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@mderzi
"O tempo, inabalável na mansa malha dos dias e das noites, nunca ofega. Inspira e expira o ventre onde tudo se cria. A mais sutil mudança na pedra, o deslocamento da menor partícula de ar divisível, o mínimo escorrer das águas, a insignificante transformação humana se dão nas tramas airadas do tempo. O tempo flutua invisível e em espesso presente. Nada apodrece sem ele. Nada floresce. Nada se torna amável. Nenhum ódio viceja. Nenhuma umidade seca. Nenhuma sede cede. As tempestades não inquietam nele ventos, as avalanches não podem soterrá-lo, a perplexidade não o paralisa, o mal não o ameaça e o bem não faz com que se demore. Mas eis que um acontecimento, um único acontecimento, captura o tempo e o aprisiona."
Madeira, Carla. Véspera.
"De todos os infortúnios que afligem a humanidade, o mais amargo que temos é ter consciência de muito e controle de nada."
Heródoto.
"O coração, se pudesse pensar, pararia. A quem, como eu, assim, vivendo não sabe ter vida, que resta senão, como aos meus poucos pares, a renúncia por modo e a contemplação por destino."
Fernando Pessoa. O livro do desassossego.
Dou-lhe este relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste todo seu fôlego tentando conquistá-lo. Porque jamais se ganha batalha alguma, ele disse. Nenhuma batalha sequer é lutada. O campo revela ao homem apenas sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão de filósofos e néscios.
Faulkner, William. O som e a fúria.
A poesia está guardada nas palavras - é tudo que eu sei. Meu fardo é o de não saber quase tudo. Sobre o nada eu tenho profundidades. Não tenho conexões com a realidade. Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro. Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas). Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil. Fiquei emocionado. Sou fraco para elogios.
Manoel de Barros - Tratado geral das grandezas do ínfimo. (via cher-la-vie)
hoje, aqui dentro, não teve tempestade mas choveu o dia todo garoa fina, leve e despercebida notei somente no final da noite a falta do sol no banho gelado cantei para não chorar um samba que pede para ter cuidado pois a gente se acostuma com a tristeza e sem perceber carrega o peso do corpo alagado
Portanto, a morte, com todos os seus ritos e rituais, seus incensos e suas orações, suas longas missas e suas redes funerárias brancas, era coisa comum, ao passo que a vida era rara. A vida era assustadora. Até Emília, que não gostava de superstições, assim como não gostava de andar toda relaxada, terminava suas frases, seus planos, suas orações com "se Deus quiser". Ao que parecia, nada era garantido. Qualquer um, a qualquer momento, podia ser atingido.
Frances de Pontes Peebles. Entre irmãs.
Me sentia muito calma e muito vazia, do jeito que o olho de um tornado deve se sentir, movendo-se pacatamente em meio ao turbilhão que o rodeia.
Plath, Sylvia. A redoma de vidro.
A consciência é o caos das quimeras, das ambições e das tentativas, a fornalha dos sonhos; o antro das ideias vergonhosas; é o pandemônio dos sofismas, é o campo de batalha das paixões. Em certos momentos, penetrem através da face lívida de um ser humano, e olhem por trás dela, olhem dentro dessa alma, olhem dentro dessa obscuridade. Há ali, sob a superfície do silêncio exterior, combates de gigantes como em Homero, brigas de dragões e hidras, e nuvens de fantasmas como em Milton, espirais visionárias como em Dante. Coisa sombria esse infinito que todo homem trás em si, e pelo qual mede, desesperado, as vontades do seu cérebro e as ações de sua vida!
Hugo, Victor. Os miseráveis.
“Tudo passa. Chuva passa. Tempestade passa. Até furacão passa. Difícil é saber o que sobra.”
— Millôr Fernandes.