Há poucos dias, durante a missa que frequento e concordo menos do que dizem que eu deveria, recebi uma mensagem sua. Na verdade, foi uma ideia minha. Mas que eu sei que está relacionada a você.
Dizem que, quanto mais velhos ficamos, mais rápido o tempo passa. E olha, não sei dizer se isso é algo bom ou ruim para mim, mas sei que eu não sou a mesma pessoa que eu era há um ano, e sinto que passaram meses além dos que o calendário insiste em mostrar.
Foram muitas coisas, sabe? Primeiro, o término da faculdade. O amado e odiado frio na barriga que pergunta qual será o próximo passo. Eu já tinha desde sempre a perspectiva de, nesse momento, sair da casa dos meus pais e conquistar a tão sonhada independência. Mas não tinha ideia de que esse momento representaria também muitas outras transformações.
Primeiro, deixei o cabelo que antes era virgem em um ruivo que me impactou (e incomodou, porque não ficou como eu gostaria). Sabia que era loucura. Mas foi aquilo: “se não existe um bom motivo para eu não fazer além do medo, então eu vou fazer”. Poucas vezes me senti tão corajosa quanto naquele dia. E a mudança representada pela tinta foi muito mais profunda para mim.
Uma semana depois, o assalto. Talvez evitável, quase inofensivo, mas me deixou uma marca profunda. Foi a primeira vez que eu saí sozinha à noite em São Paulo, entende? A primeira vez em que me senti desfrutando integralmente da minha liberdade. E aí isso. Algo do tipo “calma, garota. Vai devagar. Não é bem assim.”
Fiquei com medo. Mas eu não fazia ideia de que ele não era nada. Alguns dias depois, realizou-se o maior medo da minha vida. O que me tirava noites de sono quando criança, e também nos últimos meses. O Freud se foi e, com ele, uma parte muito grande do meu coração. Com ele, cenas muito importantes da minha infância. Senti que o meu eu do passado tinha definitivamente ficado para trás, e não pararia de sangrar tão cedo. Talvez nunca.
Não vou me prolongar sobre isso, ou não termino esse texto. Mas enfim. Longe da minha família, minhas únicas companhias diárias (via o João e outras pessoas ocasionalmente) passaram a ser o Bichento e a Luna. Os dois filhotes que apareceram lá não por decisão minha, aos quais tive receio de me apegar, mas que eu adotei quando surgiu a possibilidade de mandá-los para outro lugar. Eles se tornaram meus filhinhos, sabe? O Bichento, especialmente, me ajudou a lidar com a perda do Freud.
E outras coisas aconteceram também no decorrer desse tempo. Surgiram desafios no trabalho. Descobri que adoro cuidar da casa, sou controladora e tenho mais em comum com a minha mãe do que eu imaginava. Comecei uma pós-graduação pensando em N motivos, que agora continuo por apenas um deles. Cresci, pela dor e pelo amor. Percebi que eu não lidava mais tão bem com a ideia de ficar sozinha. Que eu tinha desaprendido a me divertir sem a presença de outras pessoas. Que eu não era, também, a adolescente que havia sido um dia.
Não é surpreendente dizer que minha ansiedade atingiu um ponto nunca antes visto (talvez uma vez). E, por causa dela e do fato de que cozinhar apenas para mim também não era tão divertido, ou de deixar outros tomarem minhas decisões alimentares, engordei. Não pouco, não: uns 7 quilos. O suficiente para eu não me reconhecer mais em meu próprio corpo, não estar feliz com a minha aparência. E ficar chateada quando me informam desse peso a mais em alto e bom tom.
As cartelas semanais de Neosaldina e o fato de eu me pegar rangendo os dentes constantemente sinalizaram, oficialmente, que algo estava errado. Depois de muito investigar e uma consulta médica particularmente incrível, percebi que o modo como eu me sentia - e ainda sinto - é causado por essa ânsia. E que, embora ela tenha me acompanhado desde que me conheço por gente, não precisa continuar sendo parte de mim. Enxerguei, finalmente, que eu NÃO SOU a minha ansiedade.
Foi com uma perspectiva otimista e disposta a melhorar que comecei 2017. Pena que o primeiro dia do ano reservou para mim uma perda para a qual eu não estava preparada, e nem consigo encontrar justificativas: a do Bichento. Sim, meu companheiro diário. Que me seguia pela casa. Dormia de conchinha comigo. Eu consigo entender que o Freud precisou descansar depois de quase 16 anos, mas não vejo por que o Bibi precisou ir embora com dez meses de idade. Justo o meu favorito entre os dois que moravam comigo. E eu que esperava poder construir mais tantas memórias com ele… Pelo menos, tive a chance de me despedir.
Diante de tudo isso, acho que era impossível eu continuar a mesma pessoa de um ano atrás. E a mensagem que eu ouvi no sábado passado foi uma que já estava pouco a pouco se construindo na minha cabeça: tenho excessos. Excesso de ansiedade, de vontade de criar, talvez de sonhos. Excesso de consideração sobre o que vão pensar de mim. Excesso de preocupação com o trabalho e os estudos - na mesma medida da procrastinação. Excesso de saudade. Excesso de dor. Mas também de amor, porque só sentimos falta do que amamos. Excesso de controle e de descontrole. De comer e adiar o sono. Excesso de peso. Excesso de gastos.
Acho que meu pedido de hoje é especialmente um, Deus. Livra-me dos meus excessos. Transborda meu coração de luz para que ela vaze na minha cabeça e limpe o que não precisa continuar lá. Ajuda-me a encontrar a minha essência, aquela pérola pequenininha escondida em algum lugar desse quarto bonito e empoeirado. Seja meu mestre. E que eu consiga me desnudar de tudo o que acho sobre eu mesma.