come back home
Sentia medo naquele momento, medo do que enfrentaria nas próximas horas, medo da reação de toda sua família — se é que poderia chama-los assim —, medo da reação de sua filha ao notar que na verdade seu tio era de fato seu pai ausente, medo de sua própria reação ao ver todos depois de tantos meses longe de casa, longe deles até mesmo no natal e ano novo, que era um feriado sagrado para todos Blackmore, categoria na qual James já não se sentia tão mais incluso.
Olhou mais uma vez no relógio e pouco se passou das três horas, confirmando que esse seria o horário marcado para pegar seu carro e ir em direção a Studio City, seria o mínimo a se fazer no aniversário de dois anos de Sophia, já que no aniversário de um ano da pequena, James passou sozinho em um quarto.
Dois anos. Dois anos haviam se passado desde suas férias no Alabama com sua avó, uma das melhores escolhas que James tomou, sem dúvida, afinal pode esquecer-se dos pesados fardos que carregava. Sua avó era a única que ainda fazia questão de visitar depois de sua ida para faculdade, até pelo motivo de estar a poucos quilômetros de distancia. Poucos menos de dois anos também que viu pela última vez Ruby, a garota que pensou pela única vez verdadeiramente manter um relacionamento, mas ela sabia demais, sabia de todas as fraquezas do garoto. Poderia ser um bom ponto ela saber de tudo e mesmo assim não ter se afastado por completo do rapaz, mas pelo modo que ela soube, James apenas poderia demonstrar vergonha por ter colocado ela em uma situação tão delicada dessas e ter a feito descobrir por terceiros.
Por um momento tirou todos os devaneios de sua mente, indo até a porta do quarto e não precisando tomar muito cuidado com o barulho ao sair dali, afinal Julian, seu colega de quarto, não se encontrava ali, provavelmente estava bêbado o suficiente em alguma festa do campus e agradeceria James não estar no quarto quando chegar com uma garota. James e Julian eram opostos. Enquanto Julian saia ao menos quatro vezes por semana para as festas e usava e abusava de drogas lícitas e ilícitas, James preferia ficar em seu quarto assistindo TV, motivo de chacota por parte de Julian. A única coisa que James considerava que o colega havia feito de bom foi ter apresentado Callie Stuart, uma estudante de Marketing, que no momento poderia considerar como sua namorada.
Ao andar pelo campus de madrugada, avistou com certa dificuldade Callie perto de seu carro, assim como o combinado. Sorriu ao vê-la, aliviado por ela ter aceitado fazer parte de sua insanidade de viajar por dois dias na estrada americana.
As pausas perto da fronteira mexicana, em restaurantes, na beira da estrada, pausas para fotografias e claro, para terem um momento mais íntimo foram os casos que marcaram o primeiro dia da viagem dos dois. Já beirava quase vinte horas no caminho de Studio City, até que James decidiu parar em um hotel beira de estrada para passarem a noite. O local não era muito convidativo, as camas faziam um barulho insuportável, não era um ambiente muito limpo e as pessoas não pareciam de boa índole. Desculpou-se com Callie pela situação, mas a garota parecia pouco se importar com o ambiente e sim com a noite que pretendia ter com o rapaz.
Saíram do hotel pouco antes do amanhecer, pegando estrada e indo direto para Studio City, com uma pequena e última pausa em Phoenix, no Arizona. Durante toda a viagem dos dois, Callie contou sobre sua vida e destinou várias perguntas ao rapaz. Foi uma boa forma de se conhecerem, James acreditava. Conheceu o bastante para saber que não combinavam da forma que imaginava que combinavam. Os pensamentos e gostos divergiam de tal forma que fazia James pensar se aquilo tudo daria certo. Culpava-se por esse pensamento, afinal Stuart era uma ótima pessoa, além de sua beleza exterior, diga-se de passagem, cativante, tinha sua própria beleza interior, mesmo que suas convicções divergissem tanto das do rapaz. Sentia-se culpado por parecer não gostar tanto de Callie como ela demonstrava gostar dele. Esse sentimento o fez ter raiva de si mesmo. Mas mesmo assim tentaria, Callie era ótima e ele queria aprender a amá-la, como ela fazia com ele.
Callie dormia quando uma placa avisava a chegada em Studio City. James a acordou para conhecer o pequeno distrito de Los Angeles. Passaram pela avenida principal, o que fazia a empolgação da morena aumentar para poder tirar as fotografias tão desejadas. Ao chegar na rua do resort, James parou o carro e explicou que sua relação com a família não estava sendo das melhores, já que ele escolheu uma universidade tão distante deles e não estava fazendo questão nenhuma de visita-los, todavia, não havia contado todo seu histórico familiar, afinal não sentia-se preparado para isso.
James e Callie entraram pelas portas do fundo da casa, aparentemente todos estavam jantando e rindo de alguma coisa que Audrey falava, o que era completamente estranho, afinal Audrey era a última que imaginaria fazendo todos rirem. Segurou as mãos de Callie e continuou subindo cautelosamente as escadas, avistando no fim do enorme corredor seu antigo quarto. Virou a maçaneta e para sua surpresa percebeu que tudo estava em seu devido lugar, parte de suas HQ’s, filmes, Playstation, jogos, televisão, quadros, almofadas, pôsteres do Batman... tudo. Jogou a mochila por cima da cama e pediu para que Callie fizesse o mesmo. A morena ficou observando o ambiente e soltou uma risada ao notar a obsessão de James pelas histórias em quadrinhos, o que fez James corar inventando uma desculpa do tipo que os tempos passaram. Definitivamente não sentia-se a vontade com Callie, ela não o conhecia por completo e se o conhecesse o largaria, tinha plena certeza disso. Desceram as escadas, fazendo barulho o suficiente para que despertasse a curiosidade da família. Ao olharem James e logo em seguida a morena, a família olhou com certo espanto, ninguém o esperava, ninguém esperava ainda mais que ele traria companhia. Audrey soltou uma piada sobre o verdadeiro espanto de James chegar com uma garota em casa, o que fez alguns rirem e James revirar os olhos. James passou o olhar em cada um, parando bem e Sophia que parecia distraída o suficiente comendo o purê de batatas —Sophia!— despertou a atenção da pequena que correu em direção do rapaz. James a abraçou forte e a girou no ar. A conhecia pouco, mas sempre a via nas chamadas de vídeo que mantinha com Marilyn, mesmo assim não imaginava que a garotinha prestes a completar dois anos estaria daquele tamanho. Segurando ela no colo, James quebrou o silencio instalado na sala de jantar —Sei que vocês não estavam me esperando, nem eu na verdade esperava vir, mas vocês não precisam me ignorar totalmente. E essa é a Callie, minha namorada.— ao finalizar a frase que pareceu para ele mais estranha que o comum, segurou na mão da morena.













