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La France, meu PaĂs de adoção
Guardo comigo a inocente sensação de que há uma gare ou um portal bem pertinho de mim, onde tomo um trem e desço na Gare de Nice para o meu outro mundo, aquele que agora está a dois piscares de olhos de distância.
Eu nasci no Brasil, numa casa em que se suspeitava muito pouco do mundo alĂ©m muros. Uma casa que era mundo, mundo estreito e cercado de muros, mundo que se estendia a apenas trĂŞs quilĂ´metros onde ficava a igreja e o trabalho do meu pai. Muitas vezes, alargávamos os passos e percorrĂamos quatrocentos quilĂ´metros para termos um cĂrculo de dois outros primitivos quilĂ´metros no campo.
De minha mĂŁe, tĂnhamos a lembrança de seus dois quilĂ´metros percorridos para buscar água no açude, de sua cidadezinha perdida num pontinho de um mapa que ela desconhecia, um vale no sertĂŁo com seu cristo afamado.
Mais tarde a ida a escola obrigava-me a percorrer dez quilĂ´metros, e foi neste perĂodo que o nosso mundo começou a se alargar pouco a pouco, atĂ© que, noites e noites depois, atravĂ©s da internet discada, percorri quilĂ´metros nunca dantes imaginados e atravessei oceanos, e alguĂ©m longe, muito longe me deu a chave e o mapa de outros mundos, o mundo das letras.
E foi na universidade que soube que poderia explorar qualquer mundo que quisesse, sem abandonar meu mundinho, viajava nas mesas da biblioteca ou nos bancos dos ônibus onde passava boa parte do meus dias, fechava os livros e as portas e acreditava voltar para meus dois quilômetros. Até que decidi adotar um mundo para mim.
A França surgiu na minha vida nas aulas de literatura brasileira. Uma professora que adorava listar os caminhos que devĂamos percorrer pela vida, e eu que ainda nĂŁo conhecia nada e nem sabia por onde começar, bebia as suas palavras sem quase digeri-las. Baudelaire, o Albatroz, Baudelaire, a Paris de um sonho. Meu caminho se desenhou tortuoso tendo apenas como certeza o desejo de explorar aquelas terras distantes e tĂŁo atraentes.
Aprendi a duras penas a falar francĂŞs, imitava sem pudores o que quer que ouvisse ou visse em lĂngua francesa, ainda me lembro perfeitamente do dia em que minha mais dura professora corrigiu-me a palavra “oiseau”, meu oiseau que queria tanto voar, e que ainda nĂŁo tinha forma na minha boca. Eu nĂŁo tinha tempo para erros, nunca tive, e logo comecei a falar um francĂŞs cambaleante, exprimindo-me claudicante.
Estranhamente, L’étranger foi meu primeiro livro inteiramente lido em francês, eu sabia perfeitamente que não poderia absorver boa parte dele e que seria muito melhor lê-lo em português, o que nunca fiz. Naquela época escolhi entender pouco, mas continuar naquele mundo de palavras que ainda me eram tão estrangeiras.
Quando a lĂngua estrangeira tornou-se meu trabalho, saĂa de casa ao encontro daquele mundo que desconhecia e com o qual sonhava todos os dias. AtĂ© que um dia atravessei o oceano, pisei na Champs ElysĂ©e e era ainda mais lindo e poĂ©tico que meus passeios onĂricos. Lá estavam todos, Proust, Camus, Baudelaire, Balzac, Monet, PrĂ©vert, Piaf e atĂ© Henri Salvador. Eu sentia todos comigo errando pelas ruas daquela cidade mágica.
Era amor, é amor e sempre será amor.
Mudei a vida, tomei-lhe as rĂ©deas e anos depois eu estava de malas prontas para viver naquela lĂngua. Vivi intensamente cada palavra e cada expressĂŁo nova de cada dia. Abria bem os ouvidos para estar atenta a cada construção sintática, fazia sozinha essas reflexões muitas vezes arrosada de vinho em plena soirĂ©e. Vivi intensa e francesamente, sem deixar de constatar que sonhar Ă© sempre mais perfeito que viver.
Voltando aos meus dois quilômetros iniciais, vez ou outra, meu português escorrega e se confunde com o francês, o que não confesso de maneira muito confortável, medo de ser arrogante. Mas a verdade é que meu peito e minha mente abriram-se e alargaram-se tanto para integrar este mundo em mim, que uma vez expandido, não se retrai mais
Hoje, meu mundo também é lá, meu coração divide-se entre o lá e o cá. E o lá parece tão ao meu lado. As ruas de Nice ainda aparecem claramente na minha memória e me surpreendem a qualquer momento do dia, um restaurante, um semáforo, um pôr do sol.
Guardo comigo a inocente sensação de que há uma gare ou um portal bem pertinho de mim, onde tomo um trem e desço na Gare de Nice para o meu outro mundo, aquele que agora está a dois piscares de olhos de distância.
No inĂcio ele estava lá.
No meu abrir de olhos, o primeiro, ele estava lá.

Quando a mãe apagava a luz, ele estava lá.
Proteção e medo, sempre lá.

Na escola, sozinha, ele estava lá. Eu era triste e feia assim como ele queria.
E mesmo no banheiro ele estava lá.

Olhos e bocas fechados e silêncio, nunca sozinha, ele lá.

Desejo de tocar meu corpo, ele lá, dele.

Desejo de tocar outro corpo, ele lá.

Raiva, ele lá.

Felicidade contida, ele lá, é dele.

Medo, ele lá, dele?

Meu corpo, ele lá.

Minha alma, dele, lá, inacessĂvel.

A vida, dele, lá, desperdiçada.

A juventude, dele, roubada.

Promessas dele, lá. Não sei onde.

Ele tava lá. Ele tá aqui, omnipresente, sempre velando por nós e guiando nossos passos.

Ele me engole, eu só queria estar só.
If tomorrow never comes
Abre os olhos e a porta se fecha. Tem movimentos prĂłprios e eu nada posso fazer pra impedir que tomorrow never comes.
Eu acordo antes e não me canso de olhar. Olho os olhos fechados. A paz dos olhos fechados. A janela fechada de um outro mundo. Tem espasmos, temo o despertar. Me surpreendo linda só olhando, mantenho a pose espontânea, me canso, desfaço, me perco novamente na contemplação daquele instante que sempre estará deslocado do presente, imito a pose espontânea. Eu quero essa delicadeza sempre só pra mim como uma mãe deseja que seu bebê nunca cresça. Mas penso nas horas que sempre vão me separar de você, mas lembro do antes do fechar os olhos, te ouço.
Eu acordo antes e canso de sonhar e ver sonhar, eu penso no medo do que não virá, sei que vai doer porque já dói.
Abre os olhos e eu brinco que vocĂŞ sabe exatamente o que seus olhos fechados trocaram com os meus abertos.
Abre os olhos e a porta se fecha. Tem movimentos prĂłprios e eu nada posso fazer pra impedir que tomorrow never comes.
Tesoura do Desejo “- O que Ă© que houve, meu amor, vocĂŞ cortou os seus cabelos? - Foi a tesoura do desejo, desejo mesmo de mudar.” Eu entrei no elevador apressada para uma aula, e uma senhora com ares de vovozinha e cabelos brancos e curtos me olhava fixamente, eu que nĂŁo fujo de olhares interessantes, olhei de volta, e ela diz “Viva a liberdade” e sorri, completa dizendo “Fazemos o que bem queremos de nossos cabelos”, eu sorri dizendo que sim, que era liberdade. Trocamos boa tarde e tomamos nossos rumos. Quando algo começou a se revirar no meu peito desassossegando meu pensar, foi preciso que eu me entregasse a primeira tesoura que encontrei. O olhar que se refletia no espelho nĂŁo era mais familiar, metralhei-me de selfies, descontruĂa meu rosto e meu cabelo buscando-me em vĂŁos nas fotos. O Ăşnico meio era cortar, limpar a cabeça como se limpa um jardim infestado de ervas daninhas. O cabelo respirava pra eu tomar ar novo. Tesoura fia a liberdade. Foi preciso me desfazer os cabelos e o rosto a ponto de me tornar completamente outra, de aprender a gostar daquela imagem que em quase nada lembrava aquela que eu nĂŁo era mais. No entanto, assim como o processo interno num renascimento, o processo capilar Ă© logo. Mesmo o melhor cabeleireiro que nosso dinheiro pode pagar sĂł pode tirar de nossos cabelos o que já temos dentro de nĂłs. Cabelo Ă© vida sim, vida que sai pela cabeça e obedece o que se passa por ela. Tesoura do desejo trabalha lentamente, enfeia para embelezar,, e aos poucos dá forma, a forma e rumo que vai se dando na vida. É preciso dar tempo aos cabelos, nĂŁo domá-los, os fios sĂŁo reflexos da alma. Deixemos os cabelos evoluĂrem para o que quisermos ser.