Portucale: ecos pagãos na origem de Portugal.
Eu resolvi escrever esse texto para compartilhar uma reflexão que nasceu da minha própria experiência de viver em Portugal e de observar, com atenção e curiosidade, as camadas invisíveis que também compõem uma terra.
Muitas vezes olhamos para um país apenas através da sua história oficial — datas, monumentos, igrejas e acontecimentos registrados nos livros. Mas toda terra guarda memórias mais antigas.
Memórias que vivem nos nomes, nas paisagens, nos rios e nas culturas que existiram muito antes daquilo que a história decidiu preservar.
E foi assim que me surgiu a seguinte pergunta: Qual a origem do nome Portugal?
Essa curiosidade surgiu quase como um chamado silencioso, uma sensação sutil de que o próprio universo gostaria que eu olhasse para esse tema com mais atenção e que, de alguma forma, também falasse sobre isso. Como se a terra, através de pequenos sinais e inquietações internas, estivesse me convidando a investigar suas raízes mais antigas.
Mudar de país nunca é apenas mudar de endereço.
Reflito. Quando atravessamos um oceano, algo também nos atravessa. A pele sente o novo clima, os olhos aprendem novas paisagens, o corpo tenta compreender os ritmos de uma terra desconhecida. Aos poucos, o coração começa a perceber que cada território possui uma energia própria — uma espécie de espírito da terra que molda a forma como as pessoas vivem, pensam e sentem.
Quando cheguei a Portugal senti imediatamente o peso da história.
Esta é uma terra profundamente marcada pelo cristianismo. Igrejas surgem em quase todas as vilas, capelas aparecem nas estradas entre aldeias e imagens de santos observam silenciosamente das fachadas das casas. Há procissões, sinos que marcam o tempo e promessas sussurradas diante de altares.
No início, essa presença me parecia densa.
Era como caminhar por um território onde cada pedra guardasse séculos de oração e devoção. Como se camadas e camadas de crenças tivessem se depositado lentamente sobre a paisagem ao longo dos séculos.
Eu vinha de outro mundo.
Aqui o inverno é profundo.
Os dias tornam-se mais curtos, a luz do sol aparece por menos tempo e o vento frio atravessa montanhas e vales como se carregasse consigo o sopro de terras muito distantes. A paisagem muda de ritmo. As árvores perdem suas folhas, os campos parecem mais silenciosos e a própria natureza parece recolher-se para dentro de si mesma, como quem entra em um tempo de pausa e introspecção.
Nos primeiros meses vivendo aqui, essa transformação me intrigou profundamente. Eu sentia algo que, à primeira vista, parecia uma presença constante da morte. Não uma morte trágica ou violenta, mas aquela morte silenciosa que faz parte do próprio ciclo da vida — a morte das folhas que caem no inverno, das plantas que entram em repouso, dos animais que se recolhem para atravessar a estação fria.
Vinda de um lugar onde o sol é abundante e onde a natureza permanece verde durante grande parte do ano, foi estranho perceber essa dimensão tão evidente do ciclo natural. Aos poucos, porém, comecei a compreender que esse recolhimento não era apenas um fim, mas também uma preparação. A terra dorme para poder renascer. A vida se retrai para guardar força.
Talvez seja justamente isso que muitos povos antigos compreenderam quando olharam para o inverno: não apenas uma estação de escassez, mas um tempo de transformação, silêncio e sabedoria — um período em que a natureza ensina que todo ciclo precisa de pausa antes de voltar a florescer.
Mas, com o tempo, comecei a perceber algo curioso.
Por baixo da presença cristã, por baixo das igrejas e das tradições religiosas que moldaram este país durante séculos, parecia existir algo mais antigo.
Algo que vinha da própria terra.
Uma memória que não estava escrita em livros, mas que ainda respirava nos rios, nas montanhas e nas florestas.
Chamo essa presença de Fada Verde.
O Espírito vivo da natureza!
Foi tentando compreender essa energia que comecei a investigar a origem do nome Portugal.
A explicação histórica mais conhecida dentro de minhas pesquisas nos leva ao norte do país, à região do atual Porto, às margens do rio Douro.
Durante a Antiguidade existia ali um povoado chamado Cale. Quando os romanos chegaram à região, estabeleceram um porto comercial naquele local e passaram a chamá-lo Portus Cale, que significa literalmente “porto de Cale”.
Com o passar do tempo, o nome evoluiu para Portucale, designando toda a região que mais tarde daria origem ao Reino de Portugal.
Mas o nome Cale permanece envolto em mistério.
Alguns historiadores o associam aos Callaeci, povos que habitavam o noroeste da Península Ibérica antes da chegada dos romanos. Esses povos pertenciam a uma cultura conhecida como cultura castreja, caracterizada por aldeias fortificadas construídas sobre colinas, os chamados castros.
Muitos estudiosos consideram que esses povos possuíam fortes ligações culturais com os povos celtas da Europa Atlântica.
E foi nesse ponto que algo dentro de mim despertou.
Nas mitologias da Irlanda e da Escócia existe uma figura muito antiga chamada Cailleach.
Cailleach é uma deusa primordial associada ao inverno, às montanhas e à própria formação da paisagem. Muitas histórias dizem que ela moldou vales, colinas e montanhas enquanto caminhava pela terra, deixando cair pedras de um grande cesto que carregava nas costas.
Ela é descrita como uma grande anciã.
A velha deusa.
Guardiã do inverno, senhora do tempo e da transformação.
Em gaélico antigo, seu nome pode significa “a velada” ou “a anciã”, uma figura que representa o poder do envelhecimento, da sabedoria e da própria terra.
Alguns estudiosos já observaram possíveis relações linguísticas entre o nome Callaeci e raízes semelhantes às do nome Cailleach.
Não existe consenso histórico sobre essa ligação.
Mas espiritualmente, essa possibilidade me fascinou.
Porque existe algo curioso em Portugal.
Ao caminhar pelas pequenas freguesias é comum encontrar uma imagem muito particular: idosos sentados nas esplanadas, conversando ao sol, observando a vida passar com calma.
Portugal é hoje um dos países mais envelhecidos da Europa. Muitos jovens partem para outros países em busca de trabalho, deixando para trás seus pais e avós.
E às vezes, ao observar essas cenas, sinto algo profundamente simbólico.
Como se a energia da velha anciã — guardiã do tempo — ainda estivesse presente nesta terra.
Como se a própria paisagem carregasse uma memória muito antiga.
Talvez seja apenas poesia.
Mas talvez seja também a forma como a terra continua contando suas histórias.
Hoje vejo Portugal como uma terra feita de muitas camadas.
Existe o Portugal das igrejas, dos reis e das navegações.
Mas existe também um Portugal muito mais antigo.
Um Portugal de rios profundos, montanhas silenciosas e povos que viveram em castros muito antes das catedrais.
E talvez — apenas talvez — sob as pedras das igrejas ainda respire a memória das antigas deusas da terra.
Entre elas, quem sabe, a velha guardiã do inverno.
Cailleach.
A anciã que molda montanhas, sopra os ventos frios e nos lembra que até o inverno possui sua sabedoria.
Merkaba.
Imagem: Rio Douro.











