A sensação que eu tenho é de escrever para mim mesmo
Apenas eu escrevo, apenas eu me leio
Essa sensação, forte sensação
De transbordar o tempo todo, por nada
Me traz o grito frio de uma alma já gelada
Pelo tempo, pelo medo, pelo não afago
Cada coisa aqui descrita, escrevo porque preciso conversar
Se quase não há espaço para sentir, como poderia falar?
Estou em quarentena de mim
Há tanto tempo, que já não posso contar
Corre em minhas veias, fluindo lágrimas
O isolamento que hoje se faz necessário
Eu devia ser imune então, a tudo isso
Na infância, na sociedade, em casa
Talvez esse seja o meu momento de andar solto por aí
Será que agora, há algum espaço para mim lá fora?
Eu que estive dentro todo o tempo
Mente, pele, corpo, casca, escudo, casa
Está tudo bem, vá para casa
Não tenha medo, fique em casa
A prece humana, hoje, é que a pandemia seja tempestade
E que no amanhecer, ainda se possa ver o arco-íris
Não lembro a ultima vez em que fui capaz de enxergar seu universo particular
É companheira fiel a solidão
Tristeza amiga do poeta que lhes fala o que sente
Fala de si, do mundo, do outro, do mundo do outro
E a poesia, meus caros, não mente
E que ainda não vou lá fora
Suas pegadas ainda me assustam, mesmo agora
Sozinho, como de costume, vou me manter dentro
E espero que quando sair...
Que já se escreva uma outra história.