A rua está vazia, já se passou das 3h, a lua e as lâmpadas noturnas é tudo que clareia agora. Eu olho no rosto dela, vejo seus olhos brilharem ao olhar meu corpo apoiado na pequena mesinha que fica em meu quarto, próxima a janela de madeira. Ela me encara de cima a baixo e eu custo a aceitar o que está prestes a acontecer.
Nota mental: não que eu não queira fazer, na real é oque eu mais quero nessa vida! É que é tanta areia que minha picape Chevrolet vermelha idêntica a da Bella Swan em crepúsculo, que vou ter de dar umas 10 viagens e inúmeras paradas pra troca de olho. Resumindo, esse mulherão todo não é pra mim, mas está aqui em minha frente agora, me olhando como se eu fosse um pedaço de picanha em tempos de crise política.
Fim da nota mental.
Volto a realidade, ela me parece tão fantasiosa quanto meus devaneios, mas não é, isso realmente está acontecendo!!! Quero gritar, mas eu pareceria louca se fizesse, eu queria fotografa-la assim, pra que eu pudesse eternizar esse momento além dos meus pensamentos mas tenho receio em sair do lugar em que me encontro para então pegar a câmera.
O ataque: ela se aproxima lentamente, como uma leoa ou uma tigresa se aproxima vagarosamente de sua presa, vem dançando com os braços levantados e mechendo no cabelo já bagunçado, cantarolando Rita Lee, talvez ela saiba dos meus gostos estranhos pra música, ou talvez ela tenha os mesmos gostos duvidosos. Então, como uma felina, ela me ataca, gruda seus braços ao redor do meu pescoço e pula cruzando as pernas em meu quadril, minha blusa ex G surrada de uma banda de rock que eu nem escuto mais é a única peça que ela está vestindo, fora é claro, uma calcinha bege extremamente atraente. Ela me faz ir até a cama, e a gente desaba sobre o colchão, ela me prende ali, montada em cima de mim, me segura com suas mãos e pernas entrelaçadas ao meu corpo, me tornando imóvel, ela me encara como quem sabe que é jogo ganho, e ali me faz jurar que irei assistir pela milésima vez orgulho e preconceito, eu reluto só para não parecer fácil demais, então eu aceito! Ceder aos seus encantos é oque eu faço. Ali, deitada ao lado dela, vendo Darcy ser um grande filho da puta, me pergunto como essa mulher consegue me amar tanto? Eu que não sou nada, e sigo firmemente Fernando Pessoa e Nietzsche, tão pessimista, tão bagunçada, o extremo oposto dela, que ri da vida, lê Cecília e romances clichês, ela que vê a lado bom de tudo, até de uma mulher problemática e sem futuro! Acredito que isso seja amor, seja lá oque o amor signifique, amar é como encontrar livros sendo jogados ao lixo, como uma quarta-feira nublada propícia a tomar chá e comer bolo de cenoura. Afinal, oque é o verbo amar? E quanto tempo dura esse formigamento no estômago quando vejo-a partir? Quanto tempo leva pra eu não te querer mais aqui? Eu que sempre tenho resposta pra tudo dessa vez me vi calada, olhando pra ela e pensando: o amor deve ser esse perfume doce misturado ao cheiro do shampoo pra cabelos enrolados que ela usa.














