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the dying world by lauren tsai
Charles Baudelaire, from a letter to Gustave Flaubert featured in The Selected Letters of Charles Baudelaire
25.07.2026
tenho essa fantasia secreta de que quando eu morrer, encontrarão meus textos. mais especificamente, que estudantes de psicanálise me utilizarão como objeto de estudo.
às vezes penso que essa seria a maior demonstração de amor que eu poderia receber: estranhos tentando me decifrar.
talvez tenha a ver com esse desejo incessante de ser compreendida. de acreditar que existe alguma coisa em mim que ainda vale a pena insistir.
gosto de imaginar que encontrariam nos textos algo que ainda merecesse compreensão, mesmo quando eu já não pudesse mais me explicar.
talvez eu fantasie isso porque só depois de morta alguém poderia tentar me compreender sem desejar me mudar. enquanto viva, teria que lidar com as consequências de ser compreendida. ou pior, de ser mal compreendida.
talvez eu não queira ser compreendida sem ter o benefício da resposta. mas compreendida sem precisar sustentar a imagem que criariam de mim.
é como se finalmente não fosse mais responsabilidade minha a forma como as pessoas escolhem me interpretar.
talvez seja por isso que imagino justamente estudantes de psicanálise.
ao lerem meus textos, talvez pensassem: freud explica e lacan complementa.
às vezes imagino que me leriam como neurótica. em outros momentos temo que encontrariam algo de psicótico nos meus textos.
mas talvez o mais importante nem fosse a classificação.
talvez o que realmente aparecesse fosse a forma como me reconheço a partir daquilo que dizem sobre mim.
é como se todas as histórias que me contaram sobre mim, com seu próprio olhar de mundo, seus critérios, seus valores e sua visão sobre minha existência, me construíssem como indivíduo.
como se eu fosse tudo aquilo que falam de mim.
se ninguém tivesse me apresentado quem sou, será que ainda seria a mesma pessoa?
me acostumei a não contar sobre meus diagnósticos para evitar que me atribuam uma imagem pronta.
de todos, o transtorno borderline foi o que mais pareceu me explicar.
mas se sempre fui assim, desde que me conheço por gente, como posso saber onde termina a maysa e onde começa o transtorno?
e se essa divisão nunca tiver existido?
se eu retirar todos os sintomas, o que sobra de mim?
mas preciso assumir que, de tempos em tempos, volto a pesquisar sobre os sintomas do transtorno.
tentando buscar uma explicação. ou algum conforto de que há mais pessoas que se sentem como eu.
não exatamente como eu, mas parecido.
talvez uma confirmação de que não sou culpada por tudo que me acontece.
talvez seja uma forma de tentar me responsabilizar menos pela forma como consigo existir.
cada vez que releio os sintomas, procuro descobrir se continuo pertencendo a essa categoria.
procuro descobrir se ainda existe alguma permanência.
ou talvez alguma explicação de mim.
porque deixar de preencher os critérios não significaria perder um transtorno, mas perder a única explicação sobre quem sou que menos me machuca.
por mais que eu não goste de assumir esse diagnóstico, às vezes me conforta saber que talvez, se não fosse por esse transtorno, eu pudesse ser normal.
talvez se não fosse pelo diagnóstico, eu não teria tantos gatilhos nem teria que viver em constante alerta.
mas é complicado porque um diagnóstico não é uma resposta. é só uma orientação.
porque um mesmo transtorno pode se mostrar de diversas formas em diferentes pessoas.
como saber se também não sou uma farsa no diagnóstico?
como saber se realmente tenho um transtorno ou se essa é a forma como eu estava destinada a me sentir toda a vida?
é como se eu não me encaixasse completamente no transtorno, mas sem ele também não soubesse como existir.
talvez eu não esteja em busca de uma explicação para o meu sofrimento. nem em busca de uma explicação para mim.
talvez esteja procurando uma testemunha de que existi antes de qualquer interpretação.
como se eu pudesse ser eu antes de ser quem dizem que sou.
por que é tão difícil acreditar em alguma imagem de mim construída apenas por mim que não me condene?
não sei se ser compreendida implica em entenderem minha dor ou entenderem por que ela me dói.
talvez, quando compreendida, eu não precise mais convencer ninguém de que minha dor era real.
mas tenho medo de que compreender minha dor também signifique transformá-la na explicação de quem sou.
como se uma dor compreendida deixasse de ser apenas uma dor e se tornasse uma identidade.
existe alguma forma de ser compreendida sem ser definida por aquilo que mais dói?
e será que existe alguma explicação de mim que não termine em culpa?
talvez eu tenha confundido compreensão com reconhecimento a vida inteira.
será que escrevo porque espero que meus textos façam aquilo que nenhuma pessoa parece conseguir fazer?
ou será que tenho medo de que, sem os textos, não reste nenhum vestígio de um eu que existiu só para mim?
24.07.2026
bela me disse que a machuquei com a forma como escrevi sobre um dos maiores traumas da sua vida.
e realmente, no momento em que escrevi aquelas palavras, estava enxergando-a como alguém que não entende o peso das próprias palavras. então agi da mesma forma.
demorei para perceber que não estava apenas julgando a forma como bela contava a própria história. estava reagindo à possibilidade de que ela tivesse encontrado uma maneira de contá-la que nunca considerei possível.
não é como se eu tivesse o direito de comentar sobre o que lhe aconteceu ou sobre a forma como decide lidar com isso. mas eu simplesmente não conseguia entender como conseguia falar sobre o assunto sem reviver toda a dor.
eu acreditava que lembrar fosse, inevitavelmente, reviver o momento.
será que existe alguma forma de lembrar sem precisar reviver?
será que é possível falar da dor sem convidá-la a voltar?
não sei como bela parece ter conseguido ressignificar o que aconteceu.
invejo sua coragem.
ou será que invejo a possibilidade de alguém conseguir se refazer depois de certas experiências?
não é como se saísse gritando sua história por todos os cantos, mas também não tenta apagá-la. parece conseguir falar sobre o que viveu sem sentir raiva de si mesma.
ela realmente fala como uma sobrevivente.
não penso mais que tenha orgulho da cicatriz. talvez tenha orgulho de a ferida ter cicatrizado.
o que exatamente precisa mudar em alguém para que deixe de falar como quem foi ferido e passe a falar como quem sobreviveu?
é uma mudança na memória? na dor? na identidade?
ou na relação que consegue estabelecer com o que aconteceu?
bela me disse que somos muito mais parecidas do que acredito sermos.
e realmente, durante muito tempo também nos enxerguei assim.
mas hoje já não sei.
não porque pense que ela sofreu mais ou menos do que eu. nem porque pense que sente menos dor.
na verdade, talvez eu pense justamente o contrário.
talvez ela apenas consiga carregar a própria dor de um jeito que eu nunca aprendi.
e talvez seja isso que eu inveje.
mas será que invejo a bela?
ou sinto luto pela pessoa que penso que poderia ter me tornado?
é como se, ao longo da vida, eu tivesse utilizado toda a coragem que tinha e, aos vinte e cinco anos, ela, que já era escassa, tivesse se esgotado.
talvez coragem não seja apenas conseguir falar.
talvez coragem seja conseguir existir sem que a dor organize sua existência.
como se, depois de certo tempo, algumas pessoas deixassem de ter que sobreviver à ferida. e se tornassem sobreviventes da cicatriz.
será que bela vive apesar do que aconteceu, enquanto eu ainda vivo a partir do que aconteceu?
será que a diferença entre nós é mesmo coragem? ou o lugar que a dor ocupa na vida de cada uma?
não sinto que sejamos tão parecidas quanto ela acredita. mas também não consigo dizer exatamente o que nos diferencia.
talvez exista nela alguma coisa que falte em mim.
ou talvez exista em mim alguma coisa que ainda não consegui reconhecer que falte nela.
por que ela consegue se enxergar como alguém que sobreviveu e eu continuo me enxergando como alguém que se permitiu ser ferida?
será que, em algum momento, me permitirei acreditar que também sobrevivi?
ou sobreviver exige reconhecer que certas coisas realmente aconteceram?
que algumas pessoas realmente me machucaram.
que, diversas vezes, aceitei permanecer onde já estava sendo ferida.
talvez o problema nunca tenha sido a bela.
talvez tenha sido o que a existência dela exige que eu aceite sobre mim.
será que sobreviver exige inocência?
será que poderia me considerar sobrevivente sendo que participei da minha própria destruição?
existe um limite para o consentimento quando alguém acredita que merece ser machucado?
será que continuo me culpando porque, dessa forma, consigo preservar a ideia de que eu poderia ter evitado tudo?
talvez eu tenha me convencido durante muito tempo de que sobreviver era um direito reservado às pessoas que não participaram integralmente da própria destruição.
mas, se isso fosse verdade, bela também não poderia se reconhecer como uma sobrevivente.
e talvez tenha sido exatamente isso que me fez reagir à forma como ela conta a própria história.
porque, se ela tem esse direito, talvez eu também tenha.
e ainda não sei o que fazer com essa possibilidade.
23.07.2026
encontrei a bela num restaurante italiano para jantarmos e resolvermos o que seria da nossa amizade. conforme o vinho descia pelas nossas gargantas, as palavras saíam, dando espaço ao álcool.
dormimos juntas e sinto que realmente conseguimos nos entender.
tentei dispensar a bela no início da nossa amizade. e ela insistiu. me mostrou que queria estar ao meu lado.
mas eu não consigo entender. como alguém com um coração tão bom poderia permanecer? às vezes penso que pode ser só ingenuidade da parte dela. de querer consertar pessoas quebradas.
não é como se eu duvidasse da palavra da bela ou desconfiasse que estivesse tentando me machucar. também não é como se ela não demonstrasse carinho. mas tenho dificuldade em acreditar quando alguém diz que verdadeiramente se importa comigo.
talvez eu evite deixar as pessoas se aproximarem porque não sei lidar com a vergonha de quando finalmente entendem por que passei tanto tempo tentando mantê-las longe.
sinto que é inevitável que, com o passar do tempo, enxerguem todas as partes minhas que tento esconder. como se bastasse me conhecerem por tempo suficiente para eventualmente perceberem minha podridão.
bela comentou que sentiu que, depois da minha convulsão, perdi o brilho nos olhos. como se não existisse mais vida em mim. disse também que nunca falou sobre isso porque não sabia como tocar no assunto sem soar egoísta.
eu também não toquei no assunto.
não porque não quisesse falar da convulsão, mas porque tive vergonha de pensar que ela finalmente tinha entendido por que eu sempre tentei mantê-la distante.
não queria ouvir em voz alta aquilo em que eu já acreditava: que o problema era eu.
tive vergonha de ter sido descoberta na minha autodestruição. novamente.
é como se, ao entrarem em contato com o meu sofrimento, eu finalmente me revelasse. como se todo o resto pudesse ser uma versão criada para conviver com as pessoas, mas a dor mostrasse aquilo que realmente existe em mim.
a dor é a única coisa que tenho certeza de que é real. é a única coisa à qual consigo me apegar. é a única que não me escapa.
acho que isso acontece porque, por mais que eu pense que estou fazendo a coisa certa e que estou com a razão, mais tarde percebo que não posso confiar nos meus próprios sentidos. como se não pudesse confiar na minha própria visão do mundo. como se não pudesse confiar em mim mesma.
porque eu mudo a realidade enquanto ela ainda está acontecendo.
é como se, enquanto uma situação acontece, eu já começasse a completá-la com os meus medos. como se eles ocupassem os espaços que a realidade ainda não preencheu.
a espera é impossível quando surge a urgência de antecipar um abandono.
uma mensagem não respondida nunca é apenas uma mensagem não respondida, mas a confirmação de algo em que eu já acreditava.
e, a cada conversa de reconciliação, descubro que a situação talvez pudesse ter sido menos crítica se eu não tivesse me convencido de que, daquela vez, o problema não era eu.
mas como posso saber que estou entendendo tudo errado se, enquanto acontece, aquela interpretação parece ser a única que faz sentido?
talvez seja por isso que eu tenha tanta dificuldade em acreditar quando alguém diz que quer permanecer. porque nunca sei se estou enxergando a pessoa como ela realmente é ou como o meu medo precisa que ela seja.
quando permanecem, sinto alívio. mas a permanência também aumenta minha angústia. porque é como se eu fosse uma bomba-relógio cujo momento da explosão ninguém consegue prever.
não sei se busco me proteger, protegê-los de mim ou me impedir de descobrir se algum dia eles realmente poderiam escolher ficar.
o problema é que a realidade nunca me desmente completamente. ela me contradiz o suficiente para que eu duvide de mim, mas me confirma o bastante para que eu continue acreditando na pior versão de quem sou.
a convulsão, por exemplo, poderia ser apenas a consequência de um momento em que eu não estava me cuidando. mas, para mim, tornou-se mais uma evidência de que a minha existência sempre ultrapassa os meus próprios limites e acaba atingindo quem está ao redor.
sempre que me destruo mais do que planejava, acabo machucando quem está à minha volta também. não é como se eu errasse o alvo. é como se os danos se estendessem para além de mim e alcançassem quem eu amo.
o meu sofrimento, quando não contido, machuca quem eu amo.
é como se o medo de machucar alguém me levasse a me machucar primeiro.
durante muito tempo pensei que fazia isso porque a dor que eu me causava poderia tornar insignificante a dor que os outros poderiam me causar. como se fosse uma distração.
mas talvez não seja apenas distração.
talvez seja uma tentativa de controlar tudo o que me acontece.
a dor provocada pelos outros é imprevisível. não tem hora para chegar, nem depende inteiramente de mim.
a dor que eu me causo tem autor conhecido. tem começo e, em alguma medida, parece uma escolha.
não é que doa menos. nem que torne a outra insignificante.
mas existe certo conforto em saber de onde ela vem.
a dor causada por outra pessoa exige que eu acredite que algumas perdas não estão sob o meu controle.
que nem tudo é culpa minha.
quando sou eu quem provoca a dor, não preciso esperar que alguém decida me abandonar. não preciso permanecer à mercê de uma escolha que não é minha. transformo a possibilidade de uma dor desconhecida em algo familiar.
talvez seja por isso que, tantas vezes, eu antecipe o abandono. vou embora antes que precise descobrir se ele realmente viria do outro.
a dor que me provoco não me faz sentir viva, mas, em alguma medida, dá sentido à minha existência.
porque ela nunca vai embora. é a única presença que nunca precisou ser convencida a permanecer. mesmo quando sou eu quem a provoca, ela volta. não preciso implorar.
como se existisse entre nós uma fidelidade que nunca consegui construir com ninguém.
a dor é a única que não me abandona.
mas, se não posso confiar na minha própria percepção, no que deveria me apegar?
talvez o problema nunca tenha sido apenas enxergar a realidade de forma distorcida.
talvez seja precisar que alguém consiga desmentir a única versão minha em que sempre soube acreditar.
não é fácil confiar na percepção de quem está do lado de fora, mas ela parece ser a única forma de dar sentido ao que se passa do lado de dentro.
talvez eu passe tanto tempo tentando descobrir qual versão do mundo é verdadeira porque, no fundo, estou tentando descobrir qual versão de mim é a verdadeira.
por isso é tão difícil não me afetar quando me descrevem como um monstro, um peso ou um problema.
é como se uma única palavra fosse suficiente para provar que eu sempre estive certa. que ninguém deseja permanecer porque não sou um bom motivo para permanecer.
mas, quando alguém insiste que posso ser amada, que vale a pena permanecer ao meu lado ou que estou entendendo tudo errado, minha primeira reação é pensar que essa pessoa ainda não me conhece por tempo suficiente.
se continuamente descubro que interpretei o mundo de forma errada, será que também posso ter interpretado a mim mesma de forma errada?
e, se a realidade às vezes confirma os meus medos e às vezes os desmente, como decidir em quais momentos devo confiar na minha percepção?
quando ela coincide com aquilo que algumas pessoas dizem sobre mim?
ou quando contradiz a pessoa que outras insistem que sou?
como escolher entre a versão de mim que sempre reconheci e a versão que algumas pessoas insistem em amar?
por que a versão mais dolorosa sempre me parece também a mais verdadeira?
percebo que não desconfio da minha percepção o tempo todo. desconfio dela principalmente quando ela me apresenta uma versão de mim que pode ser amada. a versão que me condena raramente precisa de provas para parecer verdadeira.
eu confio mais na percepção que me condena do que naquela que me absolve.
e talvez seja justamente por isso que nunca consigo descobrir se as pessoas permanecem porque ainda não me conheceram o suficiente ou porque enxergam em mim alguma coisa que eu passei a vida inteira me recusando a reconhecer.
um motivo para permanecer.
22.07.2026
decidi marcar um encontro com um homem que conheci pela internet. decidi também não pedir foto alguma dele, nem mesmo perguntei sua idade. somente sei que se chama vitor. bom, foi este o nome que me deu.
há um tempo estou nesse site tentando encontrar alguém que deseje estar comigo. pensei que, se eu me vendesse, alguém gostaria de ter minha companhia. mas não tenho conseguido nem de graça.
é claro que, além do benefício de ganhar mimos ou dinheiro em espécie, que era minha pretensão, eu queria que usassem o meu corpo. não só porque sinto que ultimamente essa tem sido a minha única utilidade, mas porque intelectual e espiritualmente penso que tenho deixado a desejar. finalmente sou linda e preciso desfrutar desse privilégio enquanto ele ainda não me escapa.
também é muito bom ouvir de um homem com quase a idade do seu pai que o seu corpo é perfeito. é como se eles rebatessem todos os comentários paternos sobre minha forma.
meu pai me ensinou que dinheiro é a coisa mais importante que podemos ter, que deveria ser nosso único objetivo. se um homem me desse dinheiro, talvez eu pudesse chamar isso de amor.
o primeiro homem deste site que conheci pessoalmente chamava lucas.
na época eu estava indo de fretado para a faculdade, então chegava bem antes da aula começar. iniciamos a conversa momentos antes de eu ir para o ponto esperar o ônibus e decidimos nos encontrar, assim, sem pensar duas vezes.
não sei dizer, mas algo me conectou a ele. senti que deveria encontrá-lo.
talvez tenha sido a sensação de que eu pudesse ser a resposta para os seus problemas. como se o meu valor dependesse de ter sido escolhida como sua confidente para cometer aquele adultério.
ele me escolheu porque me achou bonita e talvez, por ingenuidade, tenha confiado em mim. não digo ingenuidade porque atentaria algo contra ele, mas porque talvez acreditasse que eu saberia separar as coisas.
era o primeiro homem que eu decidia encontrar daquele site. lidei com a ansiedade o caminho todo, ao chegar lá, ele estava me esperando perto do meu prédio. combinamos que eu me apressaria para entrar no carro porque ele é casado e conhecido naquela universidade.
eu não sabia como ele aparentava. somente que tinha 42 anos, era casado e estava tendo problemas no relacionamento. não é como se eu fosse me envolver com ele, mas queria conversar. senti que ele também.
entrei em seu carro, contei que estava procurando alguém que me valorizasse e ele respondeu que eu não precisava estar naquele site para isso.
me contou que sua mulher havia tido um bebê havia pouco tempo e que sentia falta da atenção dela. o considerei muito egoísta, obviamente, mas não esperava que fosse um homem tão bonito. tinha os braços fortes, cabelo bem preto, nariz grande, barba feita e aparentava ser bem alto, pois suas pernas pareciam desconfortáveis dentro da bmw.
nós acabamos nos beijando.
lembro de como os olhos dele se acenderam.
foi como se eu finalmente pudesse ser necessária.
desci do carro me sentindo esquisita. pela primeira vez, senti que alguém se afetaria pela minha ausência.
passava os dias esperando receber uma mensagem sua. eram raras e reservadas ao período matutino. mesmo assim fantasiei que talvez coubéssemos no vazio um do outro.
ele tentou manter contato por um tempo, mas me senti culpada demais por ter me envolvido com um homem casado com uma mulher que ainda estava superando o puerpério. então fui grossa com ele.
nos afastamos. comecei a namorar e, um dia, ele enviou mensagem perguntando como eu estava. gerou uma briga naquele relacionamento, mas, sinceramente, nem me importei.
há tempos pensava no lucas e me perguntava se algum dia voltaria. quando deixou de me responder, só me faltou implorar para que ainda me escolhesse. como se fosse desistir da vida com sua mulher e seus filhos.
eu queria admirá-lo por não ter cedido.
queria me convencer de que a minha ausência poderia ser sentida por um homem bom.
percebi ontem que excluiu a conta em que costumávamos nos comunicar.
penso constantemente neste homem casado.
tenho tentado encontrar outros homens na esperança de que algum dia reencontre o lucas. mesmo quando eles não têm a mesma idade, nem escrevem como ele.
não é só como se esse encontro de menos de uma hora tivesse se tornado régua para todos os encontros que vieram depois. é que me entristece aceitar que aquilo que me marcou profundamente talvez não tenha tido o mesmo peso para ele.
decidi ontem ir para campinas encontrar este homem, vitor, mas ele, que havia marcado comigo em um restaurante dois dias antes, não confirmou o encontro. decidi ir mesmo assim.
talvez para comprovar a mim mesma que sempre desistem de mim.
não me permiti chorar porque eu estava linda. decidi jantar uma salada e voltar para casa.
o que fazemos quando alguém nos oferece, por um instante, uma versão de nós mesmos que passamos a perseguir pelo resto da vida?
não é mais como se eu estivesse tentando encontrar o meu pai nestes homens.
e talvez nem seja o lucas que procuro.
talvez seja a possibilidade.
porque é como se eu até pudesse ser escolhida.
mas sou sempre temporária.
19.07.2026
li o livro durou um momento, não teve fim em dois dias. a história conta sobre três gerações de mulheres e como o trauma pode ser herdado e se manifestar de outras formas.
a avó se casou jovem e fora enganada pelo homem que jurou amá-la, mas passou a violentá-la. a mãe foi um bebê indesejado, pois não nasceu menino. então cresceu tentando agradar seu pai e se envolveu com um homem que talvez só não fizesse as mesmas coisas que ele porque morava distante, para se ausentar do cuidado da filha. que, por sua vez, decide não ter filhos e encerrar o ciclo.
pensei que me identificaria mais com a filha, mas acabei me identificando com a mãe.
a autora decidiu não nomear o transtorno mental da mãe, o que, apesar de eu acreditar que seja bipolaridade, deu espaço demais para eu interpretar como se fosse sobre mim. a mãe tem vários altos muito altos e baixos muito baixos. o livro termina com um momento entre avó e filha, após a morte da mãe. é um momento de paz. que somente foi possível acontecer após o fim da vida da mãe.
e é isso que temo me acontecer caso me permita engravidar.
mesmo que meu marido não me abandonasse, o que já é quase impossível, como poderia eu, sendo eu, não condenar a vida da minha filha com minha existência?
seria possível amar alguém sem condená-la a carregar partes de mim?
será que toda filha carrega partes da mãe ou somente as partes que a mãe não conseguiu elaborar?
não é como se eu somente temesse fazer algo ruim. é como se ser quem sou já fosse suficiente para machucar alguém.
talvez não tenham sido somente as oscilações de humor, o ego em ser a melhor na profissão do pai ou o fato de ter sido um bebê indesejado por não ser um menino. por ter sido mais uma expressão de fraqueza. talvez tenha sido o medo de se tornar sua mãe.
até consegui me identificar um pouco com a filha, para não ser mentirosa. me identifiquei com o desespero dela em ser amada. com sua fome de afeto. mas isso a mãe também carregava. a necessidade da aprovação do pai, do seu herói.
sinto que as pessoas aprenderam a lidar com a minha existência e que, a esse ponto, minha inexistência repentina mexeria com elas. mas, ao mesmo tempo, sinto que todos nós teríamos mais paz depois do meu fim.
não é como se eu fosse um terror o tempo todo na vida das pessoas que me cercam, porque mesmo meus pais, com quem moro na mesma casa, não convivem comigo vinte e quatro horas por dia. então, mesmo transbordando às vezes, ainda consigo me conter e vestir a versão que criei para eles.
mas, como mãe, eu teria que passar o tempo todo com minha filha. e isso seria condená-la a apodrecer como eu.
será que o meu medo é machucá-la ou que ela me veja como eu me vejo?
será que conseguiria esconder de uma filha a pessoa que acredito ser?
tenho medo de que o sofrimento que existe em mim seja maior do que minha capacidade de amar.
porque talvez o amor não seja suficiente. nem mesmo o ato de amar.
por mais que minha filha não nascesse quebrada como eu, será que não seria mesmo inevitável ela ser afetada pela minha autodestruição?
será que toda mãe teme estragar a vida dos filhos ou só aquelas que já acreditam ter estragado a própria?
se minha filha existisse e dissesse que me ama, será que eu seria capaz de acreditar nela?
se eu tivesse certeza de que meus traumas não seriam herdados nem aprendidos, será que ainda me identificaria com a mãe?
20.07.2026
quanto tempo é necessário para que duas pessoas se conheçam profundamente?
não tenho certeza do caminho que quero tomar com a bela. se quero tomar algum caminho com ela ou se prefiro seguir sozinha.
decidimos de última hora viajar juntas e acredito que ambas estavam cultivando alguma esperança de que essa viagem funcionasse para fortalecer um elo que já está desgastado.
compreendo que ela estava chateada com o conflito entre nós, mas a forma como me pintou para mim e para seus amigos não me pareceu nada justa. sinto que está tentando se fazer de vítima, sendo que não existe vítima nesse conflito. são apenas duas amigas tentando se resolver.
ela apareceu na minha vida num momento quase decisivo. insistiu em se aproximar mesmo depois de eu tentar dispensá-la. todo esse tempo de amizade contribuiu para me mostrar que eu não era o monstro que pensava ser.
quando nos conhecemos, e durante muito tempo depois disso, foi imprescindível poder me olhar com mais carinho. como se eu estivesse começando a me enxergar pelos olhos de alguém que queria cuidar de mim. como se eu estivesse me vendo pelos olhos da bela. ela me mostrou que era possível ser aceita mesmo com minhas dores.
mas não acho que eu tenha me mostrado por inteiro para ela. talvez, se tivesse, nossa amizade tivesse sido mais breve.
ultimamente, ela tem me pintado justamente como esse monstro que levei tantos anos para convencer a mim mesma de que não sou.
será que ela realmente passou a me enxergar assim ou apenas contou a história da forma como conseguiu suportá-la?
entendo que sempre falei manso com ela e que talvez ter levantado a voz a tenha surpreendido, como se ela nunca tivesse cogitado que eu seria capaz de fazer isso para tentar ser ouvida. ela repetiu diversas vezes que gritei com ela, como se eu fosse uma mulher histérica e descontrolada.
durante a viagem, na qual nos desentendemos algumas vezes, bela me comparou novamente com seu namorado. duas vezes. ela é a única que enxerga qualidades naquele homem, somente porque o ama. não consigo entender como alguém que lê tantos livros, escreve tanto no diário, não consegue perceber o peso das próprias palavras. tenho certeza de que nunca percebeu que, indiretamente, me comparou com alguém cuja tristeza disse que a apodrece por dentro.
ela também me disse que ficou surpresa ao descobrir que tenho o sonho de lançar um livro. mas eu não fiquei surpresa por ela não saber. ela nunca perguntou. já a enviei meus textos e nunca obtive resposta alguma. nenhum elogio, comentário ou crítica. foi ali que percebi que ela conhecia a minha tristeza, mas não a minha esperança.
como ela esperava que eu confiasse meus sonhos a alguém que disse que minha tristeza a apodrece? como confiar em alguém diante de quem não consigo me permitir ser eu mesma?
será que em algum momento eu fui realmente eu enquanto estava com a bela e fui aceita por ela?
em que momento passei a não ser mais eu?
talvez eu nunca tenha sido totalmente eu mesma com ela. ou talvez tenha conseguido apenas no começo. ou talvez a amizade tenha me mudado.
entendo que ela possa estar com receio de que eu esteja apenas tentando me machucar com as decisões que tenho tomado. mas não sinto que ela se importe o suficiente para conversar comigo sobre isso, em vez de tentar me convencer de que estou errada.
até pensei em conversar com os amigos que ela dizia que poderiam ser meus também. mas não sei se tenho interesse em tentar provar meu caráter para pessoas que provavelmente já formaram uma opinião sobre mim.
não queria ter que colocar um ponto final na nossa amizade, mas também não sei mais como continuar tentando me encaixar na vida de alguém que claramente já não tem espaço para mim nela.
quanto mais tento recuperar meu espaço na vida dela, mais me perco de mim mesma.
é como se todos os anos que passei tentando me encontrar fossem desperdiçados.
como se eu estivesse jogando minha vida para o alto para conseguir segurar a bela.
talvez conhecer alguém profundamente não seja descobrir seus sonhos ou traumas.
talvez seja descobrir como essa pessoa escolhe contar sua história quando vocês deixam de se reconhecer.
01.07.2026
hoje fui realizar um divórcio energético.
havia planejado realizar o divórcio somente com um ex-namorado que me machucou muito e em quem, infelizmente, esbarrei num bar há três dias. não é como se eu não pensasse nele antes de vê-lo naquele bar. continuo recebendo suas solicitações de amizade, mas gosto de fingir que ele nunca existiu para mim e que continua não existindo.
na sala da terapeuta, ela me disse que seria possível realizar dois divórcios de uma única vez. acabei escolhendo esse ex-namorado e minha mãe. decidi pela minha mãe pois ela teve uma participação muito importante neste relacionamento.
neste relacionamento, minha mãe decidiu intervir após me ouvir aos prantos. nós nunca tivemos coragem de falar uma com a outra pessoalmente, então ela me enviou uma mensagem, pedindo para eu me valorizar mais. me lembro de responder somente que aquilo eu não havia aprendido.
sinto que este relacionamento foi o que mais me assemelhei à minha mãe. não somente por tudo que aceitei, mas porque dizia aceitar isso tudo em nome do amor. amor esse que nunca existiu.
não há algo que eu tenha feito que me envergonhe tanto quanto este relacionamento. não somente porque aceitei diversas traições, humilhações e violências, mas porque não posso nem me justificar através do amor. porque eu nunca amei aquele homem. eu não suportava estar perto dele. mas pensava que o amor era assim mesmo. tolerar e ser tolerada.
eu perderia tempo demais tentando listar todas as coisas horríveis que ele me fez, mas mesmo se tentasse, não conseguiria me lembrar de tudo. é como se minha mente tivesse apagado quase todas as lembranças do tempo que vivemos juntos.
assim como aos demais namorados, escrevi muitos textos sobre e para este ex, mas depois que chegamos ao nosso fim, me prometi que nunca mais escreveria sobre ele. porque escrever sobre ele seria assumir que um dia significamos algo um para o outro.
escrever sobre ele seria admitir que um homem tão ridículo já teve tanto poder sobre mim.
tem uma única lembrança que me visita quando a vida me faz lembrar da existência dele.
mas, para ser sincera, não sei dizer se é uma memória ou se foi algo que minha cabeça criou.
nunca contei para ninguém sobre essa dúvida porque pronunciá-la em voz alta poderia transformar essa memória em algo real. como se fosse um pesadelo que eu realmente tive que sobreviver.
eu já lidava com problemas para adormecer ao lado de outra pessoa, mas depois dele, passei a ter mais problemas com o sono. adormecer sozinha também se tornou um desafio.
não me lembro de qual festa tínhamos voltado, somente de estar muito bêbada e dormir no apartamento dele. mas não me lembro se realmente acordei com ele em cima e dentro de mim, ou se minha cabeça criou esse cenário tenebroso por conta da bebida. ao mesmo tempo que não quero acreditar que foi real, às vezes essa cena me aparece de surpresa, e sinto meu corpo rígido. como se ainda sentisse o peso dele em cima de mim.
mas não há muito o que fazer, porque nessa lembrança, depois de acordar, eu não gritei, não reclamei, não fiz nada. fiquei imóvel e fingi continuar dormindo.
eu sinto muita culpa quando penso nisso tudo. mas, ao certo, não sei por quê.
não sei se a culpa é na verdade medo de que esse momento realmente tenha acontecido, ou se é medo de me reconhecer como alguém para quem isso aconteceu.
nas poucas vezes que sonho com ele, costumo imaginar que está deitado naquela cama, dormindo num sono profundo, enquanto eu despejo gasolina por todo o seu quarto. acendo um fósforo, ele acorda com o barulho, me olha, e eu solto a chama no líquido inflamável. ele me implora perdão, mas eu não o perdoo. somente fecho a porta e o deixo agonizar.
talvez todo o restante que ele me fez seja suficiente para me provocar esses sonhos. talvez essa memória confusa não seja um acontecimento real.
e talvez exista uma forma de falar da dor sem nomeá-la. talvez exista uma forma de assumir o quanto me machucou sem assumir que é real.
será que é possível uma dúvida causar tanta dor? e será que uma dor precisa de um nome para existir?
ou será que uma dor pode ser legítima mesmo quando a memória permanece incerta?
14.07.2026
durante o jantar de hoje, bela tentou me convencer de que existem homens bons. e que, de certa forma, a culpa de eu continuar me relacionando com homens ruins é minha, pois, se eu não acreditar que existem homens bons, irei somente atrair homens ruins.
eu gostaria que fosse simples, assim como bela diz ser. mas mesmo adolescente, quando ainda acreditava na bondade do homem, sempre atraí homens ruins e malvados que só queriam me machucar. e eu obviamente sempre deixei. não só porque me odiava, mas porque pensava que não é possível amar sem se destruir. e por muito tempo considerei como amor toda aquela dor.
não é como se eu duvidasse completamente da existência de homens bons, mas também não é como se eles existissem para mim. talvez ficar me repetindo que todos os homens traem, mentem ou te abandonam não seja uma forma de me autossabotar ou de disseminar misandria gratuita.
não gostaria de comentar sobre quantas vezes bela utilizou seu namorado como exemplo de homem bom. não é que ele seja um homem ruim. mas me chama atenção o fato de um homem de trinta anos pedir dinheiro para a namorada repetidas vezes, mesmo sabendo que isso a incomoda. a definição de "homem bom" da bela me parece muito limitada, com bondade sendo reduzida à ausência de violência ou traição. o problema não é só trair. existem outras formas de egoísmo que também desgastam uma relação.
basta um homem não bater nem trair para ser bom? um homem continua sendo bom quando sabe que determinada atitude machuca a mulher que diz amar e mesmo assim a repete? em que momento o egoísmo deixa de ser um defeito e passa a ser uma expressão de violência?
ela consegue acreditar que aquele ex-namorado foi apenas uma exceção. mas, para mim, eles sempre foram a regra.
ao dizer isso, não estou apagando os traumas da bela, como esse ex-namorado com fetiche em estupro que teve. mas ainda não consigo entender como ela deseja tanto que a namorada dele entre em contato para poderem compartilhar seus traumas e desgostos referentes a ele. como alguém que sofreu tanto na mão de um homem deseja reviver essa dor? será que seria somente pelo prazer e realização de ter alguém que compartilha suas dores por ter se envolvido com a mesma pessoa que as causou? ou será que ela tem orgulho dessa cicatriz que foi deixada? às vezes me incomoda quando bela conta essa história, porque não entendo como alguém que passou por isso consegue falar dessa história sem perceber que ela pode atravessar quem escuta.
talvez seja justamente por isso que eu tenha tanta dificuldade em acreditar quando alguém me diz que existem homens bons. talvez estejamos chamando de "homem bom" coisas completamente diferentes.
mas, supondo que bela esteja certa.
se eu finalmente acreditasse na existência de homens bons, o que mudaria?
será que eu conseguiria acreditar que um deles me escolheria?
ou será que continuaria acreditando que homens bons existem apenas para outras mulheres?
talvez a minha dificuldade não seja acreditar que existem homens bons.
talvez seja acreditar que um deles possa me amar sem querer me destruir.
LORA MATHIS
‘If There’s A Way Out I’ll Take It’ by @lora-mathis;
original photos and edit
"Eu preciso vomitar minha mãe de dentro de mim." (Zambiazi, Gabriela)
"Era um bebê esquecível, pedia pouco. Parecia levantar, logo no primeiro ato da vida, sua maior qualidade, como se lhes assegurasse: vejam como quase não ocupo espaço." (Zambiazi, Gabriela)
"No frigir dos ovos, Iraci era filha de sua mãe, forjada do mesmo material que Magda, seu útero capaz de produzir apenas mais fraqueza." (Zambiazi, Gabriela)
"Sua única esperança foi que desse à luz um macho, que atuasse como o canal através do qual finalmente seria corrigido o erro que a existência dela representava." (Zambiazi, Gabriela)
"A menina de oito anos tentou enfiar o punho fechado inteiro pela boca. Queria mesmo empurrar para o fundo da garganta o grito que exigia sair de dentro dela. Quando isso não deu certo, mordeu a pele até sentir o tempero do sangue escorrer pela língua. A vontade era de berrar tão alto, e por tanto tempo, que se esquecesse de como eram as coisas antes do berro começar. Os olhos arderam, mas Iraci se recusou a desperdiçar qualquer lágrima. Uma pessoa chorava quando estava triste. Ela estava furiosa, o que era bem diferente." (Zambiazi, Gabriela)