Durante a semana, os carros passam, as pessoas correm, os pombos escutam reclamações de sua sujeira e são os figurantes desse cenário. As ruas estão sempre sujas de pessoas limpas, o movimento é refletido nas vitrines das lojas, os pensamentos, os loucuras íntimas, a pressa, e a correria ficam marcados como pegadas nas calçadas e como arranhões nos bancos de praças.
Quando a noite se aproxima...
As pessoas que tanto sujaram as ruas vão para suas casas limpas, e com medo do escurecer, fecham suas portas para suas próprias pegadas e arranhões. Os pensamentos não desaceleram, apenas ficam contidos de baixo de seus cobertores quentes. E aqueles que fazem do jornal seu cobertor e dos bancos marcados sua cama? Alguns deles viram donos da rua, predadores queimando em necessidade. Outros viram suas próprias presas, alimentando seus vícios e virando reféns das memórias, dos olhares que se desviam ao perceber sua presença, de frases como "tô sem moeda, perdoe". Escutam essas palavras ressonando em sua mente e se perguntam o que tanto fizeram para serem considerados sujos e por não poderem se permitir sentir medo.
Amanhecem deitados sob:
A angustia de não saber o que fazer;
A raiva de não pode fazer nada;
A fúria de quem não pode temer;
E o medo de fechar os olhos e ser roubado o único bem que ainda o pertence: a vida.
Os sentimentos são deixados de lado só até o próximo anoitecer, e a vida continua.
Quando o sol se levanta, as janelas dos prédios refletem seu clarão, mas as vitrines continuam cobertas. Os pombos são agora protagonistas. As garrafas de "gostosinha" amanhecem dolorosamente espalhadas pelos cantos das calçadas, assim como o amontoado de colchões e pessoas. A vida corre lentamente por entre os olhos dos vigias de condomínios e galerias que escutam Raul, Nando, Cazuza e Cássia. Os recicláveis são recolhidos e carregados pelos braços sofridos e mãos calejadas de senhores barbudos de roupas folgadas. Velhos amigos se reencontram e se espantam por não terem perdido para os terrores noturnos que ainda os encaram nas esquinas.
Assim, os restos da noite se juntam com o que ainda resta do dia passado e o movimento recomeça...
- Aluada 🌙










