POV.1 - Pesadelos e devaneios
Noites diferentes, mesmo sonho. Uma forte angústia lhe aflige o peito e a dor o acomete por inteiro, o consome… cada fibra dos seus músculos, cada veia e artéria do seu corpo penetrando-lhe a pele alva que absorve o veneno tal como uma folha deixa-se ser penetrada. Tantas vozes. Tantas pessoas a sua volta gritando, berrando, com tanta raiva e fervor nas palavras que não consegue entender nem mesmo uma única sílaba… Tantas de uma só vez, ao seu redor. As faces cravejadas de muito ódio e rancor. Maekar é, novamente, a criança que costumava ser, mas em seu corpo de dezoito anos de idade agachado em meio a multidão com as mãos sobre os ouvidos. Tantas vozes. A claridade branca começa a piscar num tom de vermelho sangue e as pessoas mudam suas formas humanas para formas cadavéricas e em meio a elas, Maekar o vê.
Aperta os olhos, fechando-os em seu máximo “saia daqui. Saia, por favor”, ele resmunga sem querer sobressair-se das vozes que o rodeia. O cenário muda. Maekar se vê, em pé, defronte um campo a perder-se no horizonte tão verde, tão vívido, mas tanta beleza não dura. Uma explosão, tão longínqua, leva tudo à terra árida salpicada com fogo e destruição a toda volta. No céu olhos amarelos se abrem junto de um sorriso aterrador. Maekar corre para o lado contrário, corre para uma luz em um corredor que parece não querer terminar. O corredor se alonga cada vez mais e seus passos desaceleram contra sua vontade.
A roupa de cama está empapada de suor assim como ele por inteiro. Os fios loiro-platinados estão colados na testa cuja face é de dor e medo. A sua volta os móveis estão arrastados, caídos, jogados, empurrados, puxados… De todas as formas sobre o chão. Ele bufa de cima da sua cama. A janela aberta deixa uma suave brisa fria preencher todo o quarto enquanto as cortinas venezianas batem e chacoalham em movimentos arrítmicos com o barulho das janelas se chocando com seus batentes. As vozes ainda o atormenta.“Faça elas pararem”, sussurrou em um estado entre o sono e o despertar.
Os corredores se tornam longos e com curvas sinuosas, portas vem e vão, bifurcações, curvas para a direita, curvas para a esquerda, escadas que sobem e descem. Já cansado Maekar desiste de correr e encontrar uma saída - Mas eu estava dormindo. - Diz para si mesmo. Estava?… Estava… estava?… Tava… Es… estava? - ME DEIXA EM PAZ. - Ele vocifera para o alto rodando no próprio lugar a procura dos olhos e sorriso malignos. O silêncio é tomado por uma risada estrondosa e tão aterrorizante que suas pernas tremem. - Eu preciso sair daqui. - Crianças riem a sua volta, muitas delas, risadas de desdém, de desgosto como se estivessem se deleitando pelo que vêem. Seu corpo inteiro arrepia. Obrigado, ele diz, com a voz diferente e macabra e elas começam a rir de novo. Obrigado, ele sussurra. Um sussurro que ecoa por todos os lados.
As lágrimas irrompem a barragem que as seguravam. Seus olhos, vermelhos e marejados, derramam o líquido salgado que escorre pelas maçãs do rosto. - Não… Você nunca vai ter o controle? - Ele diz. Não?… Não… ão… Não? Ele sussurra de volta com seus ecos e logo vem o silêncio. EU JÁ O TENHO, este, aprisionado, grita a plenos pulmões levando a mente de Maekar ao limite, então se vê escondido, novamente, em seu esconderijo que passou anos da sua vida. Seu maior pesadelo, o seu quarto. Todavia o pior disso tudo é estar preso.
Ele desperta. A roupa de cama está empapada de suor assim como ele por inteiro. As mechas loiro-platinadas coladas na testa são afastadas pela mão de dedos finos e esguios. À sua volta os móveis estão arrastados, caídos, jogados, empurrados, puxados… De todas as formas sobre o chão. Ele bufa de cima da sua cama. A janela aberta deixa uma suave brisa fria preencher todo o quarto, esta, que parece chamá-lo até o batente e assim ele o faz, curvando-se sobre o espaço vazio, apoiando a cabeça nas mãos. As vozes o deixaram. As vozes não mais o atormentam. Ele sorri.