O TRANSEUNTE
Esta necessidade que sinto de chegar à essência de tudo,
carrega em si uma leveza mística.
De cada transeunte, de cada passante,
eu queria ser as tristezas e agonias.
Os seus olhos sempre são mais tristes que os meus,
como se neles houvesse mais metafísica.
Que passa em seus pobres peitos?
Que lutas já foram perdidas?
Há sonhos, magias ou esperanças?
Não sei. A minha pequena análise só consegue, vez ou outra,
roubar-lhes breve sorriso.
E passo sempre sem maiores emoções, em silêncio,
a roubar-lhes os mistérios que talvez nunca tenham tido.
As individualidades são universos complexos e brilhantes.
Observando-as, eu sinto que as imperfeições humanas
pairam no tempo e só conseguimos certo distanciamento
na medida em que a distração nos toma conta do espírito.
Viver é um equilibrar-se constante.
É um conjunto de ações e pensamentos
que transitam entre céus e infernos que por vezes inventamos.
Eu tenho a dádiva dos sonhos.
E o maior deles, hoje, é conhecer estas cousas insólitas
que me aquecem o espírito.
Cousas que não vejo, mas que sinto e exploram meus pensamentos.
Vejo as flores, fora os girassóis, todas elas são as mesmas;
Mas quando os pássaros para elas cantam
surge ali um novo significado, novo valor.
Talvez seja isto: precisamos de mais pássaros e de mais sentidos.
Volto ao transeunte e neste instante ele já se vai ao longe;
Também tenho que ir.
O céu está escuro e a noite começa a surgir calma.
Eu penso no café e no que ei de comer apressadamente,
No banho, nos textos, nos versos...
Lembro de certas situações passadas
e solto larga e intensa gargalhada em meus pensamentos.
As individualidades são universos secretos e distantes,
são combustíveis perpétuos que criam arte ou insanidades hediondas.
A vida simples é a boa.
Ser lúdico e bom.
Ser desinteresse.
Ser antidesejo, ser anticaminhotortuosocomum.
Como dizia a oração de Vincent Eliofante:
[...] que todas as cousas sejam puras;
que os pássaros cantem tranquilamente
ante a aurora que se aproxima;
que o céu azul anil rasgue todos os horizontes
e cure as dores dos peitos que sofrem de forma diuturna.
Que todas as pessoas amem, amem seus bons vícios,
suas loucuras boas e os seus silêncios. [...]
Esta hora que faz o transeunte?
Deitou em silêncio e rezou para renovar as forças?
Por certo esta minha elucubração é inútil.
As horas avançam
e tenho que permitir-me qualquer distração
que me garanta o amanhã
e a beleza de reflexões outras.
Luís Carlos Moraes de Araújo


















