daqui eu não saio.
Samuel suspirou fundo, e Celine sorriu torto para aquilo antes de dar uma tragada profunda em seu filtro amarelo. Edgard havia feito o pedido de liberação de Ian há mais de uma hora e meia, mas acabou sendo revogado novamente, pois Sales precisava esclarecer os assuntos com Marjorie Benoit para antes soltá-lo definitivamente. A loira achou aquilo extremamente desnecessário, já que a liberdade de Ian só dependia do que ele havia feito, e não do que Marjorie havia deixado de fazer. Porém, não se importou; passaria a noite ali se fosse preciso, mas só deixaria aquele departamento após ver os pulsos de Ian livres das algemas cretinas.
— Daisy, por favor... – o historiador colocou as duas mãos na cintura coberta pela jaqueta grossa e esverdeada, erguendo seu rosto para o céu quase escuro. – Você já está aqui fora, e sabe que ele vai sair, por que não vem pra casa? – a loira franziu o cenho e fechou os olhos para o pedido do pai. Mesmo se sentindo culpada com o que fizera para Samuel naquele dia, Daisy ainda odiava quando ele a fazia querer mudar de ideia, sendo que sabia muito bem que ela era cabeça dura o bastante para ser grossa com ele a qualquer momento.
— Porque não é justo, pai – ela tentou não demonstrar ter se irritado com a pergunta, expressando angústia e frustração em seus belos olhos verdes. – Nós dois estávamos juntos, e ele não sabia que o que faria acabaria nisso – Samuel balançou a cabeça várias vezes e encarou seus sapatos de couro marrom, que acabaram combinando com as botas lustradas da filha. – Eu estou aqui agora porque você pagou a minha fiança, e eu te agradeço por isso, de verdade – o homem não conteve um sorriso, erguendo as íris azul-esverdeadas para Daisy, que retribuiu o gesto com uma leve entortada de canto de boca. – Mas... eu só preciso ficar. Eu não posso deixar ele aqui e simplesmente ir pra casa como se eu não tivesse feito nada.
Samuel piscou várias vezes, deixando seu sorriso se alargar ao finalmente perceber o que estava acontecendo. Daisy não pôde disfarçar a sua confusão, franzindo o cenho para o pai e cruzando os braços como uma menininha.
— Você não me engana, Daisy – ele riu, apontando para a filha e fazendo Mason e Celine prestarem atenção na conversa de repente – Você se importa com aquele rapaz, não se importa? Você gosta dele.
Ela grunhiu alto, levantando o rosto para o dele e fechando os olhos, enquanto pedia para alguém a salvar daquele constrangimento. Estava quase indo para casa só para ter que evitar as conversas alheias sobre Ian depois de toda aquela loucura.
— Não começa, por favor – bufou então, ouvindo uma gargalhada alta de Mason logo atrás dela, e virando seu rosto na direção dele para poder fitá-lo com a expressão de uma Daisy que explodiria a qualquer momento. – E você, fique quieto.
— Tudo bem – o pai riu mais uma vez, lambendo os lábios e observando a face perdida da loira, que movia as íris por cada centímetro de seu rosto. – Eu só não quero você algemada de novo, ok?
Ela abafou uma risada seca.
— Nem eu quero – deixou que suas bochechas esmagassem seus olhos pequenos em um sorriso aberto, e viu Samuel diminuindo o espaço que os mantinha separados, envolvendo-a em um abraço confortável e protetor o bastante para fazer Daisy se sentir envergonhada.
— Estou orgulhoso de você – ele murmurou por cima das mechas douradas da filha, que se agarrou aos seus ombros como se aquele fosse o último abraço que compartilhariam, como se nunca mais fossem se ver, e aquilo o assustou de certa forma. – O que você fez por Charlie foi indescritível, e poucas pessoas fariam a mesma coisa, Daisy.
A loira pensou em Damien na hora, e fechou seus olhos, apoiando o queixo no ombro direito do pai e suspirando tão profundamente, que Samuel achou que ela ficaria sem ar. Pensava na hipótese de ele e Ian terem razão, ela realmente se importava com as pessoas. Não era a misantropa que sempre teve certeza que era, não sabia olhar para um ser humano e detestá-lo completamente. Não mais.
— Eu amo você, pai – Samuel não pôde conter seus olhos de se arregalarem instintivamente, sentindo seu coração dando um sopro forte e doloroso em total surpresa. Em um segundo tentou se lembrar de todas as vezes que Daisy houvera dito que amava alguém, e, sinceramente, mal conseguiu se lembrar de uma, o que era um sinal. Aquela era a primeira vez que ela falava algo parecido para ele ou para alguém, e podia ser o gesto mais simples de amor que uma pessoa tinha a dar, mas, por Deus, estava tão feliz que pensou que fosse explodir de tanta excitação. – E me sinto a pessoa mais ridícula do mundo por ter dito isso só hoje.
Ele balançou a cabeça em negação, recebendo dois sorrisos verdadeiros de Celine e Mason antes de fechar seus olhos novamente.
— Não fala isso – sussurrou para a filha, sentindo-a agarrar ainda mais sua jaqueta. – Você pode não ter dito, mas eu sempre soube. Você não sabe esconder suas emoções.
Daisy se desfez do abraço imediatamente.
Samuel não evitou uma gargalhada gostosa de ouvir, deixando a filha atordoada e os dois amigos dela completamente divertidos com sua imagem encabulada. Ele a encarou severamente, notando que ela parecia ficar cada vez mais frustrada diante de cada palavra que ele resolvia dizer para ela naquele minuto. E nunca pensou em vê-la assim, tão necessitada e desesperada para ouvi-lo falar algo.
— Você ama as pessoas, Daisy – as íris verdes se acenderam no rosto da loira como fogo. – E elas te amam de volta. Simples assim.
— Vocês vão ficar bem? – Celine segurava a alça da bolsa de couro marrom enquanto fitava Mason e Daisy com seus olhos negros e bonitos, que estavam rodeados de olheiras mais profundas do que as de Daisy, o que era o bastante para assustar uma pessoa.
Mason assentiu preguiçosamente, dando uma olhadela na direção de Daisy, que não conseguia desfocar sua atenção do rosto da amiga sulista, que também pareceu estranhar o gesto da loira.
Ela hesitou em responder com um sorriso, e aquilo fez com que a garota de cabelos castanhos sorrisse de volta, envolvendo-a em um abraço sufocante e animado demais para o corpo cansativo de Daisy.
— Eu amo essa versão quase nova sua! – ela exclamou em uma gargalhada emocionada, e Daisy se sentiu obrigada em rir de volta, fungando alto por cima do vestido de mangas da melhor amiga. Celine era tão estranha e barulhenta, tão única e charmosa, que descrevê-la e analisá-la eram as coisas mais difíceis que Daisy podia pensar em fazer. E era exatamente aquilo que fazia a loira amá-la tanto. – Isso aqui te fez bem.
— Cale a boca, Celine – Mason bufou, revirando os olhos.
Celine se soltou de Daisy, sorrindo que nem uma boba para Mason enquanto dava alguns passos para trás, sinalizando que estava prestes a ir embora.
— Tente arranjar um motivo pra prendê-la de novo, Mason – gritou quando estava quase invisível no caminho decorado pelas folhas das árvores cobertas com camadas densas de neve. – Quero uma melhor amiga que me dê presentes também!
Daisy apenas virou-se para Mason com um sorriso indignado, ouvindo pequenas risadinhas vindas de sua boca fina antes dos dois voltarem para dentro do departamento de polícia com passos desajeitados e cansados. A loira caminhou com o rosto voltado para o chão, e ficou visivelmente assustada ao levantar a cabeça e se deparar com os olhos azuis e congelados de Marjorie Benoit fitando-a severamente em meio às lágrimas de crocodilo. Ela engoliu seco, parando imediatamente e abaixando seu rosto para poder dar um sorriso um pouco desapontado e triste para Charlie, tentando mostrar a ele que ela se importava, e muito.
— Não tem mais com que se preocupar – ela piscou diversas vezes, parecendo devastada diante de Daisy, que não soube não franzir o cenho para aquela imagem tão repentinamente humana da mulher. – Já que você destruiu tudo.
— O que vai acontecer? – a loira soluçou de volta com total desespero em sua voz e curiosidade em seus olhos.
— Como se eu também soubesse. – a mãe de Charlie deu um longo suspiro antes de se virar parcialmente para dar uma olhadela no filho, que só sabia manter seus olhos bonitos no rosto vazio de Daisy. – Eu só queria dizer que, independentemente do que acontecer com ele ou comigo, saiba que eu odeio o fato de você se importar mais com a minha criança do que eu me importo – Daisy estava prestes a protestar contra aquilo, mas logo viu a mão de Marjorie se erguendo diante de seu rosto, mostrando a ela que não havia terminado de falar. – E saiba que eu te dei motivos pra isso.
A loira abaixou o rosto em surpresa, tendo dificuldade para engolir seco diante do nervosismo que de repente começara a sentir. Estava bem, aliviada, para dizer a verdade, e saber que tudo poderia se resolver tranquilamente dava a ela uma pontada de esperança no que se referia a Charlie, e, por Deus, ninguém conseguia entender o quanto aquilo era reconfortante.
— É bom ouvir isso – respondeu, erguendo as íris verdes na direção de Marjorie enquanto rodeava seu bracelete dourado com a outra mão.
— Eu sei – uma lágrima pôde ser vista caindo violentamente contra o rosto macio da mulher, e ela não hesitou em limpá-la, fungando baixinho e dando um sorriso constrangido em seguida. – Mal consigo acreditar no que eu consegui fazer.
Daisy concordou com a cabeça apenas uma vez, cruzando os braços por cima do casaco de lã e desviando a atenção para Charlie, que já havia se entretido com o chão novamente.
— Porque não vai pra casa e conversa com ele? – apontou para ele com as sobrancelhas, e Marjorie apenas assentiu, com os olhos brilhando.
— Venha, Charlie, estamos indo – o rosto pálido do garoto que sempre pareceu estar doente para Daisy se ergueu, e ele (pela primeira vez em muito tempo) esboçou um sorriso em seus lábios finos e vermelhos. A mulher de cabelos castanhos e olhos congelados voltou-se para Daisy, piscando várias vezes. – Não me arrependo de ter mandado te prender, pra ser sincera.
Ela não conteve uma risada sem graça, assentindo pausadamente com a cabeça.
— Eu não me importo, sabe – estava se impressionando com a sua própria capacidade de soar legal com as pessoas, e se perguntou, por um estante, de onde aquilo estava vindo. Talvez fosse seu pai e seus poderes sobrenaturais sobre ela, talvez não. – Na verdade, te agradeço. Você acabou me dando uma chance.
Marjorie franziu as sobrancelhas.
— De finalmente me conhecer.
Damien quase arrombou a porta do Departamento de Polícia, atravessando o saguão médio com passos apressados e desajeitados por conta de seus joelhos que tremiam por baixo da calça jeans escura. Sua respiração era falha e seus batimentos cardíacos estavam fora de controle, dando a ele um sério motivo para se preocupar com a sua saúde quando o assunto era Daisy e todos os seus problemas.
Soltou um suspiro de alívio ao ver os cabelos escorridos e dourados se mexendo por cima do encosto de uma das cadeiras enfileiradas logo no meio da recepção. Atravessou o local, inclinando o rosto para checar se era mesmo a garota que havia atendido à sua ligação e falado para ele que havia sido presa com a voz mais calma e aveludada que ele já pôde um dia ouvir de alguém que havia sido encurralado pela polícia. Aquilo o frustrou extremamente, pois não era para ela estar daquele jeito. Era para ela estar furiosa, à beira de um ataque de nervos e se defendendo a todo o custo, e gostava de ver que ela não estava sendo a rainha do drama que sempre o fazia se sentir mal por conta dos problemas dela própria.
A loira mexia em seu celular e, ao mesmo tempo, acariciava os cabelos de Mason, que repousava a cabeça em seu colo e fitava a luz logo acima de seus corpos. Ela ergueu o rosto franzido ao perceber aquela criatura de olhos negros e bronzeado leve fitando-a avidamente, e sua expressão se relaxou por completo. Empurrou o crânio de Mason sem dó – fazendo-o rosnar audivelmente – e se levantou para abraçá-lo, afundando o rosto em seu ombro esquerdo.
— O que aconteceu? – perguntou Damien em um suspiro, atordoado com toda aquela loucura.
Daisy inspirou o cheiro forte e refrescante vindo do suéter de lã vinho-escuro que Damien usava, tirando seu rosto do ombro do rapaz e fazendo ele se perder em suas íris verde-claras.
— Eu estou bem – seu rosto estava cansado demais para comprovar o que dizia. – Foi só um susto, meu pai pagou a fiança, não sei com qual dinheiro, mas pagou. Tudo está ok.
O rapaz piscou várias vezes, não entendendo o porquê de ambos estarem ali.
— Isso é bom – a loira concordou com a cabeça, e ele tentou dar um sorriso torto em sua direção, como se aceitasse e soubesse que ela estava brincando com a sua cara, sendo que ele sabia que não, ela não estava brincando. – Então por que está aqui ainda?
— Bem... eu não fui a única presa.
Damien nem precisou pensar muito para entender o que ela queria dizer.
Ela abaixou a cabeça, e uma sobrancelha ergueu-se em seu rosto involuntariamente. Assentiu inúmeras vezes, deixando com que sua franja longa e dourada balançasse junto de sua cabeça.
— E o que diabos deu em você pra isso acontecer, Daisy?
— Não foi nada de mais, Damien – mal pôde acreditar que antes de ser presa, acreditava que se passar por algum parente de Charlie foi provavelmente a pior coisa que ela já fez na vida. Quando, na verdade, acabou sendo o contrário. – Nós tínhamos que fazer isso, e foi ele quem teve a ideia, e isso agora tá mantendo ele lá dentro... não temos muito que fazer além de esperar.
Damien ergueu uma sobrancelha em consentimento, colocando as mãos nos braços de Daisy e respirando fundo o bastante para que a loira se sentisse culpada por deixá-lo estressado daquele jeito.
— Você não precisa mais esperar, precisa? – ótimo, arranjei um quase-namorado que se parece com o meu pai, a loira bufou para si mesma. Ele percebeu a irritação repentina presente nas íris verdes da garota, e aquilo o fez soltar uma leve lufada de ar para ela em resposta. – Você já foi solta, Dase, e disse que ele vai sair, não tem por que... –
— A culpa não foi só dele, Damien, eu quero ficar aqui hoje.
Ele tentou conter um sorriso involuntário de aparecer em seus lábios grossos ao virar o rosto para o lado, pensando em como aquela loira podia ser tão teimosa. Os dois se sentaram em uma das inúmeras cadeiras vazias daquele lugar silencioso, e Damien não hesitou em voltar a fitar o rosto da loira.
— Não adianta tentar com você, não é?
Daisy abafou uma risada orgulhosa, e apenas assentiu com a cabeça, enquanto mantinha as sobrancelhas arqueadas. Era bom saber que pelo menos a teimosia não havia sumido de sua personalidade, e que ela ainda era a mesma cabeça dura de sempre.
— Se não quiser ficar, não tem problema – não sabia desviar seu olhar do rosto bronzeado e bonito de Damien, que encarava os próprios joelhos em um sinal de quase lamentação. – O Mase vai ficar aqui enquanto o Eddie estiver, então... –
— Não, eu quero ficar – ele disse imediatamente, cruzando os braços por cima do suéter cor de vinho. – Quase não nos vimos essa semana.
— Que belo lugar para um encontro, hein? – o seu tom debochado surpreendeu Damien por uns instantes, e a entortada de cabeça que ele deu fez com que Daisy se lembrasse instantaneamente de um filhote de cachorro confuso, o que provocou uma única gargalhada quase alta vinda de sua garganta. – O que foi?
— Nada, eu... – ele poderia parecer rude com o que falaria, mas sabia que Daisy o entenderia completamente, então mal se esforçou para conter o tom de voz duvidoso. – Por um momento achei que você quisesse ser engraçada.
— E tem algum problema em querer ser engraçada?
— Quando se trata de você, sim – sua voz estava relativamente séria, e seus olhos negros se encontravam arregalados na direção dela. – Um problema muito sério, Daisy.
Os dois se encararam por severos segundos, e a expressão esboçada no rosto de Daisy foi de indignação para tranquilidade naquele intervalo de tempo, o que acabou contribuindo para um sorriso largo se manifestar nos lábios de Damien. Ele a puxou para mais perto delicadamente, e a loira apoiou a cabeça em seu ombro direito, fechando os olhos e quase se entregando de vez para o cansaço mental que sentia.
— Tem certeza de que está bem? – Damien murmurou, inalando a fragrância ainda abundante nos cabelos dourados de Daisy. Sentiu a garota assentindo lentamente, e se espremendo como uma bola contra a lateral de seu corpo. – Me parece estranha.
— Damien, eu estou bem – ele não conteve um riso baixinho ao perceber a irritação tomando conta da voz da loira. Deixe de ser idiota, ela está ótima, pensou, estando preocupado o bastante para não querer sequer imaginar o verdadeiro motivo da vontade dela de ficar por ali. – Só estou cansada.
— Ok – Damien sussurrou – Chega de falar, não é? Vou deixar você descansar.
Ele respirou fundo e fitou-a tão concentrada em tentar finalmente se acalmar depois de toda a frustração sentida naquele dia. Não tinha ideia de como uma garota como Daisy – tão calma e individualista – conseguia se meter em tantos problemas idiotas. Ninguém poderia dizer que aquela garota deitada em seu ombro era a mesma que entrou na frente de três carros para salvar uma criança, muito menos a que se fingiu de parente do mesmo garoto para poder entender o que se passava com ele. O rapaz de olhos negros se questionou, por um instante, se Daisy tinha noção do quanto era intrometida e curiosa, e se ela entendia a sua própria capacidade de mudar o ritmo das coisas em tão pouco tempo...
Já que era o que ela havia feito com ele. Não conseguia mais imaginar sua rotina sem a garota dos cabelos dourados, a sua presença fazia com que tudo a sua volta se iluminasse sem ela ao menos dizer uma palavra, e aquilo era inexplicável, principalmente vindo de uma pessoa como Daisy, com a sua capacidade incrivelmente estranha de se incomodar com tudo e não ter paciência pra nada.
— Desculpa interromper – uma voz grossa e aveludada vinda logo adiante acordou tanto Damien quanto Daisy, e fez a garota se levantar rapidamente. Edgard parava em frente ao casal com as mãos dentro dos bolsos frontais do jeans escuro e tinha a expressão de que o que tinha para dizer era um pouco sério demais para ser tratado mais tarde. – Posso falar com você, Daisy?
A garota se levantou sem dizer nada, e apenas abriu caminho para longe de Damien, se encostando ao lado da sala de espera onde Ian provavelmente tentava passar o tempo.
— O que foi agora? – seu cansaço havia ido embora de repente, e ela tinha os olhos pequenos bem arregalados na direção do advogado, praticamente exigindo uma explicação viável vinda dele.
Eddie suspirou alto, dando uma rápida olhadela na direção da porta que os separava de Ian antes de concentrar sua atenção na figura esgotada da loira.
— Eu falei com o delegado Sales, e ele disse que o Ian vai poder ir embora daqui a pouco. Porém – não se surpreendeu ao ver Daisy arregalando as íris verdes em total indignação, e aquilo não adiantou em nada para ele. –, a lei no estado de Illinois defende a prisão de vocês por um ano, mas como a Marjorie acabou dizendo o que aconteceu e tudo foi milagrosamente explicado antes de eu me enforcar – Daisy sorriu ironicamente para aquela frase – É capaz de vocês levarem uma detenção de seis meses.
— Melhor do que três anos de cadeia, Daisy – ele retrucou, erguendo suas sobrancelhas castanhas sem ao menos piscar para ela, que entortou a boca em um bico azedo. – A pena normal é de um a três anos de prisão, porque vocês pegaram informações do Charlie, que é filho da Marjorie, e se não tivesse sido por uma coisa boa, poderia ter causado um enorme problema pra eles.
Daisy não parecia tão interessada no que Eddie tinha para explicar. Nos dois minutos que estavam ali, já havia revirado os olhos três vezes, brincado com a própria língua duas e ameaçado bocejar mais do que bocejou em todo o semestre com as aulas da Sra. Harrison sobre Antropologia. E não podia negar, não queria saber o que teria perdido se seu pai não tivesse pagado a fiança – a qual Daisy ainda não sabia o valor, mas já conseguia sentir o peso em seu peito –, só queria saber no que resultaria aqueles seis meses de detenção.
— E como não estamos literalmente presos, então?
Edgard hesitou visivelmente, cruzando os braços por cima do suéter branco e erguendo seus olhos de volta para o rosto da loira enquanto mordia os lábios finos.
— Bom, primeiro veio você com aquele escândalo que nem eu e nem ninguém pensou que você daria – ele sorriu desajeitadamente, e Daisy teve certeza de que ele debochava dela, mas escolheu ignorar o sentimento. – E deu certo, porque o garoto concordou com você, e isso acabou dando motivos pra vocês fazerem o que fizeram, mesmo sendo dois estranhos e que não têm nada a ver com a vida do garoto... –
— Tá, Edgard, e o que mais?
— E que eu vou pagar a fiança do Ian amanhã – a loira deixou seu queixo cair imediatamente em total surpresa, e Edgard reagiu com um sorriso amarelo. – É, eu também não sei como fazer isso, mas o que importa é que eu consegui reduzir a pena de vocês, porque vocês não têm passagem e não fizeram isso por maldade.
Daisy se sentiu completamente fadigada com o tamanho da fidelidade de Edgard por Ian. Para ela, era como se pessoas que nem o seu pai, Celine, Mason, Damien e até mesmo Ian não existissem do outro lado da redoma que a envolvia em seus relacionamentos, como se ninguém mais prestasse.
Por Deus, estava constrangida por ser tão errada durante tanto tempo.
— Eu não sei o que te dizer. – suspirou simplesmente.
— Um ‘obrigada’ seria um ótimo começo.
— Obrigada – sua voz estremeceu, levando embora todas as coisas injustas que pensou sobre ele quando Ian a contou que Elle havia o traído com ele. Foi fraqueza, ela sabia daquilo, e, além do mais, não havia sido ele quem começara o ato. Foi tão traído quanto o próprio Ian, tão injustiçado quanto ele dentro daquela sala de espera. - Eu... preciso me sentar.
Correu de volta para perto de Damien sem se importar por ter soado mais esquisita do que já era para aquele homem de olhos maliciosos, sentando-se ao lado do rapaz de olhos negros que tinha sua atenção voltada para a luz fraca logo acima dele.
— O que aconteceu? – perguntou ao percebê-la colocando os pés para cima do assento da cadeira de plástico.
Ela apoiou seu queixo entre os joelhos cobertos pelo jeans escuro, e deu um sorriso fraco demais para ser percebido por ele ou por mais alguém. Virou o rosto na direção de Damien, piscando lentamente antes de responder.
E foi o que aconteceu após vinte minutos a mais de espera. Todos dentro daquele lugar estavam cansados e impacientes demais para notar a porta da sala de espera se abrindo no final do saguão principal, dando espaço para Ian finalmente se ver livre daquelas inúmeras cadeiras completamente vazias e sem nada para fazê-lo menos infeliz do que ele já se sentia. Foi até o balcão para pegar suas coisas e assinar os documentos sem ser visto ou ver alguém, já que ninguém ali sentia um terço do cansaço que ele sentia para distinguir rostos e objetos em sua direção.
Apenas uma voz era capaz de acordá-lo daquele sonambulismo, e foi a mesma que ressoou pelas paredes geladas do departamento de polícia, fazendo-o virar-se rapidamente e dar de cara com Edgard e seus olhos intensos e desesperados.
— Cara – o mesmo suspirou ao abraçá-lo sem pensar no que haviam passado ultimamente, apenas sentindo o alívio em ter sua única família de volta e inteira. – Você não faz ideia de como é bom te ver.
Ian engoliu seco enquanto segurava o casaco e tentava retribuir o abraço de Edgard ao mesmo tempo em que se esforçava para raciocinar diante daquele acontecimento. Sabia que havia sido Edgard quem o tirara dali, já que não conhecia nenhum advogado – tirando Elle, que não exercia a profissão – além dele naquela cidade. E, por Deus, nunca se sentiu tão inútil quanto naquele momento tão ridículo e ao mesmo tempo relevante para sua vida.
— Devia ter me deixado aqui – disse antes de se desfazer do abraço e segurar o amigo advogado pelo ombro com uma mão. – Eu ia sair de manhã.
— Se eu não fizesse isso, provavelmente seria assassinado. – Edgard ergueu as sobrancelhas para Ian, que franziu as dele. Apontou com a cabeça para onde estavam as duas fileiras de cadeiras, e Ian o acompanhou rapidamente. – Eu vou pagar sua fiança amanhã, mas acho melhor eu te explicar isso mais tarde.
Os ouvidos de Ian se fecharam para aquela frase ao ver Daisy deitada com o rosto encostado em um dos ombros de Damien, tendo os pés para cima da cadeira e se espremendo como se estivesse em um casulo. Sabia que ela cochilava ao perceber sua respiração calma por baixo das camadas de roupa. O rapaz tinha a expressão séria e fixada em algo diante dele, enquanto acariciava as costas da sua possível namorada.
Namorada, o estômago de Ian se torceu em um nó ao ter aquela ideia sobre os dois. A loira se aninhava em Damien da mesma forma que houvera feito com ele dentro daquela sala, dizendo todas aquelas coisas e ainda os comparando com Bonnie & Clyde. Que original, cuspiu para ele mesmo.
E mesmo ela o irritando tanto com aquele gesto que, por um momento, Ian imaginou ser só deles dois, ainda não sabia odiá-la. E se odiava por ser tão idiota.
Seu devaneio por cima do casal logo foi interrompido por outros dois braços envolvendo seu pescoço e o puxando para baixo.
— Ian! Ah, meu Deus! – Elle urrou por cima de seu suéter de linha cinza, fungando sem cessar e encostando sua própria cabeça no ombro dele, que ergueu os olhos para a fileira de cadeiras novamente ao notar o movimento feito por Daisy, que se ergueu quase que de imediato junto de Damien, encarando aquela cena com seus olhos mergulhados no cansaço. Ian engoliu seco antes de abraçar Elle de volta, fechando os braços em volta dela e espremendo as pálpebras umas nas outras. – Você ficou burro de repente? O que estava pensando?
Ele riu baixinho no ombro da “ex-noiva”, lambendo os lábios e sentindo-a relaxar em seus braços. Mal fazia ideia de por que estar deixando-a abraçá-lo daquela maneira sendo que haviam terminado na noite passada, mas mesmo assim, achou bom sentir a mesma coisa que sentia antes com os abraços e afagos de Elle, ficando quase aliviado por saber que não a odiava, de fato.
— Em nada, Elle – respondeu finalmente – Absolutamente nada.
Daisy piscou inúmeras vezes, parecendo um pouco perplexa diante da capacidade de Ian de perdoar facilmente alguém que houvera feito mal a ele de repente em meio a dois anos de compromisso. Não podia esconder e dizer que não estava chateada, pois estava. Estava incrivelmente chateada e irritada apenas com a ideia de Elle o enganando novamente, mas também não podia evitar sentir-se realizada e tranquila ao vê-lo resolvendo sua própria vida sem precisar dela, sem precisar de alguém além das pessoas que ele acabou confiando primeiro, e que dificilmente ele deixaria para trás.
— Estamos bem? – ela murmurou para ele, desviando do abraço para encará-lo nos olhos. Ian sentiu-se perdido nas íris claras de Elle, quase tão claras quanto as de Daisy, que eram praticamente transparentes. – Estamos?
O canadense engoliu seco, piscando em desconforto e respirando fundo. Deu uma olhadela na direção de Daisy, que parava com os braços cruzados e os olhos fixos nele, enquanto era segurada pelo ombro tanto por Damien quanto por Mason, que acabara de se levantar, e parecia mais perdido do que qualquer um ali dentro.
— Vamos conversar, ok? – foi abraçado pela morena, sendo pego de surpresa novamente com o desespero dela ao saber que ele estava ali, junto dela e sem uma algema ou um vidro inquebrável para separá-los. Muito menos uma loira intrometida. – Vamos conversar. – murmurou ao afagar os cabelos espessos dela com os seus dedos.
Não conseguiu evitar, e disfarçadamente correu seus olhos pela loira de olhos verdes, que mantinha aquele maldito sorriso de Mona Lisa esboçado em sua face alva e livre de imperfeições. Aquele quase sorriso que conseguia confundir e frustrar qualquer um que ousasse tentar entender o que se passava dentro daquela cabeça cheia de fios dourados e pensamentos abstratos.
E só conseguiu sorrir de volta – não da mesma forma que ela fazia, e sim da sua forma, com os lábios tortos e as covinhas aparecendo. Não era bem um sorriso de Mona Lisa que nem o dela, mas era o único que tinha naquele momento, e que acabou funcionando, pois logo viu a loira se desfazendo por completo de sua melhor máscara, ficando séria e perplexa de repente, como se houvesse acabado de acordar no meio de um sonho. Ela desviou o rosto para o chão, cruzando os braços por cima das roupas grossas e se recolhendo em seus próprios pensamentos depois de tanto tempo os procurando em sua cabeça. Quis gritar com o que pensava, com o que sentia, quis arrancar seu cérebro e chacoalhá-lo até se ver livre de duas palavras tão contraditórias, mas que a perseguiam incansavelmente.