sade não estava preparada para aquilo. a mente demora pra processar a situação atual, talvez por conta de seu remédio não ter tido o tempo de agir e ainda se assemelhe um tanto com uma sonâmbula sem capacidade de discernir se a figura à sua frente é mesmo real, ou mero subproduto da psique perturbada pelos eventos recentes. precisa reunir todos os resquícios de sua disposição (e coragem) para poder reerguer o semblante em sua direção, ao escutar o arrastar estridente da cadeira antes de constatar, sem precisar se prolongar muito sobre as feições alheias, que tudo aquilo era muito real e já não havia mais para onde correr.
ela amaldiçoa a si própria com uma enxurrada de palavrões, pensando consigo mess pma que era exatamente por isso que evitava aquele tipo de espairecer. seul era uma cidade enorme, e a mulher não conhecera tantas pessoas antes do ingresso nos pythons para lhe representar alguma ameaça, portanto, as chances daquele encontro haviam de ser as mínimas possíveis. e ainda assim, aconteceu, especialmente porque nos últimos tempos o universo havia encontrado suas maneiras de sempre coagir contra sua (raríssima) tranquilidade. de fato, não estava preparada para aquele encontro, não só por um corpo e mente absolutamente extenuados, como pela falta de um emocional funcionante naqueles quatro anos, condicionado à perspectiva de nunca o veria mais uma vez. vê-lo significava relembrar do que sentira. de todos os seus medos e de toda suaa afeição, mas principalmente, de uma época em que haviam outros caminhos.
e havia optado pelo mais árduo deles. pelo o que tivera abrir mão de todo (o pouco) que tinha; ele incluído. sabendo agora, frente àquelas palavras acusatórias e carregadas de má sentimentos que ele lhe lançava, uma verdade que lhe configurava uma inesperada melancolia: o modo errôneo como agiu garantiu que ele não se lembrasse dela como sua breve paixão juvenil. apenas como a garota que partiu.
❝ ——— eu já estava de saída.” ela começa, rodeando os contornos de sua xícara de café vazia com a ponta dos dedos, como em indicação que o que havia vindo para fazer por ali, estava de fato terminado. o tom é sóbrio e apático, sem expressar muito mais do que seu cansaço. embora um turbilhão de distintas memórias e emoções perdidas preencham seu interior naquele instante, havia sido muito bem treinada em não deixar aquele tipo de fragilidade transparecer. ❝ ——— mas se é isso o que deseja, estou aqui, em carne e osso. e não vou a lugar algum. acho que a esse ponto, é o mínimo que possa fazer. então vá em frente e me diga o que quer que tenha para me dizer.”
‧ ₊ 🍒⌇ Mesmo com as palavras indelicadas jogadas ao vento e o olhar nada simpático, agora que estava ali sentado diante dela, sentiu-sese quebrar um pouquinho. Porque se aproximar fora um impulso provocado apenas pelo sentimento de que aquela seria a única chance de falar com ela novamente, considerando que Minseo conseguira sumir por anos. E é claro que ele tinha acusações e dúvidas e palavras rudes para ela, mas percebeu que estar ali era o mesmo que admitir que ainda se importava. Que ainda doía, mesmo que não fosse nem uma pequena parte do que tinha sentido quando as coisas tinham acontecido de fato. E odiava, com todas as forças, ser aquele que não tinha esquecido. Que ainda guardava mágoas. Que não sabia superar direito as coisas e se agarrava à primeira oportunidade de tirar satisfações para demonstrar isso.
‧ ₊ 🍒⌇ Suspirou consigo mesmo, desviando o olhar da mais nova depois de um silêncio considerável desde quando ouvira sua voz. Bem, devia era ter ignorado-a mas, uma vez que já estava sentado ali, seria ainda pior apenas levantar e sair; amaldiçoando-se por dentro, levou uma das mãos aos próprios cabelos, bagunçando a franja antes de jogá-la para trás, num sinal sutil do quanto estava desconfortável. ㅡ Por que? ㅡ Questionou então, só então voltando a fitá-la com os incomuns olhos azuis. ㅡ Eu poderia falar muita merda pra você, sabe que sim e que eu teria razão em fazer isso, mas eu não vou. Porque não ia adiantar nada. Pra começo de conversa, eu não devia nem ter vindo aqui falar contigo, já que eu sou claramente o único que se importa com alguém aqui, o que me transforma no único otário também.
‧ ₊ 🍒⌇ Negar o óbvio não ajudaria também, então resolveu só jogar tudo pra fora de qualquer jeito. Reconhecer que tinha feito algo burro já não era novidade à essa altura da vida - David tinha uma extensa coleção de escolhas burras e escolhera abraçá-las há muito tempo porque era cansativo negá-las. Mas o crispar de lábios ainda denunciava que não estava nada feliz em fazê-lo nessa situação específica; se já tinha problemas em admitir sentimentos normalmente, ali era ainda pior. Mesmo que estivesse só inconformado. Que, lá no fundo, só estivesse preocupado. Disfarçava bem, mas se apegava muito à certas pessoas e tinha dificuldade em deixá-las ir. Mais ainda quando a incerteza sobre o bem estar dessas pessoas não existia. ㅡ Eu gostava de você, Minseo. O mínimo que você deveria ter feito era me dar um motivo. Porra, nem isso, um aviso seria suficiente. Já seria melhor que acordar num dia e você só não estar mais lá.