nothinglikejamesdean:
Seus dias no estado do Alabama estavam contados, não que estivesse feliz ou triste por isso. Na realidade James nunca consegue entender o que realmente sente, a confusão faz parte de si desde que se conhece por gente, aumentando ainda mais há exatamente oito meses e meio. Apenas relembrando que muita coisa aconteceu desde aquela noite, sua viagem ao Rio foi apenas uma das situações que o deixou nervoso e ao mesmo tempo aliviado, afinal souberam naquele momento que James era o pai.
Com apenas dezessete anos causava uma crise familiar, ser pai na adolescência e visivelmente ser afastado de sua família por tal ato, problemas na escola – coisa que nunca teve antes -, tudo isso além de ter perdido a confiança e amizade de muitas pessoas que considerava muito. De qualquer forma, maneira ou circunstância, sua avó por parte de mãe foi à única alternativa viável na qual seus pais encontraram como espécie de castigo para ficar afastado de Marilyn, por mais que não entendesse o motivo de afastarem os dois após tudo já ter acontecido.
James continuava indo para escola em Bristol, enquanto Marilyn ficava na casa de seus pais na Califórnia. Apesar de ter passado um belo tempo em que os boatos sobre os irmãos ter acontecido na escola, os apelidos e brincadeiras de mau gosto não deram trégua, contudo assim como Ruby costumava dizer, não deveria se preocupar com as pessoas que não o queriam vê-lo feliz ou entender seu lado, até porque erros acontecem, não é mesmo?
Mas no momento estava em Fairhope, Alabama, local que nem sempre pareceu monótono para James, já foi algo melhor para o loiro em sua infância. Cenário em que se reunia com seus primos na casa de sua avó e jogava infinitas partidas de futebol e ainda por cima tinha uma casa da árvore construída por seus tios que funcionava como ótimos esconderijos, todavia todos haviam crescido, cada um seguia sua vida de uma forma diferente, a única semelhança é que estavam todos bem longe de Fairhope.
Fairhope não era nem perto da menor cidade do estado, até havia lugares para visitar e passar o tempo, o problema é que a casa de sua avó era extremamente afastada do centro da cidade, uma mini fazenda mais precisamente, com direito até mesmo a falta de sinal de telefone e internet. Margareth visitava apenas uma vez por semana a cidade, local onde fazia a compra do necessário para abastecer a casa durante a semana. James aproveitava e a acompanhava, gastando alguns de seus dólares com a feira de discos que tinha no centro da cidade.
Passava a mão por cima de alguns discos tirando a crosta de poeira, observava com cuidado cada faixa do vinil, decidindo quais conseguiria comprar com o pouco que lhe sobrara do almoço. Aliás, que almoço! Há meses não comia um hambúrguer no real estilo americano, o que contava com toda certeza o refrigerante com refil a vontade e batatas imersas em gordura, trazendo um sabor inconfundível. Sinceramente, se tinha algo que James amava era a América. Voltando aos discos, no final de tudo comprou três. O primeiro que lembrava-se da Inglaterra e de ter cantarolado parte das faixas com Ruby e um cara novo de sua sala, My Generation do The Who. O segundo por uma simples escolha por ser um álbum relativamente raro, na verdade nem era difícil de ser encontrado assim, apenas era Bruce Springsteen com Nebraska, um dos álbuns que mais amava. O terceiro era algum do Kansas, não os conhecia tanto como os outros dois, porém as poucas que conhecia conseguia refletir no que conseguia entender de si próprio.
Foi uma tarde boa, assim como o mês no qual passou com sua avó, ela não o julgava, nem ao menos tocava no assunto, o que fazia com que esquecesse por alguns instantes. Ficar longe das pessoas fez um bem que não imaginava que faria, apesar de tudo sentia falta de tudo, inclusive em Marilyn que deveria estar perto para ganhar seu filho. Por todas as vezes que prometeu ser um pai presente se culpava, não estava presente em um momento tão importante, até mesmo pra ele. Sentou-se em um dos bancos da praça e sacou o celular do bolso, pensou se realmente deveria ligar para a loira, sentia sua falta e queria saber como tudo estava ocorrendo, se precisava de algo que conseguisse ajudar, enfim, qualquer coisa, até mesmo apenas ouvir sua voz o deixaria aliviado de saber que estava ali, ali como sempre esteve para ajudá-lo. Discou o número e aguardou, aguardou longos instantes, até que a chamada foi cancelada. “Dammit, Marilyn, atenda por favor.” Repetia insistentemente a chamada, consequentemente a frase por ela não atendê-lo. Sentiu a mão de Margareth em seus ombros, o chamando para ir embora. Lembrado-se da cena com Marilyn no Rio. ”Dammit, dammit, dammit”. Tudo fazia lembrar ela.
Frustrado, seguiu até o carro com a sua vó, ligou a rádio e sentiu-se num filme americano dos anos noventa, ouvindo Tommy Tutone, arriscando cantar junto, logo fazendo sua avó rir.
“Jenny, I got your number. I need to make you mine. Jenny, don’t change your number, 8-6-7-5-3-0-9, 8-6-7-5-3-0-9“
Por aquele simplório e único momento conseguiu esquecer-se de seus problemas e toda confusão que havia criado, mesmo que de maneira involuntária, nos últimos meses de sua vida. Desceu do carro e ajudou Margareth com as compras, subindo para seu quarto com os vinis logo em seguida. Assim que observou o que estava na vitrola deixou para tocar. Cantava Free Fallin’ o mais alto que podia. Não se importava que sua vó ouvisse e provável que chamasse sua atenção em poucos segundos. Assim que a porta se abriu imaginava que ela brigaria ou algo do tipo, mas sua expressão refletia preocupação ou ansiedade, não sabia identificar, uma coisa que tinha certeza é que nada daquilo era para chamar sua atenção. “Marilyn, Marilyn tá no hospital, acho que o bebê vai nascer”.
Marilyn achou que estava tudo sob controle, até o dia em que Audrey ouviu uma pequena conversa entre ela e James, e foi investigar no tal blog da escola. A primeira coisa que fez ao descobrir a verdade, foi contar aos pais, e a semente da discórdia foi plantada na família Blackmore. Justo na mesma viagem que o pai havia conversado com ela, e os dois estavam bem, as coisas começaram a se acertar, e então acontece isso. É claro que Marilyn afirmava que a irmã mais velha fez propositalmente, e que a culpa de tudo estar um caos era dela. Mas a verdade é que interiormente vivia se culpando por tudo aquilo estar acontecendo e, detestava admitir, mas era a verdade. Doía ver a maneira que Marlon e Fred a olhavam, o modo como o seu pai ficou ainda mais frio e fechado até mesmo com sua mãe, e principalmente, doía ver James passar por aquilo e ver Lizzie assistir tudo aquilo, ainda tão nova.
Voltou a escola, e o pai havia pedido ao diretor que ficasse de olho em sua filha, e por isso os inspetores viviam impedindo Marilyn de ficar muito tempo próxima de James e Lizzie. Era uma má influência para os dois, como o pai jogou milhares de vezes na cara dela. Sentia falta da sua antiga, e tudo o que fez naqueles últimos meses de escola foi se perguntar quando ela tinha se transformado naquilo -- aquela pessoa egoísta, que deixa o desejo e a luxúria falarem mais alto. Ainda era popular, mas os olhares voltados para ela eram sempre (ou quase) julgadores, e pela primeira vez na vida ela estava preocupada com o que falavam dela. Perdeu o controle de sua vida, havia chegado no fundo do poço, e não sabia como lidar com aquela situação, e nem se um dia superaria tudo aquilo. O que fazia com que a garota não se sentisse tão sozinha e desamparada, eram sua melhor amiga Kylie, e o treinador Richard. Poucas pessoas ainda falavam com ela com naturalidade, mas eram esses dois que mais estavam presentes e com os quais ela mais conseguia se abrir.
Não fez questão alguma de ir na formatura, sabendo que poderia se arrepender por aquilo um dia. Apenas acatou a ordem de seu pai e pegou o primeiro vôo para os Estados Unidos, e passou aquelas férias na sua casa em Los Angeles, enquanto seu irmão foi enviado para ficar com sua avó. Os pais resolveram afastá-los por um tempo, e já faziam um mês e meio que não tinha contato com James nem mesmo por telefone. O garoto não havia ligado, e ela preferiu não ligar também, e respeitar o espaço dele. Ela não tinha o direito de ser egoísta mais uma vez e ligar para fazê-lo relembrar de tudo o que estava acontecendo. Apenas torcia para que ele estivesse relaxando a mente e se divertindo, ainda que uma parte dela desejasse que ele também sentisse a falta dela. Seu pai e irmãos mais velhos viviam trabalhando, e embora sua mãe e Lizzie estivessem em casa, a menina ficava sozinha a maior parte do tempo. Não queria e nem tinha a mínima vontade de sair e viver um pouco, e passou as suas férias deitada em cama assistindo filmes a maior parte do tempo. Os raros momentos em que saía, era sozinha para caminhar um pouco. Excluiu todas as suas redes sociais, mantendo pouco contato com algumas pessoas via sms. Por mais que desejasse sair dali e encontrar as pessoas que amava, sabia que não conseguiria fazer o que fez a sua vida inteira: colocar um sorriso na cara e fazer piadas, fingindo que está tudo bem. Não tinha mais forças para mentir, e no fundo nem queria. Afinal, mentiras foi um dos principais motivos que a levaram a estar ali agora.
Assistia a algum filme de romance adolescente clichê -- aquilo a animava um pouco -- quando começou a sentir fortes dores na região do útero. Remexeu-se na cama, incomodada com a dor que parecia mais forte do que das outras vezes, e assim que levantou-se para chamar a mãe, sentiu um líquido descer por suas pernas e arregalou os olhos desesperada. --- MÃE! LIZZIE! --- Gritou o mais alto que pode, ainda paralisada e sem conseguir se mexer. Assim que as duas vieram e notaram o que estava acontecendo, ajudaram Marilyn a caminhar até a porta. A mais nova parecia nervosa, talvez até mais do que Marilyn, e a mãe estava calma e tentando passar a tranquilidade para as duas. Afinal, a mulher já tinha passado por aquilo seis vezes, não era novidade alguma. --- Mãe, mas isso é normal? A doutora disse que faltava uma semana ainda. --- Perguntou ansiosa, e a mulher apenas a acalmou dizendo que tudo ficaria bem. Mandou a filha respirar e inspirar fundo, e foi o que ela fez até chegarem ao carro, onde o motorista rapidamente dirigiu até o hospital.
Logo que chegou ao local, a menina foi levada para uma sala onde disseram que precisavam verificar a dilatação. A enfermeira perguntou sobre as contrações, e a mãe prontamente respondeu que ainda estavam espaçadas, entre cinco minutos. --- Mãe, como que isso funciona? Demora muito a dilatar? A dor piora? --- Perguntou sentindo o ar faltar, e mãe apenas deu um beijo em sua testa pedindo que se acalmasse e que tudo valeria a pena no final. Sorriu docemente, e momentaneamente a loira ficou mais calma, até ouvir uma enfermeira dizer que precisava dilatar dez centímetros, e eram em média 1 cm por hora. --- EU VOU FICAR DEZ HORAS SENTINDO ESSA PORRA DESSA DOR? --- Exaltou-se, nervosa só de pensar na quantidade de horas que ficaria sentindo aquelas contrações insuportáveis. Lágrimas correram pelo seu rosto, e ela se sentiu sozinha e desesperada, completamente perdida ainda que tivessem pessoas ao seu lado. Ouviu que seu pai e seus irmãos haviam chegado, mas somente Audrey quem entrou. --- TIRA ESSA GAROTA DAQUI! --- Gritou, mas ninguém a ouviu e a mais velha continuou a se aproximar. “Escuta, eu sei que você acha que tudo o que faço é pra implicar com você mas eu tô do seu lado. Eu já passei por isso, okay? Eu sei que dói, e dá vontade de morrer. Mas pensa em tudo o que você passou até agora, e o quanto você tava empolgada com essa criança. Vai valer a pena no final, só aguenta firme. A gente tá aqui por você.” a mais velha disse, séria e com um pequeno sorriso confiante no rosto. Marilyn franziu o cenho, se perguntando porque a irmã estava sendo legal com ela.
Duas horas haviam se passado, e a loira estava jogada na cama, sentindo-se fraca e com as contrações cada vez menos espaçadas. “Liguei pra vovó, ela vai falar com o James. Eles devem estar aqui logo.” Audrey falou, e a irmã arregalou os olhos. --- Não acho que o papai vai gostar dele aqui. --- Falou num tom desanimado, não encarando mais a outra. “Deixa de ser boba. James antes de tudo é seu irmão, é parte da família. Ele ia gostar de estar aqui, independente de tudo. Quer dizer, eu acho. Eu não entendo o James” soltou uma risada nasalada, e Marilyn a acompanhou. “Enfim, eu sei que você ia gostar se ele estivesse aqui. Mamãe mandou a Lizzie lá pra fora porque ela tá nervosa de ver você com dor.” Marilyn olhou ao redor, e além da enfermeira, apenas as duas estavam ali. --- Por que você ta sendo legal comigo, Audrey? --- Perguntou curta e grossa, reparando que sua mãe ainda não havia voltado para o quarto. “Eu que te pergunto por que você ta surpresa? Marilyn, eu sou sua irmã, sangue do teu sangue. Nada do que eu faço é pra te ver mal, mesmo que você pense isso. Já te entreguei muito pro papai, quando na verdade tinha só que ter tentado conversar com você. Errei, mas foi tentando te proteger.” disse parecendo sincera, mas Marilyn ainda não estava convencida. --- Mas você sempre foi meio assim... sei lá, esquisita comigo. --- A mais velha soltou uma risada baixa, e respondeu com naturalidade. “Você acha que era esquisito, mas era meu jeito. Eu sou séria e fechada, nunca fui espontânea e falante como você ou Lizzie, e talvez você tenha estranhado. Desculpa não corresponder suas expectativas, mas eu te amo. E se errei com você, foi tentando te proteger e te fazer uma pessoa melhor.” Marilyn sorriu de volta, feliz e aliviada por saber que todo esse tempo apenas havia interpretado as coisas de maneira errada. Não teve tempo de respondê-la, logo outra contração veio e junto com seu grito sua mãe entrou no quarto.









