Memórias achadas
Dois mil e dezessete.
Iniciou-se resolutivo, com ares de crescimento profissional. Findo um ano de fim de ciclos. Consegui sentir o Direito se apontando para mim em razão e peso, enfim consegui me encaixar, sentir-me pertencente a uma profissão do coração. Defensoria me escolheu ou eu a escolhi, não sei, talvez ela já estivesse à minha escolta dando-me dicas, as quais não tive maturidade para entender ou me posicionar. Mas, enfim, senti-me apta por caminhar com os pés firmados no chão. E, a partir disso, recebi alguns presentes no final de 2016, pequenos encontros com pessoas as quais me ajudaram em muito no meu ajuste ao percurso. Imensamente grata a Lorena e André.
Finalizei 2016 com ciclos encerrados, que já há muito se prolongavam e deixei em aberto questões pessoais e profissionais para trabalhar, a todo vapor.
Nada é por acaso.
Lorena me apresentou o CiclosR3, senti confiança, procurei, encaixei. André me apresentou uma vitória conquistada com esforço e me incentivou o caminho, não importa quão longe territorialmente seja, a vida segue por onde abrimos o coração para ir e, dessa forma, não fica doloroso. Um exemplo vale tanto, tanto.
Recomecei com a Marília, já havia aberto mão e, hoje, entendo que o “abrir mão” é confiar, vibrar no sentimento de abundância, de que SEMPRE o melhor, em sintonia com nosso pensamento, há de ocorrer, mas precisamos entregar, soltar, sair do controle para deixar a ‘sensação de feito’ fluir e, enfim, virar realidade afora do mental, em que tudo, inicialmente, abre-se. Não foi fácil. praticamente 3 anos desaprendendo para aprender, entendendo o limite no amor-amigo que, com certeza, é mais profundo que essa existência. Meus olhos marejam em pensar a profundidade que esse amor alcança, tanto do tempo quanto em quantidade. E sou muito agradecida e privilegiada em entender o termo ‘amizade’. E, que, o “perdão” perde o sentido e se torna totalmente presunçoso quando, perante a uma situação similar, percebe-se que, no lugar daquela pessoa, com todo seu contexto de vida naquele instante, é bem provável que eu agisse, exatamente, da mesma forma e, se tive o insight de fazer diferente, consigo ENTENDER que tudo foi por amor e não há mais que se falar em desculpas ou perdões.
O ano iniciou com sustos, batismo de ferro, profissionalmente, de novo, guiando-me ao agir por mim, sustentar meus passos e arcar com as escolhas. Não há muitos segredos, o agir impulsiona o crescimento e, pouco a pouco, torna-se menos penoso, mais prático.
Gabriel Henrique da Silva, obrigada e me desculpa, sinceramente. Você foi o número um para mim de um sistema torto em que pessoas são número, patrimônio e punitivismo importam mais que seres humanos, contextos de vida e dignidade, lembrar-te-ei muito mais do que o primeiro, por você e cada um dos seus, dos nossos, quero crescer e fazer melhor, a cada vez. Tão triste e exacerbadamente límpida a sujeira do sistema e suas peças e do que realmente está em jogo e, infelizmente, não são vocês ou suas histórias por detrás dos olhos e, sim, a matemática do poder e sua mantença. Manipulação. Desculpas. Mídia. Poder. Sinto muito não ter tido a competência adequada, farei o possível para ser diferente. O seu “muito obrigado” doeu demais e sempre o lembrarei como força.
O ano caminhou para o seu meio de forma mais calma, com amor na rotina, ajustes no relógio biológico, conseguindo apreciar as vitórias diárias e ser muito grata de poder estudar em tempo integral, ficar mais em paz com a minha mãe, sentir as bênçãos dela, compreender a forma que ela consegue ser. Sou muito ela e, por causa disso, consigo apreciar a vista da minha janela, em profundeza de suspiro, admirar os passarinhos e a rotina da luz do dia nas diferentes estações do ano. Toda a necessidade é, primeiramente, suprida por nós mesmos. Sinto como um presente parar e apreciar, sentir-me integrante de Tudo.
Abri-me para o vazio de não sentir necessidade de estar com ninguém e de estar aberta a quem fosse parecido comigo, estivesse na minha profissão e que crescêssemos juntos. Soltei para o universo e, o que pensei ocorrer em 3 anos, ocorreu do meio do ano pra cá, sem sair do meu quarto.
Não pensei ser capaz de amar tão cedo ou tão rápido e tudo ocorreu de forma redonda, enchendo-me por dentro e abrindo outras questões que devem ser trabalhadas, como a paciência, confiança e, principalmente, o amor próprio, já constatado nas experiências passadas, apontado pelo Dr. Amir e constatado por mim e pela Cris, quem tem me acompanhado nesse crescimento pessoal há quase 2 anos.
Hoje, final de 2017, vejo que tenho de fazer o que está ao meu alcance e, agora, é apenas concluir minhas metas diárias com dedicação, amor, constância e gratidão pela oportunidade.
O Rodrigo já surgiu e o “vaso” dele não e pertence, o “mergulho nas profundezas” é dele, então, falar “eu me sinto segura de ser quem eu sou e de me desenvolver cada dia mais, confiando que o melhor irá me ocorrer”, pondo-me em primeiro lugar, amando-me mais e mais e não abrir mão da minha rotina, porque isso depois me fará atrasar, sentir-me culpada e cobrar carinho, atenção, quando são coisas que não se cobrar, pois atraem a escassez. A confiança e a entrega atraem a abundância. Olhar para a Bela e o quão difícil é abrir mão de si mesma, não vale a pena, nenhum instante, pois só posso amar o próximo depois de me amar muito e imensamente para não buscar no outro o que não sinto por mim.
Assim, se ele iniciou vindo aqui para saber o que tanto mexia com ele, se correspondia a uma realidade, leu-me poemas, perguntou-me sobre minhas perspectivas futuras e o inseriu em todas elas, mas, agora, não tem força e nem vê sentido em buscar aprofundar conversas, fazer-se presente, é porque ele não está conseguindo ser ele nem pra ele próprio e não há nada que eu possa fazer, além de dar meu apoio e seguir me amando demais e muito e suficientemente para que não seja pesado para mim, porque se for, não faz sentido continuar. E está sendo, porém, sinto muita vontade de estar com ele, passar esses momentos desejados ao lado dele, que ele seja pra mim e eu seja pra ele. Então, vejo que, da minha parte, falta trabalhar o amor-próprio, pra que eu carregue apenas o meu vaso e ele seja um vaso adulto e não uma criança birrenta e ferida pedindo atenção.
São questões a se trabalhar. Há solução e há caminho a se seguir junto, mas tomar o que é meu e dar apenas o que é meu. É um aprendizado diário, mas sinto que vale a pena. Solto para o universo, porque sei que ele toma conta do que já senti em todos os poros, criei a possibilidade e entreguei.
Termino o ano reajustando meu relógio biológico, minha rotina de estudos, com uma pequena grande lição de me comprometer apenas com aquilo que eu ponderar sobre, principalmente nas questões impulsivas de amizade (Sara).
Eu já sinto, novamente, vontade de acordar cedo, com amor na rotina de estudos, de bater minhas metas com gosto, constância e gratidão porque 2018 virá com muitos afazeres e tendo de estar fincada com meus propósitos defensoriais, que são o que sou, virão casos práticos, virá curso prático de defensoria pública, minha pós graduação, concursos, coisas boas, só coisas boas, juntamente com o namoro em crescimento.
Eu sou muito grata por 2017, que ano bom, positivo, surpreendente. 2018 já é melhor ainda. Mais perto ainda dos meus propósitos.
Obrigada.
30.12.2017- aniversário da Luísa.
Lua crescente.
Dia chuvoso.
Verão.
Sábado.
20/02/2018-
Reajuste do texto na parte amorosa.
Rodrigo apareceu como um presente. Senti que sou capaz de muito amor e a primeira pessoa a quem devo direcionar é a mim mesma. Suprir-me, encher-me, cuidar-me, valorizar todo e abundante potencial que tenho. Sou fantástica e mereço apenas além disso para minha vida.
Eu me emaranhei no que não consegui resolver comigo mesma. Se estivesse atenta ao principal, não teria me afogado. Mas isso não é culpa e, sim, reajustes.
Ainda bem que sei nadar e procuro, cada vez mais, conhecer-me, entender os emaranhamentos em que me meti, mas que não preciso ficar neles. Tudo, realmente, tudo vem ao nosso favor, ao crescimento e amadurecimento. Como um presente que pode doer, mas até sofrer tive que reaprender. Porque a vida é leve, leve quando vivemos dentro do nosso propósito e entendemos que não há vítimas e o pior algoz somos nós para conosco mesmo.
A transitoriedade das coisas é uma grande certeza. Ser presente e inteira comigo mesma e confiar que, às vezes não conseguimos enxergar, porém, em tudo há propósito. Meu umbigo merece mais atenção do que o de qualquer um. E nada é capaz de me preencher, apenas eu mesma, meu amor para comigo. Minha segurança em mim. Meu prazer em minha companhia.
Vivo a minha vida e, qualquer outro, é apenas participante. Mas eu vivo a minha vida e para mim.
24/07/18
Mais de meio ano se passou e meus estudos aconteceram em movimentos ondulares. Janeiro necessitei olhar profundamente para mim mesma, reconhecer-me ante ao caos emocional.
Reestabeleci-me, pus me firme diante meu propósito, estudei com afinco.
Nasceu meu primeiro sobrinho em Maio e eu estava longe, superando-me nos meus propósitos, olhando para ele. Tinha uma meta, concurso do Rio Grande do Sul estava na porta. Para ele fui e caí. Não foi uma queda inteligente, foquei muito no fracasso e esqueci-me de orientar sabiamente meu emocional para a entrega. A vitória é a persistência ante os fracassos, esses são normais, porém, somente através deles, levantando e seguindo em cada um é que a conquista chega, pela soa de todo suor, renúncia e escolha inteligente focada na minha posse como Defensora Pública Estadual. Junho todo ficou por conta de pesos na consciência, culpas, costas pesadas.
Não há de ser novamente assim frente a um escorregão (tão normal e tão necessário).
Vejo que tenho de me fortalecer, de aceitar o caminho com leveza nos percalços. Porque, dessa forma, sigo adiante sem me sentir culpada ou querendo estar em outro lugar, senão o da construção da minha em breve conquista.
Mãe. Minha mãe é humana. Comecei essa constatação não há muito, mas agora consigo vê-la mais como pessoa. E quero ser eu junto dela, sem me defender, sem me impor, quero ser apenas a Marília, também filha da Rosane. E tudo bem. A conversa que tivemos na volta do casamento da Rachel, em Poços de Caldas foi uma verdadeira constelação. Tudo que ela fez, apesar de. Tudo por nós, para que nós existíssemos. Suas culpas, seus medos. Sua vontade de ter vida por ela e para ela e nós e nossa necessidade dela presente. Ela sem saber como estar ali, presentemente, por causa do seu “mergulho nas profundezas”. Suas angústias, incompletudes e tudo, tudo que ela fez e faz, foi e é, apesar de.
Isso me faz mais forte. Essa história me pertence. Eu me aproprio dela e ela me fortalece. Minha mãe é humana. E merece todo o respeito. Minha raiva, minha independência forçada e cobrada já não têm razão de existir.
Que eu me aproprie do meu lugar de filha cada vez mais.
E prossigo na minha caminhada profissional, tijolo por tijolo. Essa construção tem o suporte de toda minha família. Tem a decoração de toda ela. Mas a parte bruta é minha. E sinto orgulho de toda a escolha que me leva à Defensoria Pública. Minhas mãos remendando dois pedaços da bandeira, sonho da minha mãe. É vivo. Existe.
Alfenas, inverno, lua crescente. Meu quarto.














