Madison Debnam Kemp
25, inglesa. hostess & secretária workaholic
"Sometimes it's easier to pretend that you don't care, than to admit it's killing you."
Mas ela não é interativa com tecnologia, ela é completamente interativa com a tela mesmo. Tem roupas especiais pra colocar, tintas, é tipo mega divertido… Quando a gente estava estudando pra colocar ela no museu eu fiquei um dia todo me divertindo lá e sério, foi a melhor coisa que eu fiz esse ano.
Ah! Que... interessante. Até quando essa exposição vai ficar no museu?
Isso é o pior, não são as malditas abóboras pro halloween… Ela vai sei lá, decorar as áreas comuns da casa, tipo a sala, sala de jantar, e todas essas porcarias porque pra ela abóbora é sinônimo de outono.
E nossa, eu acho que eu ficaria muito apavorada com alguém passando mal e ia acabar passando mal junto, não é ideal mas eu não vejo como eu iria sair dessa.
Ok, isso não fez nenhum sentido para mim. Quando passar o outono o que ela vai fazer com todas essas abóboras? Isso é insano!
No começo eu achei que ele estava brincando comigo. O cara levou as mãos ao peito e disse “estou passando mal”, mas aparentemente ele estava bem. Não levei a sério até ele começar a se estrebuchar no chão na minha frente.
Ei, Maddie… eu não sabia que você estava aqui, mas não precisa avisar… só se você quiser privacidade, só mandar alguma mensagem que eu nem venho. Eu estou atrapalhando? Eu posso sair se você quiser.
T-trabalhando? Oh, man.– só naquele momento que Paul percebera que seus quadros estavam descobertos.– Merda, eu… eu… acho que esqueci de cobri-los anteontem.– rapidamente, pegou um tecido que estava numa das mesas e jogou-o por cima de um dos quadros. Neste ponto, o rosto de Paul já estava avermelhado, tomado pela vergonha.– Você pode… guardar segredo? Eu nunca mostrei esses quadros para ninguém.
“ O... o que? Não precisa sair. Este é o seu galpão e você não está atrapalhando. “ Madison passou as costas da mão na testa para afastar alguns fios de cabelo dos olhos e sorriu timidamente deixando o pincel sobre o cavalete. Só não esperava aquela reação do amigo ao ter as telas mencionadas e engoliu em seco, hesitando entre se aproximar para tranquilizá-lo ou se manter onde estava. “ Eu não qu- ... Hm, eu... sinto muito. “ Murmurou, sentindo os músculos da face contraídos enquanto desviava a atenção para os próprios pés, agitados. Seu cérebro demorou alguns segundos até processar o que os ouvidos captaram e a resposta veio um pouco tardia. “ Por que não? “ Ergueu os olhos confusos. “ Quero dizer... v-você deveria mostrá-los, Paul. São muito bons. “ Assentiu com a cabeça para enfatizar o que dizia, as bochechas esquentando levemente. Apesar de admirar o estilo de pintura do amigo, não se sentia confortável com a nudez expressa nos quadros e tão pouco sabia distribuir elogios.
Sou professora desde que sai do ensino médio! Mas tive que parar por uns tempos porque me casei, mas como me divorciei a alguns anos, voltei a lecionar que é a minha verdadeira paixão!
Espera um pouco... você parou de lecionar só porque se casou? Não faz nenhum sentido abrir mão da sua verdadeira paixão só pelo matrimônio. Por que você fez isso?
Assentiu com o comentário alheio, porém a risada só se soltou quando ouviu o segundo comentário sobre seu salário. “Como um cliente fiel desse restaurante e representando todos os outros também fieis, eu deixo o meu ‘de nada’.” Gesticulou um movimento de reverência com a mão de forma discreta já que temia que aquela conversa chegasse a prejudicar Madison, de alguma maneira. A última coisa que queria era que alguém chegasse a chamar a atenção da loira por ficar de conversa com outro. O olhar de Romeo vagou para a direção indicada por ela. “Você comentar assim me deixou até curioso pra saber o que servem pra vocês aqui, chega a ser ruim ou literalmente só não é tão bom quanto os que nos servem?” A curiosidade era mais direcionada ao modo como os empregados eram tratados que qualquer outra coisa. Outra risada escapou ao ouvi-la falar com tanta sinceridade, assentindo em resposta, mesmo que ainda estivesse surpreso com o jeito direto dela. “A Viagem de Chihiro? Sério? Esse filme não tem uns… Quinze ou dezesseis anos?” Perguntou com uma sobrancelha arqueada. “Já deu pra perceber que não tem o hábito de assistir filmes. É até meio difícil encontrar alguém que goste desses programas caseiros tanto quanto eu, então nem posso julgar.”
O sorriso, embora agora estivesse mais contido nos lábios, era refletido nos olhos brilhantes e a loira fez uma pequena reverência com a cabeça, seguindo o movimento do homem. Madison somente desviou o olhar para poder pensar no que diria sobre a comida servida aos funcionários. Ela tinha o terrível hábito de ser sincera e direta em tudo o que falava, por isso precisava se policiar algumas vezes para não assustar as pessoas. “ Bem, podemos dizer que a comida não é assim tão apetitosa, mas... Dá para sobreviver! Pelo menos mantém nossos estômagos cheios para poder trabalhar. “ Riu, gesticulando com as mãos para indicar que aquilo não tinha tanta importância assim. A hostess não concordava com a diferenciação que os funcionários recebiam com relação aos clientes, mas não iria reclamar já que ao menos o lugar oferecia algo para comerem. Não esperava reação diferente ao revelar o último filme visto, ou ao menos o último que assistira na íntegra e prestara atenção na história. Madison raramente parava para se dedicar a realmente assistir alguma coisa sem que sua mente vagasse para outros assuntos diferentes do enredo ou que se entregasse ao cansaço e dormisse no fim da história, por isso somente assentiu divertida. “ Sim, acho que o filme deve ter mais ou menos isso. Eu sei, eu sei. Faz muito tempo e não me orgulho disso. “ Se permitiu rir mais uma vez e ergueu as mãos no ar como se pedisse desculpas. “ Não tenho, mas confesso que adoraria ter esse hábito... Você assiste muitos filmes? Quais são os seus favoritos? “
Hefner? Hm, eu pensei em avisar que estaria aqui, mas... acabei esquecendo! Você disse que eu poderia usar o galpão a qualquer hora então... hoje é minha folga do restaurante e eu precisava colocar os pincéis para trabalhar.
Percebi que você anda trabalhando em algumas coisas bastante... autênticas.
Provavelmente deve ser meu aluno! Fuja para as colinas!
Fugir é minha maior vontade, mas prefiro manter o emprego e ter que aturar essas pestinhas que raramente veem ao restaurante. Com o tempo você se acostuma com os choros, manhas e comida voando em sua direção... Faz tempo que você dá aulas?
O outono nem começou a minha mãe já está maluca pra renovar a decoração de casa, acredita que ela comprou um puta carregamento de abóboras pra enfeitar a sala?
Sua vez de falar algo pra eu me esquecer da parte maluca da minha família.
Um carregamento inteiro de abóboras? Ela vai fazer Jack O’ Lanterns para o Halloween? Porque aí sim isso faria algum sentido.
Ok, deixa eu pensar um pouco... Hoje um cliente hipertenso passou mal no restaurante. Sempre achei que esses treinamentos com a equipe de primeiros socorros fossem pura balela, mas eles funcionam mesmo.
Você tem que prometer pra mim que vai dar pelo menos uma passada no museu essa semana, chegou uma exposição maravilhosa e o melhor de tudo é que é 100% interativa, então não tem desculpa que é chata e monótona.
Jura de dedinho que você não vai me fazer de trouxa e vai actually dar uma passada lá?
Ok, vou passar por lá na minha próxima folga do restaurante, mas... você sabe que eu não gosto desse tipo de exposição interativa, prefiro as tradicionais. Sempre fico parecendo uma senhora de 100 anos que não teve contato algum com qualquer tipo de tecnologia.
THE ARTIST
Madison Debnam Kemp, 25 ”Mads, Maddie”. Londres, Reino Unido. Hostess.
O futuro da pequena Madison Kemp já estava inteiramente traçado quando a luz feriu seus pequenos olhos e os pulmões protestaram com a atmosfera desconhecida, fazendo a menina de apenas 2,5 kg e 45 centímetros irromper em um choro de cortar o coração. Na época, assim que saiu do hospital para o que seria sua nova casa, fora rejeitada pelo irmão cinco anos mais velho e beliscões lhe eram dados na pele extremamente fina assim como puxões nos ralos cabelos dourados. Lilian, uma terapeuta de vinte e cinco anos escolhera trabalhar em casa para poder cuidar dos filhos ao passo que seu marido, Arthur um ambicioso bioquímico em ascensão raramente era encontrado junto da família. Diferentes pessoas iam e vinham diariamente e a garota cresceu sem se incomodar com aquilo, refugiando-se no conforto e segurança de seu próprio quarto onde passava as tardes no meio de livros das mais variadas histórias ou perdia-se nos traços que fazia no próprio caderno.
O relacionamento com o irmão, antes conturbado pelos ciúmes infantil, passou a se estreitar conforme as duas crianças o cresciam. Com a ausência do pai, Madison encontrara no jovem e responsável rapaz a figura paterna que lhe faltava e as palavras que saíam de seus lábios para se dirigir à ela nunca foram ásperas ou autoritárias como as que normalmente saiam do progenitor. Tudo o que desejava era poder ter a mesma serenidade e sabedoria do garoto, apesar de toda pressão que os pais colocavam sobre seus ombros. Perto de completar onze anos deparou-se com a primeira evidência de que deveria sempre moldar suas expectativas e vontades de acordo com o que a família queria para ela: a promissora carreira de Arthur Kemp exigia que se mudassem para Munique, Alemanha e as crianças sequer tiveram a chance de expressar suas opiniões a respeito daquilo.
O ensino na nova cidade era extremamente rigoroso e logo a mais jovem dos Kemp teve que iniciar os projetos para desenvolver uma brilhante futuro no ramo farmacêutico. Suas opções limitavam-se entre duas profissões: cientista ou engenheira bioquímica, assim como as de seu irmão o qual já havia feito uma escolha e, dois anos após se mudarem, ingressou no ensino superior de Engenharia Bioquímica. Sem querer seguir em qualquer uma das profissões escolhida pelos pais, Madison fazia aulas de artes escondida e logo os professores notaram a habilidade nata da garota para aquilo. Suas notas nas demais matérias sempre se mantiveram boas, sequer despertando a atenção dos responsáveis para a pequena desobediência no colégio. Com o estudo integral e os poucos amigos que possuía, a adolescente cresceu sem qualquer apego pelas tendências ou tato para conversar com as pessoas.
Quando chegou o momento de ingressar na faculdade, viu a oportunidade de escapar das garras dos pais e inscreveu-se para duas instituições: a Imperial College London em sua cidade natal e a School of Visual Arts em Nova Iorque. Estava prestes a seguir os planos da sua família quando uma tragédia fez mudar seus planos completamente. Através de uma dura carta destinada ‘à doce e artificial família Kemp”, o mais velho dos irmãos tirou a própria vida alegando ser insustentável permanecer naquele teatro onde não passava de nada além de um fantoche nas mãos dos pais. Da pior forma possível, Madison descobriu ser falsa aquela serenidade que o irmão transmitia e decidiu que tomaria a rédea de sua própria vida, deixando para trás àqueles a quem sempre lhe ditaram o que fazer.
Nova Iorque foi seu destino, mas sua vida não foi o conto de fadas que imaginou ao se livrar das amarras da família. Sozinha e praticamente sem dinheiro, teve diversos empregos e com muito suor conseguiu se sustentar e pagar as despesas com os estudos. Completamente diferente do que sonhara, passou a trabalhar como auxiliar de limpeza em um restaurante na grande maçã e lentamente fez sua trilha até se tornar hostess do lugar. Lidar com o público sempre foi uma tarefa difícil para ela, porém o contato diário lhe permitiu realizar as observações e estudos necessários para compreender melhor o comportamento dos clientes e atualmente é capaz de forçar um sorriso praticamente genuíno e implicar a simpatia correta para atender da melhor maneira que consegue. Sua paixão pela pintura ainda se faz presente nas horas vagas quando não arruma algum trabalho extra como recepcionista em coquetéis e outros eventos e ela tenta vender os quadros produzidos para galerias de arte, sem sucesso.
BÔNUS:
Madison mora sozinha em um apartamento e tem um gato chamado Vincent em homenagem à Vincent Van Gogh. Raramente menciona a família e não possui qualquer contato com os pais, apesar da mãe tentar se reaproximar, rejeita o relacionamento com eles à todo custo. Não fez terapia e irrita-se com facilidade quando ouve alguém lhe sugerir tratamento, coisa que a mãe rotineiramente orientava após o suicídio do irmão. Bebe muito café e chás somente para ter alguma bebida quente entre as mãos, o que lhe confere certa segurança e é extremamente inquieta, encontrando nos empregos uma válvula de escape para sobreviver.
Are you serious? Right in front of my salad? — Florence fez a melhor cara de choque que poderia fazer antes de gargalhar, afinal ela era péssima quando se tratava de prender o riso.— Poxa, cê me vê comendo essa salada de merda e vem comer carne na minha frente?! Você não tem coração, cê vai pro inferno garotx, onde está sua misericórdia pelos pobres e infelizes? E não, eu não estou de dieta, estou tendo que comer esse tanto de folha que no fim tem gosto de mato para incentivar meus filhos. Acredita que ontem o lanche deles foi uma água de coco, tomate e pepino e ninguém reclamou? Eu era a única que estava comendo e detestando.
Durante sua ronda pelo salão para verificar se os clientes estavam bem, Madison entreouviu uma conversa e decidiu se aproximar da mesa, vestindo seu melhor sorriso. “Com licença, senhora. Está tudo bem por aqui, confortável? Gostaria de pedir outro prato?”
Moçx, com Google Maps e ainda andando perdido? Mas assim, cê pode seguir direto e virar quando terminar a rua. Aí, você continua andando, mas anda mesmo porque é bem longe. Qualquer coisa, pergunta no Posto Ipiranga!
Você confundiu mais do que ajudou. Isso não foi legal.
Seu dia de folga resultara em algumas horas no parque com sua nova cadelinha, apesar do grande esforço para adestrar a nova companheira, tivera apenas o descuido de desviar os olhos para a garrafa d’água por alguns segundos, para que a buldogue francês escapasse e urinasse no pé da primeira pessoa que encontrara. “Aí meu Deus, me desculpa.” Dissera evitando olhar a “vítima”, enquanto recolhia o animal. “Estou tentando fazê-la obedecer, mas isso está sendo mais difícil do que eu imaginava.”
Não era costume sair nos dias de folga, geralmente preferia ficar em casa. Porém, naquele dia resolvera ir até o parque, precisava mudar alguns hábitos e respirar ar puro. Tudo estava indo consideravelmente bem até o momento em que sentiu um calor líquido em seus pés enquanto esperava por seu sorvete. Ao abaixar os olhos viu uma buldogue urinando e instantaneamente, todos os músculos de Madison congelaram, o olhar fixo, sem qualquer reação enquanto ouvia ao longe um pedido de desculpas. “Mas o que...? É por isso que eu não gosto de sair.” Toda a sua feição se contorceu, prestes a se desmanchar em lágrimas feito uma garotinha de cinco anos. “Eu não quero saber moça, sua cachorra fez xixi em mim... Olha que sujeira. É pedir demais ter um dia como uma pessoa normal?”