Ela sorriu, e havia tristeza neste ato. Ele poderia ser Icarus, que voou muito prĂłximo do sol com suas asas de cera e penas de pĂĄssaro. Poderia ser Orfeu, buscando salvar o que nĂŁo possuĂa salvação. Nomeie um herĂłi que foi feliz. NĂŁo consegue. ââ Qualquer coisa, sĂŁo palavras muito fortes. ââ  sabia que jamais pediria algo dele, ou demandaria que estivesse aonde nĂŁo quisesse estar, seus problemas eram seus para lidar, foi como sempre suportou as coisas, sem permitir que entrassem o suficiente em sua vida para verem a bagunça. Desejou que suas feiçÔes nĂŁo deixassem claras as suas confusĂ”es, mas foi com ternura que o olhou, o mais puro sentimento, e sorriu, mesmo que nĂŁo compreendesse. Prosseguiu em direção ao movimento ao ouvir e assentir para a sugestĂŁo dele, olhando brevemente para se certificar que Hosung estava prĂłximo e nĂŁo se separassem devido ao acumulo de pessoas no mesmo espaço. Dawon aproveitou para fazer o mesmo, uma multidĂŁo de rostos que deveriam ter a mesma expressĂŁo que ela, a mesma confusĂŁo e a mesma busca por respostas. nem ao menos tivera tempo de assimilar as palavras alheias antes que outra pessoa tomasse o microfone. O que se seguiu foi, em primeiro lugar, confusĂŁo. Deuses? Criadores? Ela jamais poderia acreditar em algo assim. Ainda assim, ela estava tremula com os braços junto ao corpo, respirando e inspirando, tentando acalmar a ansiedade crescente. Outro mundo, aquilo era possĂvel demais, terrĂvel demais, devido as circunstancias.Â
De repente nĂŁo teve mais certeza se conseguiria permanecer de pĂ©, buscando apoio em alguma parede ou pilastra, jĂĄÂ nĂŁo sabia no que estava encostada, apenas que era frio, e que seus olhos pareciam estar cada vez mais turvos. Dawon colocou ambas mĂŁos sobre o rosto, se forçando a tomar controle, a pensar, a tentar. ââ Hosung ââ  ela o chamou, a voz fraca e falha, como se dessa maneira poderia ter certeza de que alguma coisa naquela situação era real. Ele era real, assim como ela, carne e osso. ââ Que tipo de brincadeira doentia Ă© essa? ââ  falou, mais para si do que para ele, ainda que o olhasse ao fazer isso. Pensou em seus Ășltimos momentos, antes de estar na chuva, do lado de fora daquele lugar. Se foram transportados, entĂŁo foi real, Dawon desejou rir atĂ© que a loucura entrasse em seu corpo e fizesse de lĂĄ a sua morada. ââ Eu me lembro, antes de virmos para cĂĄ. Eu estava em uma estação, eu nem me lembro como eu cheguei lĂĄ, foi tudo tĂŁo automĂĄtico. Esperar o trem chegar, olhar a linha pensando âserĂĄ que vai doer? serĂĄ que vai ser rĂĄpido?â. Eu estava pronta, pra desaparecer. ââ  As palavras saĂram antes que se desse conta, estavam tĂŁo presas, tĂŁo ĂĄvidas para sair, que nĂŁo conseguiu controlar em meio ao turbilhĂŁo de sentimentos. Omitiu os seus sonhos da narrativa, sobre aquele ter sido o seu segundo encontro com a morte, sobre a vida que tivera antes. ââ Tudo o que eu senti, que eu sinto⊠à real demais para ter sido escrito por alguĂ©m. ââ  e nĂŁo ficaria parada ali quando poderia obter respostas.
Concentrado em analisar a situação, deixou-se levar pelas circunstĂąncias, caminhando atrĂĄs dela assim que a viu sair sozinha. NĂŁo deixaria ela desacompanhada em uma situação como essa-- ------- principalmente depois daquele âsonhoâ tĂŁo estranho que tivera em seu Ășltimo descanso. Ainda estava bastante curioso quando parou e começou a prestar atenção no que acontecia. E tudo foi rĂĄpido demais. Uma hora aquela mulher, jĂĄ conhecida por si e depois o homem, responsĂĄvel por palavras tĂŁo desconexas Ă s suas ideias que nĂŁo soube nem como respirar direito depois de ouvi-las. Ele ficou estĂĄtico, exatamente no mesmo momento, sentindo o peito formigar, como se pudesse desmaiar----------- e, quem sabe, atĂ© mesmo coisa pior. A cabeça rodava, tentando encaixar peças invisĂveis a um quebra-cabeças impossĂvel de ser completado naquele momento. Mas a sua preocupação consigo nĂŁo demorou a dissipar-se, assim que os olhos decaĂram-se sobre a loira, percebendo a reação dela. Agindo por instinto, aproximou-se, segurando-a gentilmente pelos ombros para tentar acalentĂĄ-la âDawon...â foi a Ășnica coisa que conseguiu proferir; sua mente era um branco agora. O que responderia a ela, afinal? Estava tĂŁo envolvido nisso quanto qualquer um âEspera, vocĂȘ.... esperando... o trem?â repetiu mais para si mesmo. NĂŁo conseguia acreditar que aquele pesadelo, na verdade, acontecera em sua vida, de fato; que o pedido de ambos os lados era tĂŁo real quanto a prĂłpria existĂȘncia e o seu pesar na consciĂȘncia de escolher algum dos dois nĂŁo era apenas um mal estar. Realmente tinha duas vindas em suas mĂŁos e um grande ponto de interrogação na cabeça. Hosung deu um passo para trĂĄs, olhando fixamente para o rosto de Dawon, todavia, com pensamentos em Namkyu.Â
Por um momento ficou com medo novamente e a boca secou de maneira que a garganta sofreu atĂ© mesmo com a mĂnima intenção de fala âEu me lembro....â balbuciou âEu me lembro!â exclamou dessa vez, segurando levemente os braços dela âMe lembro de tudo, de toda minha preocupação e incertezaâ encarou-a nos olhos, com toda coragem que tinha âDawon, vocĂȘ... por quĂȘ? NĂŁo era dessa maneira que as coisas deveriam ser, vocĂȘ deveria ter me dito antes quais eram as suas preocupaçÔes, os seus medos e as suas tristezas.â falava, o tom de voz em explĂcita agonia e desespero. E dessa maneira, em um estalo, sentiu uma certa epifania dentro do peito. AlguĂ©m os adorava, alguĂ©m queria vĂȘ-los vivo, salvĂĄ-los de todas as tristezas e confusĂ”es de uma vida amaldiçoada. Compreendia e sentia-se estupefato por isso âSe vocĂȘ estĂĄ aqui, Namkyu tambĂ©m estĂĄ! Por Deus, Namkyu nĂŁo morreu tambĂ©m... VocĂȘs dois estĂŁo vivos e salvos de seus destinos cruĂ©is. NĂłs todos fomos salvos, como uma bĂȘnção dos cĂ©us, consegue entender? NĂŁo importam o que digam sobre o que somos, nĂłs sabemos sobre nossos sofrimentos, o quanto esperamos para sentir um pouco de paz em nossos coraçÔes.... Dawon, nĂŁo existirĂĄ mais dias sombrios ou nuvens escuras. Essa Ă© a nossa chance de viver a liberdadeâ moveu os ombros, sorrindo de uma maneira espontĂąnea e tĂŁo sincera. NĂŁo lembra-se da Ășltima vez que teve tal sentimento; a leveza de nĂŁo se preocupar em fazer escolhas erradas. Hosung tirara o peso nas costas, a angĂșstia de escolher entre um e outro. Podia celebrar a vida de ambos. E agora seria escolha deles, totalmente deles e de mais ninguĂ©m, pois podiam pensar por si sĂł- ---- ----- ainda que fosse complexo demais para compreender no momento. NĂŁo teria que decidir por ninguĂ©m, apenas por si mesmo âTemos muito a conhecer de nĂłs mesmos neste momento, se vocĂȘ sente que sua vida estava acabada, talvez haja soluçÔes realmente muito simples para tudo. ExplicaçÔes.â endireitou-se, mal conseguindo conter a prĂłpria euforia, a vontade de aprender mais sobre a vida, mais sobre atĂ© de si mesmo, pois durante anos sequer conseguia reconhecer-se âE nĂŁo se preocupe, eu estarei ao seu ladoâ