Inferno INC
Certa noite, eu morri.
Havia acabado de fechar os olhos quando uma dor aguda alvejou meu peito. Foi indescritivelmente terrível, mas também foi indescritivelmente rápida. Em menos de um segundo, tudo havia acabado. Abandonei as preocupações bobas com as contas, a estúpida, constante a preocupante necessidade alimentar e as abomináveis crises de ansiedade, típicas de alguém que nunca mais quer pisar em um escritório. Deixei para trás todas as circunstâncias que preocupam a humanidade. Estava livre e também estava morta.
Eu estava ainda me dando conta dos benefícios da morte, quando o responsável - certamente muito incompetente -, deste setor da morte, pensou que, sem pausa alguma, eu deveria ser colocada imediatamente em uma espécie de purgatório (ou inferno). Sendo assim, quando abri os olhos, estava sentada de frente para um computador.
Tentando montar a cena na minha cabeça, olhei ao redor. Notei que estava em algum grande escritório. Mesas e mais mesas se estendiam no horizonte, todas estrategicamente posicionadas em filas, de modo que o usuário jamais tivesse privacidade alguma. Haviam também uma diversidade enorme plantas de plástico e galões de água com copinhos descartáveis, espalhados pelo lugar. O teto era feito de placas de isopor, também não havia janela alguma e tudo era iluminado por lâmpadas fluorescentes brancas, daquelas que já fazem os olhos doerem, quando se olha para qualquer direção acima da altura dos monitores. Paredes de um branco não-branco decoradas com calendários floridos, finalizam a decoração do lugar.
Era péssimo.
Como um todo, o lugar me lembrava muito um antigo escritório de telemarketing que eu trabalhei quando jovem. A única diferença desse lugar para os demais de sua memória, era que aqui haviam colegas de trabalho do mundo todo.
Na tela do computador, um e-mail estava aberto:
“Prezado(a),
A diretoria da “Telefonemas INC”, tem o prazer de informar que você, o(a) NOME DO (A) CANDIDATO (A), foi selecionado para o cargo ______________________.
Atenciosamente,
Metesquiel Gaccio
Diretor Executivo XII.”
Um arrepio gelado percorreu a minha espinha. Muitas questões ocupavam minha mente.
Se, e, apenas se, aquilo fosse para mim, significava que eu havia sido contratada por aquele escritório para cumprir alguma função burocrática.Quando ainda era viva, essa mesma preocupação me voltava com frequência (principalmente durante do banho), “E se eu tivesse que recorrer ao telemarketing?” eu havia concluído que preferia trabalhar em um café gourmet, do que voltar a pisar em um escritório como aquele. Mas, ao mesmo tempo não fazia sentido, que tipo de morto procuraria emprego? Ainda mais um emprego em um escritório?
Mal tinha terminado de ler o e-mail, quando, algo ao meu lado, soltou um som estridente. Foi assim que descobri que tinha um telefone na mesa. Pega de surpresa, minha primeira reação foi atender.
“Oi, ahn meu cartão não funciona mais. Ontem. Ontem eu pedi uma pizza e na hora de pagar ele não passou, tentamos algumas vezes, mas nada, ele só não funcionava. Eu tinha pego uma de oito pedaços, metade portuguesa e metade frango, pois se eu pegar toda de frango, eu logo enjoo. Aí na hora de pagar, meu cartão não passava. Aparecia uma mensagem de cartão inválido e o cara e eu ficamos tentando lá por um tempão. Tenho certeza que não errei a senha, usei a data de aniversário do meu quarto cachorro, o Pinball. Ele é um vira-lata marrom com… ”
Coloquei o telefone no gancho. Sem nenhuma pausa, o som estridente começou de novo.
“Manchinhas brancas. Eu brinco que ele é um dálmata ao contrário. Na verdade, ele é todo ao contrário, não gosta de brincar com bolinha e também não curte carinho na barriga, parece até um gato, colocou a mão na barriga ele já…”
Mais uma vez, coloquei o telefone no gancho e, novamente, ele tocou, mas dessa vez decidi tentar ignorá-lo, o que era absolutamente fácil para mim, que abominava telefonemas.
Quando eu estava bastante feliz com a perspectiva de que logo seria demitida daquele maldito novo emprego, pois seria insustentável manter uma funcionária no telemarketing que se recusa a encostar num telefone, uma estridente voz na minha cabeça começou a dizer:
“ataca automaticamente. Não vê e nem pensa em quem está atacando, só age por impulso. Há um tempo atrás, minha mãe foi mordida assim. Ela encostou sem querer na barriga do Pinball e CRÁ!!!! Furou a palma da mão dela, de fora a fora, mas tadinho, ele ficou mal. Não deu dez minutos e lá estava ele, se esfregando nela […]”
Não havia mais necessidade de telefone, agora eu podia ouvir a conversa toda na minha cabeça. Obviamente, essa possibilidade me desesperou, mas logo fui contida por um homem que se apresentou como “ meu supervisor”. Ele disse que eu trabalharia em escala 6x1, com direito a uma folga, em um domingo a cada sete semanas, disse também que eu tinha direito a duas pausas por dia, cada uma de dez minutos, e que, se eu fosse sensata, perceberia que esses míseros minutos deveriam ser “gerenciados” para saciar necessidades fisiológicas.
Depois disso, meu “supervisor” começou a se gabar com orgulhoso por fornecer uma cozinha com apenas um microondas velho para 355 pessoas que têm seus exatos 20 minutos de almoço ao mesmo tempo. Farta de tantos absurdos, eu interrompi:
“Não vou trabalhar aqui!”
Assim que neguei, pude ouvir ele dizendo, sem mexer os lábios, “você vai” e assim a ligação na minha cabeça recomeçou.
“como se tentasse pedir desculpas. O Pinball sabe quando faz algo de errado, ele é delicado, sentimental, fiel […]”.
❂
Trabalhei ali, por três dias, ou, pelo menos, pelo tempo que eu acho que foram três dias. Não era fácil contar o tempo ali, a luz do escritório ficava sempre acesa e o relógio da tela do meu computador, nunca passava das três horas da tarde. A única coisa que sinalizava a passagem do tempo, era a disponibilidade - avisada através da tela do meu computador -, de uma nova pausa a ser retirada. No total peguei seis pausas, duas por dia, como era de direito.
O telefone nunca parava de tocar, o supervisor era um cuzão e toda vez que eu ia ao banheiro fora da minha pausa, a voz na minha cabeça voltava. Mas, felizmente, tudo isso chegou ao fim. Uma forte dor no meu torço, me trouxe de volta. A massagem cardíaca feita pelo meu marido, por sorte, médico, me manteve viva até a chegada dos paramédicos.
Nunca soube exatamente o que foi aquela “experiência” no telemarketing, mas assumi que não foi um sonho, pois sonhos rapidamente vão embora depois que acordamos e, aquela lembrança nunca sumiu, na verdade, nenhum pedacinho dela foi esquecido por mim.
Lembrar vividamente de tudo aquilo, me fez temer o pós-vida, então assumi um estilo de vida mais saudável, entrei para yoga e dedico parte do meu tempo, como voluntária em um abrigo para crianças.
Hoje com 47 anos, espero viver mais 60.


















