
❣ Chile in a Photography ❣
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@mallouca
tô me sentindo muito sozinha
será que uma hora minha cabeça dará descanso? será que voltarei a funcionar? será vou lembrar de respirar na proxima vez?
deus sabe que seria a primeira vez
tornei-me exageradamente delicada amando
e mesmo o tremor da cortina agora ameaça
a minha vida
o último amor da palavra, o silêncio
o último amor do silêncio, o pássaro
o último amor do pássaro, a queda
a queda última do amor, amar
I hope we meet again in another life…
ser uma mulher ligeiramente tocada pela
desaparição. penso nos astronautas — li esses
tempos que voltam com algum grau de
osteoporose do espaço. é a gravidade que nos confere
bons ossos, o impacto. num lugar sem peso, nosso
corpo se adapta, e o ideal passa a ser outro esqueleto, bem
mais aerado, poroso. aos poucos vamos nos
convertendo numa espécie nova, e um ímpeto de
transparência começa a trabalhar. acho que a palavra
quando dita em voz baixa, ou só sugerida em leitura labial,
ela deve ser o fim dessa escalada por criaturas cada vez mais
inespessas. não há língua que não seja resto daquilo que no
príncipio foi alucinado pela ossatura. pra mim é
evidente que minha clavícula esquerda quer-se um anú
Murders in the Rue Morgue (Robert Florey, 1932)
whatever hour you woke there was a door shutting.
maybe healing is between two lips.
Ainda bem que não morri de todas as vezes que quis morrer – que não saltei da ponte, nem enchi os pulsos de sangue, nem me deitei à linha, lá longe. Ainda bem que não atei a corda à viga do tecto, nem comprei na farmácia, com receita fingida, uma dose de sono eterno. Ainda bem que tive medo: das facas, das alturas, mas sobretudo de não morrer completamente e ficar para aí – ainda mais perdida do que antes – a olhar sem ver. Ainda bem que o tecto foi sempre demasiado alto e eu ridiculamente pequena para a morte. Se tivesse morrido de uma dessas vezes, não ouviria agora a tua voz a chamar-me, enquanto escrevo este poema, que pode não parecer – mas é – um poema de amor.
Cat People, 1942