- Eu acho que ambos bebemos demais ontem, minha cabeça está um balão. - Scorpius coçou a cabeça enquanto a garota falava, estava sentindo-se desconfortável pela fala dela. Ele já deveria estar acostumado com o seu problema, mas era horrível para ele. Era algo recorrente em sua vida e sabe-se lá como ficava quando tinha uma crise, era como se entrasse em transe. Ela parecia estar mais calma com a situação, mas ele tinha receio que se lhe contasse as merdas que aconteciam com ele, que ela correria para a outra direção. E não era isso que ele queria. Por algum motivo, sentia vontade de ficar perto dela e se odiaria pra sempre caso aqueles machucados em no corpo da garota fossem causados pelas suas próprias mãos. - Eu te conto, ok? Se isso for te ajudar, eu conto. Mas por favor, prometa que não vai sair correndo ou chamar a polícia, por favor… Entenda que o que vou lhe contar não é de propósito, acho que tenho algum… Problema ou doença, sei lá. Sou um merda, Mad. - disse sentindo os olhos se enxerem de lágrimas, controlando-as. Tranquilizou-se ao ver que a garota conseguia lembrar de algo, mesmo que pouco. Isso era bom e as chances de ela recuperar a memória do dia anterior também eram boas, melhores que as dele com certeza. Ele gostaria pelo menos de lembrar como ela fora parar em seu quarto, especialmente na sua cama. Será que teriam…? “Não, eu me lembraria, com certeza” ele pensou. A única coisa que sabia era seu nome, mais nada. - Calma Mad, não fique brava. Você vai conseguir lembrar de algo, é só uma questão de tempo. Tem chances da sua memória voltar. Você já lembrou de algumas coisas, viu? Isso é um progresso. Essa garrafa… Ela pode ter sido a causa do seu machucado na mão. Eu acho… Que você pode ter quebrado essa garrafa na mão ou que jogou em alguém. Você não se lembra de ter se envolvido em alguma situação violenta? - ele estava tentando ser o mais cuidadoso possível para não machuca-la, mas ao vê-la prestes a chorar e agarrando sua camiseta, sabia que a dor deveria estar insuportável. Aqueles pequenos grunhidos que a loira soltavam lhe davam pontadas no peito. O corte estava horrível, era fundo, largo e estava sujo, poderia infeccionar. Ele precisava leva-la para algum hospital ou tentar resolver aquilo em casa, o único problema é que doeria muito para limpar aquela sujeira. - Respire fundo, ok? Tente controlar a dor. Sei que é difícil e não consigo acreditar que você tenha dormido com a mão desse jeito… Devemos ter bebido muito ontem. Não vou mentir, não está muito bonito. Posso te levar para o hospital ou posso tomar conta de você aqui mesmo, entendo uma coisa ou outra desse assunto. Tenho um kit aqui em casa, uso com frequência… - disse sendo modesto. Ele sabia muito bem como usar aquilo, como estancar os sangue, limpar um machucado e suturar a pele. Sabia porque ele fazia em si mesmo quase todas as noites, dependendo da intensidade de suas crises. - O processo todo vai doer, porque está muito sujo e precisamos limpar para depois suturar. Você acha que aguenta? - disse olhando em seus olhos, expressando verdadeira preocupação pela garota, logo em seguida seu olhar caiu sobre as pernas da mesma. - Não quero te assustar, mas sua mão não é a única coisa que está sangrando… O que… O que aconteceu com você? - disse tocando seu rosto, agora olhando em seus olhos com intensidade.
“Oh, então você também estava na festa...” falou, observando as vestes do rapaz, que eram comuns. “É do tipo que prefere não interagir muito?” perguntou, curiosa com o fato dele não estar vestindo algum tipo de fantasia. Ela não lembrava-se de tê-lo visto na festa, mas também não podia julgar algo, já que não estava lembrando-se de absolutamente nada, por conta da bebida. A loira assustou-se um pouco com o modo que ele estava reagindo e autodefendendo-se, antes de contar qualquer coisa sobre si. Ela já havia entendido que ele possuía algum tipo de problema, mas não pensava ser algo tão grave. Apesar de estar assustada com a reação do garoto e ter arrependido-se um pouco de tê-lo pedido para contar-lhe, com medo da resposta que escutaria, a curiosidade da loira era ainda maior. Foi impossível não comover-se - o que era raro - com os olhos lacrimejados dele. “Não... Não fala assim” murmurou, pensando se pedir para ele explicar-se havia sido realmente uma boa ideia “Só... Me fala, okay? Não vou chamar a policia dessa vez, prometo” mordeu o lábio, apreensiva. Não sabia o que estaria por vir e nem se aquela promessa teria sido boa. Estava com um misto de curiosidade e medo. Minutos atrás não queria aproximar-se dele e agora sentia a necessidade de saber mais sobre o loiro. Madeline tentava tranquilizar-se a medida que conseguia lembrar-se de mais coisas. Quando Scorp associou a garrafa quebrada com o corte em sua mão, a garota foi presenteada por mais alguns flash’s de memórias. Lembrou-se de ter pego a tal garrafa de Jack Daniel’s que estava abandonada próxima ao meio fio, e tê-la atacado contra o chão, mas não o motivo de tudo “Foi eu que quebrei a garrafa mas... Não consigo me lembrar o porquê, me desculpa, tá legal?” falou, irritando-se ainda mais. Aquilo não estava funcionando, nada de lembranças que ajudassem a situação dos dois, todas inúteis. Mad estava sentindo-se mais segura com o garoto, pois conseguia perceber o cuidado que ele estava tendo consigo. Todo o medo já não existia mais, não o via mais como um psicopata, pelo contrário, queria-o por perto. “Mas... Está doendo muito, minha mão inteira parece estar cortada.” falou, com uma careta de choro. Queria muito chorar, mas tentava controlar-se ao máximo. “Como é que está? É um corte fundo?” perguntou, a voz trêmula e clara de quem estava prestes a soltar as lágrimas. Evitava olhar para a mão ferida, pois estava com medo. A loira sempre fora fraca para coisas relacionadas a sangue, tanto que, raramente ia em médicos que pediam exames de sangue, já que sempre desmaiava com tais. Além de também ter um certo trauma com hospitais, depois da morte do irmão mais velho. “Não... Hospitais não! Eles vão me internar, me dar injeção e eu... Eu odeio agulhas e...” mordeu o lábio, alterando-se “Você acha que consegue? Sabe, não deve estar tão ruim, né?” uma lágrima saltou de seu olho, a medida que a dor aumentava junto com seu medo “O seu kit... Tem as coisas necessárias?” perguntou-se mentalmente o porquê do loiro ter um kit de primeiros socorros usado com frequência, mas não o questionou, já que sua situação não permitia. A loira fechou os olhos por alguns instantes, pensando se deveria ou não confiar no rapaz. Ele parecia entender mesmo da coisa e, de certa forma, não parecia ser uma má pessoa “Tudo bem... Eu acho que aguento, mas... Vá com calma, okay? Por favor.” pediu baixinho, encarando novamente os olhos dele. Assim que o viu abaixar a cabeça, a loira automaticamente também o fez, encarando os joelhos ralados e sem querer a própria mão ferida, fazendo-a fechar os olhos no mesmo instante, tentando afastar a imagem do sangue e do corte de sua cabeça. Mas assim que o fez, lembrou-se de Frederick praticamente estrangulando seu pescoço. O tapa na cara. De ter tentado acertar a garrafa nele e tê-la acertado na própria mão. E de ter sido arrastada pelo chão. Sentiu-se tonta e então abriu os olhos, sustentando o olhar intenso do loiro. As múltiplas lágrimas começaram a pular sem que quisesse e a boca já havia perdido a cor. O cheiro do sangue estava penetrado em suas narinas. “Frederick... F-Foi ele” murmurou, antes das vistas escurecerem e cair apagada sobre o garoto.