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Aviso: spoiler de TODAS as temporadas, principalmente da sétima.
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Rabisco #1
O relógio digital sobre o criado mudo brilhava. Eram três e quarenta e sete da manhã. Camila acordara ao ouvir barulhos estranhos, como garras arranhando madeira. Engoliu em seco. Tateou a superfície do criado desesperadamente. Encontrou seu celular e acendeu a lanterna do aparelho imediatamente. O som perturbador se intensificou, mas parou após alguns segundos. Controlou sua respiração para deixá-la o mais silenciosa possível e, com as mãos trêmulas, estendeu o braço, escaneando seu quarto com a ajuda do celular. A luz do aparelho iluminou todos os cantos – até de baixo da cama -, mas Camila não encontrou nada. Sentiu-se aliviada e concluiu que aqueles barulhos eram criações de sua imaginação, afinal, ela havia assistido um filme de terror com sua namorada na noite anterior. Respirou, aliviada, e guardou o celular. Silêncio. Seu momento de paz, porém, não durou muito. Os barulhos logo voltaram. Recorreu ao celular novamente. Ao observar o quarto descobriu a origem do barulho: o guarda-roupas. Olhou mais atenciosamente e viu um olho brilhante encarando-a. Poucos segundos depois, a porta se abriu e um vulto saiu do armário. Camila soltou um grito abafado e derrubou o celular. Fez menção de procurá-lo, mas concluiu que não era uma boa ideia. Enfiou-se de baixo das cobertas e encolheu-se. Aguardou. Sentiu um peso em sua cama. Alguma coisa acabara de subir ali. Camila choramingou e pressionou os olhos. Tampou a boca e o nariz com uma das mãos numa tentativa de diminuir o som da respiração. A coisa voltou a fazer barulho – dessa vez, era como o de o motor de um carro se aquecendo – e subiu em cima de Camila. Apesar do grosso cobertor sobre si, a moça sentiu garras afiadas pressionarem seus músculos. “É o fim”, pensou. Pressionou os olhos ainda mais com cada centímetro que a criatura se aproximava. Mais alguns passos e… - MEOW! Camila levantou-se de súbito, aliviada, o que fez com que o gato caísse no chão. Tateou a parede até encontrar o interruptor. Acendeu a luz. Sorriu ao ver Simba, seu gato, sentado em frente a sua cama com um olhar que dizia “Por que me derrubou?”. A moça sorriu e pegou o gato no colo. - O que você tava fazendo dentro do guarda-roupas? – acariciou seu pescoço. – Você quase me matou de susto, sabia? Por favor, nunca mais faça isso. Simba apenas lhe olhou e ronronou um pouco mais alto, feliz com o carinho. - Boa noite, pequeno – beijou-lhe a cabeça, apagou a luz e deitou. Poucos segundos depois o gato subiu na cama e aninhou-se ao seu lado.
Marco e Miguel - Capítulo 2
— Me ajuda! Eu preciso ficar bonito sem parecer que estou me esforçando — Marco choramingou. — E deixar o cabelo brilhando com gel é muito discreto, né? Você vai entrar no mar. Vai bagunçar seja lá o que for que você fizer — Beatriz respondeu. — Poxa! Muitíssimo obrigado! — Marco, ele já gosta de você. Não precisa forçar nada. — Agora sim: obrigado. A irmã sorriu. — Podemos ir? Marco tirou o gel do cabelo com uma toalha e assentiu. Chegaram à praia e encontraram Miguel lhes esperando no calçadão. — Oi, gente! — cumprimentou e abraçou Beatriz. Ele e Marco não sabiam o que fazer, então apenas apertaram as mãos. — Temos um probleminha: minhas mães vieram e querem conhecer vocês. — Por que isso é um problema? — Marco perguntou. — Bem, às vezes elas podem ser um pouco... Excêntricas. Aviso dado. Venham! Os dois irmãos logo avistaram Laura brincando na areia com duas mulheres ao seu lado. Guiados por Miguel, aproximaram-se. — Mães, esses são Beatriz e Marco. Essa é minha mãe biológica, Ana — apontou para a mulher mais alta. Ela era negra e possuía cabelos curtos e escuros como os olhos — e essa é Fernanda, mãe da Laura. Fernanda era mais baixa que a esposa. Era ruiva e possuía olhos cor de mel, além de algumas sardas espalhadas por seu rosto. — Prazer — responderam os irmãos. As mulheres sorriram e responderam o mesmo. — Sentem-se conosco — Ana pediu e recebeu um olhar repreendedor do filho. — Marco, o que achou da tatuagem de Miguel? O dono dos olhos verdes se surpreendeu com a pergunta. — Interessante. E bem bonita — respondeu. — Que bom — Ana falou com um sorriso. — Alguém quer mergulhar? — Miguel questionou com um tom de voz desesperado e um olhar ainda mais desesperado que implorava por uma resposta afirmativa. — Sim! — Beatriz, Marco e Laura responderam. — Eu só vou ter uma palavrinha com minha esposa e já vou tomar conta da Laura pra vocês poderem se divertir a sós — Fernanda disse. O quarteto moveu-se e Miguel olhou para trás sussurrando um "obrigado" para Fernanda. — Você tem que parar com isso — a ruiva falou. — Agora não, tá bom? Me deixa em paz! Fernanda suspirou pesado. — Tudo bem, mas nós vamos conversar sobre isso em casa — afirmou e foi atrás dos outros. — Podem deixar comigo — disse ao alcançá-los e segurar a mão da filha. O trio sorriu e foi para um ponto mais fundo do mar. Ficaram juntos por apenas alguns minutos. Beatriz inventou uma desculpa e deixou Marco e Miguel sozinhos. — Desculpe por minha mãe. Mas lembre-se que o aviso foi dado. Marco riu. — Tá tudo bem. Não precisa se preocupar. Admito, foi uma pergunta estranha, mas tenho certeza que ela tem suas razões. — Você é bem... Compreensivo. E não sei se é estranho ou não você não questionar. — Eu também não — riu. — Peço desculpas adiantadas pelo que elas ainda não falaram. Eu sei que vai ser constrangedor. — Desculpas aceitas. Minha mãe já foi assim. Como não moramos juntos, consigo escapar dessas situações. — Você mora sozinho? — Não. Moro com minha irmã. Fica mais perto do meu trabalho, então eu resolvi morar com ela. Ao contrário do que eu espereva, minha mãe ficou super feliz. Começou a viajar pelo mundo pouco depois, mas nós ainda nos vemos frequentemente. — Você trabalha em quê? — Sou professor de Inglês. — Sério? Eu dava aula de Artes. Será que já trabalhamos na mesma escola? — Provavelmente não. Eu estava dando aula apenas em escolas de língua. Será minha primeira vez ensinando no Ensino Médio. — Boa sorte. Você vai precisar se adaptar um pouco para conseguir lidar com adolescentes. Experiência própria! — riu. — Pelo menos eu vou te ver por lá para receber umas dicas, certo? — Não. Faz uns dois anos que comecei a dar aula particular. A resposta não agradou Marco. — Mas podemos nos encontrar em qualquer outro lugar. É só marcar — Miguel apressou-se em dizer. — E eu posso te dar dicas pelo celular. Você tem meu número. — Que tal nos encontramos agora? Ok, isso saiu estranho. Enfim, conheço uma sorveteria muito boa aqui perto. Vamos? Miguel sorriu e assentiu. Os dois voltaram para o resto do grupo e vestiram as blusas. Comunicaram que iriam à sorveteria e Miguel implorou com o olhar para não deixarem Laura ir com eles. Fernanda compreendeu o olhar e deixou-os ir sozinhos. — Será que já é amor? — Fernanda cochichou ao ouvido da esposa. — Não, não é! — Você acha que não é ou não quer que seja? — Você sabe como ele ficou da última vez. — Sim, mas não dá pra impedir pessoas de se amarem. — Se for necessário, eu o farei. — Ana, você viu eles. Os olhares, os sorrisos bobos e o rubor nas bochechas quando os olhos se encontram. Pensei que você de todas as pessoas pudesse identificar isso. Talvez eles ainda não definam seus sentimentos como amor, mas é o que é. Ana bufou e foi brincar com Laura antes que iniciassem uma discussão no meio da praia e em frente da filha.
***
— Qual o seu favorito? — Miguel perguntou enquanto admiravam os diversos sabores de sorvete. — Pistache. — Pistache? — perguntou com as sobrancelhas erguidas. — Qual o problema? — Nenhum. Só pensei que você tivesse um gosto mais simples, como chocolate. — É? E qual o seu favorito? — Paçoca. — "Pensei que você tivesse um gosto mais simples, como chocolate" — disse com um tom de voz agudo e mostrou a língua logo depois. Miguel sorriu e também mostrou a língua. Cada um se serviu e sentaram-se numa mesa fora do estabelecimento. — Por que você não dá mais aula para o Ensino Médio? — Estava complicado para mim. Minhas mães não podiam ficar sempre com a Laura, então eu resolvi dar aula particular. Assim posso tomar conta da minha irmã quando Ana e Fernanda não puderem. E você? Porque resolveu ir para o Ensino Médio? — Não sei ao certo. Acho que eu precisava de um desafio — sorriu. — E decidiu começar pelo nível mais difícil? — Parece que sim— deu de ombros. Quando o silêncio se fez ouvir, Marco repousou uma de suas mãos sobre a mesa. Poucos segundos depois, Miguel fez o mesmo. O dono dos olhos azuis foi receoso: esticou apenas o indicador e tocou a mão de Marco. Não havendo rejeição, envolveu-a por completo. Ambos sorriram e coraram, evitando contato visual logo de início. A conversa seguiu meio tímida. O assunto foi livros, filmes e jogos. No caminho de volta à praia, seguraram as mãos e pareciam transbordar felicidade. — Lá vêm os pombinhos — Fernanda declarou ao avistá-los. Ana bufou e Beatriz sorriu. Os dois rapazes mal chegaram ao grupo, Ana levantou-se num pulo e começou a arrumar as coisas. — Estamos indo pra casa — falou ríspida. — Já? — Laura perguntou desapontada. — Sim, pequena. Temos que acordar cedo amanhã, esqueceu? — Sim — disse fazendo biquinho. — Mas é claro que o Miguel pode ficar mais um pouco se quiser — a ruiva interviu. — Não, não pode. Somos uma família. Ficamos juntos. Miguel suspirou pesado e soltou a mão de Marco. — Desculpa. Depois eu te explico — falou e foi ajudar as outras a organizarem seus pertences. A família se despediu e foi embora poucos minutos depois, deixando os dois irmãos a sós. — Me conta tudo — Beatriz disse. Marco sorriu bobamente e contou os nem tão emocionantes eventos que aconteceram. ***
— Você vai se afastar daquele menino! — Ana falou num tom mandatório.
— Ana, nada vai acontecer — Fernanda respondeu. Ninguém falava alto. Laura estava dormindo e não queriam que ela ouvisse aquela discussão. — Eu falei milhares e milhares de vezes pra ele não contar, mas é claro que ele não me ouviu. Ele não comia! — Ana continuou. — Mãe, eu não posso esconder isso pra sempre, tá bom? Isso é parte de quem eu sou. Eu pretendia amá-lo para sempre e eu acreditava que ele queria o mesmo. Não foi erro meu! — Claro que foi! Ninguém veria isso como algo normal! E se você vir aquele rapaz de novo… — O que? — interrompeu-a. — Você vai me deixar de castigo? Vai me expulsar de casa? Vai tirar meus brinquedos de mim? Eu não tenho mais cinco anos! — Ana, você realmente tá exagerando — Fernanda disse. — Foi um evento ruim. — Sim, o único evento ruim. E também o único que quase o matou! Quantas vezes ele ficou internando?! — Ana, ele sabe se cuidar. Deixa ele amar quem ele quiser. — Ele é meu filho, Fernada! — controlou-se para não gritar. — Meu filho, não seu! — Eu também tenho uma filha! — Sim, mas a sua não é uma aberração! — não se conteve dessa vez. Gritou. — É isso que você pensa de mim? Bom, eu sabia que eu era um fardo, não uma aberração! Obrigado, mãe. Muitíssimo obrigado — disse com a voz embargada e saiu de casa batendo a porta atrás de si. “Preciso falar com você. Podemos nos encontrar? Agora? Estou nas pedras”. Marco recebeu a mensagem e agradeceu por ainda não estar dormindo, caso contrário, não ouviria a notificação. Já eram quase duas da manhã e ele não queria acordar a irmã. Pegou o carro emprestado e deixou um bilhete informando-a. Chegou à praia ansioso. Não sabia o que esperava, mas definitivamente não esperava o aconteceu. — A gente não vai dar certo. Desculpe se te enganei — Miguel falou sem sequer cumprimentar Marco. — Do que está falando? — Marco, eu tô pedindo pra você se afastar antes que eu te machuque. — De onde saiu isso, Miguel? Nós estamos nos dando bem. O que aconteceu? Me conta. Por favor. Miguel calou-se e as lágrimas desceram por seu rosto. — Por favor, não. Eu não posso te contar. — Por que não?! O que eu fiz? Falei alguma coisa que te magoou? — sua testa estava enrugada de preocupação. — Não! Não foi você! — apressou-se em falar. — Então me conta o que foi — disse ao aproximar-se e segurar a mão de Miguel. Só agora percebera que ele estava chorando. — Eu não posso. Quem vai se machucar sou eu. — Eu não te machucaria. Nunca. — Promete? Promete que não vai sair correndo? — Prometo. De mindinho — ergueu seu dedinho. Miguel fez o mesmo. — Uma promessa de mindinho selada com um beijinho — disse quando os mindinhos se entrelaçaram e ele levou seu polegar ao do outro, fazendo com que se “beijassem”. Miguel sorriu. O dono dos olhos azuis respirou fundo e fechou os olhos. Virou-se de costas e tirou a camisa. Sua tatuagem começou a se transformar. O que antes já era realista ficou ainda mais perfeito quando ganhou perspectiva. Marco olhou surpreso enquanto penas feitas à tinta viraram penas brancas de verdade e asas brotaram das costas de Miguel. Apesar da luz parca, Marco conseguiu ver que elas se tornavam cinzas em determinado ponto até ficarem totalmente pretas. — Você ainda tá aí? — Miguel perguntou sem esperança alguma. Marco estava boquiaberto. Engoliu em seco. — Você é um anjo! — murmurou. — Você é um anjo! — falou mais alto como se aquilo fosse apagar a descrença de seu cérebro. — Você realmente não vai correr? — perguntou ao virar-se para encarar o outro rapaz. — Não vai me chamar de aberração nem fugir? — Por que eu o faria? É lindo. Você é um anjo! — Porque é o que fizeram. — Sério? O que aconteceu? Miguel olhou para o chão e suspirou pesadamente. — Não precisa falar se não quiser — Marco acrescentou. — Depois disso você ainda acha que vai dar certo? — indagou com medo da reposta. — Acha que nós vamos dar certo? — Sim. Eu ainda esfregaria na cara da Beatriz que estou namorando um anjo. Ela vai morrer de inveja — disse brincalhão. — Primeiro: eu não sou um anjo e não sei o que sou antes que pergunte. — Você é um anjo! — falou animado. — Não! Eu sou uma aberração! — as lágrimas tornaram a manchar sua face. — Quem disse isso? — O mundo. Minha mãe. — Isso não importa, Miguel. Eu adoraria ter asas e poder voar como os pássaros! — Você diz isso porque não sabe o inferno pelo qual eu passei. — Quer falar sobre isso? Miguel balançou a cabeça afirmativamente diversas vezes. Segurou a mão de Marco e sentou-se, puxando-o para sentar ao seu lado. — Começou quando eu tinha uns sete anos. Elas começaram a nascer literalmente do dia pra noite. Doía tanto que eu achava que não aguentaria. Eu cheguei a desmaiar devido à dor. Imagina o desespero que eu senti. Meu pai me ajudou. Ele também tinha asas. Quando as minhas pararam de se desenvolver e só cresciam, ele fez essa “tatuagem”. É um selo que me ajuda a controlá-las. Ou deveria. Elas apareciam quando queriam. As outras crianças riam de mim na escola e minha mãe conseguiu convencer os professores que eu era apenas brincalhão e gostava de pregar peças. No começo eu aturei as implicâncias, mas elas começaram a me incomodar eventualmente. Eu tinha acabado de fazer nove anos quando meu pai desapareceu. Não disse o porquê nem se despediu. Evaporou. Miguel parou e respirou fundo. Fincou as unhas na própria perna para se impedir de chorar. — Você passou pela adolescência. Sabe a confusão que é. Eu nunca consegui “guardar” minhas asas nesse período. Elas ainda não eram tão grandes, então eu as escondia sobre camadas e camadas de roupas. Eu não podia sair de casa direito sem morrer de calor. Com isso, ter uma vida social se tornou um grande desafio. Eu não me importava tanto porque minha mãe sempre me apoiou. Depois Fernanda chegou. Ela também foi bem compreensiva. No último ano do Ensino Médio, conheci o Luca. Nós namoramos por três anos. Fizemos promessas de amor eterno, planos de morar no exterior e quase nos casamos. Antes de marcarmos a data, resolvi contar pra ele sobre minhas asas. Pra quê? Por que eu fui tão idiota? Dessa vez, não tentou se impedir de chorar. Sim, ainda doía. — Ele riu de mim. Me xingou. Falou que eu nem deveria ter nascido. Acrescente isso a minhas inseguranças e ao meu ódio por mim mesmo. Eu comecei a me sabotar. Não saia de casa, não comia. Minhas mães me fizeram morar com elas depois de três internações. Fiquei assim por quase dois anos. A Laura já estava grandinha e tentava de tudo para me fazer sorrir. Seus esforços rederam frutos. Comecei a tomar as rédeas da minha vida pouco a pouco. Ainda não me sinto confortável saindo de casa. Não sei como nos encontramos uma segunda vez. Me surpreendi ao ver que não tinha inventado uma desculpa para não ir à praia hoje. Ontem — corrigiu. — Geralmente é a Laura que me convence a sair e ela não precisou se esforçar muito dessa vez — admitiu. Marco não falou nada. Abraçou o rapaz a sua frente como se nunca fosse soltá-lo. — Sinto muito que teve que passar por isso. E você não foi o idiota. Esse tal de Luca que não soube apreciar o que tinha — disse por fim. Miguel sorriu. Foi um sorriso de gratidão. Nuca esperava encontrar alguém que o aceitasse. Se nem ele próprio poderia fazê-lo, por que alguém mais o faria? Embalou Marco e aninhou-se ainda em seu peito. — Obrigado — sussurrou e sorriu timidamente. Marco também sorriu, mas ainda não acreditava que alguém podia machucar uma pessoa como Miguel. Separaram-se após alguns minutos. O abraço era aconchegante, reconfortante. —Eu posso dormir na sua casa hoje? — Miguel perguntou. — Por favor, não pergunte por quê. Marco assentiu. Voltaram à casa de Miguel para que ele pegasse algumas roupas. Sua mãe o aguardava no sofá logo na entrada da residência. — Miguel… O que quer que fosse que ela falaria, se perdeu em seu cérebro quando ela viu as asas do filho e viu Marco atrás dele. — Você mostrou pra ele? Você por acaso perdeu a cabeça?! — sua voz estava firme e baixa com um quê de desespero bem mascarado. — Sim. E ao contrário de você, ele não me acha uma aberração. Eu vou ficar com ele por uns dias. Preciso esfriar a cabeça. Ana abriu a boca, mas apenas ar saiu dela. Quando o filho saiu do cômodo, ela se aproximou de Marco. — Cuide bem dele — disse e começou a chorar. Miguel acordou Laura antes de sair. Explicou-lhe que precisava ficar fora por um tempo, que tudo estava bem e que eles não se afastariam tanto quanto ela imaginava. Beijou sua testa e se despediu. — Suas costas estão sangrando — Marco falou quando caminhavam para o carro. — Eu sei. É normal. Tirá-las dói um pouco. Mas eu já me acostumei. — Você vai caber no carro? De ponta a ponta, quando abertas, as asas tinham quase dez metros e dois metros de altura quando fechadas. — Tem razão — disse e com um grunhido as asas encolheram, logo voltando a ser uma tatuagem. — Agora tá sangrando mais! — Marco gritou desesperado. Miguel não se manifestou. O percurso até a casa de Marco foi silencioso. Ele apresentou seu quarto ao visitante e apressou-se em pegar gazes e álcool. — Senta — ordenou ao voltar ao quarto apontando para a cama. Miguel obedeceu. Marco viu cicatrizes em suas costas quando limpou todo o sangue. Eram grandes, mas não chegavam a ser chamativas. As feridas abertas eram profundas e ele não soube o que fazer por um breve momento. — Eu posso te enfaixar? — Não precisa. Amanhã já terá cicatrizado. Agora Marco ficou sem saber o que fazer ou dizer por mais de um breve momento. — Ok — disse por fim. — Estarei na sala se precisar de mim — Por quê? — Vou dormir no sofá. — Não. Fica aqui — falou ao segurar seu pulso, puxando-o levemente. — Acho melhor não. — Por que eu sua uma aberração? — surpreendeu-se ao perceber que não gritou. Sua voz não passou de um murmúrio. — Não! Claro que não! Eu só… A gente se conhece há dois dias. Eu acho que eu só esperava algo mais… Romântico. Nós ainda nem nos beijamos. Miguel sorriu e não conseguiu conter uma risada. Ergueu-se e aproximou-se lentamente. Deu mais um sorriso quando viu Marco corar e beijou sua bochecha. — Agora nos beijamos — declarou. — Podemos dormir? Marco sorriu. — Só um instante — falou e recolheu umas roupas que estavam sobre uma cadeira. — Não olha — pediu. — Não sei se você percebeu, mas eu já te vi só de bermuda. — A gente pode ignorar esse detalhe — disse ao olhar para trás. — Você tá olhando! — resmungou. Miguel riu e virou-se, ficando de costas para Marco. Este, por sua vez, vestiu-se rapidamente e voltou para a cama. Pegou a mão do outro rapaz e deitaram-se. — Me faz um favor? — Miguel pediu. — Qual? — Me diz que eu não sou uma aberração. Só mais uma vez. — Miguel, você não é uma aberração. Você é um anjo — disse com a voz suave. — Quer que eu repita? — Não. Mas eu posso te abraçar? Marco sorriu e entrelaçou suas mãos, depositando um beijo na mão de Miguel. Dormiram abraçados e com um sorriso dançando nos lábios.
Dystopia - Capítulo 2
Rony acordou animado. Finalmente tivera a melhor noite da sua vida, longe de problemas, imprensa ou qualquer coisa de super-herói. Sim, seu inimigo estava lá, entretanto, fora justamente ele quem fizera aquela noite ser tão especial. O ruivo se desapontou ao tatear a cama e não encontrar Henry. Ele se sentiu tão vazio. Queria tê-lo de volta, queria tê-lo ao seu lado. Depois de algumas horas aguardando-o, chegou à conclusão de que ele não chegaria. Com um suspiro pesado, ergueu-se e foi tomar banho. Ele ainda podia sentir o prazer da noite anterior apenas de imaginá-la. Será que fora tudo uma farsa? Será que aquelas três palavras não significaram nada? Será que era só um jogo? Aqueles pensamentos começaram a consumi-lo e, pela primeira vez em muito tempo, ele estava com medo. Terminou o banho e se vestiu. Pôs-se a limpar e arrumar a cama. Ele estava rezando para que chovesse. Dessa forma, poderia descarregar seus raios e não seria estranho. Ele só queria soltar sua raiva. Antes que percebesse, começou a socar o colchão e falhou em conter as lágrimas. Enquanto isso, não muito longe dali, num quartel-general sob a cidade, Henry tentava desesperadamente sair daquele lugar fétido. Ethan Jones o traira. O Relâmpago era apenas um peão em seu jogo. Nakamura se xingava de todas as coisas possíveis naquele exato momento. Como ele se permitiu ser manipulado de tal forma? Agora tudo estava perdido. Ele sabia que seu destino seria a morte. O moreno dava voltas e voltas na cela, em falhas tentativas de escapar. Ele queria ter tido a chance de se despedir de Rony. — Compreende meu plano? — perguntou Ethan um tanto quanto maldoso. Ele usava uma máscara branca com detalhes em vermelho. — Sim, exatamente! Dois coelhos numa cajadada só! O que será que seu amado está pensando neste momento? Provavelmente que era só uma diversão. Ele já está abalado. Imagine depois de saber que você foi morto por um de seus amiguinhos que bancam o herói! — disse com asco. — Porra! Eu pensei que fôssemos amigos! Eu te tirei das ruas e é assim que me retribui? Você poderia estar morto agora se eu não tivesse salvado a porra da sua vida! — Nada disso aconteceria se aquela vela filha da puta não tivesse feito isso! — ao falar, retirou a máscara e deixou visível a cicatriz que nunca se curaria: uma enorme queimadura que desfigurava mais de metade da sua face. A "vela" a qual se referia era um dos heróis da Legião: Antony Sparks, mais conhecido como Lava por seu poder de controlar o fogo. — Como se não bastasse matar meu pai, ele tentou me matar! E sim, Relâmpago, eu aprecio sua ajuda. Obrigado. Agora, podemos continuar? — perguntou com um sorriso sinistro.
***
Seu celular recebeu uma notificação, mas Rony não queria atendê-lo. Provavelmente não passava de um assalto a banco. Deixou-se cair na cama. Ele já sentia saudade de Henry. Agarrou-se a um travesseiro e gritou, implorou que ele voltasse.
***
No centro da cidade, uma gigante batalha acontecia: três heróis contra um único vilão: Relâmpago. Todos usavam suas roupas que ocultavam suas identidades: Antony Sparks com seu uniforme laranja e uma máscara que tampava apenas os olhos, Jane Willows com sua saia, botas, blusa e, obviamente, um manto que cobria metade de seu rosto. O terceiro herói era Thomas Lewis. Seu traje era simples, não passava de roupas pretas e um disfarce para a face, também preto. Seus poderes são, respectivamente: domínio do fogo, domínio do gelo e elasticidade. Era uma batalha acirrada, com Relâmpago driblando todos, afinal, eles não eram acostumados a lutar contra ele. Thomas conseguiu segurá-lo num enorme círculo elástico por alguns segundos, visto que Nakamura foi capaz de pular sobre sua cela improvisada. Novamente, o vilão foi cercado, porém, com gelo dessa vez. O plano de Willows falhou assim que Henry esmurrou as paredes em velocidade sobre-humana, quebrando-as. Fazer um círculo de fogo também não foi suficiente. Apenas algumas rápidas voltas ao redor do fogo foram suficientes para apagá-lo. Num piscar de olhos todos os heróis estavam no chão, os rostos sangrando. — Isso é tudo que vocês podem fazer?! — divertiu-se o inimigo. — Se eu soubesse, teria ficado em casa! Assim que Jane vez menção de se levantar, Henry a atacou, desferindo um golpe em sua barriga, o que a fez cuspir sangue. — Vamos lá, seus maricas! Quer dizer que a mulher é melhor que vocês?! — riu com desdém. E então, sem mais nem menos, Henry voltou a atacar os heróis caídos, investindo chutes e socos com tamanha velocidade que foi capaz de quebrar alguns ossos. — Vocês são patéticos! — gritou. É claro que aquele não era o Henry Nakamura conhecido como Relâmpago. Não que este não fosse capaz de fazer tudo aquilo — certamente era, mas nunca o faria. Ele era um dos poucos vilões que valorizavam uma luta justa e atacar alguém que já está no chão não é nada além de covardia. Uma palavra explicava tudo: Ethan. Ele era o típico cientista maluco atrás de vingança e criara algo único: um manipulador, o qual não passava de um pequeno chip. Basta introduzi-lo no corpo de alguém e essa pessoa lhe obedecerá. Será como controlar um personagem num jogo de videogame.
***
O celular de Rony tocou. Dois bipes. Aquele era o código que indicava que a situação não estava nada boa. Suspirou pesadamente e se levantou. Secou as lágrimas que, embora tivessem parado de escorrer, ainda molhavam seu rosto. Vestiu seu uniforme: calças e blusa azuis e uma capa branca e dirigiu-se ao endereço da mensagem. Chegou lá a tempo de ver a morte de Henry se aproximar. Jane tinha diversos hematomas e quase não se mantinha em pé, mas foi capaz de prendê-lo em uma armadilha e preparava o golpe final. — Morra, filho da puta! — gritou a mulher ao atingi-lo com o golpe direto no peito. Ela congelava seu coração. — Não! — bradou Rony. Ele correu até o corpo de Henry, do qual a vida se esvaia. — Por favor, fique comigo! Henry! O ruivo sentou no chão e repousou a cabeça do moreno sobre suas pernas. — Oi, Rony! — ele sorriu abertamente e ergueu sua mão até tocar o rosto do amado. Este, por sua vez, apertou-a como se não houvesse amanhã. — Fico feliz em te ver — sua voz estava arrastada, pesada. — E desculpe por não estar ao seu lado hoje de manhã — arfou e ficou calado por breves segundos. — Ethan... Cuidado com... Ele — estava cada vez mais difícil falar. — E lembre-se... Eu... Te a... — Eu também te amo! Por favor, não me deixa! Fica comigo, Henry! — mas já era tarde. E juntamente com os gritos, veio o choro. A loura, Jane, não compreendia aquela situação. Eles eram inimigos. O que fora aquela despedida? — Rony, o que tá acontecendo? — perguntou. — Sua vadia! Você o matou! — o ruivo investiu contra a mulher, pressionando seu pescoço. — O que você está fazendo?! Rony! — ele não hesitou e, por isso, suas mãos foram congeladas. — Qual o seu problema? — perguntou quando se desvencilhou do aperto. — Você... O matou... — ele caiu de joelhos e voltou para o lado de seu amado. — O que está dizendo? Estávamos apanhado feio há pouco tempo! Ele tentou nos matar! Olhe ao seu redor! Eu sou a única em pé e mal consigo me manter! Assim o fez: olhou em volta para encontrar os amigos caídos, sangue fluindo de seus corpos. Olhou com pesar seus peitos subindo e descendo lentamente. — Ele não faria isso. Apesar de ser mau, ele só faz lutas justas! — retrucou tentando controlar as lágrimas. — Então ou esse é alguém parecido com ele ou tem alguém o controlando. — Quem é Ethan? Ele falou para eu tomar cuidado com esse cara. — No momento devemos nos preocupar com os nossos. Se eles ainda puderem ser salvos... Com um longo suspiro, Rony fechou as mãos em punho para quebrar o gelo e acariciou o rosto de Henry. Levantou-se e caminhou até os companheiros. — Chame a Robin! Robin Walker era a pessoa por trás de todo aquele grupo. Era uma mulher alta, negra, com cabelos crespos e olhos negros. Sua função era como a de Nick Fury dos Vingadores, no entanto, ela também podia ser comparada à Viúva Negra. A mulher chegou alguns minutos depois com dois carros. — Vocês não conseguiram lidar com o papa-léguas sem apanhar? -—indagou assim que saiu do veículo. — Aquela merda tava mais rápida! — defendeu-se Jane. — E você? Por que não apareceu pra combater seu inimigo mortal? — perguntou a Rony. — Não é da sua conta! — Que seja — suspirou exasperada. — Me ajudem a levá-los ao QG — ordenou. Os heróis acataram a exigência e carregaram os amigos até os carros. Kolberg fez questão de levar Henry e ficar ao seu lado. — Depois teremos que arrumar a bagunça que vocês fizeram — lamentou-se Robin. O local estava realmente um caos: asfalto quebrado, carros amassados, prédios congelados. Depois que a batalha acabou, todas as pessoas que se escondiam em suas casas saíram e cercaram o lugar, amontoando muitos olhares curiosos e perguntas do que acontecera. — Tá chorando por que o papa-léguas morreu, é? — Robin perguntou. Rony não respondeu. — E quanto a seus amigos? Não sente nada por eles? — Você pode calar a porra da boca? — gritou o ruivo. Robin o olhou incrédula, porém, calou-se. Chegaram à base de operações em pouco tempo. Era uma área subterrânea com as mais diversas tecnologias e, sem dúvidas, inúmeras celas para os inimigos. Algumas já eram utilizadas. Os heróis foram levados à enfermaria enquanto Rony carregava Henry até a sala de Nathan Weiss, o responsável por analisar corpos. — Analise-o pra mim. — Ei, cara! Há quanto tempo, né? Estou bem, obrigado por perguntar — falou o homem alto, magro e de cabelos no tom de areia. — Educação às vezes é bom! — bufou. — Foda-se a educação! Você vai fazer isso ou eu preciso enfiar a educação na sua bunda? — gritou. — Relaxa, cara! Pra que a pressa? — Não lhe diz respeito! Vai fazer ou não? — Vou. — Obrigado — murmurou ao sair da sala, deixando Nathan embasbacado. Rony é conhecido por ser calmo e paciente (pelo menos mais que os outros heróis) e vê-lo daquela forma o surpreendeu. — Não se preocupe com ele — Robin falou. O homem magro se assustou com a nova presença em seu ambiente de trabalho a ponto de pular. — Ele só tá de TPM. Kolberg correu para o primeiro cômodo vazio que encontrara. Batera a porta com força e se trancara lá. Mordeu a própria mão para controlar os gritos enquanto as lágrimas escapavam. Ele não fora um brinquedo, mas e daí? Sem Henry lá, não havia mais sentido a todas aquelas perguntas. Ele só queria tê-lo de voltanem seus braços, poder amá-lo pelo resto da vida, beijá-lo e abraçá-lo. A partir daquele dia, ele passou a acreditar no ditado que dizia que "tudo que é bom dura pouco".
***
— Ele tem diversos arranhões no corpo e algumas manchas roxas. Não sei dizer o que foi isso — declarou Nathan. "Eu sei", pensou Rony com um sorriso amargo no rosto. — Tem uma coisa que achei interessante: — pegou um pequeno objeto preto de sua mesa — um chip. Ele estava inserido no pulso do Relâmpago. — O que ele faz? — Não tenho certeza. Ele é diferente de qualquer outro que já vi. Era um chip em formato de pentágono com um estranho símbolo parecido com uma noz marcando-o. — Tem alguma digital ou qualquer coisa do tipo? — Não sei. Vou verificar. — Certo. Kolberg começou a vaguear pelos corredores da base da Legião. Seus olhos estavam vermelhos pelo choro e sua aparência no geral não estava muito melhor. Seus pés se arrastavam no chão. Ele sentia como se estivesse carregando um piano nas costas. Antes que se desse conta, ele estava na enfermaria. Sparks estava acordado embora não parecesse estar melhor. Seu braço direito estava enfaixado, assim como seu tornozelo esquerdo. Havia um pedaço de vidro cravado em uma de suas coxas. — Cara, você tá bem? Eu que apanhei, mas tá parecendo que foi você — perguntou Antony, um homem alto, musculoso, de cabelos castanhos e olhos verdes. Rony não foi capaz de responder. Fixou seu olhar num ponto qualquer e balançou a cabeça diversas vezes, como se aquela negação fosse mudar o presente. — Ei, Ron, o que tá acontecendo? — perguntou. Ele e o ruivo eram amigos de infância. Não era fácil, para nenhum deles, assistir o outro com seus problemas e não fazer nada. — Você quer conversar? — Eu o perdi — balbuciou enquanto sentia as pernas bambearem e os joelhos cederem, jogando-o ao chão. — Eu o amava e não pude fazer nada quando ele morria. Foi minha culpa. — Ok. Primeiro: de quem você tá falando? Segundo: o que aconteceu? — O Relâmpago! — gritou sem perceber. — Eu o amava — dessa vez seu tom de voz não passou de um sussurro. — Que Relâmpago? "O" Relâmpago? Rony assentiu. Espanto se espalhou pelas feições do Lava. — E nós o matamos — falou com pesar. Sparks conhecia o ruivo há muitos anos e sabia que ele não se apaixonava por qualquer um. — Eu o matei... — retrucou Jane ao sair de outra sala da enfermaria. Ela ouvira a conversa inteira. — Ron, eu não fazia ideia — murmurou. — Ninguém fazia — respondeu melancólico. — Não posso te culpar, não é mesmo? Ele estava atacando vocês — olhou para o chão de modo que seus cabelos escondessem as lágrimas. Sem falar uma palavra, a loura o embalou num abraço. — Eu não sei se vai ficar tudo bem, então não tenho certeza se isso é ideal pra te falar agora — ela disse após alguns minutos de silêncio absoluto. — Eu só... Queria que ele estivesse aqui — falou o ruivo. Antony levantou-se com dificuldade e envolveu os outros dois. Ficaram assim por um bom tempo, apenas confortando o amigo. Só se soltaram quando Emily Vecchi, a médica, apareceu no recinto. Ela era uma mulher alta, de cabelos castanhos encaracolados que lhes chegavam aos ombros e um olhar penetrante, o que ficava ainda mais marcante com os olhos azuis. — Eu não sei o que tá acontecendo aqui, mas espero que nosso foguinho volte logo pra maca pra eu cuidar desse vidro e não infeccionar — disse ela. — Eu tô aqui pra você, Ron — disse o moreno antes de obedecer à ordem que lhe fora dada. O ruivo enxugou as lágrimas, suspirou pesado e se levantou, ajudando Jane a fazer o mesmo. — Obrigado — ele murmurou, recebendo um sorriso de compaixão em resposta. Os dois heróis observavam enquanto Emily tirava o vidro da coxa de Antony sem cerimônia alguma, fazendo-o gemer de dor e a médica sorrir. Em seguida, ela limpou a ferida e fez um curativo. — Como está Thomas? — perguntou o moreno. — Não muito bem — suspirou pesado. — Ele perdeu muito sangue. E você precisa descansar — falou para a loura. — Não tenho certeza se você realmente não tem nada que possa se agravar. Jane rolou os olhos. — Eu tô bem! — manifestou—se. — Ok. Se você cair do nada não venha me procurar — retrucou indignada. — E você? — perguntou a Rony. — Qual o seu problema? — Nenhum que você possa resolver. Foi a vez de Emily de revirar os olhos. — Ron, você quer jantar lá em casa hoje? Elizabeth perguntou por você — Tony sugeriu. — Aprecio o convite, mas acho que quero ficar sozinho hoje. — Qual é, Ron! Por favor! — E o que acha de uma bebida no bar? — perguntou Jane. — Galera... Eu... Agradeço muito, mas... Não me façam ter que recusar esses adoráveis convites. Tudo que Rony queria era chegar em casa, se jogar na cama e desabar. O ruivo acreditara que poderia ser feliz, mesmo com todo o perigo que é a vida de um herói. Ele acreditou na chance de viver com alguém ao seu lado pelos dias que lhe restava. Depois de longos anos escapando de emoções, afastando-se de pessoas para não machucá-las ou a si mesmo, ele desistira e se entregara ao amor. Se ele soubesse que seria tão doloroso assim, nunca se deixaria cair naquele precipício. Aproveitou a primeira oportunidade relacionada àquele sentimento e, em troca, teve seu coração quebrado, dilacerado. Ronald Kolberg já não podia afirmar se o órgão que fazia seu sangue pulsar era humano ou se não passava de uma pedra. Fora uma vida inteira fugindo de relações profundas — até mesmo com seu irmão — e agora seria pelo resto da eternidade. — Preparem seus queixos para caírem! — declarou Nathan ao entrar na enfermaria com seu computador portátil em mãos. Walker o seguia. — Rony me pediu para examinar o Relâmpago e eu encontrei isto — mostrou o chip a todos. — Agora, adivinhem de quem é as digitais nesse minúsculo objeto! Exato! Ethan Jones. E sabe a melhor parte disto tudo? Ele está morto! Estou ficando ansioso para saber como isso vai terminar! — uma palavra atropelava outra, sua fala no geral sendo um pouco sem nexo aos ouvintes. Ele parecia uma criança que acabara de ganhar um brinquedo novo e mostrava-o a seus amigos. — Devagar! — gritou Sparks. — Tá dizendo que quem quer que tenha sido que implantou isso no "rapidinho" está morto. — Exato. E você mesmo o matou — seus dedos tamborilavam na tela do computador. Aquela era, de longe, a história mais excitante da qual ele tinha conhecimento. — Foi difícil encontrar uma identificação que batesse com a do chip e foi aí que a Robin me sugeriu pesquisar no arquivo dos mortos. Combinação perfeita. — Como isso é possível? — indagou Jane. — De duas, uma: ou ele não morreu ou esse chip foi feito por ele e achado por outra pessoa, alguém que usou luvas ao manuseá-lo — afirmou Robin. — Não. É a primeira! — Rony se fez ouvir. — Henry me mandou ter cuidado com um cara chamado Ethan. Os olhares que o ruivo recebeu perguntavam quem era Henry. Ele era o único que sabia a real identidade do vilão. — O Relâmpago. O nome dele é Henry Nakamura. Era... O herói fincou as unhas no próprio braço para se impedir de voltar ao pranto. — O que mais o papa-léguas lhe disse? — tornou a perguntar Robin. — Nada. Só isso. A mulher não se mostrou satisfeita com a resposta. — O sobrenome não me é estranho — Antony balbuciou. — Provavelmente porque você se lembra do pai dele: Steve Jones — anunciou Nathan. Os olhos verdes se arregalaram e foram tomados por um brilho triste. A visão ficou embaçada por lágrimas. Sim, ele conhecia aquele nome e seu dono. Nunca poderia esquecer. A primeira pessoa morta por ele. Mesmo que a perda de uma vida tenha salvado centenas de outras, o peso a se carregar era grande, um fardo enorme. Sparks ainda tinha dezesseis anos, era nada além de um garoto, quando foi obrigado a ter sangue nas mãos em prol de outros. Steve estava a um passo de explodir um parque onde metade da população se encontrava. O herói ateou fogo à mão do homem, o que o fez derrubar o controle responsável pelos explosivos. Antony ainda não tinha total controle sobre seus poderes e não conseguiu controlar as chamas, o que provocou a morte do homem. Até hoje sente o fantasma de Jones o perseguindo, espreitando-o e aguardando sua morte. — Você acabou queimando todo o laboratório dele e seu filho estava lá. Como ninguém tinha visto-o, foi dado como morto — continuou Nathan. — O que será que ele está tramando? — perguntou Emily, curiosa. — Coisa boa não é — afirmou Jane. — E então? Qual o plano? — Antony perguntou. — Não tem plano. Nós não sabemos onde ele está, o que planeja fazer... Não temos nada. Ele é, literalmente, alguém morto pro resto do mundo — falou Robin. — É isso? Vamos esperá-lo fazer seu movimento? — Não temos outra escolha. — Claro que temos! — gritou. — Ele pode machucar inocentes! — Eu sei! Mas a história ainda é a mesma: não temos nada! — retrucou com voz firme, mas sem elevar seu tom. — Não é justo. Quem morrer será por minha culpa. — Porra, Tony! Tá falando do quê? — perguntou Jane. — Eu poderia tê-lo matado e nós não estaríamos com esse problema. — Quem garante? Sparks abriu a boca para falar, mas nenhum som saiu de dentro dela. — Exatamente! Qualquer outro louco pode aparecer e fazer o mesmo que ele e você se culpar não mudará nada! — Tem razão... — É claro que tenho, seu idiota! — Ok, ok. Sem mais discussões! — Emily declarou. — Quem precisa de ajuda médica fica. Quem não precisa sai. Restaram, na enfermaria, apenas duas pessoas: a doutora Vecchi e o inconsciente Thomas. — Ron, eu não me sinto bem te deixando ir pra casa sozinho — Antony falou mancando ao lado do ruivo. — Do que está falando? Foi você quem quase morreu, não ele — Walker estava curiosa com aquela conversa. — Ele está com um... Problema — respondeu o moreno. — Relacionado ao papa-léguas? Rony assentiu. — Posso saber qual é? — Eu o amava. É só isso — as lágrimas já distorciam a visão do ruivo. — Agora entendo sua TPM... Sinto muito que ele tenha morrido. Robin conhecia aquela situação muito bem — bem até demais. A mulher fora obrigada a matar a pessoa por quem estava apaixonada: sua amiga de infância. Ela também era uma heroína, mas se voltou para o mal sem razão aparente. A agente da Legião ainda via aquele momento em seus sonhos, o momento no qual colocou uma bala na testa de sua amada. — Você vai ficar bem, não vai? — Tony tornou a perguntar. A preocupação era perceptível em sua voz. — Eu não sei. Eu realmente não faço a menor ideia. O silêncio permaneceu nos corredores do Quartel General por alguns segundos. Nathan foi o primeiro a falar. — Posso liberar seu corpo para ser enterrado? — Eu posso... Me despedir? — É claro. — Obrigado — sussurrou. Rony seguiu sozinho até a sala de Nathan. O corpo de Henry estava deitado numa mesa de metal. O ruivo pegou uma cadeira qualquer e colocou-a ao lado do grande objeto metálico, sentando-se logo em seguida. — Oi, amor — disse ao segurar umas das frias mãos de Nakamura. — Você acredita que eu duvidei dos seus sentimentos? Não sou estúpido? — ele não recebeu uma resposta, obviamente. As lágrimas rolavam incessantemente. — Por que você teve que me abandonar? Nosso tempo juntos foi tão curto. Kolberg acariciou o rosto do moreno. Ele estava pálido, gélido. Passou a ponta dos dedos sobre os lábios que sempre desejara descobrir o gosto e lembrou-se dos sorrisos sarcásticos que continuamente recebia durante suas batalhas. Como ele sentiria falta daquilo! — Eu te amo tanto! — ele chorava cada vez mais. Ronald ficou sentado ao lado do corpo por alguns minutos. Ele sussurrou seus sentimentos inúmeras vezes. Não soltou a mão de Henry por um momento sequer. Talvez ele pensasse que poderia passar sua energia vital para o amado. Quando o herói foi finalmente capaz de se acalmar, ergueu-se e acariciou as mechas escuras. Em seguida, depositou um beijo em sua testa: um símbolo de despedida. Nathan estava do lado de fora da sala, sentado no chão aguardando o companheiro. Ele estava preocupado com o amigo, e não tinha a menor ideia do que ele estava passando. Ainda era um menino, um bebê recém-saído das fraldas naquele louco mundo. Nem tivera a chance de encontrar sua "alma gêmea" ou qualquer coisa assim. Um aceno de cabeça por parte do ruivo indicava que o corpo poderia ser enterrado. Ele não estaria lá quando acontecesse, é claro. Toda aquela situação já estava dolorosa demais. Ele não aguentaria assistir Henry indo para baixo da terra. — Ele terá um lugar com os nossos — declarou o jovem. A Legião tinha um cemitério exclusivo no qual todos — super-heróis ou não — que lutaram por uma causa eram honrados: aqueles que se sacrificaram por sua família ou amigos, aqueles que batalharam por justiça... Pode não parecer muito, mas, para Rony, aquilo tinha um significado: mesmo sendo um vilão, Henry seria sepultado com respeito. — Obrigado — balbuciou. Com um longo suspiro, o ruivo seguiu seu caminho até sua casa. Os passos eram lentos, os pés se arrastavam e o olhar não levantava. O lar de Kolberg era grande, uma residência de dois andares. Tinha o necessário e o desnecessário. O herói nunca percebeu o quão enorme aquele ambiente era. Não até dividi-lo com alguém. O local parecia tão lúgubre agora. — Cheguei! — anunciou com a voz amarga. Teve esperança em ouvir uma resposta, a qual nunca recebeu. Caminhou pesadamente e se deixou cair na cama. Agarrou um travesseiro e afundou as unhas nele a ponto de rasgá-lo. As lágrimas começaram lentamente enquanto a dor no peito parecia não ter fim. Uma a uma foram molhando o tecido em suas mãos, marcando-o com suas tristezas. Rony não gritou. Apenas sucumbiu ao pranto, silencioso. Naquela noite, houve muitos raios, porém, não houve relâmpago algum.n
Marco e Miguel - Capítulo 1
Resumo: Marco e Miguel se encontram na praia. Ambos deixam claro o interesse romântico. Mas será que existe amor à primeira vista? E será que ele suporta o segredo de Miguel?
— Fala com ele! — O-O quê? Do que está falando? — Marco, eu te conheço bem. E ele já deu umas olhadas pra você — Beatriz falou. — S-Sério?! — os olhos verdes se arregalaram e Marco falhou em conter sua excitação. — Mas ele deve ser casado — disse num muxoxo. — Ele tá com uma garotinha. Deve ser filha dele. — E ele deve estar pensando que eu sou sua namorada, mas eu sou sua irmã. Marco não respondeu, apenas calou-se enquanto inúmeros pensamentos martelavam sua cabeça. Ambos tinham uma diferença de dois anos. Enquanto Beatriz tinha olhos e cabelos castanhos, Marco tinha olhos num tom verde esmeralda e cabelos negros. Depois de muitas brigas, os dois se tornaram inseparáveis e estavam na praia para tentar aturar aquele calor infernal do verão. A praia não estava muito cheia. Já estava de tarde, quase anoitecendo, e a maioria dos banhistas já tinha retornado a suas casas. — Vai lá! — Beatriz tornou a falar num tom mandatório. — Não! — Marco cruzou os braços e fez biquinho. — Tudo bem. Ele tá vindo pra cá — disso com um sorriso vitorioso. — O quê? Marco ergueu o olhar e viu o homem se aproximar segurando as mãos da menina. Não pôde expressar seu desespero porque eles já estavam bem próximos. — Desculpe incomodar — disse o homem —, mas minha irmãzinha queria te entregar isso — apontou para a criança que se escondia atrás de sua perna. A menina olhava os outros dois por trás dos cabelos loiros sobre seu rosto. Estendeu uma das mãos à Beatriz e mostrou-lhe uma concha. — Ela é tão bonita quanto você — disse timidamente. — Obrigada, princesa! — Beatriz aceitou a concha com um sorriso. — Eu te daria uma flor que é tão bonita quanto você, mas eu não tenho nenhuma. — Tudo bem — a garota tornou a falar. — Se você virar amigo do meu irmão eu já fico feliz. — Laura! O que está falando? — o homem perguntou um tanto surpreso. — Ele não tem muitos amigos — a menina continuou sem dar atenção ao irmão. — Mas deve ser porque ele não sai muito de casa. — Ok, Laura. Acho que nossos amigos já ouviram o bastante. — Não, eles ainda não são nossos amigos. Vocês querem ser nossos amigos? — perguntou cravando seus olhos azuis nos outros dois. — É claro! Eu sou Beatriz e esse é meu irmão, Marco. Marco sorriu timidamente e balançou a mão dizendo "oi". — Eu sou Laura e esse é Miguel — sorriu. — P-Prazer — gaguejou. Não estava confortável com o que a irmã dissera. Sentia-se exposto. — Sentem-se — Beatriz ofereceu empurrando Marco e chegando para o lado, abrindo um espaço na canga na qual sentavam. Os outros dois irmãos aceitaram a oferta e o silêncio se instalou. — Então... Por que gostam desse horário pra vir à praia? — Beatriz perguntou. — É mais calmo e tem menos gente. E moramos aqui perto, então podemos voltar pra casa rapidinho — Miguel respondeu. — E vocês? — O mesmo. Mas moramos um pouco mais longe. Ficaram em silêncio por mais tempo enquanto Laura lançava olhares ao irmão incentivando-o a conversar. — Gostei da sua tatuagem — Marco falou por fim. — Obrigado — Miguel respondeu um pouco receoso. Miguel estava vestindo apenas uma bermuda, deixando seus torso exposto. Marco reparara em seus músculos, porém, se maravilharam com as asas tatuadas em suas costas. — Elas te fazem parecer um anjo—- Marco continuou e se xingou mentalmente logo em seguida. "Não flerta com ele agora!", repreendeu-se. Miguel sorriu e agradeceu, olhando para baixo e rezando para não verem suas bochechas corarem. Laura levantou-se e pegou a mão de Beatriz. — Vamos montar um castelo? — pediu. Beatriz sorriu e aceitou a proposta, erguendo-se num pulo. Ambas se aproximaram do mar e começaram a brincadeira. — Seus pais estão por aqui? — Marco perguntou. — Mães — Miguel corrigiu prontamente. — E não. Elas praticamente me imploraram pra trazer a Laura hoje. A pequena não parava de pedir e elas estavam cansadas. Marco assentiu e começou a admirar o outro sem perceber. Bom, seus olhos azuis e os cabelos castanhos encaracolados realmente o faziam parecer um anjo. — Tem alguma coisa errada? — ele perguntou. — Hã?! — Você tá me encarando — respondeu com o olhar fixo ao chão. — Desculpa! Eu nem percebi. "Me distraí com sua beleza", pensou. — Promete que não vai me achar estranho se eu te perguntar uma coisa? — continuou. — Prometo. — Posso te dar meu telefone? Os dois coraram e evitaram contato visual. Miguel refletiu por um momento. Ele provavelmente estragaria tudo, mas resolveu correr o risco. — C-Claro! Marco pegou uma caneta e um pedaço de papel da bolsa da irmã e escreveu seu número, entregando-o para Miguel. Os sorrisos bobos dançaram nos lábios enquanto ficavam em silêncio e observavam as irmãs um pouco mais à frente. Permaneceram assim por alguns minutos. — Sabe qual a melhor parte disso tudo? — Miguel perguntou por fim. Marco balançou a cabeça confuso. O dono dos olhos azuis segurou o outro pelo pulso e o arrastou para umas pedras que tinham ali perto. Não estavam muito longe, pois ainda podiam ver Laura e Beatriz. Miguel começou a subir as pedras. Estava a aproximadamente um metro do chão. Marco o seguiu. — Apresento-lhe a maravilha do Universo. Marco ergueu o olhar e ficou embasbacado com a vista. A Lua brilhava forte e o céu estava salpicado de estrelas. As ondas do mar iam e vinham lentamente, deixando a paisagem ainda mais admirável. — Este é o meu lugar favorito na Terra. Às vezes eu "fujo" de casa e venho pra cá quando quero me esconder do mundo. Geralmente venho de madrugada, então fico sozinho. Marco apenas balançou a cabeça. Ainda estava maravilhado para conseguir articular palavra alguma. Miguel sorriu. Talvez aquilo desse certo.
***
Já eram quase nove da noite quando saíram da praia. Cada dupla de irmão foi para seu próprio canto e se despediram com a promessa de se encontrarem novamente no dia seguinte. — Satisfeito com o encontro? — Beatriz perguntou quando entraram no carro. — Muito — Marco respondeu com um sorriso. — Quando será que conheceremos a esposa de Miguel? — zombou e só não levou uma cotovelada porque estava dirigindo. Chegaram em casa após cinco minutos na estrada. Marco se surpreendeu ao ouvir o telefone tocar. Era uma mensagem: "Obrigado por hoje. Eu e Laura nos divertimos bastante! Boa noite". Miguel recebeu a resposta pouco depois e não conseguiu parar de sorrir para o visor do celular. Talvez realmente desse certo. "Boa noite, anjo".
Notas finais: A ideia original era fazer uma songfic, então fiz esse capítulo baseada na música “Call me maybe”, de Carly Rae Jepsen. Mas a ideia de songfic provavelmente não vai durar...
O próximo capítulo e as próximas estórias vão ter que esperar um pouquinho porque eu estou exausta!
Gostaram desse capítulo?