Minki não conseguia entender nem mesmo uma palavra que saia da boca de Soohyun. Sabia que ele tendia a citar seus conhecimentos e o que estava aprendendo em suas frases, e era até engraçado quando eram sobre matemática ou história, coisas que ele entendia e podia acrescentar, mas quando se tratava de anatomia - ao menos ele achava que era anatomia - o mais novo não tinha entendimento algum sobre isso e ficava até mesmo envergonhado de ignorar todas as suas sentenças do tipo, mas era isso ou discutir com ele para falar de uma forma que viesse a compreender. Porém o jovem parecia tão apaixonado por aquele tipo de assunto que o mais novo não podia simplesmente tirar sua animação e lhe dizer para ficar quieto, preferia passar por grosso e desinteressado a passar por estraga-prazeres. — Como assim os quatro últimos? Minha mãe me disse que são os primeiros meses, tanto que ela não trabalhou nos meus primeiros meses de gravidez porque a do meu hyung foi complicada e o médico não queria que nada me acontecesse também. Algum de você mentiu para mim, e eu não quero acreditar que foi minha mãe. Você mentiu para mim Soohyun? Que feio. — Queria realmente acreditar que era mentira, pois só de imaginar um mundo onde ele não existia - fosse por não ter nascido ou outros fatores - o coração já ficava mais pesado e ele sentia a respiração falhar. Se sentia estúpido por ser tão dependente de uma pessoa que não tinha ideia se retribuía ou não seus sentimentos, mas quando percebera que seus sentimentos o fizeram refém do Gang já era tarde demais para esquece-lo, estava totalmente preso aquele amor. Preso não, pois sua paixão não era uma cadeia, melhor dizendo, estava totalmente ligado aquele amor, conectado. — Mas se faz realmente questão eu irei te tratar como um hyung. Mas não irei falar formalmente com você, quer dizer, somos amigos eu acho, continuarei sendo informal você gostando ou não então minha dica é que deixe a etiqueta de lado. — Para ser bem sincero só não falaria de maneira formal com ele pois o nervosismo de simplesmente estarem conversando era grande demais para que conseguisse formar qualquer sentença de maneira formal. Mas, novamente, era mais fácil colocar a culpa em sua personalidade ríspida do que falar a verdade. — Você disse antes que cuidaria de mim por causa do Netter e não por que gosta de mim, não preciso de muito mais palavras para entender isso como um “eu não me preocupo com você”. Mas não fique nervoso assim Soohyun, não é como se você precisasse se importar comigo, quer dizer, você não tem obrigação alguma comigo. — Era a verdade. Dolorosa, mas era a verdade. As vezes imaginava se o outro só andava consigo as vezes por medo de vê-lo tendo uma crise de asma novamente, sempre ouvira dizer que algumas pessoas possuíam o instinto e o dom para ser médicos, e talvez não passasse de apenas mais um paciente o qual o Gang fazia acompanhamentos periódicos. O coração bateu sorego com esse pensamento, e ele suspirou tentando distrair a mente.
— Oh, entendi. Você está cumprindo sua missão como futuro médico então. — Apertou a bombinha contra as mãos, seria realmente só mais uma pessoa aleatória na vida do rapaz? Não gostava de pensar nisso, mas desde que ele fora para a faculdade e acabara perdendo a chance de conviver com o garoto diariamente Minki só conseguia ser pessimista, com tantas novas pessoas que ele teria conhecido, tantas garotas mais bonitas e divertidas que ele, por que ainda se considerava digno de receber uma chance dele? Ele claramente não era. — Isso é para mim? Um… Presente para mim? — A surpresa estava explícita em suas palavras, pois ele não esperava por aquilo. Depois de todo o drama que suas emoções faziam, brincando com sua cabeça e lhe fazendo acreditar que era totalmente impossível o outro sequer ter alguma consideração por si, aquele presente simples gerava uma fagulha de esperança em seu coração. Talvez não fosse tão indispensável assim certo? Quem sabe? — Obrigado. Eu prometo que só usarei em situação de emergência, mesmo que na verdade eu não faça tanta questão de usá-la porque, você sabe, asma não é muito legal. Mas obrigado Soohyun. Eu… Vou me lembrar de você. — Se já se lembrava do outro o dia todo, agora que possuía algo que pertencera a ele não havia dúvidas que o rapaz estaria em seu pensamento 24 horas por dia 7 dias por semana. Sorriu, porque mesmo que fosse um gesto perdido e aleatório aquilo significara o mundo para o Park. Mas logo seu sorriso desapareceu, porque as palavras do garoto o atingiram como um tiro no coração. — E-Eu sei sorrir, claro que sei. Soohyun… Minha personalidade é tão ruim assim? Você acha mesmo que eu nunca encontrarei alguém que goste de mim? — Aquela conversa estava ficando mais pesada do que sequer imaginava que poderia, e em sua cabeça só conseguia torcer para que o ônibus chegasse logo e ele pudesse chegar em casa e quem sabe chorar todas as suas mágoas como o bebê chorão que seu irmão sempre dizia que era. Embora pudesse ser duro por fora, era com sua família que conseguia se abrir e mostrar seus sentimentos verdadeiros, não era a toa então que era chamado por todos da família de Minki emocional. — Eu não sou tão ruim quanto as pessoas pensam que eu sou… — Droga, estaria mesmo quase chorando na frente do rapaz que gostava? Isso era vergonhoso. Respirou fundo para controlar as lágrimas e evitar que elas escapassem, pois a ideia de que ninguém nunca seria capaz de amá-lo da forma como ele amava Soohyun lhe era dolorosa demais para simplesmente fingir que não se importava. Mas não podia demonstrar, não podia ceder, fingiu portanto que ajeitava o tapa olhos e discretamente limpou o marejado do olhar. Deu graças aos céus que o amigo mudou de assunto pois não saberia lidar com os pensamentos anteriores se eles continuassem em sua cabeça por muito mais tempo. — Se eu fosse uma menina? — Se ele já se interessava pelo outro sendo um menino, imagine se fosse uma menina? Seria muito mais simples aceitar seus sentamentos e se confessar. — Sim, eu me interessaria por você se fosse uma menina. Quer dizer, não acho que o sexo da pessoa conte muito mas… Eu me interessaria. Se fosse uma menina.— De onde surgira aquele surto de coragem ele não sabia dizer, mas aquele pequeno momento em que podia confessar seus sentimentos - mesmo que indiretamente - fora suficientemente bom para tirar um imenso peso de suas costas. Mais uma vez a montanha russa de sentimentos o invadiu quando escutou a confissão daquele, era verdade? Nunca havia beijado uma menina? Não sabia o que pensar, só sabia que fora invadido por um agradável sentimento de alívio. —Você nunca beijou uma menina? — Sabia que podia causar confusão ao sorrir tanto, e não queria que o rapaz imaginasse que estava gozando dele por isso então logo completou sua fala para evitar constrangimento, apoiando a mão na perna dele para tomar sua atenção para si. —Não seja bobo Soohyun, por que teria algo de errado com você só por nunca ter beijado uma menina? Quer dizer, se tem algo de errado nisso então… Ambos somos errados porque eu também nunca beijei uma menina. Ou menino. Eu nunca beijei ninguém, e… isso não é vergonha e eu não vou rir de você ou te julgar. Eu penso que quando chegar minha hora vai valer a pena então… Eu só espero. — “Eu só espero que você me note e queira me beijar a qualquer momento” será que o outro conseguia escutar seus pensamentos? Seria bom se conseguisse pois estava difícil ficar tão próximo do rosto dele e não sentir vontade de beijar aqueles lábios. Não sabia como era um beijo verdadeiramente, mas sabia que queria beijar Soohyun. — O ônibus está atrasado. Você… Quer ir andando?
❝ — E-eu devo ter errado. ❞ Gagueja ao ponto de quase estremecer com aquilo, a expressão pávida tamanho o constrangimento daquele erro. Sabe que errar faz parte da natureza humana, mas é tão intolerante quanto aos próprios equívocos que até mesmo sente ânsia pela ansiedade. O que a avó pensaria dele ao vê-lo errar daquela maneira tão ignorante? Já não estava mais no primeiro ano para poder errar nestes detalhes, de modo que curvou o tronco mais uma vez em um pedido singelo de desculpas. ❝ — Eu falei uma informação errada para você, por favor, me desculpe por isso. Irei estudar mais da próxima vez.❞ Disse-lhe sem olhá-lo nos olhos pela vergonha de ser estupidamente burro, os dígitos mais uma vez entreabrem a mochila para procurar a agenda e a caneta e anotar que deve estudar mais. Só de ver os horários ele já sente uma tontura, pois para que pudesse revisar a dita matéria, precisaria abdicar de algumas horas de sono. Utilizou os dedos para auxiliar na contagem e riscar o número 5 por um 4. Acredita que poderia dormir 4 horas por dia e deixar a avó orgulhosa. Estava prestes a fechar a agenda até encontrar uma das poesias que havia escrito para Minki em uma das aulas, prendendo-se ao texto até fechar a agenda. ❝ —Eu acho que estou ficando burro. Perda de neurônios ou algo assim. Mas novamente me desculpe por isso. Informações duvidosas não devem ser ditas. Irei me lembrar disso, Minki-ssi. ❞ Mordeu o lábio ao olhar para o próprio relógio, a culpa de ter errado ainda o fez pensar se apenas uma hora seria suficiente. Como poderia ter errado justo na frente do outro? ❝ — Você poderia não contar a ninguém sobre isso, por favor? Eu sei que pode parecer exagero, mas eu realmente ficaria encrencado por algo assim.❞ Não sabe o quanto de asco o outro sente por si, mas por mais surreal que pareça a realidade onde aquele o prejudica, o medo não deixa de afetar o equilíbrio daquele. ❝ — Eu acho que não mereço ser tratado como hyung. Hyung não devem mentir ou cometer erros. Por favor, esqueça isso. ❞ Puxou as mangas da camiseta social ao que mantém os lábios presos entre os dentes, cuja personalidade ríspida do mais novo vem a afetá-lo pela primeira vez naquele dia. Talvez esteja fragilizado pela vergonha ou simplesmente cansado, mas ele funga levemente ao ouvi-lo. A expressão outrora suave e serena está beirando a melancolia. ❝ — Você está me deixando chateado. ❞ Diz de forma simplista e objetiva, levantando-se do banco ao que descruza os braços. ❝ — Eu realmente não tenho obrigação alguma com você. Mas por que parece que você não quer a minha preocupação? Aish. É tão errado assim estar sendo empático com você? Não tem nada a ver sobre ser a futura profissão de médico, Minki. Tem a ver com o agora. Não só o agora, mas algo de alguns tempos atrás e… ❞ Droga de coração fraco. Fraqueja ao se sentir ofegante e cansado demais para continuar de pé, mas prefere sustentar-se na estrutura de metal ao lado ao ter que sentar do lado dele. Os olhos marejados estão para focar o caminho oposto ao daquele, os braços novamente cruzados ao que tenta se recuperar da falta de ar. ❝ — Se eu quero me preocupar com você ou não são escolhas minhas e unicamente minhas, uh? Eu entendo que sou um verdadeiro pé no saco, mas eu me importo ‘pra caralho com você, Minki. Isso é errado? Eu sou estúpido por sentir isso por você? ❞ Questiona-o, mas o próprio está a procurar por uma resposta por aquilo. O quão idiota estava sendo por alimentar um sentimento como aquele em seu âmago? ❝ —Apenas esqueça isso, por favor. ❞ Limpou com a manga da blusa a lágrima solitária a deslizar pela bochecha, as mãos novamente comprimidas ao se agachar no chão. ❝ —Você não é uma pessoa ruim, Minki. Você é uma pessoa maravilhosa. Eu menti ‘pra você. É óbvio que várias pessoas se interessariam e poderiam amar você. Quem eu sou tentando enganar? Você deveria saber que é um cara incrível.❞ Independente do quão rígida ou áspera a personalidade do outro possa ser contigo, Soohyun sabe que ele é uma boa pessoa. Não se apaixona pela faceta ou pela persona de Minki, apaixonou-se por aquilo que ele é e representa para si. ❝ — Você não percebe, mas tem uma pessoa que gosta de você. Aish. Isso me deixa tão angustiado. Mas isso não tem nada a ver com você. ❞ A faísca de coragem fê-lo assumir aquilo indiretamente para o outro, da qual sabe que pode correr o risco deste interpretá-lo erroneamente. Porém, o pesar em seu peito parece ser aliviado apenas com aquela confissão. Onde levantou-se para limpar o pó da calça para encará-lo. ❝ — Não deveria deixar que as pessoas te façam pensar o contrário. Não importa o que acham ou o que dizem, você é uma pessoa pessoa. ❞
A sombra de um sorriso esculpe os lábios róseos daquele, as mãos sobre os bolsos ao arquear a sobrancelha perante a reação dele. ❝ — Minki...❞ Suspira ao estar estupidamente constrangido perante a última pergunta. Não sabe se está pronto para ouvir a provável rejeição alheia, cujos ombros se encolhem sutilmente ante a ansiedade. ❝ — Você não está dizendo isso só porque somos amigos? ❞ Resolve perguntar por ter consciência que sempre alimenta falsas esperanças, a face mais uma vez rubra por aquela resposta. O coração martelando tanto no peito entre uma mescla tão paradoxal: júbilo e melancolia. O primeiro por saber que se ele fosse menina haveria a possibilidade de se interessar por si, mas ele não era uma garota. Minki havia deixado claro em sua pronúncia. ❝ — Se você fosse uma garota eu poderia me interessar por você. ❞ Confessa tão baixo que mais parece um sussurro; um segredo que teme dizer em voz alta ao imaginar que aquilo pode destruir a amizade entre eles. ❝ — Anyo. E-eu nunca beijei uma garota ou um garoto. ❞ Resolve complementar apenas por sentir necessidade, a mão em sua perna fê-lo direcionar a atenção aos dígitos alheios. A boca fica seca ao mesmo tempo que o coração acelera mais uma vez, a resposta alheia mais uma vez o pega de surpresa. Os pensamentos estão em verdadeiro babel, a desordem o torna menos racional do que o costume. ❝ — Está tudo bem então nós nunca termos beijado ninguém? ❞ Repete desta vez ao focar as íris nos olhos daquele, afastando-se levemente para procurar alguma segurança em relação a si mesmo. Quão errado seria dizer que estava sedento para beijá-lo e saber como seria ser? ❝ — Eu sempre quis beijar uma pessoa especial. Eu sei. Isso parece ser coisa de menina, mas se fosse para ser a primeira vez, gostaria de ser alguém que tenho algum sentimento e também tivesse por mim. Isso é utópico e sonhador demais? Querer que a pessoa que eu goste perceba por conta própria que eu estou dizendo que gosto dela? ❞ Se fosse para beijar ou amar alguém, o coração sempre estaria para escolhê-lo. Apenas é doloroso imaginar que ele nunca saberia ou perceberia daquilo, afinal por qual razão ele o notaria? ❝ — Enfim! Isso não importa. Eu não deveria ficar perturbando você com essas coisas. Porque não importa quantas vezes eu te diga, você não vai entender de qualquer forma. ❞ O riso soprado é tão triste que se arrepende de expor vulnerabilidade, a fala do outro sobre o ônibus vê-lo sentir uma ansiedade. Ficar sozinho com ele no caminho de casa? Mas ironicamente pôde ver ao longe o ônibus chegando. Era agora ou nunca. ❝ — Minki eu sempre quis que fosse você. Nee-ga jo-ah. ❞ Diz de uma só vez aquilo, disparando tão rápido quanto as batidas do coração. O sinal feito para o ônibus ao praticamente disparar para dentro como um fugitivo, as mãos trêmulas passando o cartão ao passo que se sentava ao fundo. A cabeça baixa ao torcer que ele não venha para humilhá-lo. Apenas pôde perceber que a droga do livro de anatomia havia ficado para trás. Estava mais desesperado pelo fato de lá dentro ter inúmeras declarações para o outro do que o livro propriamente dito. A face fora oculta entre as mãos ao perceber o quão encrencado estava.