Liberty depositava o olhar e grande parte de sua concentração no objeto a sua frente, conduzindo algumas pedras a novos espaços que a caixa possuía. Não notou de prontidão a mudança no comportamento de Lorenzo ao simples significado da palavra, somente quando satisfeita com as mudanças, atentou o olhar para o sorriso do companheiro. Com um simples assentir, aguardou que ele prosseguisse, ignorando seu gesto prepotente. ‘’Sim, você teria que aprender pelo menos o básico. Ele não é tão utilizado como o inglês, mas é tão importante quanto. Uma parte da população ainda prefere usá-lo, minha mãe é um exemplo.’’ Informou, a formalidade presente em seu tom vocal. A influência da rainha sobre a corte acabou estimulando o aprendizado de seu idioma natal, mas claro, a mãe de Liberty fez questão de que os filhos soubesse mais do que o geralmente utilizado; porém, era a herdeira que parecia ser mais familiarizada com o idioma. O assunto trouxe a nostalgia do lar, fazendo que a saudade martelasse em seu peito, e apesar dos sentimentos não tão agradáveis que o noivo lhe proporcionava, não pode deixar de imaginar se o mesmo gostaria de viver em Edimburgo. ‘’Aulas de história e geopolítica farão a diferença quando você se tornar meu consorte.’’ Advertiu. Tinha noção de que os dois estavam ali amigavelmente, mas isto não significava que ela não o reprovaria se fosse necessário. Pela sua experiencia, não facilitariam para o príncipe por ele ser estrangeiro, mas sim, o testariam de diversos modos, como fizeram com ela anos atrás. Não desejava continuar aquele assunto, portanto, deu inicio a sua história.‘’Eu fui ensinada aos quatro anos de idade e foi difícil no começo, mas segundo os meus tutores da época, eu poderia facilmente aprender um idioma antigo. Porém, eles não imaginavam que minha mãe seria a pessoa disposta a me ensinar.’’ O sorriso se alargou em seu rosto, junto com a memória mais antiga que Liberty conservava em seus pensamentos. A ousadia e coragem da progenitora eram invejáveis, o que na época que se casara com o atual rei não foi visto por bons olhos pelos nobres, afinal, eles desejavam uma aliança poderosa para seu país, não uma simples nobre local. As recordações da princesa a levaram a outra questão, uma que não invadia seus pensamentos a muito tempo. Teria ela a mesma sorte que os pais? Poderia se dizer que a herdeira pagava com a própria liberdade pelas escolhas de seu gerador, mas era um fato incorreto. Ela pôde não ter desfrutado da mesma liberdade que os mais novos, porém, era errado afirmar que lhe foi tirado o privilégio de se apaixonar por alguém ou até mesmo iniciar um relacionamento. A escocesa teve suas paixões, mas estas foram tão passageiras que nem mesmo ela afirmaria que já esteve em uma relação duradoura, a pura verdade era que evitava que alguém adentrasse seu coração ao ponto de desviar a atenção para o que havia sido ensinada desde a tenra idade: governar e servir seu povo. Decidiu encerrar os devaneios ali, e teve sorte de entender a indagação alheia. ‘’Foi algo espontâneo. Eu desejava guardar alguma lembrança comigo dos lugares que visitei e por onde eu for, estas belezinhas sempre estarão lá. Não é como um souvenir que você pode comprar, mas sim um pedaço daquele lugar que eu posso carregar comigo até morrer.’’ Apertou a pedra que foi depositada em sua mão antes de devolvê-la ao local de origem, o tintilar da pedra contra as demais soando em seus ouvidos. Ela o analisou por alguns instantes, um pequeno incômodo a atingindo sem que percebesse, não pelo ato em si, mas pela persistência de Lorenzo em sempre voltar aquele ponto sempre que havia uma brecha; o deleite que ele demonstrava por ela ter tomado a iniciativa a irritava, transformando seu olhar suave em um duro. ‘’Ótimo, sem beijos e bebidas fortes em comemorações importantes.’’ Proferiu sem muita certeza que aquilo se concretizaria, afinal, após o casamento os beijos seriam um de seus menores problemas em relação aos outros problemas que ele lhe trazia. Antes que algo saísse da boca da princesa, o alívio secretamente a atingiu, passar sermões a desgastava ultimamente, assim como tudo que o envolvesse. Não pretendia tomar medidas tão drásticas, mas ela não tinha outra alternativa, tinha? A farsa que foi aquele encontro não lhe agradava, porém, se não recorresse a alguém antes do casamento ocorrer, temia que a situação se agravasse posteriormente, e algo lhe dizia que não seria capaz de suportar uma traição. “A corte?” o tom saiu mais baixo que o inesperado, temendo que o causador fosse seus próprios pensamentos, pigarreou antes de continuar. “Lembro que me disse que não morava na corte italiana e não consigo chegar a uma conclusão. Existia algo que o incomodava?“ Não era esta a pergunta que permanecia na ponta de sua língua, mas sim, o motivo dele frequentar uma corte estrangeira e viver longe da de seu próprio país. Será que ele teria alguém antes de noivarem? Os lábios formaram uma linha fina enquanto esperava por uma resposta, e por mais que negasse, lhe aflingiu a ideia de uma terceira pessoa naquela relação.
Lorenzo não pôde evitar fazer uma leve careta ao receber uma resposta positiva sobre ter que aprender uma nova língua. E agora que parava para pensar no assunto, chegava a conclusão que provavelmente também seria obrigado a aprender novos costumes, uma vez que os escoceses pareciam ser tão diferentes dos italianos. Ao menos, baseando-se nos poucos que tivera contato. “Tudo bem.” Suspirou. “Se continuarmos presos aqui, vou ter tempo de sobra para aprender algumas palavras.” Deu de ombros, aceitando, ainda que meio relutante e tardiamente, a oferta que a outra fizera sobre ensinar-lhe algumas palavras. Não tinha certeza do porquê de estar tão disposto a fazer promessas e concessões para a noiva, mas ultimamente se via em tais situações antes mesmo que pudesse parar para pensar sobre o assunto. Era desconcertante. “Podemos deixar para quando isso, de fato, ocorrer?” Questionou com uma leve rispidez, franzindo o cenho automaticamente conforme o olhar recaía sobre a superfície da mesa. Consorte. A palavra deixava o italiano desconfortável. Era algo comum para mulheres, que recebiam títulos quase equivalentes quando se tornavam consortes, mas para homens a história era diferente. Eles apenas se tornavam duques e príncipes, geralmente os seus filhos não herdavam os seus sobrenomes para não interferir na linhagem real. Em suma, algo quase humilhante. Por tal motivo, Lorenzo, diferente da maioria dos príncipes, nunca almejou envolvimento com uma herdeira. Ele tinha plena certeza de que os seus motivos poderiam ser fúteis, que estava sendo um babaca, talvez um pouco machista, porém, era aquela era a verdade. Nunca quis ser um consorte, assim como nunca quis um casamento arranjado ou se casar tão novo, mas ironicamente era o que o destino lhe reservava. Tentou deixar os receios de lado quando Liberty voltou a falar. Concentrou-se nas palavras proferidas e voltou a encarar a princesa diante de si, notando o sorriso iluminar o rosto dela ao compartilhar uma memória feliz da infância. Ele sentiu uma pontada de inveja, queria poder dizer que tinha um bom relacionamento com os seus pais, assim como a princesa aparentava ter. “Sua mãe foi a sua tutora? Acredito que a minha nunca faria tal coisa.” Disse, soltando um riso anasalado de maneira um pouco debochada. Não que sua mãe fosse uma pessoa ruim que não ligasse para os filhos, ela só era… distante. Talvez fosse uma mulher acostumada com a vida da realeza e repassasse a criação que lhe fora imposta, ou somente desgostosa demais com o casamento e qualquer cria que a lembrasse da união em questão. Ou, na verdade, uma mistura das duas opções – Lorenzo acreditava que era este o caso. Os seus pais não se casaram por amor e garantiriam que os filhos trilhassem o mesmo caminho. “Eu acho que você é louca, Liberty.” A risada que seguiu a sentença era agora mais leve, divertida, assim como tom usado pelo príncipe. Ele balançou a cabeça. “Na minha opinião um souvenir comprado é melhor, mas se você prefere pedras não vou julgar. Ou, pelo menos, vou tentar.” Adicionou, mantendo o mesmo tom de anteriormente. “Sem beijos, sem bebidas fortes… Você não está tentando melhorar a perspectiva – que já não é muito boa – do nossa futura união.” Disse, de maneira casual, mas a leve mudança na feição e na postura de Liberty deixou claro que a conversa tomara outro rumo. Lorenzo não tinha certeza se fora o seu comentário sobre o casamento ou o rei da Escócia o responsável pela tal mudança, mas em nenhuma das duas opções tivera a intenção de chatear a princesa. E os questionamentos dela sequer davam alguma dica do que poderia ter influenciado em sua mudança. De fato, apenas serviram para causar mais confusão na mente de Lorenzo. Conclusão... de quê? Do que Liberty estava falando? “Sim, existia. Se chama falta de privacidade. E como não sou o herdeiro, não preciso ficar na corte 24h, e eu queria viver minha vida em paz.” Ele explicou, unindo as sobrancelhas. Não conseguia pensar em um motivo para a informação ser relevante no momento. “Por quê?” Indagou, precisava saber onde ela queria chegar com aquilo.